esquina

Transes urbanos

Rituais místicos em 2015

Luiza Miguez
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

O convite de mais de sessenta linhas tentava dar conta da complexidade do evento e das várias atividades que aconteceriam tarde da noite naquela quarta-feira de julho. A primeira linha do texto dava o tom: “Uma jornada de ritual, ecosofia, geobiologia, artivismo, tecnologia do it yourself e conhecimentos ancestrofuturistas.” A convocação misteriosa mencionava um “ritual imersivo”, “gambiarras eletrônicas” e uma “nave para outro tempo”, onde “chaves tecnoxamânicas nos darão pistas para o futuro de agora”. Dress code: fantasia de mago, alquimista ou xamã. Local do evento: Casa Nuvem.

Os primeiros convidados começaram a surgir no 2º andar de um sobrado na Lapa, no Rio de Janeiro, já próximo da meia-noite. Eram conduzidos vendados por uma escada enfeitada com uma vela vermelha em cada degrau. Um zumbido industrial soava continuamente, em altos decibéis. Luzes de LED iluminavam o espaço. No topo da escada, uma figura inteiramente coberta por um pano branco, o rosto atrás de uma máscara branca, aguardava os participantes.

“Eu sou a astronautinha”, brincou a hostess Fabiane Borges, uma das organizadoras do evento. Ela é integrante da Rede Tecnoxamanismo, que pesquisa o xamanismo em conjunção com a técnica e realiza rituais tecnoxamânicos mundo afora, divulgando a prática que busca juntar bruxos e cientistas, curandeiros e médicos, feiticeiros e robôs.

No xamanismo tradicional, um indivíduo dotado de capacidades espirituais singulares busca desvendar os segredos da natureza e se comunicar com animais, espíritos e mortos, em momentos de transe. A prática acontece em diversas regiões do mundo – de povos nômades na Sibéria a índios nas Américas.



O tecnoxamanismo, dizem os adeptos, é também isso – e um pouco mais. O movimento quer incorporar esse campo de conhecimento tradicional que, segundo Fabiane Borges, vai da arte de fazer fogo com pauzinhos até “aprender a ler o espírito das pedras”. Mas ela também identifica uma espécie de xamanismo na ciência, que copiaria métodos ancestrais – como a capacidade do xamã de sair do próprio corpo nos momentos de transe e olhar o mundo “de cima” – para desenvolver invenções como satélites e drones. “O tecnoxamanismo é a junção dessas duas coisas, que foram separadas historicamente pela Igreja Católica e por essa ciência racionalista que não se conecta a nenhuma cosmogonia, nem ao espírito”, explicou.

Os seguidores não propõem uma nova religião, mas uma “involução da ciência”, de modo a permitir que se desenvolva uma relação mística com a tecnologia. “Temos um projeto romântico de usar a tecnologia para intensificar nossa comunicação com as civilizações que coexistem com a gente, as samambaias, as trepadeiras. E juntar tudo isso é um puta desafio”, suspirou a hostess.

 

Fantasias e cortes de pano dispostos numa arara, além de muita purpurina disponível sobre uma mesa, eram oferecidos aos participantes: para adentrar o espaço do rito, era preciso assumir uma personalidade nova. Uma moça de maiô filmava tudo em smartphones presos a seu corpo por uma meia-calça arrastão. Copinhos de catuaba eram ofertados aos presentes. No canto da sala, um pajé de cocar murmurava uma reza e agitava um chocalho, abençoando uma mistura de água e ervas numa bacia.

 Um ruído alto de estática saía das caixas de som de um computador. Caminhando morosamente pelo espaço, um rapaz vendado deitou-se numa cama ao lado do aparelho. O pajé lavou os pés e os braços do jovem com o líquido abençoado, e salpicou gotas de água no seu rosto. Uma moça aproximou-se e passou a agitar um pandeiro em sua orelha e um pisca-pisca colorido em seus olhos, enquanto outra acariciava o corpo do rapaz com uma pena colorida. “Estamos tentando induzir o estado de transe xamânico e intensificar a consciência sem usar drogas, partindo por outras vias. Aí entra tudo”, explicou Borges.

Ela parecia supervisionar o ritual, observando o que acontecia. Contou que conheceu o mundo da “intimidade e do êxtase” xamânico em 2007, quando passou sete meses num set de filmagem na Amazônia. Doutora em psicologia, nasceu em Bagé, no Rio Grande do Sul, há quarenta anos. Sob o traje branco do ritual, escondia um par de olhos bem claros e o cabelo preto num corte Chanel.

Em um texto para a internet produzido em 2011, afirmou que antes de conhecer os rituais tecnoxamânicos se sentia num “buraco gigante”, com uma vida “dura e seca”, num mundo “pesado e disforme”. Agora consegue experimentar uma relação profunda entre tudo que é humano, máquina e natureza.

 

A Rede Tecnoxamanismo já organizou rituais em Porto Alegre, no sul da Bahia e até no Equador. Mais de 1 300 pessoas haviam confirmado presença no encontro do Rio de Janeiro, e cerca de 100 compareceram ao ritual. Entre elas, uma pessoa que se apresentou apenas como “L”, e como “não binária” (alguém que não se identifica nem como homem nem como mulher). Apesar de nunca ter participado de um ritual tecnoxamânico, viajou com mais dois amigos de Santa Catarina até o Rio, seduzido pelo anúncio de outras formas de existência descritas nos textos de Borges na internet. Um pouco tímido a princípio, logo L já havia se livrado das roupas e desfilava pelo sobrado vestindo apenas uma tanga.

O movimento tecnoxamânico vem crescendo. Na mesma semana do ritual na Casa Nuvem, outros dois encontros na cidade atrairiam público semelhante. Um encontro na Zona Sul de artistas-feiticeiros que anunciavam a intenção de resistir aos “demônios empreiteiros” experimentando um “misticismo lúdico” em “ambientes anárquicos”. E outro evento, uma festa de cyberpunk no Centro carioca, exaltando a “distopia do século zero”, a tecnologia e sua ruína, com mais de oitocentas pessoas confirmadas. Para quem achava pouco, um dos participantes explicou que dali a poucos dias teria mais. Uma festa “neoancestral de minimal-macumba” na SƩITΛ ☯ BƩSTIΛL.
Mais: “L” exibe sua tanga durante o ritual

 

Luiza Miguez

Luiza Miguez é redatora do programa Greg News. Foi repórter e checadora de apuração da piauí entre 2011 e 2019.​

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