esquina

Tragam as vassouras

A França vive seu momendo lindo

Do subsolo do Palais de la Bourse, centro de conferências no miolo de Paris, iam brotando os 800 participantes do congresso mundial de cabeleireiros. Foram surpreendidos pelo banzé na rua. Era domingo, 9 de setembro. Atabaques e tambores espalhavam ritmos brasílicos na praça diante do prédio. Baianas em farfalhudos trajes brancos, bailarinos e músicos do maracatu Oju Obá e percussionistas da Batucada Batalá se misturavam a brasileiros de todas as idades. “Inacreditável, toda essa cultura! Inacreditável! Soberbo!”, exaltava-se o alemão Klaus Peter Ochs, grão-mestre da Ordem da Cavalaria dos Cabeleireiros e presidente da Intercoiffure Mondial, uma associação internacional da categoria.

O fuzuê era causado por uma cerimônia que há algumas temporadas espanta os transeuntes franceses: a lavagem das escadarias da Igreja da Madeleine, ritual importado da Bahia, onde é realizado em homenagem ao Senhor do Bonfim. O idealizador da festa franco-brasileira é o cantor e bailarino Robertinho Chaves, baiano de Santo Amaro, desde 1991 em Paris. “Eu vendia picolé em Salvador, fui office boy do Gilberto Gil, nunca imaginei que ia representar o meu país no exterior. Já entrei para a história do Brasil, porque essa lavagem vai se espalhar por outros países e eu sou o primeiro que fiz”. Chaves se estufa de orgulho.

Os degraus da Madeleine não foram o primeiro alvo de Chaves. De 1998, ano da estréia, até 2004, a cerimônia foi realizada na Basílica do Sacré Coeur, no topo do bairro de Montmartre, mas uma divergência com a organização do evento obrigou-o a sair em busca de outra paróquia. Depois de tentar a Catedral de Notre Dame (sem sucesso, quem sabe pela falta de degraus), foi bater na porta da Madeleine. “Nem expliquei muito para o padre o que era o candomblé”, conta. “Deixei a coisa meio por cima, porque não sou louco.” Vencidas as burocracias, conseguiu-se autorização da polícia para que o cortejo desfilasse pelas ruas de Paris, e dali em diante a lavagem da Madeleine passou a fazer parte do calendário do verão francês. Segundo Chaves, não poderia haver igreja mais perfeita para abrigar a festa: “A Madeleine tem concertos de gospel, abre as portas para rituais, tem a cara da lavagem, porque a religião do candomblé não tem fronteiras, não tem preconceito, pai-de-santo é tudo gay, é um povo aberto, que fuma, que faz festa”.

Na praça, a agitação é cada vez maior. Pai Poty, do terreiro Ilê Axé Oju Onirê, de Santo Amaro, se concentra em fazer um despacho a Exu, para garantir que a procissão ocorra sem transtornos. Ao som da percussão, as frondosas baianas se põem a dançar em círculos. Mãe Simone Logun-Edé, girando sem parar, traz uma pequena bolsa Louis Vuitton pendurada no ombro. “Jogo búzios e cartas. Já fui no SBT, no Jô Soares, e agora estou aqui fazendo previsão. Sou baiana, mas meu barraco é no Rio”, conta, de um fôlego só. Aproveita para fornecer o endereço completo, CEP inclusive, aos interessados em saber o que o destino lhes reserva. E a bolsinha? “A Louis Vuitton é daqui mesmo. É francesa!”, exclama, e volta a rodopiar. Pai Poty abre caminho entre as pessoas que observam o despacho. Joga farinha de dendê e derrama cachaça no asfalto, sob o olhar curioso dos policiais encostados em suas motocicletas.

 

O trio elétrico, com Margareth Menezes a bordo, abre os trabalhos à moda de Jimi Hendrix. Ouve-se o Virundum ao som de acordes estridentes de guitarra elétrica. O cortejo enfim evolui rumo à Madeleine. Um estandarte exibe a inscrição: “Levada do forró do jegue. Vem lá da Ribeira! Brasil!” No caminho atravessará a Place Vendôme, endereço exclusivo de milionários e do Hotel Ritz. Integrado à pajelança, o presidente do Flamengo, Márcio Braga, parece momentaneamente esquecido de que na véspera seu time sofreu uma goleada de 3 a 0 do Internacional. “Vim a trabalho, para tratar com franceses, ingleses e americanos do novo estádio do Flamengo, mas não podia perder isso aqui, sou de carnaval”, ele diz. Havia uma segunda motivação: sua filha, Márcia Braga, era uma das organizadoras da festa. Em frente à Opera Garnier, o cordão de brasileiros canta a plenos pulmões: “Madalena chorava/ Sua mãe consolava/ Dizendo assim/ Pobre não tem valor/ Pobre é sofredor/ E quem ajuda é o Senhor do Bonfim”.

Já próximo à Madeleine, Pai Poty solta o grito: “Ô Jean, cadê a vassoura?” Jean, outro organizador, responde: “Tá chegando!” Um alienado quer se informar: “Para que vassoura?” “Que pergunta: pra varrer a escada! Tinham que ter comprado cinco vassouras, mas esqueceram”, queixa-se o babalorixá. No topo da escadaria, um tiquinho nervoso, o padre Ponsard aguarda a chegada do grupo de brasileiros. É a sua estréia na cerimônia. Tem companhia. A seu lado, o padre Berson, ex-pároco da igreja e habitué da lavagem, fez questão de estar presente para ajudar na passagem do bastão – no caso, do cabo de vassoura.

A lavagem dura menos de dez minutos. Uma dúzia de baianas despeja um balde de água escadaria abaixo e, com as vassouras finalmente compradas na esquina, dão umas varridas mais para simbólicas do que para higiênicas. Pai Poty dá prosseguimento ao ritual com cânticos afro-brasileiros. O padre Ponsard é solicitado a rezar o pai-nosso em francês. No microfone, tímido, avisa que a lavagem une o Brasil à França “num elã de fervor”. Nesse momento, as baianas de prontidão erguem jarras prateadas e despejam água perfumada na cabeça dele. Hélas! As equipes de televisão bobeiam e perdem a imagem, e ele é obrigado a aceitar uma segunda bênção. “Como não estava frio, não foi um problema”, disse depois, com os cabelos ensopados e ainda meio zonzo. Para o padre, “diferente” é uma palavra fraca para definir sua primeira experiência brasílio-religiosa. Acrescenta: “A purificação que fazemos no início da nossa missa não é tão copiosa”. C’est vrai.

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