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    Para chegar aos receptores, os corações doados tiveram de cruzar regiões sob tiroteio CRÉDITO: ANDRÉ BERGAMIN_2018

chegada

Vias obstruídas

Dois transplantes cardíacos em meio à violência carioca

Tiago Coelho | Edição 138, Março 2018

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ORio de Janeiro mal despertara naquela terça-feira, dia 6 de fevereiro, e o aplicativo Fogo Cruzado – que identifica áreas de confronto a bala na cidade – já anunciava: “Há tiros na região desde as 6h17.” Referia-se às favelas que integram o Complexo da Maré, na Zona Norte, e reúnem 130 mil habitantes. A 20 quilômetros dali, no Instituto Nacional de Cardiologia, o INC, dois cariocas ainda dormiam.

Fazia três semanas que a babá Sabrina Thomaz, de 26 anos, estava internada na UTI do hospital de Laranjeiras sem mover as pernas e respirar direito. Portadora de miocardite, vivia à base de remédios e com um balão acoplado à aorta. O equipamento estimulava a musculatura de seu enfraquecido coração. Num leito contíguo ao dela, o estudante Matheus Guimarães, de 12 anos, tinha cardiomiopatia restritiva. A doença enrijece as paredes dos ventrículos, dificultando que o sangue os preencha durante os batimentos cardíacos. Em razão da enfermidade, o menino desenvolvera uma hipertensão pulmonar.

A situação delicada dos pacientes lhes dava entre quinze e vinte dias de vida, caso não se submetessem a um transplante. Além de compartilhar a urgência, os dois eram do grupo sanguíneo O e, por isso, disputavam um doador com a mesma característica.

Perto das oito horas, o Fogo Cruzado retuitou um aviso do Centro de Operações Rio, uma espécie de quartel-general da prefeitura: “A Polícia Militar informa que faz operação no Complexo da Maré. Pode haver interdições em vias da região.” Nesse momento, o INC se mobilizava para uma cirurgia, pois acabara de saber que o coração de um doador com sangue do tipo O desembarcaria em breve no Aeroporto Internacional do Galeão. O órgão vinha de Curitiba numa aeronave da Força Aérea Brasileira e iria para o peito de Matheus Guimarães.  Às 9h40, vinte minutos antes de o avião pousar, o Fogo Cruzado alertou: “Tiros novamente na Maré.”

O Galeão encontra-se bem próximo do complexo, que se localiza num ponto onde as três principais vias do Rio convergem: Avenida Brasil, Linha Vermelha e Linha Amarela. Do aeroporto, o helicóptero encarregado de pegar o coração sobrevoou a favela, ainda sob tiroteio. O percurso até o bairro de Laranjeiras, na Zona Sul, levou quinze minutos.

Um coração pode permanecer cerca de quatro horas sem bombeamento de sangue. Depois desse intervalo – o “tempo de isquemia”, na linguagem médica –, os riscos de dano se tornam altíssimos. O novo órgão do garoto voltou a bater quatro horas e sete minutos após deixar o corpo do doador.

 

Assim que a cirurgia do estudante terminou, o Programa Estadual de Transplante ligou para o instituto com uma notícia inesperada, mas muito bem-vinda. Havia outro coração disponível, agora em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, a 25 quilômetros. Mais uma vez, o sangue do doador era do tipo O. Até então, o INC nunca conseguira dois corações com a mesma compatibilidade num só dia. A instituição é a única da rede pública que oferece transplantes cardíacos no estado. Realiza, em média, dez por ano. Hoje existem dezoito pessoas na fila de espera, que costuma durar quatro meses.

A tarde avançava, e Sabrina Thomaz se preparava para receber o órgão que surgira no município vizinho. A cardiologista clínica Jacqueline Sampaio, que coordenaria a cirurgia, encarregou dois médicos, uma enfermeira e uma técnica em enfermagem de buscá-lo. A equipe decidiu ir de ambulância, como costuma fazer quando se trata de resgatar corações na região metropolitana do Rio. Só que, para chegar a Duque de Caxias, precisaria atravessar parte da Linha Vermelha e da Avenida Brasil.

O grupo deixou o INC às quatro da tarde. “A Maré está sob tiros há mais de seis horas. Quarenta escolas e cinco postos de saúde estão fechados”, dizia o aplicativo que monitora o bangue-bangue carioca. A ambulância passou pelo complexo enquanto as balas ainda zuniam. Levou quase uma hora para alcançar o hospital em Duque de Caxias, onde outras duas equipes de resgate se incumbiam de retirar o fígado e os rins do doador.

Antes de extrair o coração, os profissionais do INC lhe aplicaram uma dose de cardioplegia, solução que paralisa o órgão durante o período em que não há irrigação sanguínea. Evita-se, assim, o gasto desnecessário de energia e preserva-se o tecido cardíaco. Tão logo separou o coração das artérias, o grupo calculou que dispunha de apenas três horas e meia para retornar a Laranjeiras e concretizar o transplante.

 

À medida que a equipe trabalhava em Duque de Caxias, o tiroteio na Maré saía do controle a ponto de a polícia fechar os acessos para a Avenida Brasil e as Linhas Vermelha e Amarela. Não por acaso, um imenso engarrafamento se formou entre o município da Baixada e o INC. “Acompanhávamos o caos pela mídia e ficávamos cada vez mais preocupados no hospital”, relembrou Jacqueline Sampaio. “O trânsito poderia impedir que o coração chegasse a tempo.”

Por causa da confusão na Zona Norte, a prefeitura decretou estado de atenção em toda a cidade. Ao longo da tarde, uma denúncia anônima garantiu que traficantes haviam sequestrado quatro policiais na Maré. A informação, porém, se revelou falsa.

Diante de tantas notícias ruins, Sampaio resolveu acionar o Programa Estadual de Transplante e solicitar um helicóptero dos bombeiros para tirar o coração de Caxias. Uma caixa térmica embarcou na aeronave assim que a noite caiu. Dentro dela, um saco com gelo abrigava o órgão.

“Não bastasse ter que voar no escuro, o que é sempre complicado, o helicóptero precisaria cruzar a região conflagrada. Temíamos que os traficantes o confundissem com uma aeronave da polícia e o alvejassem”, contou a cardiologista clínica. A viagem até o heliporto do Palácio Guanabara, sede do governo estadual, consumiu quinze minutos. De lá, o coração levou mais dez minutos para adentrar o instituto. Batedores da PM lhe abriram caminho pelas ruas movimentadas.

No fim das contas, o novo órgão da babá permaneceu apenas 1 hora e meia sem sangue. O transplante correu bem e a jovem se recuperou satisfatoriamente, assim como o menino. O saldo daquela terça-feira, no entanto, se mostrou negativo para outras pessoas. A última mensagem do Fogo Cruzado, às 20h30, contabilizava: “Vinte e cinco registros de tiroteios/disparos de arma de fogo na região metropolitana. Ao menos uma criança e um adolescente morreram e um policial ficou ferido.”