esquina

Uma orquídea em pedra

A crise da banda mais antiga do Rio

João Carvalho
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2015

O policial militar aposentado Venâncio Manoel Pinto desligou a tevê e escolheu um álbum da sinuosa pilha de CDS equilibrada na estante da sala. Limpou a poeira da caixinha com a mão e colocou o disco no aparelho de som, que passou a reproduzir o trecho mais famoso da , conhecido como Jesus, Alegria dos Homens, de Bach. Grave e concentrado, o ex-PM regia com os braços uma orquestra imaginária.

Vez ou outra, no entanto, ele interrompia os gestos ritmados para exercer sua segunda paixão: contar histórias e emitir opiniões sobre os mais variados assuntos. “A música tem que irradiar amor, paz, fraternidade”, disse, antes de retomar a regência fictícia.

Quem espiasse da rua a cena na casa térrea de muro baixo e portão azul onde ele mora, em Pedra de Guaratiba, na Zona Oeste do Rio, talvez pudesse tomá-lo por excêntrico. Mas aquele senhor de 70 anos, olhos miúdos e cabelos grisalhos bem penteados, sabia muito bem o que estava fazendo. Venâncio Manoel Pinto é, há 35 anos, maestro da mais antiga banda de música em atividade no município do Rio de Janeiro: a Sociedade Musical Deozílio Pinto. O nome homenageia o avô de Pinto, também regente da banda no início do século XX.

O conjunto de instrumentos de sopro e de percussão foi fundado em 1870, quando o local ainda era a freguesia de São Salvador do Mundo de Guaratiba e dom Pedro II ocupava, sossegado, o trono do país. Hoje com quase 10 mil habitantes, o bairro fica a uma hora da Barra da Tijuca, pelo sistema de corredor exclusivo para ônibus. Pedra, como é conhecida entre os moradores, tem poucos prédios e ares de cidade do interior.

Sua mais importante e tradicional instituição cultural já viveu dias melhores: chegou a ter 37 integrantes e patrocínio privado. Agora, sem recursos, conta com metade do efetivo dos tempos áureos: dezenove músicos, que se dividem em quatro clarinetes, três trombones, três saxofones tenores, três trompetes, duas tubas, um saxofone alto, uma flauta, um bombo e uma bateria.

No auge do sucesso, a banda promovia uma média de quinze shows anuais, em todo o estado do Rio, que foram minguando com o passar dos anos. A última apresentação ocorreu no próprio bairro, em junho de 2014, na Festa de São Pedro, o padroeiro dos pescadores. No final de maio passado, Pinto se preparava para voltar a reger, depois de um ano de recesso.

“A nossa banda está esfacelada”, admitiu o regente. “É muito triste, as bandas de música, todas elas, estão acabando.” O ex-policial culpa os jornalistas e o rebaixamento do gosto musical da população pela debacle sinfônica. “É por causa da imprensa que hoje a gente vê o funk e o pagode fazerem tanto sucesso”, argumentou, com óbvio desdém pelas três atividades.

Professor da Escola de Música da UFRJ, Marcelo Jardim tem opinião dissonante. Afirma que o declínio das bandas não é um processo novo. “No início do século XX, eram comuns as apresentações em coretos da cidade. Mas nas décadas de 20 e 30, com o surgimento do rádio, o público das bandas caiu um pouco. O aparelho tirou as famílias das praças.” Apesar da importância menor que os conjuntos passaram a ter, não é preciso muito para que eles continuem a existir, argumenta Jardim. “A banda, para mim, é como uma orquídea, que sobrevive com uma gota de água por ano.”

 

A crise transformou a casa de Venâncio Manoel Pinto – um quarto, sala e cozinha – num empoeirado museu dedicado à música. Há partituras espalhadas por todos os cantos, até no chão da garagem. “Já faz um mês que a moça da limpeza não vem”, justificou-se. Quinze dias depois, pouca coisa havia mudado. Não só a partitura continuava na garagem, como permanecia intocado o tufo de poeira sob a mesa de tampo de vidro da sala – onde se aninhavam papéis velhos, contas de luz e um livro de regência. O maestro vive só, mas recebe a visita dos três filhos. O mais assíduo é o clarinetista Beethoven, de 36 anos.

Enquanto a orquídea de Pedra de Guaratiba murcha, outra flor cultivada por Pinto já feneceu. Numa das paredes da casa, pintadas num rosa desbotado, o maestro pendurou com orgulho o título de cidadão de Mangaratiba, município do litoral sul do estado. Entre os serviços prestados por ele à população mangaratibana está a criação da banda municipal, que comandou por mais de uma década. No início deste ano, contudo, o prefeito da cidade – que logo depois seria acusado de desviar recursos públicos e afastado do cargo pela Justiça – alegou falta de verbas para manter a formação.

A decepção maior veio em seguida: a banda foi reabilitada, mas outros músicos acabaram sendo contratados para tocar no lugar do ex-PM e de seus subordinados. A despedida de Mangaratiba foi um golpe duro para o maestro. Na maioria das vezes em que falou sobre o assunto, tinha os olhos cheios d’água.

Resta a banda de Pedra. A vida do maestro e a da Sociedade Deozílio Pinto se confundem num grande caderno de páginas amareladas em cima da mesa da cozinha. É o álbum de fotos em que ele guarda as recordações de dias mais gloriosos para o conjunto musical, misturadas a uma espécie de autobiografia em terceira pessoa. As primeiras imagens mostram o ex-policial ainda bebê, acompanhadas de uma frase no alto da página: “Eis que, em 1945, surge em Pedra um nascimento normal. Um menino que, na pia batismal, recebeu o nome de: Venâncio Manoel Pinto.”

Quando fala do passado, o maestro se anima. Revive as histórias, quase sempre em pé, para melhor interpretar uma cena. Mesmo a banda de Pedra de Guaratiba já é tratada por ele nesse registro, como um capítulo encerrado de sua biografia. “Foi bom, valeu a pena”, ele disse sobre o conjunto, em mais de uma ocasião.

Num único momento, entre fotos e recordações, mencionou planos para o futuro. “Sabe o que eu tenho vontade de fazer quando não estiver mais com a banda?”, perguntou, numa pausa das reminiscências. Ele próprio respondeu: “Ir para um asilo. Cuidar dos idosos. Quero chegar lá e perguntar: ‘Sobre o que vocês querem falar?’ E ouvi-los.”

João Carvalho

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