vultos da República

Um liberal à brasileira

Chefe do Banco Central de Lula, executivo de Joesley Batista e ministro da Fazenda de Temer, Henrique Meirelles sonha com a Presidência

Malu Gaspar
Em 1998, então presidente mundial do BankBoston, Meirelles confidenciou a um amigo, numa conversa de bar, que gostaria de ser candidato à Presidência da República. Depois de algumas doses, concluíram que o banqueiro deveria se vender como “uma espécie de Roberto Campos de Goiás”
Em 1998, então presidente mundial do BankBoston, Meirelles confidenciou a um amigo, numa conversa de bar, que gostaria de ser candidato à Presidência da República. Depois de algumas doses, concluíram que o banqueiro deveria se vender como “uma espécie de Roberto Campos de Goiás” IMAGEM: ORLANDO BRITO_2017

Era para ser uma ocasião festiva, mas o constrangimento dos recém-chegados denunciava que o encontro com Henrique Meirelles havia se transformado numa tremenda saia justa. Naquela manhã de quinta-feira de maio, acomodados nas poltronas aveludadas da sala do Conselho Monetário Nacional, os técnicos do Fundo Monetário Internacional, o FMI, ensaiavam como dizer ao ministro da Fazenda que o relatório otimista que haviam preparado sobre as perspectivas da economia no país tinha caducado. Ao longo dos dezesseis dias em missão no Brasil, os técnicos sinalizaram que o documento final mencionaria os esforços do governo para controlar o endividamento público e aprovar medidas de ajuste fiscal no Congresso. Seria uma ótima oportunidade para o presidente Michel Temer faturar junto à opinião pública, no momento em que completava um ano de governo. O script, no entanto, fora atropelado pela realidade.

Na noite anterior, todos confraternizavam em torno de canapés e espumantes, no salão de festa de um hotel com varanda voltada para o lago Paranoá, quando se espalhou a notícia de que o presidente havia sido gravado pelo dono da JBS, Joesley Batista, dentro do Palácio do Jaburu, incentivando o empresário a manter um cala-boca milionário endereçado ao ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha. Assim que as primeiras mensagens com links da matéria de O Globo pipocaram nos celulares, os convivas brasileiros – como o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn – começaram a sair de fininho. Aos poucos, os estrangeiros também perceberam que havia algo de errado no ar. Não demorou muito e os garçons já circulavam num salão vazio. Ao amanhecer, a mídia repercutia em peso as denúncias. A aposta era praticamente unânime: o presidente da República estava liquidado e seria levado a renunciar. Ao abrir a reunião pela manhã, Henrique Meirelles, ciente da ansiedade dos estrangeiros, procurou acalmá-los. “Vocês devem ter visto as últimas notícias, imagino que estejam preocupados”, disse o ministro. “Estamos com o presidente e não achamos que ele vá cair. Mas quero garantir a vocês que, independentemente do que acontecer, a política econômica continua, nossa equipe continua. E, mesmo que haja alguma transição, a presidente do Supremo Tribunal Federal, a ministra Cármen Lúcia, estará no comando.” Sentado à esquerda de Meirelles, o mexicano Alfredo Cuevas, chefe da missão do Fundo no Brasil, sentiu-se liberado para abrir o jogo, embora num tom ainda relutante. “Pois é, ministro. À luz do que ocorreu, nosso relatório ficou desimportante. Talvez fosse melhor esperar um pouco para divulgá-lo…” Meirelles não esperou que ele se estendesse. “Boa ideia. Talvez não seja mesmo a hora.” O alívio foi geral.

MATÉRIA FECHADA PARA ASSINANTES
Para acessar, assine a piauí

Malu Gaspar

Malu Gaspar, repórter da piauí, é autora do livro Tudo ou Nada: Eike Batista e a Verdadeira História do Grupo X, da Editora Record

Leia também

Últimas Mais Lidas

EUA devolvem fortuna à família Hawilla

Com a morte do delator do escândalo Fifa, Justiça restitui à viúva e aos filhos patrimônio de R$ 59 milhões em dinheiro e apartamento em condomínio em ilha de Miami

Merval e a democracinha*

A polarização política, os cidadãos de bem e os inimigos da vida civilizada no país

O Paciente e O Banquete – frutos da tragédia

Vistos em conjunto, os dois filmes tornam-se reflexo do cenário político atual

Ciro, a vela e o dane-se

Só ele impede segundo turno antecipado entre Bolsonaro e Haddad

Marcos Lisboa: “Me comparar a Paulo Guedes é demais”

Cotado como ministro da Fazenda em um governo do PT, economista responde a Ciro Gomes, que o chamou de “ultrarreacionário”

A janela de Haddad

A vulnerabilidade de Bolsonaro e a chance do candidato do PT

Sem a elite, sem (quase) nada

Em doze anos, Alckmin sai de 45% para 6% das intenções de voto no eleitorado que cursou universidade; eleitores migram principalmente para Bolsonaro

Lacrou: não entra mais nome novo na urna

Se um candidato morrer ou desistir, sua cara e seu número continuarão aparecendo na tela; TSE fechou os registros e diz que não muda mais

A nossa hora mais escura

O legado de trinta anos de democracia está em jogo nesta eleição

Bolsonaro e Haddad vão ao JN, bombam no Twitter e crescem

Jornal Nacional foi evento mais tuitado das campanhas dos candidatos do PSL e do PT; apresentadores viraram o assunto após as entrevistas

Mais textos
1

Bolsonaro não queria sair da Santa Casa

A história de como a família do presidenciável dispensou o Sírio-Libanês, contrariou a vontade do candidato de ficar em Juiz de Fora e aceitou a proposta do tesoureiro do PSL de levá-lo para o Einstein

2

Aluguel do PSL custa R$ 1,8 milhão à campanha de Bolsonaro

Ex-presidente do partido, Luciano Bivar recebeu sozinho, até agora, 28% dos gastos da cúpula nacional da sigla que cedeu ao ex-capitão

3

Antipetismo e democracia

O candidato do PT e o candidato do PSL não são dois lados da mesma moeda

4

Paulo Guedes contra o liberalismo

A história mostra que uma onda de ódio só chega ao poder quando normalizada

5

SUS salva Bolsonaro por R$ 367,06

Pago pelo sistema público brasileiro, cirurgião de veias e artérias de Juiz de Fora é tirado de almoço de família para achar e conter hemorragia no candidato

6

Ciro queima pontes com o Exército

Cúpula militar reage à declaração do candidato de que general Villas Bôas “pegaria uma cana” por falar de política; de “bom quadro”, pedetista vira “insensato”

7

O fiador

A trajetória e as polêmicas do economista Paulo Guedes, o ultraliberal que se casou por conveniência com Jair Bolsonaro

8

O mínimo e o justo

Menos Estado gera mais justiça social?

9

A janela de Haddad

A vulnerabilidade de Bolsonaro e a chance do candidato do PT

10

Por que mulheres trocaram Marina por Haddad, Ciro e Bolsonaro

De líder no voto feminino, candidata despencou para o quarto lugar; seu discurso é “sincero”, mas falta clareza, dizem ex-eleitoras