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Vem cá, meu peixinhozinho

Descoberta uma utilidade para o Ministério da Pesca

Clara Becker | Edição 45, Junho 2010

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Dizem que certas espécies de peixe reconhecem o dono, vêm comer na mão e aceitam festinha. Dizem também que, com boa vontade, até abanam o rabinho. Mas certa ambiguidade técnica dificulta o reconhecimento dessa última habilidade, de modo que às vezes só um especialista sabe dizer, com certeza mesmo, se o bicho ficou feliz da vida por avistar o dono ou se apenas continua vivo.

Wilson Vianna é esse especialista. Aos 61 anos, biólogo e funcionário aposentado da Petrobras, ele acorda todos os dias às seis da manhã. A primeira coisa que faz é verificar os parâmetros da água de cada um dos seus sessenta aquários. A segunda é alimentar com liberalidade rabelaisiana as suas centenas de peixinhos. Vianna corre a mão pela água e eles vêm atrás, como se numa pequena procissão reverencial ao Ser que lhes dispensa aquele banquete diário de ração-patê, microcrustáceos, microanelídeos e microvermes.

Só então ele se reúne com a mulher e os filhos para o café da manhã, que não demora muito porque é hora de se enfurnar no laboratório, montado na própria casa. Passa ali dentro boa parte do tempo. Sai duas vezes por semana para visitar os cem aquários e respectivos habitantes – milhares deles – que mantém na sua piscicultura em Magé, no Grande Rio, e de vez em quando é convidado para dar aulas e palestras, tarefas a que se dedica com muito gosto. Se apóstolo, Vianna seria Paulo de Tarso, o propagador da fé. Ninguém mais fervoroso no trabalho de evangelizar o Brasil sobre os benefícios de toda ordem – física, moral, espiritual, intelectual, psicológica, ecológica, econômica e patriótica – associados a um bom peixinho de aquário.

Vianna é uma figura severa, apesar do sestro de sapecar diminutivos por onde fala. Na infância, “catava peixinhos barrigudinhos” nos riachos. Aos 8 anos, numa feira livre em Vicente de Carvalho, bairro do Rio onde sempre morou, viu um rapaz vendendo peixinhos coloridos que iam de lá para cá em saquinhos de plástico transparente. O meninote só deu sossego quando uma tia lhe comprou um saquinho. Dentro veio um Puntius tetrazona – vulgo barbo sumatrano, isto é, uma espécie de carpa originária de Sumatra. É um bichinho de uns 8 centímetros que parece vestir a camisa alvinegra do Botafogo, exceto pelo rabinho, que é vermelho. Dois dias depois, apareceu morto. Vianna jogou fora e comprou um novo na feira seguinte. Acabou criando o hábito: era um peixinho morto por semana, todos com expectativa de vida não superior a 48 horas. “Eu punha num vidro de maionese”, ele lembra. Os coitadinhos morriam por falta de oxigênio.

 

Vianna foi um adolescente raro. Enquanto os amigos se ajoelhavam perante Garrincha e Pelé, o ídolo dele era Gastão Botelho, pioneiro da aquariofilia no Brasil e autor do maior best-seller do gênero, o definitivo O Aquário de Ornamento. Aos 14 anos, quando ganhou do pai o seu primeiro aquário, passou a brincar de seleção genética.

Cruza aqui, cruza acolá, conseguiu reproduzir três formatos de rabo de peixe: o delta, a meia-lua e o véu. “E está vendo esse aqui?” Ele mostra um peixe com manchas pretas. “Se eu quiser uma variedade lisa, vou cruzando os que têm menos manchas até elas desaparecerem.” (O espécime resultante passeia seu corpo imaculado no aquário do lado.)

Em 1989, aos 40 anos, Vianna alcançou a glória aquariófila: foi o primeiro no Brasil a dominar a reprodução em cativeiro da espécie Rasbora heteromorpha, formada por peixinhos de até 4 centímetros, calmos e robustos – um clássico dos aquários em todo o mundo. Não satisfeito, reproduziu depois o tetra fantasma negro (Hyphessobrycon megalopterus), muito apreciado também. Para não inibir o surgimento de novas vocações, parou há tempos de concorrer em campeonatos. Parte de suas pesquisas é feita no Centro Universitário Augusto Motta (Unisuam), que lhe cede o espaço.

Em 2009, quando, num lance de ousadia, o governo Lula fez com que o Ministério da Pesca e Aquicultura se tornasse a Secretaria Especial da Aquicultura e Pesca, Vianna foi chamado a integrar o Grupo de Trabalho de Aquicultura – sem dúvida, um grande acerto da nova e exótica burocracia governamental, pois ele está apto a tratar não só dos temas aquariófilos, mas das questões aquícolas em geral. Sua principal base de militância é atualmente o CEA – Centro de Estudos de Aquariofilia, uma entidade sem fins lucrativos com sede no Rio.

A aquariofilia tem expressão na economia nacional. No município de Barcelos, por exemplo, a 396 quilômetros de Manaus, mais de 10 mil ribeirinhos vivem do comércio de peixes ornamentais. O lema da região – “Compre um peixe e salve uma árvore” – pode aborrecer os eleitores de Marina Silva, mas até o mais encarniçado deles compraria um peixinho, se lhe informassem que a alternativa econômica dos ribeirinhos é a exploração de madeira.

Há muito o que fazer. Vianna sustenta que, por falta de regulamentação, a situação atual da aquicultura é nada menos que crítica: “Há criadores inescrupulosos que tratam os peixes à base de hormônios e anabolizantes e transformam fêmeas em machos para aumentar a lucratividade”, diz com desgosto. Além disso, nós, brasileiros, somos explorados por estrangeiros, “principalmente os asiáticos”: “Eles vêm, levam as nossas espécies e devolvem variedades modificadas transgenicamente por preços muito mais altos. Um acará-disco sai daqui por 10 reais e volta custando mais de 1500.”

O sentimento patriótico é um dos motivos que o levarão, em agosto, a uma nova expedição à bacia do Alto Rio Negro. Seu objetivo é investigar o habitat dos deslumbrantes acarás-disco e de outras espécies para o livro que está escrevendo: “Não é possível que apenas estrangeiros pesquisem as nossas espécies nativas!”

Wilson Vianna é assim, um homem que dá a vida pelos peixinhos. Uma síntese excelente dessa paixão e dos poderes do aquariofilismo encontra-se no seu projeto Um Aquário em Cada Escola: “Criar peixes ornamentais desperta nas crianças o gosto pela natureza e inibe o espírito predatório; nos adolescentes, incentiva a pesquisa e evita que andem pelo caminho errado; para o adulto é uma terapia antiestresse recomendada por médicos; e para os idosos, que estão esperando a morte, desperta uma nova paixão e propicia novas amizades.” Não é um hobby como outro qualquer, definitivamente.