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    ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2015

esquina

Vende-se tudo

O negócio de esvaziar um imóvel

Paula Scarpin | Edição 111, Dezembro 2015

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A primeira coisa que Betty Borges fez ao entrar no apartamento foi dar um espirro. Logo em seguida se lançou numa missão exploratória. Abria e inspecionava cada armário e cada gaveta que encontrava pelo caminho, percorrendo em poucos minutos o imóvel de quase 200 metros quadrados, em Botafogo, na Zona Sul carioca. Enquanto o restante da equipe – o filho, um genro e um ajudante – ainda se ambientava, ela já tinha o veredito: “Não vamos sair daqui antes da meia-noite.” Na sequência, deu a ordem ao filho: “Fabio, toma 50 reais. Traz lâmpadas fortes e remédio pra minha rinite.”

Há 18 anos, a antiquarista passou a organizar o serviço Venda em Residência, cuja proposta é facilitar a vida de quem quer se ver livre de tudo o que há dentro de um imóvel. Seu pequeno antiquário no Jardim Botânico mal completara cinco anos quando uma amiga a procurou com a ideia. A amiga ia deixar o país, e pediu que a vendedora desse cabo de seus pertences. De todos eles. Inspirada nas garage sales americanas, a nova empreitada de dona Betty superou a loja rapidamente, tanto em lucro quanto em volume de trabalho – suficiente para empregar toda a família.

A matriarca parece talhada para o negócio. Quem a vê em ação, com os cabelos castanhos presos, roupas confortáveis de ginástica e olhos decididos, não imagina sua idade. Ao ser questionada, ela não hesita: “Pelo meu nome, você nem desconfia? São muitas as Elizabeths de 1953, ano da coroação da rainha.”

 

O cliente mais comum da Venda em Residência é alguém que acaba de herdar um imóvel e precisa esvaziá-lo o quanto antes para vender ou alugar. Embora a equipe se encarregue do trabalho grosso, o herdeiro costuma acompanhar a triagem. Ocorre que o processo de vasculhar a intimidade de alguém pode surpreender mesmo os parentes mais próximos. Fabio Borges cita, por exemplo, o susto dos filhos ao se depararem com brinquedos eróticos escondidos na cama do pai falecido. Menos incomum é encontrar dinheiro ou joias em fundos falsos de gavetas ou atrás de quadros. Mas não faltam tesouros de ordem afetiva, salvos no último momento da horda de alucinados por velharias que, na data marcada pela empresária, invadem a casa e recolhem os objetos, já devidamente etiquetados.

Reincidente, a contratante daquele dia conhecia o procedimento. Quando a equipe chegou, Ana Lucia Neder organizava alguns achados no armário da mãe, recém-falecida. A anestesista de 66 anos já havia contratado os Borges cinco anos antes, quando se viu viúva. Seu marido, ela disse, era um “acumulador”. Ana Lucia conseguiu quase 30 mil reais ao se desfazer de muitas das coisas que ele havia juntado em casa – e aprendeu o valor do desapego. No caso da mãe, a tarefa não era tão simples: a irmã Cecilia Neder acompanhava o processo e não partilhava da abnegação. Numa despensa espaçosa, um retrato emoldurado da mesma Cecilia quarenta anos mais moça jazia sobre uma pilha de objetos resgatados por ela. Era com lágrimas nos olhos que ela assistia à família Borges escarafunchando cada canto e dispondo os achados de maneira acessível, como numa loja.

 

Já passava das seis da tarde quando o grupo terminou de organizar, fotografar e listar numa planilha cada item à venda. Era chegada a hora mais complicada: estabelecer os preços. Ao ouvir a sugestão de 300 reais por uma mesa de café com tampo de mármore, Cecilia Neder não conteve o choque: “Mas é uma Jean Gillon!” Enquanto Fabio Borges buscava referências na internet sobre o designer romeno, sua mãe justificou a pechincha: “Os apartamentos de hoje são minúsculos, ninguém mais tem espaço pra mesa de centro.”

 

Os herdeiros quase sempre tentam puxar o preço para cima, e cabe à equipe traçar um equilíbrio entre, de um lado, o valor do material, sua raridade e design e, de outro, o que a experiência já ensinou sobre a procura do público. Igualmente interessada no lucro – os Borges mordem 35% do que é vendido –, o objetivo de dona Betty é esvaziar o imóvel, e para isso o preço precisa ser convidativo. A negociação se estendeu até as 23h30, e a mesinha de centro acabou sendo anunciada por 950 reais.

 

Às quartas-feiras, a equipe dispara um e-mail para um grupo de mais de 12 mil cadastrados, anunciando as vendas da semana, realizadas sempre às sextas e aos domingos, das 10h às 14h. Os Borges chegam às 9 horas para entregar senhas para quem já está na fila. Dona Betty depois percorre o aglomerado de gente perguntando pelo interesse de cada um, e oferece um mapa do tesouro: “Quer a cristaleira? Entra pelo corredor à esquerda. Ela está no canto oposto à janela.” A peça fica com o primeiro que pegar a etiqueta colorida destacável colada a ela.

O domingo da Venda em Residência no apartamento herdado pelas irmãs Neder amanheceu chuvoso. Às 9h30, um grupo de menos de quinze pessoas fazia fila na portaria. Pontualmente às 10 horas, subiram pela escada de serviço até a entrada dos fundos. Fabio distribuía sacolas de feira para facilitar a coleta. Encostada numa parede da sala, Ana Lucia tinha ares budistas: “Parece uma gincana.” A irmã Cecilia, no entanto, perambulava desanimada pelo apartamento, às vezes atravancando a passagem dos que corriam pelos corredores apanhando quadros e cortinas.

 

Num dos quartos, duas mulheres disputavam um sofá-cama com estofado quase intacto. A mais jovem disparou na frente e conseguiu capturar a etiqueta – mas a outra, mais velha, tentou apelar para a sua generosidade. Argumentou que sua aposentadoria era pequena, e que precisava do sofá-cama para alugar um quartinho. Alheia ao debate, Cecilia Neder meteu-se entre as duas e sentou sobre o móvel. Parecia catatônica com a visão de uma garota com cabelos cor de fogo, que revirava o armário de sua falecida mãe – 10 reais a peça – em busca de roupas que fariam sucesso em seu brechó. Comovida, a aposentada que disputava o sofá acomodou-se ao seu lado e suspirou: “Se fosse na minha casa, eu não teria estômago para assistir.” A mais moça aproveitou para sair de fininho, com a etiqueta do móvel da discórdia nas mãos.

Paula Scarpin
Paula Scarpin

Foi repórter da revista por doze anos, e fundou a rádio piauí. É diretora de criação da Rádio Novelo.

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