esquina

Um pouco de luz

A diretora paraguaia Paz Encina busca seu lugar no Brasil

Alcino Leite Neto
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2020

No apartamento de dois quartos que alugou em Laranjeiras, no Rio de Janeiro, o lugar preferido da diretora de cinema paraguaia Paz Encina é um sofá branco perto da janela. Todo dia, ela se senta ali para trabalhar e ver a luz do sol deslizar pela sala. “Vejo o tempo passar”, ela diz.

Um dos principais nomes do cinema sul-americano, Encina tentou voltar a Assunção assim que começaram a ser tomadas medidas de proteção no Brasil contra a Covid-19. Não conseguiu: foi impossível achar um lugar nos últimos voos que saíram para o Paraguai. Pesou também na sua decisão de ficar no Rio o aviso de que ela, ao chegar a seu país, seria levada imediatamente para uma quarentena obrigatória – num quartel militar.

O Paraguai resolveu se proteger contra o novo coronavírus antes do Brasil, a partir de 10 de março. “Foi uma ótima medida, porque o sistema de saúde público e privado paraguaio é muito vulnerável”, afirma a diretora. Ela acompanhou atentamente as notícias de lá, desconfiou que o mesmo ocorreria aqui e talvez fosse melhor fazer logo as malas. Mas os acontecimentos foram mais rápidos. “Tudo sucedeu de maneira progressiva, mas também vertiginosa”, diz. “Me parece que estamos todos aprendendo a conviver com a incerteza.”

Quando se deu conta, Encina estava trancada, sozinha, no apartamento em Laranjeiras.



 

Nos dias seguintes, o sono da diretora ficou “desordenado”. Antes, ela ia para a cama às onze da noite e acordava às seis da manhã. Passou a dormir às três ou quatro da madrugada, depois de dar várias voltas pelo apartamento, e a se levantar entre oito e nove da manhã para ver o sol cobrir um morro da Floresta da Tijuca, que ela avista da janela. “Essa colina é o lugar de que mais preciso atualmente”, afirma. “Agora, a luz e a escuridão marcam meu tempo.”

De manhã, ela fala com amigos por celular. À tardinha, com os cinco irmãos (três mulheres e dois homens). Faz suas compras, desinfeta os alimentos e objetos, cozinha, arruma a casa, acompanha as notícias na internet, vê alguns filmes e lê os livros que trouxe do Paraguai, apenas dois, pois não imaginava ficar tantos dias no Brasil: Diario Francés: Vivir A Través de Cristal, do poeta Arnaldo Calveyra, e Bajo Toda la Lluvia del Mundo, do padre e escritor Hugo Mujica, ambos argentinos.

No tempo restante, cuida da montagem de seu novo filme, Eami.

 

Foi por causa de Eami que a diretora de 48 anos desembarcou no Brasil, no início de fevereiro. É seu terceiro longa-metragem, depois de Hamaca Paraguaya (2006) e Ejercicios de Memória (2016), os dois premiados várias vezes em festivais na Europa e na América Latina – o primeiro ganhou, inclusive, o prêmio da Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica no Festival de Cannes.

No Rio, Encina trabalhava com a montadora brasileira Jordana Berg quando precisou suspender toda atividade. Berg a convidou para passar a quarentena no interior do estado, mas a diretora preferiu ficar na capital, para ter melhor acesso à internet e poder conversar facilmente com os parentes no Paraguai. Agora, as duas tentam encontrar maneiras de continuar a montagem do filme, mesmo distantes uma da outra. “Às vezes, montamos online. Recorremos a um aplicativo e vamos inventando formas”, conta a diretora.

Na língua dos indígenas ayoreos, eami significa ao mesmo tempo “monte” e “mundo”, o território onde eles vivem, no Chaco paraguaio. “Meu filme é a história do desterro de alguns indígenas. Eles são obrigados a abandonar seu lugar. É uma perda. Quase todos os meus trabalhos são sobre perdas.”

São principalmente sobre perdas concretas de pessoas humildes e humilhadas, expressas em seus filmes com intensidade poucas vezes encontrada no cinema. A visada social e política da diretora não segue, porém, as convenções da ficção ou do documentário. Ela prefere enveredar muito livremente por um caminho mais difícil, em que o cinema se faz observação minuciosa, contemplação sem pressa e escuta atenta dos que foram marginalizados e ofendidos pela história.

Dessa maneira, e com poucos elementos (uma paisagem, um lugar, alguns corpos, os gestos miúdos, as falas musicais, a luz que vem e some), seus filmes buscam tornar sensíveis ao espectador algo do impalpável da vida: o fluir do tempo, as esperas e expectativas, o ponto em que a memória pessoal encontra a coletiva, o confronto entre a fragilidade das pessoas e a brutalidade dos fatos, e tudo o que vai se perdendo sem notar.

O modo singular de Encina ver o mundo, as coisas do mundo e a história de indivíduos e coletividades faz de seu cinema uma linguagem sem fronteiras, que se expande também na forma de vigorosas instalações, como El Aroma del Viento, que ela fez a convite da Fundação Cartier, em Paris.

 

Em janeiro último, a diretora descobriu ter um cavernoma (uma doença vascular no cérebro). O tratamento não deixou sequelas, mas seu sistema imunológico ficou um tanto debilitado.

Quando chegou ao Rio, ela decidiu fazer uma série de posts no Instagram que chamou de “Diário da montagem”. Mas seu objetivo não era relatar o dia a dia do trabalho. “Queria ter um registro meu, de um processo interno meu, saber o que se passava dentro de mim a partir do que captavam os meus sentidos, quase que como uma prova de vida.”

Com a chegada da pandemia à América do Sul, o diário ficou mais eclético, mesclando comentários pessoais com fatos do dia a dia, notícias da quarentena aqui e no Paraguai, a reação das pessoas nas redes sociais.

O diário é também um testemunho de sua solidão e introspecção, um trabalho cotidiano que a ajuda a se situar no mundo, como num post em que anotou, debaixo da foto de uma cadeira na semiobscuridade: “Uma cadeira, e um pouco de luz, aqui está minha casa.”

Como muita gente, Encina poucas vezes tem saído de casa. Quando o faz, vai munida com uma máscara, claro, e cuida de manter distância das pessoas, como mandam as regras da quarentena.

Numa dessas manhãs vazias, quando ia ao supermercado, foi surpreendida na rua por um cumprimento: “Bom dia.”

Ela procurou quem falava e viu que era um senhor numa janela, no segundo andar de um prédio. “Meus olhos se encheram de lágrimas, pois fazia muito tempo que eu não falava pessoalmente com alguém.”

Eles se entreolharam por um instante, e ela respondeu: “Bom dia.”

Alcino Leite Neto

Editor-executivo da piauí, foi editor da Ilustrada e cadernos especiais, na Folha de S.Paulo, e correspondente do jornal em Paris

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