esquina

Uma tonelada de versos

Changuito, o livreiro português que veio viver de poesia no Brasil

Rafael Cariello
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

A não ser pela temperatura acima dos 20 graus em pleno inverno, dava para dizer que fazia um tempo londrino, com céu de chumbo, na manhã daquela quarta-feira de julho, no Rio. A distância, caminhando sob a chuva fina com um cigarro nos dedos, o livreiro português Mário Guerra tinha algo da figura de Caetano Veloso no seu período de exílio na capital inglesa. Aos 38 anos, ele é franzino, mede cerca de 1,70 metro e é dono de uma vasta cabeleira negra e encaracolada.

Guerra, mais conhecido como Changuito, um apelido familiar, não gosta de Londres. “Acho a cidade chata; antes de tudo porque há lá ainda alguns ingleses”, ele explicou, enquanto abria um sorriso brincalhão e afetuoso, o que se repetiria com frequência nas próximas três horas, quatro cervejas e meio maço de cigarros.

Por sua sugestão, nos acomodamos num boteco com vista para a praça São Salvador, em Laranjeiras, a uns dois passos da via de paralelepípedos que a circunda. Sentado de costas para a entrada, Changuito voltou o corpo na direção da rua quando disse que gosta mesmo é do Brasil e dos brasileiros. Ao visitar o país pela primeira vez, há quase vinte anos, teve a imediata noção de que “aqui viveria e, de preferência, morreria”.

Mudou-se definitivamente para o Rio em maio. Trouxe consigo uma mala de mão com um punhado de roupas, dois pares de sapatos e uma tonelada de livros. “Uma tonelada exata, que despachei de avião”, fez questão de esclarecer. Em Lisboa, Changuito era dono da única livraria portuguesa especializada em poetas e versos, provavelmente uma das poucas do mundo. A Poesia Incompleta, fundada por ele em 2008, continha cerca de 10 mil títulos, em mais de cinquenta idiomas – “inclusivamente” búlgaro, chinês e guarani –, quando foi fechada, no início deste ano.

Segundo o poeta e ensaísta Antonio Cicero, a loja lisboeta era excelente. Além do fato de que era especializada em poesia, ele disse, “seu maior diferencial era a presença do próprio Changuito”. O proprietário, contou Cicero, “conversava com os clientes, mostrava-lhes obras relacionadas com o interesse deles, lia poemas e, às vezes, interpretava ou criticava os poemas que lia”.

O negócio vingou – apesar dos alertas de amigos de que o sucesso era improvável. O livreiro diz ter fechado a casa comercial como começou: sem dívidas. Conseguia viver apenas dos recursos que retirava da venda dos livros. É verdade que, nos últimos dois anos, dormia e trabalhava sob o mesmo teto.

Changuito quer reabrir a Poesia Incompleta no Brasil. Tem folheado jornais e passeado pela cidade à procura de uma sala comercial – o que não é fácil, quando se consideram os preços de aluguel no Rio. Perguntei se a dificuldade o desanimava. “Eu desanimei aos 18 anos e nunca mais voltei a animar-me”, respondeu, sorrindo novamente. Fez então uma rápida pausa, como se refletisse, e voltou a falar. “Espero que seja possível. Até porque não sei fazer muita coisa. Sei dizer poesia em público, sei vender livros e sei trabalhar em bar. Gostava de trabalhar como taxista, mas não tenho carta.” Nunca dirigiu? “Sim, já. Ilegalmente.”

A paixão por versos e poetas, explicou Changuito, começou tardiamente, depois de terminado o liceu, o equivalente português ao ensino médio no Brasil. Descobriu, na mesma época, a canção, com entusiasmo especial pela música brasileira. Agrada-lhe a capacidade, em ambos os gêneros, de definir com precisão sentimentos, coisas, acontecimentos – o que ele chama de “a tábua de salvação da nomeação”.

Entre um gole de cerveja e uma nova tragada no cigarro, o livreiro ofereceu exemplos: “O poeta português Alexandre O’Neill tem um verso que diz: ‘Mal nos conhecemos, inauguramos a palavra amigo.’ Não conheço nenhuma definição melhor para as amizades instantâneas. É essa capacidade de nomeação, que o Caetano também tem.”

O próprio Changuito é talentoso na arte das frases lapidares. A cada herói intelectual brasileiro que mencionou, acrescentava algum comentário curto e enfático. “Se houver um metrônomo na sala e o João Gilberto, guia-te pelo João Gilberto. Ele é que está certo.” “Arnaldo Antunes é, ao mesmo tempo, o melhor e o pior bailarino do mundo. É onde a Pina Bausch encontra a disritmia.”

Imitando com perfeição um sotaque pernambucano, o livreiro recitou uma outra “definição”, desta vez retirada de “Os Três Mal-Amados”, obra de João Cabral de Melo Neto, que serve para descrever o seu próprio caso. “O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas.”

O amor que “comeu” Changuito, e o trouxe ao Rio de Janeiro, é uma brasileira bonita chamada Valeska. A crise econômica por que passa seu país também deu um empurrão. “Portugal está negro”, ele diz, “governado por uma cáfila de predadores corruptos.” Mas houve sobretudo, conta o livreiro, “essa história de amor, como há sempre nos contos de fadas”. A poeta Valeska de Aguirre tem a mesma idade e a mesma altura do namorado lusitano, olhos claros e cabelos lisos castanhos. Seu jeito sério e tímido é cortado às vezes por risos gostosos mas contidos, quando o livreiro provoca.

Na tarde daquele mesmo dia, Valeska o esperava na porta do escritório de um corretor de imóveis, no Largo do Machado. Changuito ia alugar uma pequena sala de 30 metros quadrados num edifício do Centro da cidade, para onde deve transferir o seu acervo e começar, pela internet, o negócio da Poesia Incompleta no Brasil. Ao cliente, “do Acre a Leningrado”, bastará “mandar um e-mail ou perguntar pelo livro X ou pelo autor Y”, ele explicou mais tarde. Os contatos poderão ser obtidos no blog da loja (poesia-incompleta.blogspot.com.br).

Valeska, por ser brasileira, se encarregou de assinar o contrato de aluguel.

Deu tudo certo. O arranjo é provisório – Changuito continua a procurar uma sala mais ampla –, mas os dois pareciam aliviados quando nos despedimos, já na praça. O dia continuava feio. Ao se distanciarem, num passo tranquilo, mantinham os braços e os ombros colados, como se não bastasse já estarem de mãos dadas.



Rafael Cariello

Editor da piauí. Foi editorialista da Folha de S.Paulo e correspondente do jornal em Nova York