esquina

Utopia na roça

Uma sertaneja e a ditadura militar

Carolina Bataier

O diabete embaçou a vista de Geralda de Brito Oliveira, de 78 anos. Ela apoia as mãos sobre a mesa e curva o corpo até sentir a cadeira. Senta-se. E logo se levanta, com a mesma vagarosidade. Repete o movimento várias vezes. Quer dar atenção a tudo: à comida no fogão, às visitas, à mesa posta – copos, xícaras, duas garrafas de café e uma tigela cheia de pães de queijo, tudo iluminado pelo sol das quatro da tarde.

Dona Geralda – como é conhecida – dá mais uma olhada na panela onde borbulha a sopa de legumes do jantar. O fogão a lenha, lugar de honra, fica num cômodo anexo à casa, no terreiro, com cobertura de telhas novas e apoiadas em pilares de madeira. Nesse espaço são recebidas as visitas, em torno de uma mesa, na Fazenda Menino, em Arinos, noroeste de Minas Gerais, onde ela vive com o marido, José Rodrigues de Oliveira, de 84 anos.

De tempos em tempos, alguém de longe bate à porta para ouvir a sua história. Ajeitando os cabelos brancos, dona Geralda diz: “Você quer ver o livro? Pera lá que eu vou buscar.”

Ela desaparece pela porta dos fundos da casa – uma construção de mais de cinquenta anos, com tijolos aparentes – e retorna com uma publicação de capa grossa. É o volume dois do relatório final da Comissão da Verdade em Minas Gerais, a COVEMG, publicado em dezembro de 2017: As Graves Violações de Direitos Humanos no Campo (1961-1988). Entre as páginas 112 e 117, conta-se o ocorrido, no trecho assim intitulado: “Dona Geralda resiste: a repressão na Fazenda Menino.”



Professora rural, dona Geralda foi trabalhar nos anos 1950 como administradora da Fazenda Menino, propriedade do empresário carioca de ascendência alemã Max Hermann. Em meados daquela década, ele tinha resolvido construir ali, numa área de 90 mil hectares, uma cidade que se chamaria Marina, o mesmo nome de sua mulher.

O projeto foi criado por Oscar Niemeyer, quatro anos antes da inauguração de Brasília, com o objetivo de instalar no local “um sistema de vida humano e feliz, integrado à natureza que aproveita e enriquece”, como diz o “Memorial Descritivo da Cidade de Marina”. O texto prossegue: “Cercados de parques, jardins e vegetação abundante, os blocos de habitação coletiva estão integrados ao seu verdadeiro objetivo, que é aproximar o homem da natureza, para lhe propiciar um ambiente natural e sadio.” O local teria colônia agrícola, zona industrial e paisagismo de Roberto Burle Marx.

A cidade, porém, nunca saiu do papel. E, em alguns anos, a utopia deu lugar ao pesadelo na Fazenda Menino – tendo dona Geralda como protagonista.

 

Quando a ditadura militar recrudesceu, no início da década de 1970, Max Hermann e seus funcionários passaram a ser alvo de investigação. O empresário foi apontado como comunista, e também dona Geralda.

Em um relatório de 1972, o major Rubens José Ferreira, responsável pela Operação Vasculhamento, que investigou a Fazenda Menino, disse suspeitar que Carlos Marighella visitasse com frequência o lugar e tivesse adquirido de Hermann parte daquelas terras. O guerrilheiro morreu em 1969, e quando pergunto a dona Geralda se Marighella esteve lá, ela responde que não sabe. Tampouco sabe dizer quem eram os acompanhantes do ex-patrão que chegavam “num aviãozão assim, com oito ou dez pessoas”, como ela descreve.

As investidas dos militares na região da Fazenda Menino duraram três anos, de 1970 a 1972. “Eles vinham todo mês. Perguntavam o que o Max fazia, se tinha reunião, quem é que veio com ele…” Um dia, mais de cinquenta militares encheram de armas um dos quartos da casa. “Empilharam tudo em cima da cama, acredita?”

Durante as investigações, dona Geralda foi separada dos sete filhos, que ficaram sob os cuidados da avó materna. Seu marido foi detido e levado ao presídio da cidade de Unaí, a cerca de 150 km de Arinos.

Em 1972, ocorreu a última e pior agressão dos militares. No final de uma tarde de julho, dois soldados, cada um empunhando uma arma de fogo, levaram a administradora da fazenda para uma área afastada e ordenaram que caminhasse sem olhar para trás. Ameaçaram atirar. Dona Geralda obedeceu, “sem medo”, segundo ela. Então veio a ordem: “O soldado disse: ‘Você se ajoelhe e pede perdão ao seu marido e a Deus.’” Ela retrucou: “Não vou ajoelhar, não, nem pedir perdão. A Deus, não vou, porque Deus tá vendo o meu sofrimento. E pra pedir perdão a homem, muito pior. Ajoelhar, também não vou. Não ajoelho na frente de homem.”

Como ela resistisse às ordens, um militar gritou: “Além de ser uma comunista verdadeira, você ainda é bruta?” E começaram a disparar. “Quando passou o ‘fumacero’, eu estava pólvora pura, e falei: ‘Uh, mas que covardia, seus infelizes, vocês não me mataram.’ Só atiraram pólvora em mim.” Os tiros falsos foram a derradeira tentativa de intimidá-la. Dona Geralda garante: não falou nada, pois nada sabia sobre as atividades de Hermann. “Toda vida fui, e morro sendo, amiga de Max.”

No relatório do major Ferreira ao SNI (Serviço Nacional de Informações), as conclusões são contraditórias. Ele afirma não ter encontrado na Fazenda Menino nem armas nem sinal de utilização do local pela guerrilha. E observa que Geralda, “na condição de pessoa humilde e necessitada, apenas ajudou Max”. O militar, porém, recomendou que se fizesse uma investigação especial sobre ela, pois suspeitava que fosse comunista, como Hermann. O empresário morreu em 1988.

Em 2017, dona Geralda contou tudo o que sabia para a Comissão da Verdade. Um ano depois, recebeu o livro com o registro da sua história. Quem leu para ela o texto de seis páginas pela primeira vez foi uma de suas netas.

Quase noite, ela apanha o livro e o leva para dentro da casa. Quando reaparece, pergunto se foi filiada ao Partido Comunista. “Ô, minha fia, você já viu comunista na roça?”, ela responde, soltando uma gargalhada.

Carolina Bataier

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