esquina

Velhos baianos

Pinturas rupestres na caatinga

Paulo Raviere
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

O visitante desejoso de conhecer a principal atração de Central, cidade de 18 mil habitantes a cerca de 500 quilômetros de Salvador, precisa percorrer por meia hora uma estrada de cascalho. A via acaba num estacionamento improvisado, mas ainda é preciso enfiar os pés na água numa pequena trilha cortada por um riacho. Após quinze minutos, a vereda se abre para paredões de rochas rosáceas, empilhadas como livros de tamanhos variados. Sinal de que o turista chegou à localidade de Riacho Largo, que abriga um cânion onde estão pinturas rupestres que talvez tenham mais de 10 mil anos de idade.

Logo na chegada, fios de água formam pequenas cachoeiras, escorregadores e piscinas. A poucos metros de caminhada, na direção oposta à da correnteza, é possível encontrar as primeiras garatujas sobre as paredes rochosas. Feitas de sangue, urina, gordura vegetal e pó de rocha, consistem em linhas verticais apagadas da cor de goiaba, semelhantes a jaulas. “O vandalismo aparece mais que as pinturas”, notou o guia Vilson Alves – ou simplesmente Vial –, indicando as pichações sobre elas.

Conforme se avança cânion acima, as pinturas ficam mais elaboradas, como se um curador as tivesse organizado. Ali há círculos, hachuras, linhas que lembram cobras e paralelas em zigue-zague, como dentes pontudos. Adiante, uma figura semelhante a um par de cactos cruzados, listrados e pintados de amarelo.

Central é uma das muitas cidades do interior baiano em que é possível encontrar fósseis de humanos e animais extintos, relíquias arqueológicas e pinturas rupestres. Elas podem ser vistas em centenas de grutas e paredões espalhados por uma área aproximada de 270 mil quilômetros quadrados, metade da Bahia. Não são as únicas do país. Pinturas parecidas podem ser encontradas em vários estados – as mais conhecidas são as da Serra da Capivara, no sul do Piauí, e da região de Lagoa Santa, em Minas Gerais.



Conhecidas há décadas pela população local, as relíquias de Central vêm despertando também o interesse de pesquisadores. O estudo mais duradouro dos sítios arqueológicos vem sendo feito pela arqueóloga carioca Maria Beltrão, pesquisadora aposentada do Museu Nacional da UFRJ. Desde 1982, Beltrão comanda o Projeto Central, iniciativa criada por ela com o apoio de diversas instituições de pesquisa.

As pinturas de Central vão ficando mais nítidas à medida que o visitante atinge áreas menos acessíveis. “Como o sítio não é tombado, as pessoas vêm e fazem o que querem”, explicou Vial, um homem de 59 anos que naquele dia usava um boné de guerra e carregava um cantil vermelho. Além das pichações onipresentes, as fogueiras feitas pelos humanos contemporâneos desbotam as pinturas pré-históricas e fragilizam as rochas. “Vão acabar com tudo”, vaticinou o guia. “Só não está mais degradado porque ninguém vem aqui durante a seca.”

Enquanto o Parque Nacional da Serra da Capivara, estabelecido em 1979, está ameaçado de fechar por falta de recursos, o de Central sequer chegou a ser criado. Não faltam ao poder público órgãos incumbidos de proteger o patrimônio pré-histórico, como assinalou o químico e arqueólogo Luís Carlos Cavalcante, estudioso das pinturas rupestres na Universidade Federal do Piauí. “Na realidade o que não existe é a fiscalização, geralmente pela carência de funcionários dos órgãos legais”, afirmou. Alguns dos sítios de Central se encontram dentro de propriedades rurais privadas, o que ajuda a controlar o fluxo de pessoas. Localidades como o Riacho Largo, porém, assim como vários outros sítios brasileiros, estão ao alcance e à mercê dos visitantes.

 

Para chegar à galeria seguinte, é preciso desviar de um pé semimorto de cansanção-branco, uma terrível urticária sertaneja. Naquela pedra estão as pinturas mais impressionantes do Riacho Largo. Além de pequenos seres com pés trifurcados, é possível avistar a representação inequívoca de uma ave, com bico e patas. Há ainda uma cena de caça: seis humanos armados enfrentam um quadrúpede cujo tronco é maior que todos eles juntos. “O bicho teria sido encurralado e abatido bem aqui no estreito de Manoel Ferreira”, explicou o guia.

Na interpretação de Maria Beltrão, a cabeça e orelha salientes da criatura são características de um toxodonte, mamífero que desapareceu há coisa de 11 mil anos. Aquela é a obra-prima do Riacho Largo, já que as representações de animais extintos são raras nas Américas. A hipótese, entretanto, enfrenta um obstáculo elementar: jamais foi encontrado um fóssil de toxodonte na região. “Aqui havia muitos fósseis de preguiças-gigantes; tantos que até deixaram alguns para o nosso museu”, ironizou Vial. “Existe uma promessa de trazer de volta um esqueleto de preguiça que está montado no Rio de Janeiro”, comentou, esperançoso. “Do toxodonte, por outro lado, só a teoria.”

Num estudo sobre os sítios arqueológicos da região de Central, Beltrão afirmou que as pinturas de animais extintos foram feitas há pelo menos 18 mil anos, mas notou que não havia elementos que permitissem fazer uma datação exata. Alguns de seus colegas, porém, alegam que o Homo sapiens só chegou às Américas por volta de 16 mil anos atrás. A história do povoamento do continente está em vias de ser reescrita: cada vez mais arqueólogos brasileiros e estrangeiros admitem que havia humanos na região da Serra da Capivara há pelo menos 20 mil anos. Beltrão, por sua vez, defende uma versão muito mais radical, segundo a qual ancestrais dos humanos modernos teriam chegado às Américas por volta de 2 milhões de anos atrás. Sem provas convincentes que a sustentem, a hipótese é vista pelos estudiosos com indiferença, ceticismo ou mesmo escárnio. Aos 81 anos, a arqueóloga carioca continua em busca de fósseis que reforcem sua hipótese.

Adiante, a altura do paredão diminui gradualmente e as pinturas escasseiam. Uma fenda sobre uma delas – com mais traços verticais enfileirados – servia de esconderijo para uma garrafa de Pitu. “Que tal aquela pintura?”, perguntou Vial, com sarcasmo. “Será que dela é difícil fazer uma datação?” Pichado em carvão, estava escrito: “WESLEY 14/02/16.”

Paulo Raviere

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