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Uma sala para Evo

Escritório fecha as portas em SP

Vinicius Mendes
ILUSTRAÇÃO: Andrés Sandoval_2019

Na manhã de 12 de novembro, quando Evo Morales desembarcou no aeroporto da Cidade do México, o militante político Zenovio López visitou pela última vez a sala de cerca de 3 m2 em que havia trabalhado na campanha do ex-presidente boliviano em São Paulo. O espaço, situado nos fundos de um salão de cabeleireiro na Rua Coimbra, reduto de imigrantes bolivianos no bairro do Brás, serviu de diretório do Movimento Al Socialismo (MAS), partido de Evo. Funcionou de setembro até a semana anterior à eleição, ocorrida em 20 de outubro.

Quem ia ao salão não supunha que ali houvesse outro estabelecimento. López ergueu uma parede de gesso para ter alguma privacidade, dividindo bem os espaços. Mas isso não impedia que as conversas no salão invadissem o diretório, e que as discussões políticas fossem ouvidas pelos cabeleireiros e seus clientes. “Não me incomodavam. Também somos masistas”, disse o cabeleireiro Andres Vaca.

Na última visita de López ao local, restavam apenas duas poltronas e uma constelação de pregos nas paredes. “Ali ficava o retrato do presidente”, apontou ele.

 

Zenovio López, de 39 anos, desembarcou em São Paulo na metade de 2017 para visitar a irmã. Resolveu permanecer no Brasil depois que conheceu Jorge Ledezma, cônsul na capital paulista e ex-ministro da Defesa de Evo Morales. Passou a ajudar o consulado em alguns projetos e a idealizar a abertura de um escritório do MAS em São Paulo, estado onde vivem cerca de 90 mil bolivianos (só na capital são 77,5 mil), segundo a Polícia Federal. Como Ledezma não podia tocar o diretório por causa de seu cargo diplomático, coube a López a tarefa.



Natural de Torotoro, a 500 km de La Paz, López fez carreira no sindicalismo. Aos 18 anos, assumiu seu primeiro cargo, na Federación Única de Centrales Unidas (Fucu), um dos sindicatos mais importantes do país. Ganhava 150 pesos bolivianos (o equivalente a 90 reais na cotação atual).

No começo dos anos 2000, conheceu Evo Morales, então presidente da Federación del Trópico de Cochabamba – uma espécie de sindicato dos sindicatos dos agricultores. “A gente chegou a inaugurar escolas juntos”, relembrou López. Na Bolívia, sempre militou por Evo, com quem falava de quando em quando. Antes de migrar para o Brasil, estava dirigindo um departamento da Fucu. Depois que se mudou para São Paulo, empregou-se como overloquista numa oficina de costura, onde ganha cerca de 1,5 mil reais por mês.

 

A oportunidade para abrir uma divisão do partido na capital paulista surgiu em agosto, quando as pesquisas indicaram que Evo Morales enfrentaria, pela primeira vez, um segundo turno eleitoral – contra o ex-presidente Carlos Mesa, do Comunidad Ciudadana. O MAS decidiu então que valeria a pena lutar pelo voto dos 45,8 mil imigrantes no Brasil aptos a participar da eleição neste ano, segundo números do Órgano Electoral Plurinacional (OEP), responsável por organizar as eleições na Bolívia.

No primeiro momento, a ideia era fazer do pequeno escritório a base da campanha eleitoral. Mas havia outros planos no horizonte. “O sonho era que nessa sala a gente construísse o primeiro deputado ou senador de origem boliviana da história do Brasil”, contou López.

Em 31 de agosto o diretório foi inaugurado, com a presença de autoridades bolivianas, como o então vice-ministro de Gestão Institucional e Consular da Bolívia, Raúl Castro, e o cônsul Jorge Ledezma. O aluguel, contratado em nome de López, era pago com a ajuda de empresários bolivianos e de uma vaquinha mensal de apoiadores. Uma única secretária trabalhava no escritório, às vezes agitado com as idas e vindas dos militantes.

Todos se movimentavam também para trazer Evo Morales à capital paulista. Tanto mais que, até setembro, dois candidatos às eleições presidenciais já haviam visitado seus conterrâneos na cidade: o senador Óscar Ortiz, da aliança de centro-direita Bolivia Dice No, e o empresário Chi Hyun Chung, do direitista Partido Demócrata Cristiano (PDC), chamado pela imprensa de “Bolsonaro boliviano”.

 

As eleições ocorridas em 20 de outubro deram a vitória a Evo Morales, com 47% dos votos. Em segundo lugar, ficou Mesa, com 36,5%. Chung alcançou o terceiro posto, com 8,8%; e Ortiz, o quarto, com 4,2%. No Brasil, Morales foi o preferido de uma ampla maioria, com 70,7% dos 31 mil votos válidos dos bolivianos no país. Chi ficou com a segunda posição, com 16%, enquanto só 244 eleitores (0,78%) votaram em Ortiz.

O resultado na Bolívia motivou violentos protestos de opositores de Evo Morales, que estava no poder havia quase catorze anos. Os confrontos com os partidários do presidente se intensificaram depois que um informe da Organização dos Estados Americanos (OEA) apontou catorze irregularidades no processo eleitoral. Evo chegou a convocar novas eleições em 10 de novembro, mas renunciou horas mais tarde. Todas as autoridades na linha sucessória também renunciaram, provocando um vácuo governamental. Dois dias depois, a segunda vice-presidente do Senado, Jeanine Añez, se autoproclamou presidente interina do país. Até a penúltima semana de novembro, 32 pessoas tinham morrido nos conflitos entre masistas, oposicionistas e as forças policiais.

López acompanhou a apuração pela internet. “A gente estava confiante na vitória. Nunca tínhamos perdido, né?” E ouviu o discurso da renúncia em uma rádio online boliviana de São Paulo. “É muito triste. Nós tivemos o melhor governo da história da Bolívia e agora estamos sendo humilhados como se fôssemos animais.”

Conforme as regras eleitorais bolivianas, nenhum partido pode fazer campanha na semana anterior ao dia da eleição. López seguiu a lei à risca e fechou provisoriamente o escritório no Brasil. Pretendia reabri-lo após a contagem dos votos. Porém, com o agravamento da crise política e os ataques a membros do MAS na Bolívia, os militantes acharam melhor cerrar definitivamente as portas do local.

Desde o exílio de Morales no México, López vive com medo – e os masistas da comunidade boliviana em São Paulo também. “Estou evitando sair de casa”, contou, mostrando ameaças anônimas que recebeu via celular. Uma delas diz que López “vai tomar um tiro na cabeça, da mesma forma que deveria acontecer com o ‘assassino Evo’.”

Vinicius Mendes

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