esquina

Última flor da Pomerânia

Uma língua em extinção

Júnior Milério
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2014

A cada curva acentuada da serra que dá acesso a Santa Maria de Jetibá, no Espírito Santo, venezianas majoritariamente azuis compartilham o colorido com o verde da agricultura familiar. Aos sábados, o som da concertina – instrumento similar à sanfona – é propagado na frequência 98.5 mega-hertz da FM. A Rádio Pomerana, também conhecida como Pommer Radio, reserva duas horas de sua programação para a música típica da comunidade local. Sempre à tardinha, das cinco às sete, a hora da melancolia. O locutor do programa, assim como cerca de 90% dos mais de 35 mil habitantes da cidade, é bilíngue: alterna frases em português e em pomerano.

A língua, sobrevivente em municípios dos estados do Espírito Santo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Rondônia, quase não é mais ouvida na Alemanha ou na Polônia, onde a Pomerânia se arraigava, na costa sul do mar Báltico. Região extinta do mapa europeu contemporâneo, foi de lá que vieram não só os lulus como os antepassados dos cerca de 300 mil pomeranos brasileiros. Embora nossos ouvidos ignorantes e pouco habituados à prosódia daquele povo hospitaleiro possam confundir o idioma com o alemão, o linguista santa-mariense Ismael Tressmann esclarece: “O pomerano, assim como o neerlandês, tem origem saxônica, não germânica.” O que significa que está mais próximo do inglês e do holandês do que do alemão.

Desde a década de 80, Tressmann se dedica a descrever línguas de tradição oral. Estudou a língua dos cintas-largas, indígenas de Rondônia; investigou a dos zorós, do Mato Grosso. “O Brasil tem uma política monolinguista: a preservação de idiomas, seja de nativos, seja de imigrantes, não é estimulada”, diz. O método que o pesquisador adota para descrever uma língua com base na oralidade consiste em, antes de mais nada, elaborar uma lista de palavras consideradas universais. Sol, lua, água, terra, frio, por exemplo, são algumas. Para sistematizar o pomerano falado no Brasil, além de se servir de seu próprio repertório, Tressmann entrevistou falantes de ambos os sexos e diferentes faixas etárias. “Para uma pesquisa dessa ordem, é preciso recorrer ao mais amplo espectro possível, a fim de coletar as variantes”, diz.

Ao longo dos anos, os breves glossários que Tressmann anotava em suas pesquisas de campo acabaram por se transformar em 16 mil verbetes, que em 2006 foram consolidados no primeiro (e até hoje único) dicionário pomerano do Brasil, com quase 600 páginas. Foram distribuídos 1 300 exemplares em escolas estaduais e municipais do Espírito Santo. “Poucas pessoas sabem escrever em pomerano; se não houver iniciativas educacionais e culturais, o idioma estará fadado ao glotocídio, à morte. Muitas crianças das comunidades já falam apenas português. Não digo que se deva preterir a língua pátria, mas o Brasil não precisa ser monolinguista”, defende Tressmann.

 

Em uma iniciativa da prefeitura de Santa Maria de Jetibá (“O município mais pomerano do Brasil”, como se pode ler na placa rodoviária que recebe o visitante), 21 professores lecionam a língua nas 48 escolas do município, atendendo a 3 600 alunos. As aulas semanais duram cinquenta minutos; para Tressmann, uma carga horária insuficiente, uma vez que todas as demais aulas, bem como o cotidiano das crianças, privilegiam o idioma de Machado de Assis. “Ninguém se opõe ao aprendizado do português, era só o que faltava. Poderíamos negociar um esquema na base do meio a meio. Um sinal nítido do ocaso da língua é essa falta de incentivo”, alerta o linguista.

Mas a sobrevivência do idioma pomerano entre nós enfrenta uma corrida de obstáculos: não há literatura, não há escritores pomeranos. A coordenadora do programa pedagógico de Santa Maria de Jetibá, Guerlinda Westphal Passos, explica que o material didático de apoio – exercícios gramaticais ou textos de leitura – é produzido pelos próprios professores.

Frequentemente ilhados em bolsões rurais, os pomeranos sobreviveram à própria sorte. Chegaram ao Brasil na segunda metade do século XIX, junto com a leva de europeus que buscou a América bem-aventurada. No Espírito Santo, segundo estado brasileiro a concentrar o maior número de pomeranos (perde apenas para Santa Catarina), os imigrantes se enraizaram sobretudo no território que ficou conhecido como Colônia Santa Leopoldina.

A família Schmidt lembra, de geração a geração, a época em que eram proibidos de falar a língua na escola. “Meus pais contam que, se fossem flagrados falando em pomerano, era só castigo e humilhação”, disse, com leve sotaque de brasileiro interiorano, o estudante de agronomia Juniomar Schmidt, de 24 anos. “Era considerado desrespeitoso falar um idioma que o docente não compreendia”, conta Guerlinda Passos. Com o trauma escolar, Angelina Schmidt, mãe de Juniomar, decidiu favorecer a língua portuguesa no momento em que os filhos ensaiavam as primeiras palavras.

Em 2010, Juniomar foi estudar na Alemanha. A ilusão de que seria compreendido quando falasse pomerano se desvaneceu logo no primeiro contato com os professores. A sorte foi ter encontrado um senhor, na casa dos 80 anos, membro da família que o hospedou. “Eu entendia quase tudo que ele dizia, e ele entendia boa parte do que eu falava”, lembra. Em defesa da língua, Juniomar promete: “Somos brasileiros e meus filhos falarão português e pomerano.”

A comunidade pomerana brasileira é tão representativa que, no livro Pomeranos sob o Cruzeiro do Sul, o autor Klaus Granzow registrou: “O pomerano desapareceu na Alemanha e se quisermos ouvir o original precisamos viajar até o Brasil para tirar as nossas dúvidas.” E, ao chegar aqui, o turista pode ouvir expressões como Kam Man Riner. A frase significa algo como “Seja bem-vindo” ou, literalmente, “Entre”.

Júnior Milério

Leia também

Últimas Mais Lidas

Maria Vai Com as Outras #3: Quero ser mãe, não quero ser mãe

Uma editora e uma advogada e escritora falam sobre os desdobramentos na vida de uma mulher quando ela decide ter ou não ter filhos

Vítimas de Mariana cobram R$ 25 bi de mineradora BHP na Inglaterra

Juiz deve decidir em junho se vai julgar o processo, o maior em número de vítimas da história do Reino Unido

Passarinho vira radar de poluição

Pesquisadores usam sangue de pardais para medir estrago de fumaça de carros e caminhões em seres vivos

Foro de Teresina #68: Censura na Bienal, segredos da Lava Jato e um retrato da violência brasileira

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

Presos da Lava Jato unidos contra os ratos e o tédio

Condenados por crimes de colarinho-branco já caçaram roedores e fizeram faxina em complexo penal; transferidos para hospital penitenciário e sem ter o que fazer, gastam o tempo com dominó  

O maestro e sua orquestra – andamento lento e músicos desafinados

Governo se julga no direito de “filtrar” projetos incentivados com verba pública, mas filtrar é eufemismo para censurar

Quando a violência vem de quem deveria proteger

Quatro meninas são estupradas por hora, a maior parte dentro de casa, e 17 pessoas são mortas pela polícia por dia, revelam dados do Anuário de Segurança Pública

“Poderia ter sido eu a morrer ali no ponto de ônibus”

Como a morte espreita a juventude negra no Rio de Janeiro, estado com maior taxa de homicídios em ações policiais

Léros Léros em Itaipu

Brasil se recusa a pagar prejuízo de US$ 54 milhões; presença de suplente do PSL em reuniões binacionais aumenta crise e atrapalha renegociação para 2023

Mais textos
1

Vítimas de Mariana cobram R$ 25 bi de mineradora BHP na Inglaterra

Juiz deve decidir em junho se vai julgar o processo, o maior em número de vítimas da história do Reino Unido

2

Presos da Lava Jato unidos contra os ratos e o tédio

Condenados por crimes de colarinho-branco já caçaram roedores e fizeram faxina em complexo penal; transferidos para hospital penitenciário e sem ter o que fazer, gastam o tempo com dominó  

3

A guerra contra o termômetro

Quando chegam más notícias sobre o desmatamento, os governos atacam o emissário

4

“Poderia ter sido eu a morrer ali no ponto de ônibus”

Como a morte espreita a juventude negra no Rio de Janeiro, estado com maior taxa de homicídios em ações policiais

6

Foro de Teresina #68: Censura na Bienal, segredos da Lava Jato e um retrato da violência brasileira

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

7

Bacurau – celebração da barbárie

Filme exalta de modo inquietante parceria entre povo desassistido e bandidos

8

Passarinho vira radar de poluição

Pesquisadores usam sangue de pardais para medir estrago de fumaça de carros e caminhões em seres vivos

9

Sem SUS, sem saída, sem vida

Sem dinheiro para pagar dívidas médicas nos Estados Unidos, idoso mata mulher e se suicida; tragédia amplia debate sobre acesso a sistema público de saúde

10

Léros Léros em Itaipu

Brasil se recusa a pagar prejuízo de US$ 54 milhões; presença de suplente do PSL em reuniões binacionais aumenta crise e atrapalha renegociação para 2023