esquina

Um homem público

As orações fúnebres de Seu Ary

Thayz Guimarães

Em Alegre, cidade do Espírito Santo com pouco mais de 30 mil habitantes, é raro encontrar um morador que não conheça o Seu Ary. Comerciante de renome e político com duas passagens pelo Executivo – uma como prefeito e outra como vice –, ele coleciona muitas facetas do alto de seus 101 anos, incluindo a de orador.

Os velórios são sua especialidade – e quase nenhum ocorre em Alegre sem que ele faça um discurso de condolências. “Antigamente, sempre tinha alguém para falar sobre o morto ou sua família. Numa dessas ocasiões, resolvi dizer algumas palavras. Depois, eu apenas prossegui”, recordou. “Hoje, sou até cobrado: perguntam se não vou falar nada.” Também virou hábito nos funerais as pessoas sacarem o celular para filmá-lo.

A maioria dos discursos ele faz de improviso, a partir do que já sabe sobre o morto ou de informações que lhe são transmitidas na hora. “Tem que falar o que a memória diz, né? Às vezes, a gente tropeça, acha que não se saiu bem, mas isso é coisa de quem não é profissional na matéria.” Com décadas de experiência, ele já perdeu a conta de quantos discursos fúnebres fez, todos muito comoventes, na opinião dos ouvintes (e do próprio orador). “Sou emotivo, reconheço.”

Mesmo se não conhece o morto, ele faz questão de levar um consolo aos familiares. “Semana passada teve o falecimento de um senhor lá da roça. Tinha muita gente, e só umas três ou quatro pessoas me conheciam. Antes de começar, falei: ‘Vocês não sabem quem eu sou, e eu também não sabia quem vocês eram. Vim trazer a minha solidariedade, me chamo Ary Fiorezi de Oliveira.’”

 

Nascido em Pirapetinga, em Minas Gerais, Oliveira mudou-se com a família para Alegre em 1921, aos 3 anos de idade. Desde jovem, dedicou-se ao comércio e à pequena indústria. Teve uma fábrica de macarrão, uma confecção de roupas e um bar. Por fim, abriu uma mercearia, o minimercado Triângulo, que administra até hoje.

Começou cedo sua atividade na política local, atuando ora nos bastidores, ora na linha de frente dos partidos. Ele conta que ajudou a colher assinaturas para a criação da udn (União Democrática Nacional), fundada em 1945, e do MDB (Movimento Democrático Brasileiro), em 1966. “Também participei das campanhas de Jânio Quadros, Eurico Dutra e Juscelino Kubitschek”, enumera. E acrescenta, orgulhoso: “Em 1955, eu trouxe a Alegre, pela primeira vez, os candidatos à Presidência da República.”

Dada a importância que teve (e ainda tem) para a cidade, Oliveira recebeu várias homenagens em seus cem anos de nascimento, em 2018. Uma delas contou com a apresentação especial da Lyra Carlos Gomes, conjunto instrumental da cidade, também centenário. Como permanece na ativa, o ex-prefeito costuma ser convocado para opinar sobre alguma questão relevante para o município – quando não é ele mesmo quem decide capitanear alguma ideia. A capela mortuária da cidade, por exemplo, só foi erguida graças à sua perseverança.

Antes de 2005, os velórios em Alegre aconteciam geralmente na casa da própria família do morto, em sede de associações ou espaços públicos, o que complicava o traslado do caixão até o cemitério, localizado no topo de uma colina. “Certa vez, fui a um velório realizado no cômodo de uma casa antiga, sem nenhuma cadeira para sentar, sem banheiro, desprovido de qualquer instalação para se passar a noite.” Depois disso, Oliveira decidiu que a cidade precisava de uma capela mortuária. “Saí dali já falando nisso e comecei a buscar verba, terreno e quem pudesse doar material de construção.”

Construída em frente ao cemitério antigo da cidade, e a menos de cinco minutos a pé da nova necrópole, a capela mortuária de Alegre é uma construção de alvenaria simples, mas bastante prática. Dispõe de duas alas, cada uma equipada com uma sala de cerca de 20 m2 e um quarto nos fundos. Entre uma ala e outra, ficam os banheiros, a cozinha e a área de administração. O espaço pode ser usado gratuitamente pelas famílias da cidade.

Oliveira afirmou que seu cuidado com os mortos não tem nada de especial: é apenas o que se espera de qualquer ser humano. “Somos todos irmãos”, refletiu. E disse estar aliviado que os alegrenses tenham superado seu desinteresse pelos enterros. “Teve uma época em que não havia quem carregasse os caixões. Apareciam apenas quatro pessoas, e a gente tinha que ficar revezando de lado, para não cansar a mão.”

 

“Boa tarde, boa tarde”, diz Oliveira ao chegar à capela mortuária. “Meus sentimentos, meus sentimentos.” Como não conhece muito bem a família enlutada, embora quase todos saibam quem ele é, o ex-prefeito resolve dar condolências a cada um dos presentes no local, quase trinta pessoas. Depois, procura um banco e senta-se, enquanto espera que tragam o caixão. “Se eu ficar muito tempo em pé, meus joelhos doem.”

Magro e baixo, com cabelos tão grisalhos quanto o bigode fino que ostenta há décadas, Oliveira tem um condicionamento físico de dar inveja. Faz pouco tempo que deixou de ir a pé – e sozinho – aos velórios.

Dois homens chegam com o esquife. Um pastor presente na capela é convidado a fazer uma prece, e as pessoas se reúnem em torno dele. “Acho que agora não preciso falar mais”, afirma Oliveira.

Quando o pastor encerra a oração, a filha caçula do ex-prefeito, Rosangela, aproxima-se e cochicha algo para Oliveira. “Então não vou falar mesmo. Isso só vai aumentar a dor e a emoção da família”, ele responde. Porém, minutos depois, levanta-se e, a passos lentos, aproxima-se do caixão. Fixa o olhar na direção do rosto da falecida de 37 anos e, sem hesitar, começa seu discurso fúnebre:

“Vou deixar de citar muitos detalhes ou descrever a Alessandra, para evitar aumentar a emoção e a dor que a família e os amigos estão sofrendo. O que podemos dizer é que essa menina que hoje nos deixa irá para o Céu. Esse acontecimento que abalou a sociedade alegrense há de ser sempre lembrado com as emoções que hoje são sentidas. Alessandra, seu corpo acaba, mas tenho certeza que a sua alma, que é imortal, estará ou já está ocupando o mundo que nos aguarda após a morte do corpo físico. Alessandra, você se foi, e deixou saudade.”

Thayz Guimarães

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