esquina

Um monge do barulho

Sábio hindu ergue a voz interior e cala paulistanos por 15 minutos

Vanessa Barbara
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

No começo da noite de 22 de outubro, uma sexta-feira, a Companhia de Engenharia de Tráfego registrou 100 quilômetros de congestionamento nas ruas de São Paulo. Representando 11,5% do total de vias monitoradas, o índice não era exatamente um recorde, mas já inviabilizava qualquer esperança de alcançar a iluminação e o nirvana em plena rua da Consolação.

Encravado na balbúrdia de carros, ônibus, buzinas e bafo de carburador, o Sesc do bairro promovia um workshop de meditação vedanta. Às 19h30, na Sala Ômega, a coordenadora do evento apresentou o palestrante – Swami Nirmalatmananda – um indiano baixinho de túnica ocre que vinha “adoçar a noite com suas palavras”. Swami Nirmalatmananda, desde 1999 no Brasil, formou-se em matemática, física e química e trabalhou dezessete anos em Calcutá, na sede da ordem Ramakrishna, antes de ser transferido para São Paulo, onde é diretor espiritual de um templo dessa corrente hinduísta.

A princípio, o monge – swami, em sânscrito – se mostra em desacordo com o microfone, mas logo chega a um entendimento com o objeto inanimado e inicia o evento puxando um mantra de paz. Depois, toca a dissertar sobre a unidade da existência, a natureza divina da alma e a filosofia vedanta em geral, trazendo à luz verdades profundas que, para desafio espiritual dos circunstantes, são vazadas num idioma sincrético anglo-lusitano.

Um intérprete está ali para ajudá-lo nos momentos de maior complexidade expositiva. Trata-se de um sujeito que traz um molho de chaves pendurado no cinto e que passa o tempo todo analisando as próprias unhas, tarefa na qual visivelmente se concentra. Às vezes, distraindo-se, traduz do português para o português. O monge diz: “Concentração é o controle da energia de toda substância mental pela força de vontade.” Chacoalhando as chaves, o intérprete traduz: “Ele disse que concentração é o controle da energia de toda substância mental pela força de vontade.”

Conforme explica Nirmalatmananda, a meditação é um método para chegar ao âmago do Ser Supremo, realidade transcendente e impessoal, subjacente a tudo o que existe – a nós, inclusive, daí a expressão “autoconhecimento do Ser Supremo”. Etimologicamente, veda significa “conhecimento” e anta é a essência dos Vedas, os quatro livros que funcionam como a bíblia do hinduísmo. Esse conhecimento, todavia, não é de ordem intelectual, mas, sim, espiritual, em correspondência com a nossa própria natureza divina. É simples.

“Por que devemos buscar isso?”, indaga Nirmalatmananda à plateia de umas cinquenta pessoas, muitas das quais estão ali com a finalidade expressa de passar o tempo enquanto o trânsito não se desafoga. “Porque coloca um fim a todos os sofrimentos para sempre”, esclarece ele. “Liberta de todos os medos, inclusive o da morte. Elimina para sempre todas as dúvidas da vida. Realizando-o, nada mais resta a buscar.”

Evidentemente ansiando por coisa melhor, duas meninas passam a cochichar sobre o que pretendem fazer mais tarde. “Você dorme tarde?”, pergunta uma delas. “Não muito”, responde a outra. O sábio não faz caso e aponta para a tela do PowerPoint, na qual estão arrolados alguns aspectos da natureza do Ser: existência plena, conhecimento infinito, bem-aventurança e unidade. “Existe algo que perpassa todos nós, mas não estamos conscientes”, ele diz. “Quando essa Existência Única é vista em sua essência, é chamada de Ser Uno e Infinito.”

 

Um celular toca, alguém sai da sala para atender. A fim de tornar mais acessíveis os conceitos, o monge escolhe um exemplo: “Pense numa guirlanda. Você a aprecia, mas o que mantém essas plantas juntas? Um fio fino que geralmente não vemos.” A meditação, portanto, seria o fluxo constante e ininterrupto de energia mental que conduz à absorção total e à união com o Ser Uno e Infinito. É o mais elevado estágio de concentração. (Nesse instante, o monge enquadra as adolescentes com um olhar fulminante.) “Onde tem concentração tudo floresce”, afirma swami. (As meninas resistem.)

Num último esforço, o santo homem recorre à imagem de uma abelha que, para sugar o néctar, fica zumbindo e dando voltas em torno da flor, sempre assim, girando e zumbindo – bela alegoria da concentração. Quando ela consegue atingir o miolo, o zumbido some e não há mais abelha separada de flor, existe apenas comunhão, um pleno indistinto de bicho-e-planta.

Na meditação profunda, o estado mental de concentração torna-se um fluxo sem interrupção ou distinção, esclarece melhor swami Nirmalatmananda. Donde, pois, qualquer um dos presentes poderia extrair o corolário de que semelhante estado elimina toda manifestação fenomenológica de celulares e cochichos paralelos. Donde, também, a conclusão irreprochável: naquele momento, a Sala Ômega podia se encontrar em muitos estados, menos o da concentração.

Derrotado pelos risinhos das moças, Swami Nirmalatmananda resolveu partir para a ignorância: conduziria ali mesmo, no ato, uma sessão de meditação. Chegou a cogitar a hipótese de promover a experiência ao longo de meia hora, mas a funcionária do Sesc achou graça e avisou que ninguém ali conseguiria ficar mais de quinze minutos em silêncio. Que fossem quinze, então.

E assim foi. As luzes se apagaram e, monotonamente, swami recitou o mantra Om – o som primordial, o purificador do ego, a súmula da sabedoria, a representação sonora do Universo, o corpo do Absoluto –, seguido da repetição de shanti, o mantra da paz, e de um minucioso controle do ritmo respiratório. De início, ainda se ouviram tossidos e pigarros ou guinchos de cadeiras arrastadas, mas logo só se distinguiu alguma rara intervenção do monge, nada mais. (As meninas viraram estátuas de sal.)

De modo que naquela noite, ao longo de infindáveis quinze minutos, Swami Nirmalatmananda subjugou o rush paulistano, a excitação de duas adolescentes eufóricas, a falta de educação dos celulares e o chacoalhar de chaves do intérprete. Terminada a sessão, agradeceu a presença de todos e foi comer docinhos.



Vanessa Barbara

Escritora e jornalista, é colaboradora do New York Times