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Vias obstruídas

Dois transplantes cardíacos em meio à violência carioca

Tiago Coelho
Para chegar aos receptores, os corações doados tiveram de cruzar regiões sob tiroteio
Para chegar aos receptores, os corações doados tiveram de cruzar regiões sob tiroteio CRÉDITO: ANDRÉ BERGAMIN_2018

ORio de Janeiro mal despertara naquela terça-feira, dia 6 de fevereiro, e o aplicativo Fogo Cruzado – que identifica áreas de confronto a bala na cidade – já anunciava: “Há tiros na região desde as 6h17.” Referia-se às favelas que integram o Complexo da Maré, na Zona Norte, e reúnem 130 mil habitantes. A 20 quilômetros dali, no Instituto Nacional de Cardiologia, o INC, dois cariocas ainda dormiam.

Fazia três semanas que a babá Sabrina Thomaz, de 26 anos, estava internada na UTI do hospital de Laranjeiras sem mover as pernas e respirar direito. Portadora de miocardite, vivia à base de remédios e com um balão acoplado à aorta. O equipamento estimulava a musculatura de seu enfraquecido coração. Num leito contíguo ao dela, o estudante Matheus Guimarães, de 12 anos, tinha cardiomiopatia restritiva. A doença enrijece as paredes dos ventrículos, dificultando que o sangue os preencha durante os batimentos cardíacos. Em razão da enfermidade, o menino desenvolvera uma hipertensão pulmonar.

A situação delicada dos pacientes lhes dava entre quinze e vinte dias de vida, caso não se submetessem a um transplante. Além de compartilhar a urgência, os dois eram do grupo sanguíneo O e, por isso, disputavam um doador com a mesma característica.

Perto das oito horas, o Fogo Cruzado retuitou um aviso do Centro de Operações Rio, uma espécie de quartel-general da prefeitura: “A Polícia Militar informa que faz operação no Complexo da Maré. Pode haver interdições em vias da região.” Nesse momento, o INC se mobilizava para uma cirurgia, pois acabara de saber que o coração de um doador com sangue do tipo O desembarcaria em breve no Aeroporto Internacional do Galeão. O órgão vinha de Curitiba numa aeronave da Força Aérea Brasileira e iria para o peito de Matheus Guimarães.  Às 9h40, vinte minutos antes de o avião pousar, o Fogo Cruzado alertou: “Tiros novamente na Maré.”

O Galeão encontra-se bem próximo do complexo, que se localiza num ponto onde as três principais vias do Rio convergem: Avenida Brasil, Linha Vermelha e Linha Amarela. Do aeroporto, o helicóptero encarregado de pegar o coração sobrevoou a favela, ainda sob tiroteio. O percurso até o bairro de Laranjeiras, na Zona Sul, levou quinze minutos.

Um coração pode permanecer cerca de quatro horas sem bombeamento de sangue. Depois desse intervalo – o “tempo de isquemia”, na linguagem médica –, os riscos de dano se tornam altíssimos. O novo órgão do garoto voltou a bater quatro horas e sete minutos após deixar o corpo do doador.

 

Assim que a cirurgia do estudante terminou, o Programa Estadual de Transplante ligou para o instituto com uma notícia inesperada, mas muito bem-vinda. Havia outro coração disponível, agora em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, a 25 quilômetros. Mais uma vez, o sangue do doador era do tipo O. Até então, o INC nunca conseguira dois corações com a mesma compatibilidade num só dia. A instituição é a única da rede pública que oferece transplantes cardíacos no estado. Realiza, em média, dez por ano. Hoje existem dezoito pessoas na fila de espera, que costuma durar quatro meses.

A tarde avançava, e Sabrina Thomaz se preparava para receber o órgão que surgira no município vizinho. A cardiologista clínica Jacqueline Sampaio, que coordenaria a cirurgia, encarregou dois médicos, uma enfermeira e uma técnica em enfermagem de buscá-lo. A equipe decidiu ir de ambulância, como costuma fazer quando se trata de resgatar corações na região metropolitana do Rio. Só que, para chegar a Duque de Caxias, precisaria atravessar parte da Linha Vermelha e da Avenida Brasil.

O grupo deixou o INC às quatro da tarde. “A Maré está sob tiros há mais de seis horas. Quarenta escolas e cinco postos de saúde estão fechados”, dizia o aplicativo que monitora o bangue-bangue carioca. A ambulância passou pelo complexo enquanto as balas ainda zuniam. Levou quase uma hora para alcançar o hospital em Duque de Caxias, onde outras duas equipes de resgate se incumbiam de retirar o fígado e os rins do doador.

Antes de extrair o coração, os profissionais do INC lhe aplicaram uma dose de cardioplegia, solução que paralisa o órgão durante o período em que não há irrigação sanguínea. Evita-se, assim, o gasto desnecessário de energia e preserva-se o tecido cardíaco. Tão logo separou o coração das artérias, o grupo calculou que dispunha de apenas três horas e meia para retornar a Laranjeiras e concretizar o transplante.

 

À medida que a equipe trabalhava em Duque de Caxias, o tiroteio na Maré saía do controle a ponto de a polícia fechar os acessos para a Avenida Brasil e as Linhas Vermelha e Amarela. Não por acaso, um imenso engarrafamento se formou entre o município da Baixada e o INC. “Acompanhávamos o caos pela mídia e ficávamos cada vez mais preocupados no hospital”, relembrou Jacqueline Sampaio. “O trânsito poderia impedir que o coração chegasse a tempo.”

Por causa da confusão na Zona Norte, a prefeitura decretou estado de atenção em toda a cidade. Ao longo da tarde, uma denúncia anônima garantiu que traficantes haviam sequestrado quatro policiais na Maré. A informação, porém, se revelou falsa.

Diante de tantas notícias ruins, Sampaio resolveu acionar o Programa Estadual de Transplante e solicitar um helicóptero dos bombeiros para tirar o coração de Caxias. Uma caixa térmica embarcou na aeronave assim que a noite caiu. Dentro dela, um saco com gelo abrigava o órgão.

“Não bastasse ter que voar no escuro, o que é sempre complicado, o helicóptero precisaria cruzar a região conflagrada. Temíamos que os traficantes o confundissem com uma aeronave da polícia e o alvejassem”, contou a cardiologista clínica. A viagem até o heliporto do Palácio Guanabara, sede do governo estadual, consumiu quinze minutos. De lá, o coração levou mais dez minutos para adentrar o instituto. Batedores da PM lhe abriram caminho pelas ruas movimentadas.

No fim das contas, o novo órgão da babá permaneceu apenas 1 hora e meia sem sangue. O transplante correu bem e a jovem se recuperou satisfatoriamente, assim como o menino. O saldo daquela terça-feira, no entanto, se mostrou negativo para outras pessoas. A última mensagem do Fogo Cruzado, às 20h30, contabilizava: “Vinte e cinco registros de tiroteios/disparos de arma de fogo na região metropolitana. Ao menos uma criança e um adolescente morreram e um policial ficou ferido.”

Tiago Coelho

Repórter da piauí e roteirista

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