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Tudo sobre meu pai

Dalma Maradona conta como é ser um esperma de Deus

Kelly Cristina
Filha de Deus
Filha de Deus

Soaria pretensioso em qualquer outro país. Dalma Maradona estreou em Buenos Aires uma peça sobre a relação dela com o pai, Diego Armando. Título? Filha de Deus.

É mais ou menos como se o filho de Pelé, Edinho, saísse por aí dizendo que é Jesus. Mas na Argentina ninguém estranhou, tendo sido a coisa tomada como mera expressão de uma verdade insofismável. Quase uma obviedade.

Dias depois da estreia, uma malta de curiosos, fotógrafos e jornalistas disputava cada centímetro da calçada em frente ao Teatro SHA. Tendo acabado de chegar de Dubai, onde exercia as funções de técnico (já não exerce), Deus, Ele mesmo, estaria na plateia.

Maradona se sentou na terceira fila, mais para o canto esquerdo, um pedido da filha que não queria ter o pai na mira dos olhos durante a peça. Girando um pouco a cabeça, Dalma avistaria também a mãe, Claudia Villafañe, uma Nossa Senhora loira e divorciada. O ator Ricardo Darín era outro que refulgia nessa noite repleta de figuras divinas da corte celestial portenha.



Dalma se formou no Instituto Universitário Nacional de Arte. A moça é esforçada e já participou de alguns filmes e peças, embora nada suficientemente grandioso que lhe permitisse escapar da sombra do pai e não ser mais tratada como “a filha do Maradona”. Para tanto, é bem verdade, ela terá de se transformar numa Sarah Bernhardt, num Laurence Olivier.

Maradona começou a chorar antes mesmo de a filha entrar no palco. Bastou cravar os olhos no programa e dar com a declaração de Dalma pedindo-lhe desculpas por ter “exigido” dele “mais do que devia”. Diz ela que foi preciso muito tempo para conseguir enxergar o pai como a “pessoa linda que ele é”.

Na peça, de resto simpática, sem no entanto candidatar-se a entrar para o cânone ocidental, Dalma mostra que Maradona é chorão e sentimental; que adora fazer surpresas adoravelmente embaraçosas, como festejar os 9 anos da filha cantando uma serenata na companhia de um punhado de mariachis; e que não se cansa de dizer coisas que ela considera um micão danado. “Eu sempre quis que ele fosse mais tranquilo e calado. Mas há coisas que são impossíveis de mudar”, suspira conformada.

Vinte e cinco anos, baixinha como Maradona e loira falsa feito a mãe, Dalma conta que foi uma adolescente rebelde que buscava compreender a adoração desmedida que os argentinos têm pelo pai.

Maradona entrou para o panteão dos deuses meses antes de Dalma nascer, precisamente no dia 22 de junho de 1986, quando a Argentina enfrentou os ingleses pelas quartas de final da Copa do Mundo do México.

Quatro anos antes, o poderio militar britânico havia recuperado a soberania das ilhas Malvinas, chaga aberta no corpo da nação argentina. O resto se sabe: dois gols para a história; um deles, considerado o mais belo de todos os tempos; o outro, tido como a maior de todas as burlas, o troco possível de uma nação pobre à humilhação imposta pelo país rico de força imbatível. “Fiz o gol com a cabeça, se houve mão, foi a mão de Deus”, declarou logo depois, canonizando o próprio punho.

Quando a filha veio ao mundo, em 2 de abril do ano seguinte, a Argentina já se convertera à adoração coletiva de seu pai. Os jornais declaravam que Maradona era mais famoso do que Jesus e, presume-se, também John Lennon. Seu rosto e sua mão foram tatuados na pele de um sem-número de fiéis, seu nome dado a multidões de bebês (a peça mostra as fotos das gêmeas Mara e Dona). Fez-se campanha para estampar a cara de Maradona na nota de 10 pesos, o número de Sua santa camisa. Algum burocrata amargo não permitiu.

Em 1998, talvez descontentes com os rumos seculares do maradonismo, uma ala mais radical de crentes fundou a Igreja Maradoniana. Localizada em Rosário, a igreja realiza casamentos em volta de uma bola. Os fiéis estão no ano 51 d.D. (depois de Diego) e o ano-novo é comemorado em 30 de outubro, aniversário Dele. Nos cultos, reza-se o Pai-Nosso: “Diego nosso que está no estádio. Santificada seja a Sua esquerda. Venha a nós a Sua magia. Que Seus gols sejam recordados assim na terra como no céu. A magia Sua de cada dia nos dai hoje, e perdoai aos ingleses assim como nós perdoamos a máfia napolitana. Não nos deixais cair em impedimento, mas livrai-nos de Havelange e Pelé.” Certo dia, Dalma foi parada na rua por um homem que estendeu a mão para tocá-la, sob o argumento de que ela era “um esperma de Deus”.

Menos transcendental, o Diego da peça é o cara que pediu a primeira mulher em casamento ao som de Yo Te Propongo, versão em espanhol de Eu Te Proponho. É quem Dalma chamava de “papi” e, hoje, de “babu”. É o Diego rico e famoso, que deu à filha mais velha um carro de presente quando fez 12 anos e que a apresentou, ainda adolescente, aos Backstreet Boys.

Dalma tangencia os temas mais difíceis, como o divórcio dos pais ou os filhos de Maradona fora do casamento. Num dos poucos momentos em que se refere às internações do pai por causa de drogas, projeta um vídeo em que, criança assustada, diz, a respeito do pai, ter “certeza de que vai sair bem do hospital”.

A apoteose daquela récita aconteceu depois da cortina final.

Emocionado com a homenagem, o Divino Soluçante subiu ao palco e se jogou nos braços da filha. Rios de lágrimas depois, os dois se sentaram lado a lado para conversar com a imprensa. Maradona se desculpou por ter sido um pai ausente e afirmou que a filha é uma atriz de la puta madre.

Alguém lhe pergunta que nome daria a uma peça sobre Dalma. “Pai da deusa”, respondeu, triunfante. Dalma enterrou o rosto nas mãos e gemeu: “Ai nããão, pai.”

Kelly Cristina

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