questões da ultradireita

Tragédia ideológica

O bolsolavismo foi o hospedeiro perfeito para as tendências totalitárias de uma geração

Martim Vasques da Cunha
O monstro híbrido: anti-intelectualismo embalado em retórica radical e uma pretensa elite disposta a pôr em marcha um comportamento totalitário, por meio de um “líder providencial”
O monstro híbrido: anti-intelectualismo embalado em retórica radical e uma pretensa elite disposta a pôr em marcha um comportamento totalitário, por meio de um “líder providencial” CREDITO: KLEBER SALES_2020

Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis,
idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada.
Ingeborg Bachmann, Uma Espécie de Perda

Antes da peste, a palavra que unia as diversas correntes da nova direita brasileira era “liberdade”.

Para mim, tudo começou em 1999, quando um amigo, Dionisius Amêndola, me indicou um livro com título instigante: O Jardim das Aflições, publicado quatro anos antes por um ensaísta chamado Olavo de Carvalho. Eu já conhecia o autor de uma entrevista que dera à (extinta) revista República, em 1997, com declarações pontuadas de ironia e uma visão idiossincrática sobre alguns mandarins da intelectualidade de esquerda no Brasil. Também conhecia o livro O Imbecil Coletivo, de 1996, uma coletânea de artigos de Carvalho, que, apesar da falta de unidade, me agradara muito. Suas ideias eram um refresco para um jovem como eu, que, no terceiro ano de jornalismo da PUC-Campinas, nunca havia gostado do marxismo e lia de forma caótica os escritos de José Guilherme Merquior, Paulo Francis e Raymond Aron.

Foi, porém, O Jardim das Aflições que me levou a repensar a minha própria vida. Com uma prosa hipnotizante e um raciocínio que amarrava as pontas soltas de eventos políticos da minha adolescência – como o impeachment de Fernando Collor, em 1992 –, o livro me abriu possibilidades de interpretações da realidade que não eram transmitidas no meu curso universitário. Nessa época, um tema me era particularmente caro: a importância da vida interior, fundamentada não na participação na vida coletiva, mas no cultivo da consciência individual.



Naqueles anos da era FHC, o Partido dos Trabalhadores, embora ainda estivesse um tanto longe da Presidência da República, era quase unanimidade nas redações e nas universidades. A retórica belicosa dos seus militantes, somada ao hábito de reduzir as relações humanas a questões políticas ou ideológicas, me irritava profundamente. Assim, Carvalho passou a representar para mim, e para outras pessoas da minha geração igualmente sufocadas com o pensamento do PT, um papel parecido com o de Monteiro Lobato nas décadas de 1930 e 1940, em sua oposição a Getúlio Vargas.

Além disso, Carvalho oferecia a chance de redescobrir autores nunca citados na imprensa, como o ensaísta francês René Guénon, o filósofo alemão Eric Voegelin, o escritor, também francês, Bertrand de Jouvenel, sem falar de pensadores brasileiros banidos do cânone universitário por sua posição liberal-conservadora, como José Osvaldo de Meira Penna, Mario Vieira de Mello e Gustavo Corção. Mais ainda: Carvalho tinha a ousadia de desafiar diretamente alguns dos expoentes da intelligentsia de esquerda no país, entre eles Leandro Konder, Marilena Chaui e José Américo Motta Pessanha, e fazer um contraponto ao niilismo, que sempre caracterizou o comportamento desses intelectuais, ao defender de maneira obstinada a dimensão transcendente da vida. O niilismo, da parte desses professores, advém do fato de julgarem que a vida não tem sentido fora da ordem social, recusando a explicação metafísica da existência. Carvalho defendia que essa atitude poderia ser combatida por meio do estudo e do amor pela verdade.

 

No início dos anos 2000, comecei a participar ativamente das discussões de novos grupos à direita no fórum virtual Sapientia, criado por Carvalho em sua página na internet. Ali, eu conversava sobre religião, filosofia, literatura e música sem me sentir cerceado pelos slogans esquerdistas dos meus professores. Na mesma época, fui com Amêndola a uma palestra de Carvalho em Campinas, onde eu então morava com minha família. A palestra aconteceu no mais improvável dos lugares para alguém que fustigava o pensamento universitário: a faculdade de letras da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Fumando sem parar seus cigarros sem filtro da marca francesa Gauloises, Carvalho explicou a uma plateia de menos de trinta pessoas suas ideias sobre a elite intelectual brasileira, sempre soltando piadas, trocadilhos e algumas farpas maliciosas.

Esse tipo de atitude me influenciou muito quando comecei a colaborar com o site O Indivíduo, editado por Álvaro Velloso de Carvalho, no final de 2001. Quatro anos antes, ele e dois colaboradores do site, Pedro Sette-Câmara e Sergio de Biasi, haviam sido vítimas de linchamento e acusações injustas de racismo por terem publicado um texto polêmico sobre a Semana da Consciência Negra. O artigo, escrito por Sette-Câmara, com uma verve chamada de “politicamente incorreta” pelos jornais, dizia que “toda decisão tomada com base em raça é racista” e que as ações afirmativas “só aumentaram o racismo nos Estados Unidos”. Afirmava ainda que, se elas fossem aplicadas no Brasil, produziriam um “efeito muito mais nefasto” e propunham, ironicamente, a realização da Semana da Consciência Branca.

Carvalho foi um dos poucos a sair em defesa dos três rapazes, num programa de debates da GloboNews comandado pelo jornalista Pedro Bial, também com a presença de Sette-Câmara. A essa altura, o autor de O Jardim das Aflições vinha obtendo certo reconhecimento na mídia e, nos anos seguintes, passaria a publicar colunas em jornais como O Globo e Jornal da Tarde, e nas revistas Época, Bravo! e República.

Foi a colaboração com o site O Indivíduo que me possibilitou conhecer pessoas alinhadas com ideias próximas das minhas e, também, com a filha de Carvalho, Maria Inês de Carvalho, que, soube depois, era namorada do meu vizinho e amigo, Pablo Corbett.

 

Só fui ter um novo encontro pessoal com Olavo de Carvalho em 2001, após o atentado às Torres Gêmeas ocorrido em 11 de setembro. Por causa de um imbróglio criado pelo PT em Campinas, eu tinha sido envolvido injustamente na investigação do homicídio do prefeito da cidade, Antonio da Costa Santos (PT), morto a tiros em 10 de setembro. Uma amiga em comum conseguiu que Carvalho ouvisse a minha versão da história. Ele se compadeceu e logo passou a me defender em suas colunas na imprensa. Isso fez com que a situação mudasse e o PT desistisse da perseguição política.[1]

Num dia de novembro de 2001, por causa dessa confusão toda, ocorreu outro fato insólito. Minha mãe me ligou desesperada porque havia recebido um e-mail, com a logomarca forjada da agência Reuters, dizendo que eu tinha sido assassinado perto de um shopping em Campinas. O homicida era ninguém mais, ninguém menos que Olavo de Carvalho. A mentira me causou risos, mas deixou minha família assustada. Durante uma conversa ao telefone com Carvalho (que também tirou sarro da situação, com seu humor característico), ele sugeriu que, para aplacar a tensão dos meus parentes, eu fosse passar uma semana na casa dele em Petrópolis, com sua filha Maria Inês e Corbett.

Foi uma visita de poucos dias, muito agradável. Fiquei hospedado com meus amigos numa casa anexa ao casarão onde Carvalho morava, no topo de um morro. Um dia, ele decidiu viajar ao Rio de Janeiro para resolver questões pessoais e ir ao lançamento do romance Brás, Quincas & Cia., de Antônio Fernando Borges, na livraria Argumento, no Leblon. Alugou uma Kia Besta, na qual embarcamos eu e toda a família de Carvalho – sua mulher, Roxane, os filhos de ambos, Leilah e Pedro, a assistente Josiane, Maria Inês (filha de outro casamento) e o namorado.

Sempre que saía de casa, Carvalho fazia questão de levar dois itens para ele essenciais: cigarros e livros. Para aquela ida ao Rio, separou a História das Ideias Políticas, de Eric Voegelin, uma obra do pensador alemão Eugen Rosenstock-Huessy e um volume de contos do norte-americano Raymond Chandler, que dizia ser um dos maiores estilistas da língua inglesa, perito em descrever cenas de luta. Enquanto todos conversavam alegremente no veículo, Carvalho, no banco da frente, passou a viagem fumando e lendo em silêncio, alternadamente, trechos dos três livros, como se fossem partes de uma só obra.

Fomos diretamente para a Cinelândia, no Centro do Rio, onde Carvalho tinha problemas a resolver numa repartição pública. Ainda está bem viva na minha memória esta cena que testemunhei: quando ele voltava para o carro, um mendigo se aproximou e lhe pediu uma esmola. Carvalho, então, sacou do bolso um grosso maço de dinheiro e deu ao homem uma nota de 100 reais. Todo feliz, o pobre-diabo sorriu como se tivesse ocorrido um milagre.

Logo depois, estávamos no restaurante Bar Brasil, na Avenida Mem de Sá. Os familiares de Carvalho diziam que ele só os levava para comer em lugares onde havia “o rastro de mijo de alguém”, mas garantiram que ali a comida era muito boa. Durante o almoço, perguntei-lhe sobre Voegelin, cuja obra eu também estava lendo na época. Durante duas horas, ele discorreu sobre o opus inteiro do filósofo alemão e contou do seu desejo de escrever um livro a respeito da identidade brasileira explicada por meio da história da literatura, a corrupção moral das universidades e o modo como entendia a filosofia mundial – tudo isso ele despejou num único vórtice, em meio a baforadas de cigarro, sem nenhuma preocupação com a comida que era servida à mesa. Enquanto ele falava, notei que os garçons do Bar Brasil olhavam feio para nós. Só fui entender o motivo quando, na saída do restaurante, vi os garçons correrem para arrumar a mesa onde estávamos – debaixo das cadeiras, Carvalho lançara uma infinidade de bitucas de cigarro.

 

Reencontrei-me pessoalmente com Carvalho pela última vez em 2004. Eu havia me mudado para São Paulo e trabalhava como vendedor na Livraria Cultura. Ele estava preparando sua mudança para os Estados Unidos, como correspondente do Diário do Comércio, o único jornal para o qual lhe restara escrever, depois de brigar com os diretores de redação de várias publicações por causa de suas opiniões controversas. Mas isso pouco me importava naquele momento, pois eu já encontrara outra pessoa que se tornara para mim uma espécie de antídoto ao polemista de O Imbecil Coletivo: o poeta Bruno Tolentino.

Apesar de conhecer a obra de Tolentino, só estive com ele pessoalmente no início de 2001, quando assisti a sua palestra na Academia Campinense de Letras. Ali, em meio a um público de cerca de dez pessoas, percebi que Tolentino tinha algo que faltava a Carvalho: uma sensibilidade realmente sofisticada, que apresentou, a mim e a meus amigos, poetas como Geoffrey Hill e Yves Bonnefoy, além de lançar nova luz sobre a obra de Manuel Bandeira e Jorge de Lima.

Carvalho e Tolentino tinham sido amigos inseparáveis entre 1994 e 1998, ambos provocando rebuliço na mídia, como as declarações do poeta à Veja, em 1996, dizendo que Caetano Veloso e Chico Buarque eram artistas medíocres. Tolentino foi acusado de oportunismo, vaidade e mitomania (o que não deixava de ser verdade), e Carvalho o defendeu. Apesar das aparentes semelhanças entre os dois, muitas coisas os separavam, em especial o fato de Tolentino considerar relevantes os estudos universitários, apesar de suas falhas, justamente porque era um meio de não cair na armadilha do anti-intelectualismo (Carvalho não se cansava de depreciar a universidade).

Foi esse um dos principais motivos que me levaram a me aproximar de Tolentino. Eu sentia que faltava algo nas ideias idiossincráticas de Carvalho e me incomodava o ódio que ele tinha pela academia. Numa de nossas conversas, o poeta me disse que uma das características das pessoas que vivenciam “o mundo como Ideia”, conforme ele dizia, era a ilusão de que, para escapar do ambiente cultural/universitário brasileiro, a melhor solução seria recorrer ao autodidatismo. E era justamente o autodidatismo que Carvalho pregava aos seus alunos como virtude, uma vez que, na sua concepção, a vida universitária era irrelevante para quem pretendesse ser um filósofo. Certa vez, Tolentino me disse: “O erro do Aiatolavo (como costumava se referir a Carvalho) é achar que ele é a única fonte de todo o debate intelectual. Por pior que seja a universidade, ela lhe dá uma chance de você praticar o contraditório, de provar o seu ponto usando uma linha lógica de raciocínio, sem saltos. Quem segue o modo de pensar do Olavo só tem uma maneira de refletir: a que vai rumo à loucura.”

Segui o conselho de Tolentino para continuar meus estudos universitários e, em 2006, enquanto trabalhava na Livraria Cultura, já formado em jornalismo, procurei quem pudesse me orientar no mestrado. Essa pessoa foi o professor Luiz Felipe Pondé, que ensinava filosofia da religião na PUC-SP e ainda não era colunista da Folha de S. Paulo, nem o intelectual superstar de programas de entrevistas e palestras corporativas. Pondé frequentava com assiduidade a filial da Cultura do VillaLobos e, um dia, viu expostos num dos balcões um conjunto de livros de autores conservadores apresentados a mim por Carvalho ou Tolentino, e colocados ali por indicação minha e de alguns vendedores (entre eles Amêndola, que me apresentou à obra de Carvalho). Pondé ficou interessado em vários deles, como os de Edmund Burke, Michael Oakeshott, Leo Strauss, Russell Kirk e Roger Scruton. Todos esses autores iriam fazer parte do cânone intelectual da nova mentalidade conservadora no Brasil.

Alguns meses depois, em 2007, Pondé explicou numa entrevista à Folha quais eram as diversas correntes conservadoras, citando alguns daqueles pensadores. A mídia começava a manifestar grande interesse pelo assunto, blogs de direita pipocavam no país, e editoras pequenas lançavam, um depois do outro, livros a respeito. Seguiam esse caminho jornais de grande circulação como a Folha e O Globo, e também as revistas Bravo! e República, ambas dirigidas por Luiz Felipe D’Ávila, com a participação dos jornalistas Wagner Carelli e Reinaldo Azevedo, que tiveram a audácia de contratar como colunistas esses dois sujeitos odiados naqueles tempos: Carvalho e Tolentino.

 

Pondé apresentou a mim uma terceira via. Na época, ele não era afeito a polêmicas, mas, sempre que se via envolvido em alguma, buscava sustentá-la por meio da argumentação acadêmica, sem recorrer a ofensas pessoais e, sobretudo, sem cair no anti-intelectualismo de Carvalho.

Foi com o mesmo propósito – difundir o pensamento conservador universitário num tom que não fosse nem belicoso nem ofensivo – que eu e alguns amigos criamos em 2008 a revista cultural Dicta&Contradicta, inspirados por Tolentino, que morrera um ano antes, vítima da Aids. De minha parte, montei um departamento de humanidades para o Instituto Internacional de Ciências Sociais (IICS). A entidade tinha a participação do Opus Dei, da qual nunca fiz parte, mas negociei arduamente com a diretoria do instituto para que o departamento de humanidades fosse pluralista e – o mais importante – secular.

Em ambos os projetos, o propósito era apresentar um outro tipo de perspectiva intelectual, diverso dos extremos defendidos por Carvalho e pela esquerda petista. Para tanto, foi fundamental o contato com o cientista político português João Pereira Coutinho, que nos encantava com suas colunas na Folha.

A linha editorial da Dicta&Contradicta, inspirada no curso A Literatura da Política, que Coutinho dera no IICS, defendia que o conservadorismo não deveria ser um pensamento sistemático, muito menos um dogma. O importante era ter uma disposição conservadora, que oscilasse entre o reconhecimento da relevância da tradição histórica e o ceticismo com relação às engrenagens do mundo. Para nós, a natureza humana era moldada, para recorrer à definição do filósofo britânico Anthony Quinton, por uma política da imperfeição, segundo a qual se aceita a fragilidade intrínseca do homem, sem deixar de lado a força da liberdade individual. Isso implicava distinguir o conservador do reacionário, que é uma pessoa cheia de certezas, com a qual é impossível dialogar, e que considera o poder de Estado acima de qualquer suspeita e instrumento obrigatório para alterar o curso da história.

O primeiro número da Dicta foi bem recebido pelos grandes jornais, que fizeram reportagens a respeito da publicação. Acredito que a revista também foi importante para que a Veja “descobrisse” os autores estrangeiros apresentados por nós, como Scruton e o psiquiatra inglês Theodore Dalrymple (pseudônimo de Anthony Daniels). A Dicta também dialogou com alguns nomes da intelligentsia brasileira e estrangeira, como o ex-presidente e sociólogo Fernando Henrique Cardoso e o escritor Mario Vargas Llosa, Prêmio Nobel de Literatura. E publicou dois artigos de Carvalho, um sobre Mario Ferreira dos Santos, outro sobre Ludwig Wittgenstein.

Apesar de promover a alta cultura, a revista não se esqueceu de observar certos fenômenos da cultura de massa, como Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora É Outro, de 2010, continuação do polêmico filme lançado três anos antes pelo diretor José Padilha e o roteirista Bráulio Mantovani. Ambos participaram de um debate promovido pela revista, mediado pelo economista Eduardo Giannetti da Fonseca, que atraiu um público de cerca de duzentas pessoas – o que, para nós da Dicta, pareceu um sinal do surgimento de um novo Brasil, que ansiava por novas ideias.

Quando a revista parou de circular, em 2013, as ideias conservadoras já tinham avançado bastante no Brasil. Dezenas de grupos de direita haviam surgido na internet, revelando a existência no país de um vasto número de pessoas – jovens, em grande parte – que decidiram ir na contramão da mentalidade hegemônica à época. A publicação furou um bloqueio intelectual que, até então, somente Carvalho, Tolentino, a equipe da Bravo!, da República e João Pereira Coutinho tinham conseguido furar.

A esquerda, contudo, se mostrava empedernida na crença de ser a dona da verdade no debate público, mesmo dando a entender que defendia a pluralidade de ideias. Uma das provas que tive desse comportamento foi quando propus escrever um ensaio para uma revista cultural que adorava colocar na capa, de três em três números, alguma declaração de Marilena Chaui. Ao saber que eu incluiria no meu texto uma referência a Leo Strauss (erroneamente classificado como “neoconservador”), a editora-chefe da publicação me disse, sem hesitar, que seu periódico “tinha orgulho de ser de esquerda e, portanto, vetaria ali qualquer menção a um pensamento de direita”.

Naquele mesmo ano, a nova direita se aproveitou do sucesso das redes sociais, a começar pelo Twitter e o Orkut, passando depois para o Facebook, o que se tornaria uma mania. A descentralização do conhecimento possibilitou a descoberta de um enorme público ansiando por algo diferente do que era oferecido, em termos intelectuais, na grande mídia e no mercado editorial. Mas também na imprensa começavam a ser projetados à condição de astros certos jornalistas e universitários com perfil conservador como Pondé e Reinaldo Azevedo, a principal estrela do site da revista Veja. Editoras de menor porte, como É Realizações e Vide Editorial, passaram a publicar o cânone conservador. A Record, no campo das grandes editoras, se dedicava aos autores nacionais, como Carvalho, de quem publicou, em 2013, a coletânea O Mínimo que Você Precisa para Não Ser um Idiota.

Foi Carlos Andreazza, então editor-executivo de não ficção da Record, um dos primeiros a perceber que uma nova onda política e de pensamento estava se formando nas frestas da sociedade brasileira. Para divulgar o lançamento da coletânea de Carvalho, ele usou e abusou da propaganda nas redes sociais, aproveitando-se de uma teia de contatos já formada por influenciadores digitais, como o publicitário Alexandre Borges, o professor de filosofia Francisco Razzo, o bacharel Gustavo Nogy e os  universitários Flavio Morgenstern e Filipe Martins – que se tornou assessor especial para assuntos internacionais do governo Jair Bolsonaro e, segundo a imprensa, é um dos expoentes do chamado “gabinete do ódio”.

 

Naquele ano, o homem que havia escrito O Jardim das Aflições era outro. Apesar de ter criado um curso online de filosofia com a excessiva duração de cinco anos (mais longo que um curso universitário de ciências humanas), Carvalho não se preocupava mais com “o estudo e o amor pela verdade”. Seu vocabulário, articulado em um programa de rádio na internet batizado de True Outspeak, além de chulo, era agora dominado por slogans, como “guerra cultural”, “desonestidade intelectual”, “senso de proporções”, “comunista” e – o preferido dele – “analfabeto funcional”. Era um indício de que, pouco a pouco, ele deixara de ser um conservador e se revelara um reacionário. De qualquer modo, O Mínimo que Você Precisa para Não Ser um Idiota foi um sucesso (em 2017, a Record comemorou a marca de 100 mil exemplares vendidos).

Carvalho tornou-se uma celebridade. Em 2014, quando o Brasil ainda sofria com os abalos causados pelas manifestações de junho do ano anterior e parte da população se mostrava insatisfeita com o governo de Dilma Rousseff por causa dos escândalos de corrupção, as palavras de Carvalho no best-seller se espalharam como uma epidemia, como a afirmação peremptória de que uma elite intelectual corrompida era apenas o início de um governo criminoso. Prova disso foi que, já nos primeiros protestos de rua a favor do impeachment de Dilma, viam-se pessoas com camisetas ou cartazes inscritos com a seguinte frase: “Olavo tem razão.”

Outro fato aumentou ainda mais a popularidade de Carvalho: as conversas por internet, abertas a todos, que ele realizou com o cantor e compositor Lobão, recém-convertido ao pensamento conservador e cuja fama contribuiu para fazer crescer exponencialmente o número de seguidores do autor de O Imbecil Coletivo no Facebook. Esses hangouts de Carvalho na rede foram responsáveis por unir algumas pessoas de direita que antes tinham divergências com ele, como o economista Rodrigo Constantino – autor de Esquerda Caviar, outro best-seller da Record – e, em menor grau, Pondé, que colocara de lado a erudição e se metamorfoseara em mais um polemista.

Enquanto isso, era gestado outro movimento da nova direita, o da união entre o liberalismo e o libertarianismo, impulsionado principalmente pelo Instituto Mises Brasil, entidade encabeçada pelo empresário Helio Beltrão, que depois influenciaria na criação do Partido Novo e do Movimento Brasil Livre (MBL). Essa vertente é moldada pelas ideias dos economistas Ludwig von Mises, Friedrich von Hayek e Murray Rothbard, além do cientista político Hans-Hermann Hoppe – a chamada escola austríaca –, que prega a defesa radical das liberdades individuais, a partir de dois pilares: a propriedade privada e o Estado mínimo. Essa corrente passou a competir com Carvalho nas manifestações de rua, com seus adeptos exibindo uma frase de comando também marcante: “Mais Mises, menos Marx.”

Andreazza continuou a lançar outros livros com a mesma temática, igualmente bem-sucedidos comercialmente: Pare de Acreditar no Governo, de Bruno Garschagen; Por Trás da Máscara, de Flavio Morgenstern; A Corrupção da Inteligência, de Flávio Gordon; e A Imaginação Totalitária, de Francisco Razzo. Um dos primeiros a romper publicamente com Carvalho, Razzo chamou a atenção para a forma autoritária como o polemista se relacionava com seus alunos e admiradores, exigindo nada menos que a total submissão – outra característica evidente do seu anti-intelectualismo.

 

Quanto a mim, já casado e com um doutorado em filosofia política feito na USP, eu tentava sobreviver escrevendo textos para a imprensa e fazendo projetos de consultoria para empresas de telecomunicação. Também fiz um livro que seria editado por Andreazza, A Poeira da Glória, sobre a crítica cultural brasileira, odiado com todas as forças por Carvalho, que alegou tratar-se de um trabalho mal escrito, mas foi incapaz de apresentar sequer um único argumento objetivo contra as teses que expus.

Em 2016, fui convidado a dar um curso chamado Democracia e Escola Austríaca na pós-graduação do Instituto Mises. Na minha primeira turma, havia algumas celebridades da nova direita, como o pastor e escritor Yago Martins e um deputado federal por São Paulo que causava frisson entre as (poucas) alunas da disciplina – Eduardo Bolsonaro. Não era por menos: o nome do pai dele já estava cotado para concorrer às eleições presidenciais de 2018.

O mainstream político e midiático estava seriamente abalado com a vitória surpreendente de Donald Trump, em 2016, e com o Brexit, o referendo que tirou a Grã-Bretanha da União Europeia, no mesmo ano. Nesse meio-tempo, o oportunismo tático de Carvalho voltou a se manifestar, o que provava que seu projeto de formação de uma elite intelectual, no fundo, era apenas um disfarce para conquistar outro tipo de poder. Depois de ter flertado com Lula, nas eleições de 1989, e com Ciro Gomes e Aécio Neves, nas de 2014, ele encontrou seu príncipe encantado em Jair Bolsonaro, o que deu origem a esse monstro híbrido que destruiria a nova direita: o bolsolavismo.

Esse monstro subterrâneo – como busquei explicar em meu livro A Tirania dos Especialistas (2019) – se caracteriza principalmente por ser uma forma peculiar de anti-intelectualismo. Sua maior pretensão é provocar uma grande mudança no ser humano, em especial nos brasileiros, insuflada por um discurso violento, que, por sua vez, vem embalado numa retórica filosófica ou religiosa cuja intenção é resolver todos os problemas estruturais da sociedade por meio de ações extremas e radicais. Assim, a pretensa elite intelectual criada por Carvalho consistiria apenas nos membros por ele reunidos, aqueles capazes de lhe prestar permanente devoção, provocada pelo sentimento de terem recebido uma iluminação celestial. Com isso, todos esses membros entenderiam que o centro do poder é igual ao centro da verdade, como diria Václav Havel, pondo em marcha um comportamento explicitamente totalitário.

Esse poder em específico não tem nada a ver com política ou dinheiro, e sim com uma pseudoautoridade espiritual. Mas sua contrapartida prática é um “líder providencial” capaz de realizar a integração plena entre o Estado e o resto da sociedade. O liberalismo brasileiro seria atraído facilmente para esse feitiço, pois se alimenta daquilo que Lionel Trilling chamava de “imaginação liberal”, fundada na “negação das emoções”. E, por ser fundada na negação das emoções, está em contínuo esforço para simplificar (e tentar organizar) este mundo, que é “um lugar complexo, inesperado e terrível”, impossível de ser “sempre entendido pela mente humana da mesma maneira que ela é usada em nossas tarefas cotidianas”.

Também no campo econômico, o liberalismo à brasileira era um terreno fértil para esse projeto de poder baseado no anti-intelectualismo e na perversão da filosofia, além de ansiar por um comandante que, no caso, orientasse e organizasse esse ser complexo e terrível chamado “mercado”. Foi o que motivou, por exemplo, o Instituto Mises, entre outras instituições, a apoiar um economista pouco conhecido, Paulo Guedes, que se vendia como um ministro inovador e foi visto como o conselheiro ideal para o ex-capitão que revolucionaria a economia brasileira. Enquanto isso, Carvalho se oferecia para o mesmo tipo de aconselhamento nas áreas da educação e da cultura. Ambos, Guedes e Carvalho, estariam a serviço do “líder providencial”. O resultado desse caldeirão forjado pela “imaginação liberal” foi a vitória de Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais de 2018, com 57,8 milhões de votos.

 

Volto à minha aula no Instituto Mises. O deputado Eduardo Bolsonaro foi um aluno educado e fez um bom trabalho final sobre o princípio da tolerância em Karl Popper, mas eu tinha dúvida se ele prestava atenção ao que era dito, já que parecia estar pensando em outra coisa.

Em uma aula sobre o livro Democracia: O Deus que Falhou, de Hans-Hermann Hoppe, uma das bíblias do libertarianismo, resolvi mostrar algumas contradições do pensador – apelidado por seus pares de Dr. Fantástico, em referência ao cientista maluco do filme de Stanley Kubrick. Dei especial atenção a um longo parágrafo do livro, no qual Hoppe afirma que “não pode haver tolerância para com os democratas e os comunistas em uma ordem social libertária”. E acrescenta: “Eles [os democratas e comunistas] terão de ser fisicamente separados e expulsos da sociedade. Da mesma forma, em uma aliança fundada com a finalidade de proteger a família e os clãs, não pode haver tolerância para com aqueles que habitualmente promovem estilos de vida incompatíveis com esse objetivo. Eles – os defensores de estilos de vida alternativos, avessos à família e a tudo que é centrado no parentesco (como, por exemplo, o hedonismo, o parasitismo, o culto da natureza e do meio ambiente, a homossexualidade ou o comunismo) – terão de ser também removidos fisicamente da sociedade para que se preserve a ordem libertária.”

Enquanto explicava esse trecho, alertei aos alunos que essa “ordem social libertária” de Hoppe era, de fato, uma ordem social totalitária. A sala de aula ficou em total silêncio – exceto Eduardo Bolsonaro, que disse: “Professor, lá em casa temos armas e facas para que isso aconteça aqui, no Brasil.”

 

Foi nesse instante que percebi que estava envolvido na tragédia que atingira a nova direita brasileira. Ou, talvez, eu já estivesse mergulhado nela havia anos e apenas continuasse praticando as “ruminações de um lerdo”. Ao escutar aquela frase, fiquei paralisado, como os demais presentes naquela sala. Engoli em seco e encarei aquilo como uma blague, uma provocação. Mas não era.

O escritor norte-americano Norman Maclean afirma que se pode localizar precisamente um ato trágico numa única palavra, seja em uma obra de arte, seja na história de uma vida. O “aqui” dito por Eduardo Bolsonaro foi, para mim, esse termo. Nessa palavra estava concentrado tudo o que aconteceria depois, tanto comigo quanto com o país: a violenta disputa ideológica não só pelos votos, mas pela mente e o coração dos eleitores. E, com certeza, a recusa do real diante da gravidade de uma peste.

O meu silêncio não significou apoio à frase do deputado federal. Jamais imaginei votar em Jair Bolsonaro: não fui às urnas, simplesmente, e paguei a multa eleitoral, como faço há mais de vinte anos, já que vejo a política partidária como uma atividade menor. Mas ali se manifestou uma das piores características da nova direita brasileira: a covardia.

Em A Questão da Culpa, o filósofo alemão Karl Jaspers comenta sobre as reparações jurídicas, morais e metafísicas com que a Alemanha nazista deveria arcar diante do mundo por causa da Segunda Guerra Mundial e do Holocausto. Ele explica a culpa e a covardia como “uma vida na máscara”, atitude adotada pelo sujeito que deseja sobreviver, em particular em uma cultura totalitária. As diversas correntes da nova direita, por conveniência e por acreditarem que havia um inimigo comum (o PT), anestesiaram-se durante o processo que levou Bolsonaro ao poder, mesmo sabendo que isso resultaria numa catástrofe. Fizeram, assim, da máscara o princípio de sua existência.

Esse tipo de vida sob disfarce constante anestesiou ressentimentos que sempre existiram entre os principais atores das correntes de direita e acabou culminando nesse sanatório que é o governo Bolsonaro, com sua frente de linchamentos virtuais coordenados pelo “gabinete do ódio”.

O bolsolavismo é o agente desse “ódio organizado”, cujos efeitos nocivos se espalham pelas bases da vida social brasileira. Por meio de uma “ciberguerra”, cujos alvos foram milhões no Facebook, Instagram, Twitter, WhatsApp, YouTube, Reddit e Google, os membros dessa nova força política conseguiram manobrar a opinião pública. Seus métodos favoritos foram a invasão de páginas nas redes sociais (via hackers); a criação de notícias falsas (as fake news, como a de que o petista Fernando Haddad, quando era ministro da Educação, teria mandado distribuir para os alunos das escolas públicas um kit gay); o emprego de robôs (os bots), que se multiplicam a cada retuíte de algum influenciador digital famoso (como, por exemplo, Eduardo Bolsonaro); o investimento financeiro em candidatos que jamais teriam a mínima chance de se eleger (como o caso do deputado federal Luiz Philippe de Orleans e Bragança); e o incentivo a polemistas digitais, posando de santos do intelecto, como Bernardo Küster e Allan dos Santos (ambos abençoados por Olavo de Carvalho).

A principal meta seria promover uma “revolução populista” – leia-se: golpe –, abalar a fé cívica que fundamenta a democracia brasileira e criar um “segundo governo”, que não conquistou seu poder por meio do voto. A missão desse “estado paralelo” é esgarçar o tecido social até o limite da ruptura institucional. Não é exagero afirmar que essa ralé no poder, com toda a malícia do mundo, infectou o país com um outro tipo de mal, a mentira, cujo contágio possibilitou a tolerância nefasta com a violência policial e com a milícia, além de, claro, o descaso com os milhares de mortos durante a pandemia.

 

Enquanto isso, pessoas como Carlos Andreazza (que, embora seja editor de Carvalho na Record, trilhou, em seu papel de jornalista, um caminho divergente ao bolsolavismo), Alexandre Borges, Francisco Razzo, Lobão, Dionisius Amêndola e eu percebemos ter sido os “vencidos da vida”. Juntou-se a nós Renan Santos, do MBL, um dos responsáveis pelo impeachment de Dilma e apoiador da candidatura Bolsonaro no segundo turno. Santos passou a ter um papel importante na discussão sobre como impedir esse “governo das sombras”, pois viu que os seus motivos, puramente pragmáticos, foram também responsáveis por nos levar a essa situação.

A tragédia da nova direita se ampliou com a pandemia. Sem dúvida, um dos principais responsáveis pelas mortes no Brasil é o presidente Jair Bolsonaro, junto a seus apaniguados, entre eles Olavo de Carvalho e Paulo Guedes. Eles são os verdadeiros reacionários que tentam colocar em prática o projeto totalitário de Hoppe de eliminar direta ou indiretamente os seus oponentes – no caso, o próprio povo brasileiro, tendo em vista o modo como o governo se comportou em face do avanço do novo coronavírus.

Em A Peste (1947), de Albert Camus, um personagem confessa a um amigo: “Pensei que estava lutando contra a peste. Eu me dei conta de que, indiretamente, tinha apoiado a morte de milhares de homens, de que tinha causado suas mortes ao aprovar ações e princípios que inevitavelmente levaram a elas.” Alguns de nós, na nova direita, agora se dão conta de que temos de assumir o “peso da responsabilidade” em relação aos nossos erros, sendo que o principal deles foi não ter percebido que o bolsolavismo se tornou o hospedeiro perfeito para levar a cabo a nossa tendência totalitária.

O desafio atual é separar o joio do trigo, não só em termos morais, entre amigos e parceiros que antes defendíamos (e nos quais não podemos mais confiar, porque foram cooptados pelo governo Bolsonaro), mas também entre as descobertas intelectuais feitas no passado, preservando os pensadores sérios, capazes de nos ajudar a entender a política da imperfeição, como Eric Voegelin, Mario Vieira de Mello e Michael Oakeshott.

Karl Jaspers fala que, sem a purificação da alma, não há liberdade política. Daí porque faço este meu testemunho, cheio de lacunas, mas que vai pelo caminho oposto da esquerda, ávida por praticar um “duro acerto de contas” com quem apoiou Bolsonaro, comportamento que replica o mesmo equívoco da nova direita. A esquerda não consegue entender que, apesar da pandemia, da economia em frangalhos e de uma sociedade em ponto de ebulição, o bolsolavismo tem grandes chances de permanecer no centro do poder, manipulando à vontade o centro da verdade. Assim como a imprensa e a intelligentsia brasileira, a esquerda ignora o alcance do encantamento que contagiou as novas gerações.

Nesse círculo vicioso (e viciante), a esquerda não percebe que a nossa verdadeira tragédia foi nos preocuparmos só com a liberdade e nos esquecermos completamente de outro termo: compaixão. A nossa culpa deixou de ser moral e passou a ser metafísica ao abraçarmos por completo o outro lado do niilismo e ao desprezarmos o que acontece com o nosso irmão, com o nosso próximo. E, aqui, resta-me o conselho da poeta austríaca Ingeborg Bachmann, que entendia muito bem desse assunto. No poema Uma Espécie de Perda encontra-se um dos seus versos célebres, que fala da derrota que se sofre ao não se ter nada para dizer a respeito da desgraça humana, quando só temos uma única consolação: preservar a integridade dentro de si. Não te perdi a ti, perdi o mundo, ela escreve. No meu caso, posso perder o mundo, mas jamais a mim mesmo.

Enquanto isso, sou assombrado pelas palavras.

[1] Antes de Olavo de Carvalho se envolver nesse imbróglio, fui convidado a ser um dos assessores de imprensa da Secretaria de Cultura da Prefeitura de Campinas. Comecei a trabalhar, mas por algum motivo misterioso minha nomeação não saía – e minhas dívidas se acumulavam. Reclamei disso em um e-mail público, dirigido à Câmara Municipal, à Câmara dos Deputados e ao Senado Federal. A repercussão foi imediata: no dia 26 de julho de 2001, minha nomeação saiu no Diário Oficial da cidade, feita de forma retroativa, cobrindo o período de três meses. Em razão do e-mail – pois supuseram que pudesse haver algum conflito entre o prefeito e eu –, fui chamado a prestar esclarecimentos durante as investigações do homicídio, e nada mais.

Martim Vasques da Cunha

Doutor em ética e filosofia política pela USP, é autor de A Tirania dos Especialistas (Civilização Brasileira)