esquina

Uma casa para Lala

A arquiteta da favela de Manguinhos

Tiago Coelho
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2019

Era para a casa de Patrícia Oliveira que Layla Rocha, a Lala, como é mais conhecida, sempre corria quando as coisas ficavam difíceis em sua própria casa. Uma vez, a mãe decidiu cortar à força os longos cabelos da criança e vociferou: “Você é menino, Wallace. Tá querendo virar paquita?” Com os cabelos aparados e muito magoada, a menina transexual ia buscar consolo junto à amiga e vizinha. “Lala sempre foi rejeitada”, disse Oliveira, hoje com 39 anos. “Como eu a acolhia, ela grudou em mim. Passou a fazer parte do meu bonde.”

Patrícia Oliveira também defendia Lala das hostilidades na favela de Manguinhos, onde ambas cresceram, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Certa madrugada, alguém ligou para avisar que a amiga estava apanhando na rua, depois de enfrentar um grupo de homens que a provocara com ofensas. Oliveira pulou da cama e foi ajudá-la. “Lala é um amorzinho, não gosta de briga”, disse. “Mas tem hora que o sangue sobe, né, mona. Não dá para aguentar”, acrescentou Lala, enquanto as duas caminhavam por uma rua em Manguinhos.

Quando Oliveira se casou, construiu a casa com que sempre sonhara sobre a laje do imóvel térreo da avó. “Era linda. Tinha revestimento cerâmico na área externa, uma varanda com parapeito de blindex e até um balanço”, recordou. Com 120 metros, a residência também chamava a atenção da polícia, que frequentemente entrava no local, achando que pertencia a traficantes. “Eles não aceitavam que um morador de favela pudesse viver num lugar decente.” Na casa feita com esmero, Lala continuou a ser muito bem-vinda.

 

Em 2011, a chegada em Manguinhos do Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC, separou as duas vizinhas. Muitas moradias da favela foram derrubadas para a abertura de uma avenida e de uma estação de trem – entre elas as casas de Oliveira e Lala. A especulação imobiliária veio em seguida, e o valor dos imóveis subiu muito acima do que o governo do estado estava disposto a pagar de indenização pelas casas demolidas. “O Estado já lesa a gente que é pobre de tantas formas. Da minha casinha eu não ia abrir mão facilmente”, disse Oliveira.

Durante as negociações com o governo, intermediadas pela associação de moradores, Oliveira bateu o pé e conseguiu que pagassem um preço mais justo pela casa, elogiada até pelos engenheiros do PAC. Com o dinheiro, conseguiu comprar outro imóvel num lugar mais tranquilo e seguro no mesmo bairro. As reformas que fez deixaram a nova residência tão bonita quanto a anterior.

Lala dividiu a indenização de sua casa com o irmão. Com 15 mil reais na bolsa, pensou em adquirir uma quitinete na favela, mas acabou indo morar com uma vizinha, a quem emprestou parte do dinheiro – nunca devolvida. Cogitou comprar um apartamento num prédio do Minha Casa Minha Vida, na Zona Oeste. Também desistiu, depois de lhe contarem que transexuais não são bem-vistas por milicianos, que muitas vezes controlam as áreas onde ficam esses condomínios no Rio. Pouco a pouco, gastou todo o dinheiro que recebera e passou a viver em casas de familiares ou amigos.

Estimulada pelos elogios dos engenheiros do PAC à sua antiga casa, Oliveira matriculou-se em 2013 no curso de arquitetura e urbanismo da Unisuam, o Centro Universitário Augusto Motta, após obter uma bolsa de estudos pelo Prouni. Era a única negra na sala de aula. Na adolescência, ela gostava de imaginar o que faria para deixar a favela mais bonita e despertava sua imaginação a Igreja de São Daniel Profeta, em Manguinhos, projetada por Oscar Niemeyer e inaugurada em 1960. Quando se formou, no ano passado, resolveu se dedicar a projetos de moradia para favelas, tema que passava ao largo do currículo universitário. Decidiu que seu primeiro projeto seria uma casa para Lala, que tem atualmente 30 anos e é cabeleireira.

Em Manguinhos, Oliveira conseguiu com a associação de moradores a doação de um pequeno terreno de 20 metros quadrados e encarou o desafio de, nesse pequeno espaço, fazer uma casa que atendesse às necessidades básicas da amiga e fosse também seu local de trabalho: uma cozinha americana, um pequeno banheiro e uma sala com um sofá-cama, um espelho e uma cadeira de salão de beleza.

No início de maio, Oliveira convidou Lala para ver as fundações da futura casa: estavam prontas a base e as colunas. Uma parte do material foi doada por lojas de construção da favela, mas a obra vem sendo financiada principalmente pela própria arquiteta, que já gastou cerca de 3 mil reais. Como o dinheiro acabou, Oliveira passou a pedir doações em seu perfil no Facebook. Ela trabalha como freelancer no setor administrativo da Biblioteca Parque de Manguinhos, enquanto não consegue emprego na área de arquitetura.

 

Depois da visita à construção, as duas amigas foram tomar Coca-Cola num dos quiosques da Rambla Carioca, a parte de baixo da portentosa estação de trem de Manguinhos. “Sabe qual é a diferença entre um arquiteto favelado e um favelado arquiteto?”, perguntou Oliveira. “O arquiteto favelado faz coisas para a favela sem buscar entender o que a favela precisa. O favelado arquiteto vive na favela e sabe do que ela precisa, mas ninguém o ouve. Olha o que se formou em volta dessa estação.” No entorno da Rambla Carioca havia moradores de rua, alguns deles usuários de crack.

A arquiteta continuou. “Com o dinheiro que gastaram na estação, podiam ter feito mais espaços de lazer. No miolo da favela, onde o bicho pega, não tem nada para as crianças. Podiam ter feito uma boa limpeza no rio Faria-Timbó, que todo verão transborda e alaga Manguinhos. Eu tive que elevar a casa da Lala em 1,5 metro para ela não sofrer com enchentes.”

Logo no início da faculdade de arquitetura, Oliveira aprendeu a elaborar um “programa de necessidades”, ou seja, tudo que é imprescindível para o cliente no projeto que vai ser realizado. “Quando perguntei pra Lalita o que ela queria, ela respondeu apenas uma coisa. Fala aí, Lala!”, pediu Oliveira, sorrindo. “Ah, mona, um terraço, né?”, respondeu a cabeleireira. “Ela pediu um espaço de lazer no terraço com um chuveirão para poder bronzear a bunda. Prioridades né, gata?”, arrematou Oliveira, com uma piscadela para a amiga.

Tiago Coelho

Repórter da piauí e roteirista

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