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    CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2022

esquina

Uma creche no museu

Brasileira faz arte para bebês (e adultos) na Documenta

Tatiane de Assis | Edição 194, Novembro 2022

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De Kassel

Eram cerca de cinco da tarde do dia 25 de setembro, em Kassel, cidade no Centro da Alemanha onde acontece uma das mais importantes mostras de arte do mundo, a Documenta. Como aquele domingo era o último dia do evento, havia um clima de despedida no Museu Fridericianum, o epicentro da mostra, realizada a cada cinco anos.

No piso térreo do museu estava instalado o trabalho de Graziela Kunsch: Creche Parental Pública. O título não é metafórico. A obra da artista paulistana de 43 anos era, de fato, uma creche.

Em outros dias da mostra, a algazarra das crianças animava o espaço. Naqueles momentos finais, porém, a creche estava quase vazia: havia apenas uma criança e sua mãe. Um vídeo em que Manu, a filha da artista, aparece brincando ainda era exibido no primeiro ambiente. Dali se passava para uma sala onde estavam expostos livros sobre a abordagem pedagógica que orientou a artista, elaborada pela pediatra húngara Emmi Pikler (1902-84). Depois, chegava-se a um pequeno playground, construído sobre um tablado com areia, no qual havia vários objetos e redes para balançar. Uma pequena escada levava a um terracinho cercado com gradeados de madeira.

Para crianças de 0 a 3 anos, Pikler não indicava brinquedos de uso predeterminado – como o bicho de pelúcia para abraçar ou um teclado em miniatura para tocar. Ela acreditava que nessa fase da infância é mais adequado oferecer objetos de uso cotidiano à criança, o que, aliás, torna as suas práticas de aprendizado acessíveis a famílias de diferentes estratos sociais.

A pediatra tem uma visão heterodoxa da autonomia da criança – ela não usa a palavra “dependência” para definir a relação entre as crianças e seus pais. Para Pikler, há situações em que a cooperação entre adultos e pequenos é fundamental, como a amamentação, a troca de fraldas e o banho. “São momentos de qualidade, em que é preciso olhar nos olhos, cuidar para que a voz seja suave, e o toque, respeitoso”, diz Kunsch. “Nós antecipamos, em voz alta, tudo o que faremos e damos tempo para o bebê pensar por si e responder. Ele pode não verbalizar, mas a comunicação entre a mãe e a criança pode se dar por um sorriso.”

Em outros momentos, contudo, a participação dos adultos deve ser mínima, como durante as brincadeiras, quando a criança deve agir de maneira livre e autônoma. Os adultos precisam estar por perto, mas devem se abster de dirigir o corpo da criança, que vai aprender sozinha a rolar, sentar e andar.

 

Graziela Kunsch foi a única brasileira a integrar a Documenta. A representação da América Latina se revelou bastante tímida, o que parece estranho, porque o ruangrupa, coletivo artístico da Indonésia que assumiu a curadoria desta edição da mostra, prega a decolonização da arte. Na seleção de artistas, porém, houve uma participação expressiva de artistas asiáticos e africanos.

A curadoria do ruangrupa foi a segunda não europeia na história da Documenta – depois do nigeriano Okwui Enwezor –, criada em 1955. O grupo indonésio orientou suas escolhas a partir do conceito de lumbung, palavra que em indonésio designa um celeiro comunitário onde se guarda o arroz excedente das colheitas. A ideia central é a de colaboração: o arroz do lumbung é um bem coletivo.

O ruangrupa teve que enfrentar uma das maiores polêmicas da história da Documenta, acusado de incluir obras de cunho antissemita na mostra. Uma delas foi o painel do grupo indonésio Taring Padi no qual aparecia uma figura com focinho de porco, uma estrela de Davi na roupa e um capacete onde se lia “Mossad” – o serviço secreto de Israel. O Taring Padi explicou que a imagem havia sido produzida em outro contexto, mas o escândalo já tinha se alastrado e levou à renúncia da diretora-geral da exposição, Sabine Schormann.

Dentro da própria Documenta, o episódio suscitou visões dissidentes. Membros do comitê que faz a seleção de curadores divulgaram uma carta aberta dizendo rejeitar “tanto o veneno do antissemitismo quanto sua instrumentalização atual, que está sendo feita para desviar as críticas ao Estado israelense do século XXI e sua ocupação do território palestino”.

 

Outra polêmica veio de críticos na imprensa. Para eles, havia numerosos trabalhos de teor social ou polêmico, com reivindicações de todo tipo, mas de escassa elaboração formal. De olho sobretudo na tradição europeia e dando as costas às questões colocadas pela criação contemporânea, eles perguntaram, com uma dose de maldade: Onde está a arte na Documenta?

“As pessoas têm diferentes entendimentos do que é arte, e alguns desses entendimentos são orientados pelo mercado”, responde Graziela Kunsch. Ela ressalta que parte do Museu Fridericianum foi transformado pelos curadores em uma escola, com  projetos de arte e educação. “Quem não tenta entender esse gesto curatorial e fica buscando ali uma exposição tradicional, pode se frustrar. Essa é a primeira vez que uma exposição de larga escala, como a Documenta, tem bebês como público e, mais que isso, como protagonistas, respeitados como sujeitos do seu próprio desenvolvimento.”

Kunsch tem planos de replicar a Creche Parental Pública na Casa do Povo, centro cultural em São Paulo, neste fim de ano ou em 2023. Ao mesmo tempo, negocia a permanência da obra em Kassel. Foi um pedido feito por famílias locais, que, se tudo der certo, também assumirão a gestão da creche.