anais do crime

Uma paixão de outrora

A história de amor e morte que movimentou São Paulo nos anos 20

Boris Fausto
De família tradicional, o advogado e escritor boêmio Moacyr de Toledo Piza se apaixonou por Nenê Romano, nascida Romilda Machiaverni. Ela preferiu a vida de cortesã à exclusividade rotineira de um amante obsessivo
De família tradicional, o advogado e escritor boêmio Moacyr de Toledo Piza se apaixonou por Nenê Romano, nascida Romilda Machiaverni. Ela preferiu a vida de cortesã à exclusividade rotineira de um amante obsessivo

Entro no Cemitério da Consolação, atravesso o pórtico de entrada e percorro, em linha reta, um corredor de árvores enfileiradas. Fundado em 1858, o cemitério narra, à sua maneira, uma parte expressiva da história de São Paulo. Lá estão, gravados nos jazigos, nomes tradicionais como os Almeida Prado, os Álvares Penteado, os Pereira de Queirós. Lá estão também os traços do cruzamento de famílias brasileiras da elite com imigrantes enriquecidos – os Silva Prado e os Crespi, por exemplo. Lá estão, ainda, os mausoléus espetaculares de sírios e libaneses, os túmulos grandiosos de italianos e seus descendentes.

Tenho, porém, um destino certo. Deixo a aleia, viro à direita, passo por uma fantástica miniatura que se ergue para o alto, reproduzindo, em mármore de Carrara, a Catedral de Milão. Ultrapasso um cruzeiro onde as velas acesas lutam contra o vento e chego a uma sepultura, com localização discreta, próxima à parede dos fundos do cemitério. É um belo jazigo de granito cinza, escultura de uma mulher nua, de seios fartos, pernas longas e torneadas, cabeça baixa apoiada em um dos braços, tendo diante de si uma esfera. Há na lápide uma inscrição: Moacyr Piza 1891–192… Caiu o último número do ano de falecimento, sem que alguma mão caridosa tivesse se preocupado com a reposição. Mas quem conhece a história de Moacyr sabe que ali se inscreveu o ano de 1923.

A escultura é obra de um artista de renome em sua época, Francisco Leopoldo e Silva, que lhe deu o título de Interrogação. Esse título parece expressar a incompreensão ante a morte trágica e prematura de uma figura de destaque da sociedade paulistana. Moacyr de Toledo Piza era membro de uma família tradicional, cujos ancestrais chegaram ao Brasil ainda nos tempos da Colônia. Cursou a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco e recebeu o grau de bacharel em 1915. A princípio, foi delegado de polícia em cidades do interior paulista, mas acabou fixando residência em São Paulo, onde instalou sua banca de advocacia. Ele não se limitou, porém, à rotina profissional. Logo se destacou na escrita, não tanto por seus versos, mas por uma prosa irônica e desabrida. Havia entre seus companheiros de atividade literária dois personagens muito originais. Ambos se situavam à margem da estética modernista que provocou escândalo na famosa Semana, realizada no Theatro Municipal em fevereiro de 1922. Um deles era Hilário Tácito – pseudônimo do engenheiro José Maria de Toledo Malta –, autor de um romance de costumes, Madame Pommery. Empregando os recursos da ficção-verdade, o livro traz à cena Madame Pommery, supostamente uma francesa, que instalara um bordel de luxo em São Paulo, com o nome sedutor de Au Paradis Retrouvé. Na verdade, Pommery se chamava Ida Pommerikowski, judia polonesa que veio tentar a sorte nestas plagas. O texto focaliza o bordel, frequentado por “coronéis” e políticos, retratando um momento da passagem da cidade provinciana à urbe cosmopolita, cuja elite vinha trocando as cervejadas pelo borbulhar do champanhe.

O outro amigo de Moacyr era Juó Bananére, “baolista [corruptela de paulista] de Pindamonhangaba”, um italiano que mantinha uma barbearia num local pobre do Centro da cidade, a ladeira do Piques, junto ao Largo da Memória. Bananére nasceu da imaginação do engenheiro Alexandre Ribeiro Marcondes Machado e ganhou vida própria, a ponto de se tornar mais conhecido que seu criador. Por meio de uma linguagem macarrônica, misto de português e italiano, Ribeiro Marcondes Machado deu vazão a seu personagem, crítico dos grandes políticos, analista irônico dos fatos internacionais e das relações entre italianos e brasileiros na cidade de São Paulo. Já na década de 10, ele publicava na revista satírica O Pirralho, dirigida por Oswald de Andrade, uma coluna intitulada“As cartas d’Abax’o Piques”. Como lembra Carlos Eduardo S. Capela, em Juó Bananére: Irrisor, Irrisório, Juó foi parceiro de Moacyr Piza num livrinho de poemas satíricos, intitulado Galabáro: Libro di Saniamento Suciali / Calabar. A primeira parte, em dicção macarrônica, foi escrita por Bananére; a segunda, em português, por Moacyr Piza, atrás do pseudônimo Antonio Paes. O traidor apontado no título era o cônego Valois de Castro, que supostamente teria aderido à Alemanha no período da Primeira Guerra Mundial, então em curso. Um anúncio da publicação de Galabáro proclamava: “Calabar di Juó Bananére i Antonio Paes – Estupendimo livrio di scugliambaçó co padri chi abracciô u allem! – avenda in tuttas part-! – 1$000 cada uno.”

Na grande leva da imigração em massa dos últimos anos do século XIX, desembarcou em Santos, no ano de 1899, um casal de imigrantes italianos pobres, como era a regra geral. O casal trazia em sua companhia uma filha de 2 anos, que ensaiava então suas primeiras frases. Seu nome, Romilda Machiaverni. A família foi morar no Brás, bairro separado do Centro por irritantes porteiras, que se abriam e fechavam, manualmente, em função da passagem dos trens pelos trilhos da ferrovia Santos–Jundiaí. No mundo de além-porteiras, que incluía a Mooca, o Belém e o Belenzinho, concentrava-se um grande número de imigrantes, de várias nacionalidades, com predominância de italianos e espanhóis. Se os homens eram operários ou pequenos comerciantes, as mulheres se dedicavam a múltiplas tarefas domésticas. Ou, então, empregavam-se nas fábricas de tecidos da região, costuravam para fora, tornavam-se empregadas nas casas dos bairros mais favorecidos.

Romilda cresceu e começou a trabalhar em seu meio, como costureira. Em pouco tempo, arranjou um emprego como camareira num hotel do Centro da cidade e afastou-se do Brás. Sua pobreza tornava remota a possibilidade de ascender pela via do casamento. Mas ela tinha um trunfo valioso: uma beleza incomum, um rosto iluminado por lindos olhos castanhos.

Não demorou a despertar a atenção de homens jovens e não tão jovens, integrantes da elite paulistana. Foi assim, em pouco tempo, que Romilda Machiaverni se transformou em Nenê Romano – uma nova personagem, não apenas no nome, mas também no vestuário e nos adereços que passou a usar. Deixou para trás o nome de batismo, de ressonância desagradável, e trocou, ao mesmo tempo, as roupas modestas de arrumadeira por vestidos requintados, chapéus, meias de renda, lenços, colares, luvas – enfim, todo um arsenal adequado à sua nova identidade.

Por volta de 1920, São Paulo contava com quase 600 mil habitantes. Não podia se comparar ao Rio de Janeiro, mas tinha já uma vida noturna, com seus cinemas, restaurantes, teatros e casas de prostituição, que iam das mais miseráveis às chamadas “pensões alegres”. No livro História da Prostituição em São Paulo, Guido Fonseca descreve o mundo desses estabelecimentos, frequentados pela jeunesse dorée atrás deprostitutas bonitas, numa atmosfera em que não faltava champanhe francês (ou fabricado como francês, nas fabriquetas do Brás), cocaína e até mesmo ópio. No imaginário da época, a sexualidade pecaminosa estava associada à França. Daí o nome da maioria das pensões alegres: Pension Royale, Palais Elegant, Maxim’s, Maison Dorée. Nenê certamente frequentou algumas dessas casas. Mas, à medida que sua clientela cada vez mais se concentrava em personagens que demandavam sigilo, ela passou a recebê-los em casas por ela alugadas. Quem seriam seus clientes ilustres? Falava-se, entre outros, no senador Rodrigues Alves, no deputado Rodolfo Miranda e, principalmente, em Washington Luís, àquela altura a figura política mais importante de São Paulo, como presidente (governador) do estado.

Nas primeiras décadas do século XX, o Carnaval paulistano se diferenciava conforme os bairros. Havia o Carnaval “italiano” do Brás, que combinava inspirações peninsulares com a apropriação de estilos locais; o da Barra Funda, caracterizado pelos cordões, raros em outros pontos da cidade, com predominância de negros e mulatos. O Carnaval da elite tinha, como ponto mais alto, o corso da avenida Paulista. O local se destacava pelos arbustos enfileirados simetricamente ao longo das calçadas; pelo Belvedere do Trianon, de cuja sacada era possível contemplar o Centro da cidade e a linha de montanhas no horizonte; e, sobretudo, pelos palacetes suntuosos, evidenciando o status de moradores da elite tradicional e a riqueza de um punhado de imigrantes. Eles eram, principalmente, sírios, libaneses e italianos que tinham se tornado grandes industriais ou comerciantes e ascenderam na escala social.

Assim era a avenida prestigiosa onde se fazia o corso, tido como um festejo estritamente familiar, uma confraternização entre aqueles que participavam de um universo cultural comum e possuíam um bem escasso – os automóveis de luxo. Além de representar um símbolo de riqueza, esses automóveis, abertos, eram responsáveis por boa parte da graça do corso. Nos assentos, ou sobre a capota arriada dos carros, surgiam na avenida os pierrôs, as colombinas, os apaches, os caubóis, ou, simplesmente, rapazes em traje de pijama. A moçada lançava de um carro a outro confetes, serpentinas e, mais do que isso, olhares promissores e beijos a distância.

Um filme de cerca de cinquenta minutos, exibido num cinema do Centro, registrou as imagens do corso no Carnaval de 1915. Infelizmente, o filme desapareceu e dele temos apenas a ficha técnica. Mas ela é eloquente por conter uma sinopse onde se relaciona o nome das famílias que participaram do desfile. Entre elas, as famílias de Rodrigues Alves, de Washington Luís, dos Toledo Piza, dos Sousa Queirós, de Martinho Prado etc.

O corso era “estritamente familiar”, mas nem tanto. As “meninas alegres” sempre davam um jeito de participar dos festejos, levadas pelas mãos de seus admiradores. Tanto assim que no Carnaval de 1918 vamos encontrar, entre os foliões, Nenê Romano. Em meio às brincadeiras, ocorreu algo trivial, que ganharia importância anos depois, numa visão retrospectiva.

Segundo uma versão, atraído pela beleza de Nenê um rapaz teria lhe passado um bilhetinho convidativo, numa das paradas do desfile de carros. Segundo outra, o rapaz beijara a mão da cortesã, o que significava algo além de um simples galanteio. Bilhete ou beijo na mão, qualquer que tenha sido o gesto, ele indicava a existência de relações mais íntimas entre o rapaz e Nenê. Deduz-se isso também pela fúria que aquele momento fugaz despertou em uma moça apaixonada pelo jovem, de nome Maria Eugenia Junqueira. Ela era filha de dona Iria Alves Ferreira, viúva, que fora casada com um rico membro da família Junqueira. Dona de muitas terras, era proprietária da Fazenda Pau Alto, nas cercanias de Cravinhos, cidade próxima a Ribeirão Preto. Sagrada pelos contemporâneos como “Rainha do Café”, dona Iria era mulher muito influente. Tinha poder econômico e mantinha relações com os políticos paulistas. Tinha também várias faces: de um lado, era uma empreendedora vitoriosa, dedicada a atos de benemerência; de outro, esteve envolvida em acusações de delitos cometidos com a justificativa de lavar a honra familiar. O episódio mais espetacular do lado B de dona Iria foi o chamado “Crime de Cravinhos”, que teve grande repercussão na sociedade paulista, a ponto de dar origem a um filme, lançado em 1920.

A vítima era o francês Alphonse Defforge, com quem uma filha de Iria tinha se casado na França. Como o rapaz, que se dizia “perdidamente apaixonado”, deu mostras de não passar de um caça-dotes, a jovem se separou dele e voltou para o Brasil. Defforge cometeu o erro fatal de seguir seus passos. Em maio de 1920, apareceu morto nas proximidades da Fazenda Pau Alto, em condições aterradoras: rosto descarnado, orelhas e língua cortadas, mutilações no crânio, perfurações nas costas e no ventre. No processo que se seguiu, capangas da fazenda de dona Iria foram acusados do crime, assim como ela própria, na qualidade de mandante. Graças a suas relações sociais e a seus excelentes advogados, ela conseguiu se livrar da acusação.

Na noite de 20 de setembro daquele ano de 1918, quando voltava para casa em companhia de sua criada Adelina Justo, Nenê foi atacada por três homens. Eles a imobilizaram e, a seguir, talharam seu rosto com uma navalha. O modus operandi da violência coincidiu em alguns aspectos com o Crime de Cravinhos, coincidência que ficou reforçada quando os agressores foram identificados como capangas da Fazenda Pau Alto. Detidos e processados, dois deles foram condenados. Quem recebeu a pena mais alta – seis anos de prisão celular – foi o “preto” Ignácio Alves de Carvalho, conforme enfatizou à época o noticiário da imprensa. Maria Eugenia morreu em 1919, vítima da gripe espanhola que se espalhou em São Paulo.

A intenção dos criminosos era marcar o rosto de Nenê, de tal forma que ela, envergonhada, tivesse de sumir da noite paulistana. Mas não foi bem assim. A navalhada deixou uma cicatriz em seu rosto, mas não a ponto de desfigurá-lo. E ela se recuperou, voltando a brilhar como cortesã requestada. Mais ainda, Nenê não deixou por menos a violência de que fora vítima. Entrou com uma ação indenizatória para obter a reparação dos danos sofridos. Por razões previsíveis – quem era ela diante de Maria Eugenia? –, a ação emperrou no fórum. Nessa altura, ela procurou o advogado Moacyr Piza, a quem, provavelmente, já conhecia da noite paulistana.

Não passou muito tempo para que advogado e cliente se transformassem em amantes apaixonados, protagonistas de um caso que se prolongou por cerca de dois anos. A relação, porém, se desgastou pelo lado de Nenê, enquanto Moacyr era tomado mais e mais por uma paixão possessiva, a ponto de descuidar de seu escritório e distanciar-se da roda de amigos. Nenê acabou pondo fim ao romance. Preferiu, aparentemente, a vida de cortesã à exclusividade rotineira de um amante obsessivo, que, não bastasse o resto, já não conseguia dar conta de suas muitas despesas.

Tudo terminaria assim, não fosse a insistência de Moacyr. Suas visitas antes frequentes à casa de Nenê tinham sido barradas. Em meio à crise, ele publicou um livrinho com o título de Roupa Suja, impresso “sem licença do Santo Ofício, no mês de julho do ano da graça de 1923, na mui leal, católica e governamental cidade de São Paulo”. Nessa obra panfletária, que diz muito de sua coragem, de sua agressividade e de sua verve espantosa, o alvo principal é o presidente Washington Luís. Ele é arrasado como historiador, como governante inclinado ao desperdício do dinheiro público, pela “mania” de construir estradas de rodagem, o que, aliás, lhe valeu o apelido de “presidente estradeiro”. Moacyr tomou como verdade – e tinha boas razões para isso – as façanhas amorosas do chefe do Executivo paulista. No texto, ele se refere repetidas vezes à presença de uma “senhora elegante, bela, quase divina e, mais que tudo, alegre” ao lado do presidente, nas comemorações de 7 de setembro e de 15 de novembro de 1922. Há quem afirme que a tal senhora era Nenê Romano. Naquele ano, em que as relações entre Nenê e Moacyr tinham estremecido, teria ele resolvido, num misto de ciúmes e de ressentimento, fazer alusão a ela, em seu implacável livrinho? Seria para Nenê o recado de que, em vez de se apresentar em público, “a mulher elegante, bela, quase divina e, mais que tudo, alegre deveria ter procurado Washington Luís em mais discreto sítio, para iniciarem, desde logo, o século XVII da França no século XX de São Paulo?”.

Moacyr tentou agradar Nenê com presentes, que ela devolveu, como um faqueiro e um buquê de flores, oferecidos no dia de seu aniversário. Ao mesmo tempo que tentava reconquistá-la por todos os meios, demonstrava seu desespero em versos premonitórios, nos quais a certa altura lamentava: Que hediondo crime, que mortal pecado/  Cometi, que me tens por inimigo?// Por que o bem de olvidá-la não consigo? Eu que, do seu amor ando olvidado // Por quê? Bem sinto: é que nos céus, sereno / Só podes compreender o amor divino,/ Nunca, nunca provaste o amor terreno // O amor de uma mulher que é o meu Destino / E cuja boca é a taça de veneno/ Que faz de um homem justo – um assassino!

A história teve desfecho na noite de 25 de outubro de 1923. Nenê chamara um carro de praça para buscá-la em casa quando Moacyr, que rondava a residência, surgiu de repente. Insistiu em juntar-se a ela para ter uma conversa séria. Os dois se sentaram no banco de trás do automóvel e, sem destino certo, foram percorrendo as ruas da cidade. Atravessaram a avenida São João, subiram a avenida Angélica e alcançaram a esquina da rua Sergipe, nas proximidades da Praça Buenos Aires. Nessa altura, três estampidos secos estalaram na noite. Moacyr havia sacado um revólver e disparado três tiros contra a ex-amante. Logo em seguida, disparou um tiro contra o próprio peito. Nenê morreu na hora, não sem antes soltar um gemido e uma palavra: “Ai, Moacyr.” Como este ainda vivia, o motorista conduziu, atarantado, o carro pelas ruas da cidade até chegar à Central de Polícia, situada no Pátio do Colégio, junto à Praça da Sé. Mas pouco antes da chegada Moacyr não resistiu ao ferimento e também acabou exalando o último suspiro, como se dizia nas crônicas da época.

Na esfera dos crimes passionais, o assassinato seguido de suicídio envolvendo pessoas bem conhecidas, ainda que por motivos bem diferentes, produziu um impacto que até então a cidade não conhecera. De sua parte, expressando e, ao mesmo tempo, modelando a opinião pública, a imprensa traçou a personalidade dos dois protagonistas da trágica história. De um lado, figurava a femme fatale, a jovem sedutora, ruína de muitos rapazes, que preferiam pôr fim à vida a perder o objeto de seu amor; de outro, o jovem de excelente família, dotado de muitas qualidades intelectuais, vítima de um encanto destruidor. Ninguém se lembrou de dizer que havia uma vítima real, transformada em vilã da história.

Se o cemitério em que se encontram os restos mortais de Moacyr Piza é conhecido, onde teria sido enterrada Romilda Machiaverni, que em vida se transformara em Nenê Romano? Quase sempre, escritores ou jornalistas que narraram essa história, ou parte dela, apontam o Cemitério do Araçá, localizado a apenas poucos quilômetros do Cemitério da Consolação. O sociólogo José de Souza Martins é uma voz solitária, ao afirmar que Romilda foi enterrada no Cemitério da Quarta Parada, também conhecido como Cemitério do Brás. Sem tratar de esclarecer a divergência dos dados, prefiro aceitar a última hipótese porque ela sugere que a menina vinda do bairro italiano, que se transformara em Nenê Romano, regressou ao bairro em que crescera, de onde nunca mais sairia.

Boris Fausto

Boris Fausto, historiador e ex-professor de ciência política da USP, é membro da Academia Brasileira de Ciências.

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