esquina

Velhas alegrias

Um grande jogador está doente

Paulo Marcelo Sampaio
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2008

Como sempre aos sábados, o velho craque recebe a visita de Cacá, ex-jogador de futebol e engenheiro. Cumprindo invariavelmente a mesma rotina, Cacá entra no seu Fiat Uno sujo por fora, abre espaço na tralha sobre os bancos – projetos de reforma de casas, chaves de fenda –, embarca algum amigo e toca para a Zona Sul. Em pouco tempo chega à clínica na Gávea para distrair Nilton Santos, que está com 83 anos e sofre do mal de Alzheimer.

Ali, todos conhecem Cacá. Desta vez ele trouxe junto Ronald Alzuguir, amigo dos tempos do futebol de areia. “Veio visitar o Nilton?”, pergunta-lhe um interno, já sabendo a resposta. Alzuguir se adianta e mostra o orgulho: “Aqui todo mundo é Botafogo.” Cacá, apontando o homem que fez a pergunta, um senhor, cochicha para Alzuguir em tom de falso deboche: “Esse aí é Flamengo.”

A clínica, cercada de árvores, dá fundos para as costas da Rocinha. Alguns pacientes tomam banho de sol. Outros, em cadeiras de roda, são empurrados por enfermeiros.

Atencioso, Cacá prende a porta do elevador que os levará até o 2º andar da ala geriátrica. Cabelos brancos e uma barriga em desacordo com o passado de jogador de futebol – além do Botafogo, ele defendeu o Fluminense, o América e a Portuguesa –, esse homem de 76 anos se dirige sem pressa ao apartamento de Nilton Santos. “Ainda bem que o Botafogo teve chance de fazer pelo Nilton tudo o que o Nilton fez pelo Botafogo”, comenta com alguma tristeza. É que a ajuda veio, sim, mas demorou.

O quarto é o 21, número terrível. Vinte e um anos durou o jejum do Botafogo, que entre 1968 e 1989 não conquistou nenhum título. Mas uma alma mais solar talvez preferisse pensar que 21 são três Garrinchas, o dono da camisa 7 do alvinegro e da Seleção, a quem Nilton Santos protegeu como a um irmão caçula.

Na porta do quarto, uma frase talhada num pedaço de madeira e assinada por Nilton adverte o visitante: “Seja bem-vindo. Não fale mal do Botafogo.” O apartamento de 35 metros quadrados reflete a devoção de uma vida: quadros e almofadas com escudos do time, fotos antigas de atletas botafoguenses e jogadores de botão com o rosto de velhos craques de General Severiano, a sede do clube.

 

Nilton Santos sempre gostou de dizer: “Assinei muitos contratos em branco, era uma prova de amor.” É essa a origem da dívida a que Cacá se referiu. Ser amador em sentido literal não conduz a boa coisa. Aposentado há treze anos pela Legião Brasileira de Assistência, Nilton precisa de apoio. “Com o que recebemos não daria nem para os remédios”, conta Célia, sua mulher. “Se não fosse o Botafogo… Não, não é nem o Botafogo. É o Bebeto.” Bebeto de Freitas, atual presidente do clube.

Em março, uma dengue hemorrágica debilitou Nilton mais ainda. Ele está na clínica há um ano e meio, sem previsão de alta, e praticamente não tem autorização para saídas. Quando bem disposto, caminha pelos jardins ou, mais raro, vê televisão. Ainda gosta de assistir aos jogos do seu time. A fala mansa e uma espécie de sabedoria quieta impedem que seja um torcedor destemperado, mas sobrou um prazer de arquibancada: encarnar num rubro-negro, sempre que a ocasião permite. “Adora”, diz Célia.

Nilton Santos ainda está deitado. Além de Cacá e Alzuguir, também veio visitá-lo Ayrton Povil, companheiro dos gramados da década de 60. Quando Nilton desperta e vê os três amigos, se alegra. Célia, há 37 anos com Nilton, abre um pequeno sorriso.

Mas Nilton Santos logo depois emudece, caindo no mutismo característico da doença. Cacá tenta trazê-lo de volta: “No 3º andar tem umas menininhas que são uma explosão. Vamos lá?” Nilton olha para Célia e gira o dedo indicador na altura da têmpora: “Ele tá maluco?” Deu certo.

Cacá tem excelente memória. Conta histórias que ajudam Nilton Santos a se manter alerta. “Lembra do Adãozinho, Nilton? Um dia o técnico decidiu que ele ia jogar, e então o Adãozinho, todo confiante, foi dizer para o Carlito Rocha: ‘Tô quicando, seu Carlito, tô quicando!'” Nilton Santos se ajeita na cama. “Ele sabe tudo”, sussurra, espichando o ouvido. A atuação de Adãozinho foi uma desgraça. Sem passar recibo, o estreante quis saber de Carlito Rocha, presidente do clube, como tinha se saído. Com voz frágil, quase um sopro, Nilton completa a história: “Você quicou, quicou e agora aproveita e vai pra puta que o pariu!”

O paciente precisa descansar. “Não deixem de vir. Ele gosta dessas visitas”, diz a enfermeira. “Posso voltar também, Nilton?”, pergunta o único visitante que não o viu jogar. O maior lateral-esquerdo de todos os tempos aperta a mão estendida: “Quando quiser, meu amigo.”



Paulo Marcelo Sampaio