chegada

Um muro para chamar de seu

A barreira anti-imigrante de Trump vira brinquedo

Fernanda Ezabella
O produto foi lançado pela marca Maga, abreviatura do slogan <i>Make America Great Again</i>
O produto foi lançado pela marca Maga, abreviatura do slogan Make America Great Again FOTO: MAGA TOYS

Aos 45 anos, o empresário americano Brandon Vallorani já tem sete filhos e um neto. Nenhum deles, contudo, ganhou no último Natal o presente que o próprio Vallorani inventou e colocou à venda: o jogo Build the Wall [Construa o Muro].

O brinquedo possui 101 blocos de plástico cinza e é destinado a crianças com mais de 5 anos. A ideia é que elas usem as peças para fazer uma versão, digamos, lúdica da barreira que o presidente Donald Trump gostaria de erguer na fronteira entre os Estados Unidos e o México.

Ao custo de 29 dólares e 95 centavos (cerca de 113 reais), o conjunto imita um jogo da Lego e ainda traz um bonequinho de Trump vestindo terno azul e um boné vermelho com seu bordão Make America Great Again [Faça a América Grande de Novo]. Na caixa do murinho em miniatura há o desenho de um homem de sombreiro segurando maracas, mas esse bonequinho não vem com o brinquedo. “Imigrante ilegal não incluído”, diz o texto impresso abaixo da figura.

Vallorani afirma ter vendido 25 mil unidades de sua criação logo depois de lançá-la comercialmente, no final de 2018. Usou todo o estoque para fazer as entregas antes das festas de fim de ano. Daí ter deixado a própria prole sem brinquedo. “Mas consegui mandar um jogo para cada um dos nove netos do presidente por meio de um amigo em comum”, contou o empresário numa entrevista por e-mail.

 

Com quinze anos de experiência na venda de mercadorias on-line, Vallorani inaugurou o site KeepAndBear.com em 2016, a fim de promover um filme que ele ajudou a produzir sobre o direito à posse de armas. Depois da vitória eleitoral de Trump, o site cresceu. Tornou-se uma loja virtual especializada em produtos com mensagens conservadoras. Vende camisetas, adesivos, bonés, meias, broches, canecas, bíblias e até café com a imagem de Donald Trump impressa na embalagem. A camisa customizada mais vendida no KeepAndBear pede a construção do muro.

Os brinquedos criados por Vallorani possuem uma marca própria – Maga, abreviação de Make America Great Again. Além do muro de blocos de plástico, a Maga Toys confecciona um soldadinho medieval com espada e escudo, entre outros produtos. À venda por 8 dólares e 95 centavos (cerca de 34 reais), a peça homenageia “nossos ancestrais cristãos” que recuperaram “a Terra Santa do islamismo radical” e “salvaram a civilização ocidental”, segundo a descrição do fabricante.

A Maga também comercializou uma miniatura sorridente de Hillary Clinton com macacão laranja, como se a ex-senadora democrata fosse uma presidiária. Era uma alusão à provocação de Trump durante a campanha de que iria encarcerar a adversária, caso eleito. Os exemplares se esgotaram, mas o brinquedo parou de ser produzido. “Os Clinton nunca nos procuraram para reclamar”, disse Vallorani, que mora na região metropolitana de Atlanta, na Geórgia.

Promessa de campanha de Trump em 2016, o muro provocou a cizânia recente entre o presidente e os congressistas democratas e levou à paralisação parcial do governo americano por 35 dias, a mais longa da história. Trump pedia cerca de 6 bilhões de dólares para construí-lo, mas os parlamentares se negavam a liberar os recursos.

Enquanto o muro não vem, resta aos apoiadores do presidente comprar Build the Wall para seus filhos. Já quem rejeita a barreira não engole a invenção de Vallorani. “É uma doutrinação de nossas crianças”, protestou um opositor do republicano nas redes sociais. “Que tal emparedar o Trump nesse muro?”, escreveu outro. E ainda: “Vamos construí-lo ao redor da Casa Branca para não deixar os criminosos saírem.”

No YouTube, Christopher “Big-C” Smith, pai solteiro, filmou sua filha pequena ajudando-o a abrir a caixa do brinquedo. A menina, vestida com um pijama do Pikachu, se declarou fã tanto de Trump quanto de Barack Obama e se empolgou ao montar o bonequinho presidencial – mais até do que ao empilhar os blocos cinza sem graça. Além do boné, é possível encaixar no alto da cabeça de Trump seus cabelos loiros com penteado característico.

“Não me pareceu nada ruim”, avaliou o pai, que costuma fazer resenhas em vídeo de produtos high-tech. Ele frisou que não foi pago pela KeepAndBear.com. “Achei que era um negócio engraçado, por isso comprei. É coisa de colecionador, algo que vou guardar para sempre.”

A pedido do Esperanza Immigrant Rights Project, grupo de Los Angeles em defesa dos imigrantes, uma agência de publicidade criou um brinquedo parecido apenas para testá-lo com crianças de 6 a 11 anos. “Não conseguimos fazer nada com isso”, resmungaram dois meninos depois de serem apresentados aos blocos já montados. “Eu diria ‘obrigado pelo presente’, mas jogaria fora no dia seguinte”, comentou outro. Um vídeo com o teste está no canal que o grupo mantém no YouTube.

 

A eficácia do paredão de Trump, que tem como objetivo reduzir a imigração ilegal no país, também vem sendo questionada, mas Vallorani segue firme em suas convicções. “Não construímos muros porque odiamos as pessoas do lado de fora. Nós os construímos ao redor de nossas propriedades porque amamos as pessoas que estão do lado de dentro e queremos protegê-las”, afirmou o empresário, que se orgulha de ser de uma família de imigrantes italianos – “imigrantes legais”, fez questão de dizer.

Vallorani gosta de aparecer nas fotos usando ternos bem cortados e, às vezes, uma correntinha com crucifixo no pescoço. Ele também vende charutos e vinhos on-line. Define-se como um “conservador compassivo” e tece uma ou outra crítica aos republicanos. É contrário à separação de crianças e pais imigrantes detidos na fronteira, prática promovida pelo governo Trump. Defende ainda que o partido do presidente faça mais pelas “pessoas de bem que querem ser americanas e as ajude a entrar com segurança e de forma legalizada nos Estados Unidos”.

No passado, o empresário pensou em oferecer produtos também para o público progressista. A iniciativa, porém, não deu certo. “Não consegui ter a mesma paixão”, admitiu. “E paixão é a chave para um negócio de sucesso.”

Fernanda Ezabella

Fernanda Ezabella, jornalista, é correspondente da Folha de S.Paulo em Los Angeles

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