esquina

Tudo pela monga própria

Uma cineasta itinerante quer um circo para chamar de seu

Vanessa Barbara
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Aos 37 anos, a paulistana Cris Siqueira tem planos de vida muito específicos: “Eu preciso ter uma Monga”, exclama, bastante séria. De cabelos castanho-claros, voz rouca e tatuagens nos braços, ela foi vocalista de uma banda punk e graduou-se em cinema. Teve a ideia de produzir um documentário sobre o Globo da Morte. Ao fazer a pesquisa, porém, descobriu que o filme seria inviável com um orçamento tão baixo. Mas travou contatos no mundo do circo e se apaixonou pelo tema.

Em 2004, interrompeu seus projetos para ir morar em Milwaukee, onde concluiu dois mestrados (em cinema e história) e deu aulas na Universidade de Wisconsin. Queria estudar a história do circo nos Estados Unidos, mas foi demovida da ideia por seus professores. “Os acadêmicos americanos não podem ver uma pessoa não branca que já mandam para estudos étnicos”, brincou. Acabou se especializando em questões de raça nos Estados Unidos e no Brasil.

Em suas pesquisas de campo, Cris frequentou os sideshows, pequenos circos itinerantes inspirados nos espetáculos de aberrações. Constatou que muitos tinham o número da Monga, uma mulher que, por obra de um engenhoso jogo de vidros, se transforma em macaco e foge da jaula, para desespero do público. Nos Estados Unidos, ela é chamada de Zambora, a Mulher-Gorila.

Originalmente, a Monga era uma atração secundária do circo, junto com a mulher barbada, o homem de três pernas e demais aberrações da natureza, além dos chamados working acts – engolidor de espadas, cuspidor de fogo, atirador de facas. “São coisas que você não precisa passar a vida treinando, como o trapézio”, explicou Cris. “Você vai e faz.” Ela própria é uma cuspidora eventual de labaredas, mas diz que é péssima nisso. “Queimo a boca inteira, não consigo engolir, tenho que tentar várias vezes.”



Cris pesquisou a origem de Zambora e descobriu que a Monga americana vinha do Brasil. “Achei o elo perdido”, brinca. O número surgiu de uma técnica inglesa de ilusionismo chamada Pepper’s Ghost, truque de vidros criado para transformar uma coisa em outra. “Nos anos 60, um casal brasileiro foi para os Estados Unidos com um parquinho itinerante e trouxe essa ideia do Brasil”, contou. “Parece que antes eles tentaram com uma mulher que virava pedra, mas não deu certo.”

Tomada de fervor patriótico, Cris decidiu que precisava ser a Monga. Em 2008, conheceu Ward Hall, um senhor de 78 anos dono do sideshow World of Wonders. “Ele tinha uma Monga. A mais vagabunda que você já viu na vida, não tinha nem os vidros, era só uma máquina de fumaça”, ri. Em vez de transformar a garota em gorila, o aparato a fazia virar fumaça. Com a temporada prestes a começar, Hall convidou a brasileira para se juntar à trupe. Ela aceitou.

Não bastasse a falta de jeito para o circo, Cris não tinha propriamente o physique du rôle. “Os adolescentes esperavam uma modelo, e aí vinha eu, que na época pesava uns 110 quilos”, contou a cineasta, que, desde então, emagreceu 40 quilos. “Eu já chegava parecendo um gorila, já chegava Monga.” Com o olhar aguçado para as questões de raça e gênero, Cris tem uma leitura crítica do número. “É uma coisa muito racista”, conta. “A moça é loira, clarinha, linda, e aí as narinas dela se abrem, a pele escurece e ela se transforma nesse gorila macho africano.”

Realizado o primeiro desejo, Cris viu que não lhe bastava ser a Monga. Era preciso tê-la. A paulistana passou a perseguir então o sonho da Monga própria. Numa convenção temática, soube que havia uma à venda por 4 mil dólares. Era original e vinha completa, com caminhão e acessórios. Estava em Dalton, no norte do Minnesota, a oito horas de estrada. “Eu havia acabado de passar cinco meses morando numa van, que estava arrebentada. Era início de inverno e podia nevar a qualquer momento”, lembrou-se Cris. “Falei: vou. Vale a pena.”

No dia 12 de novembro, Cris dirigiu o dia todo. A rodovia I-94 é ladeada por cidades minúsculas, sobretudo no último trecho da viagem. Planejou passar a noite em Alexandria (11 mil habitantes), mas a van começou a engasgar e ela teve que pernoitar num hotel de beira de estrada em Clearwater (1,7 mil). Trocara os pneus semanas antes e havia feito uma revisão com Troy Jones, o mecânico das montanhas-russas, mas ficou apreensiva.

“No dia seguinte, quando fui levar a van para consertar, o pneu caiu ali mesmo no estacionamento do hotel”, disse, assustada. Avisou por telefone a dona da Monga, que respondeu que Cris não era séria e aproveitou para agourar a expedição, afirmando que ninguém iria ajudá-la numa cidade estranha. “Esse pessoal é muito duro”, contou a brasileira.

Mas ela achou um mecânico, consertou a van e foi ao encontro da Monga de sua vida, que vinha com uma tenda e um conjunto de banners pintados à mão. Na bilheteria, a inscrição: “Darwin estava certo?” O pacote incluía uma fantasia de gorila desmanchando-se de podre. Cris só não levou o material porque o dinheiro que tinha não dava para comprá-lo e ainda reformar tudo. “Era velho, enferrujado, malcuidado”, desdenhou. “Mas vi pela primeira vez a Monga que eu quero ter.”

Hoje Cris trabalha para o Jim Zajicek’s Big Circus Sideshow, que tem como atrações um touro de seis patas, um anão malvado e uma tartaruga albina. Todos os anos, ela sai em turnê no verão. Em 2011, apresentou-se em Louisiana, Texas, Pensilvânia, Nova Jersey, Maryland e Ohio. Com seus dois mestrados e uma experiência de vida quase totalmente urbana, ela escolheu morar numa van e tomar banho em postos de gasolina na estrada.

Nos espetáculos, é ela quem convida a audiência, com vestido brilhante, bota de cano alto, uma flor no cabelo e uma cobra enrolada no pescoço. “Aberrações, monstros e mulheres estranhas!”, anuncia num microfone, ao lado da colega que engole espadas. “Nós somos as mulheres estranhas. Boa tarde!”

Vanessa Barbara

Escritora e jornalista, é colaboradora do New York Times

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