anais do comunismo

A vida dos outros e a minha

Memórias de uma estudante brasileira fichada pela Stasi

Claudia Cavalcanti
Em 1989, os protestos em Leipzig foram ganhando a adesão de dezenas, centenas e, finalmente, milhares de pessoas. Nessa cidade, em 9 de outubro, ocorreu a primeira vitória da revolução pacífica em processo na Alemanha Oriental: uma gigantesca manifestação que o aparato de repressão pretendia aniquilar, segundo boatos, mas não o fez
Em 1989, os protestos em Leipzig foram ganhando a adesão de dezenas, centenas e, finalmente, milhares de pessoas. Nessa cidade, em 9 de outubro, ocorreu a primeira vitória da revolução pacífica em processo na Alemanha Oriental: uma gigantesca manifestação que o aparato de repressão pretendia aniquilar, segundo boatos, mas não o fez FOTO: REUTERS

Quando a verdade precisa ser combatida, é porque ela já venceu.
G. Jochmann

 

“Como assim, indo morar num país socialista?”, perguntavam meus amigos, depois que resolvi aceitar, em 1984, a oferta de uma bolsa para cursar germanística em Leipzig, na antiga República Democrática Alemã (RDA). Pragmática demais para quem tinha 20 anos, eu via naquilo uma rara oportunidade de estudar no tão sonhado continente europeu sem me preocupar com a sobrevivência, com o pagamento de aluguel e faculdade, e sem precisar gastar com livros caros (pois sabia que lá eles eram baratíssimos). Acredito que meu pragmatismo e minha coragem, naquela época, eram diretamente proporcionais à coerência ideológica.

Quando comentei com minha mãe, antes de partir, que toda pessoa que atravessava a Cortina de Ferro voltava de lá anticomunista, ela prontamente retrucou: “Então você vai voltar comunista.” Eu ri. Embora pertencesse a uma família que sempre se opôs com firmeza à ditadura no Brasil, ainda em vigor naquele ano, eu já intuía que uma ditadura de esquerda tampouco podia significar avanço de qualquer tipo, considerando o que sabíamos sobre o socialismo real. Ainda hoje rejeito igualmente o autoritarismo de direita e o de esquerda – e isso nunca me pareceu uma contradição.

Parti para a maior aventura da minha vida no dia 25 de agosto de 1984. Depois de passar uma semana na Itália, aterrissei na RDA. Em Berlim Oriental, onde fiquei um fim de semana, meu gentil anfitrião foi um conhecido do meu avô, Dario Canale, italiano com passagens pela esquerda radical de seu país natal e do Brasil, de onde fora expulso. Ele e a mulher, Christiane, me levaram para conhecer a cidade de carro, com direito a parada numa das prisões nos arredores da cidade, onde o casal foi visitar alguém próximo, “convidado a se recolher” depois de ter pedido oficialmente para sair do país. Enquanto esperava no carro, contemplando aquela paisagem inóspita – um presídio alemão-oriental –, no segundo dia de uma estada que duraria cinco anos e quatro meses, eu tentava captar a linguagem de sinais daquele lugar.

Logo nas primeiras semanas em Leipzig, percebi que a RDA estava longe de ser o país dos sonhos para quem morava lá. Os indícios da futura ruína se manifestavam nos detalhes da vida cotidiana, nas opiniões das pessoas e em algumas atitudes, por mais intranquilas e desconfiadas que fossem. Na falta de uma imprensa livre, essas pessoas, na maioria estudantes, eram termômetro e parâmetro para minha percepção do descontentamento geral e da paulatina decadência socialista. Em 1989, porém, quando começaram a ocorrer manifestações em massa contra o regime, o tempo correu acelerado sem pular os dias, até culminar na queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro.

Desde que Gorbachev assumira o poder, em 1985, ficou claro que as mudanças na União Soviética preconizadas por ele – transparência (glasnost) na política e reestruturação (perestroika) da economia – se refletiam negativamente nos países do bloco soviético de linha ainda mais dura, como a RDA, com evidente resistência para seguirem as novas diretrizes, embora economicamente dependentes da União Soviética. Certa distensão política, entretanto, não tardou a ocorrer. No verão de 1989, a Hungria abriu suas fronteiras para o Ocidente, o que permitiu a fuga de milhares de alemães-orientais (que normalmente tinham trânsito livre pelo território húngaro e outros países para lá da Cortina de Ferro).

A tensão policialesca começou, então, a tomar conta das ruas de Leipzig. Inicialmente, alguns gatos pingados (muito corajosos) se reuniam todas as segundas-feiras na Igreja de São Nicolau para uma “oração pela paz”. Era uma forma de mobilização. Aos poucos, timidamente, passaram a sair às ruas, depois das reuniões, para protestar nas imediações da igreja. Com o passar dos meses, os protestos foram ganhando a adesão de dezenas, centenas e finalmente milhares de pessoas, apesar das ameaças veladas, por parte do regime, de repressão violenta e retaliações.

A primeira grande vitória dessa revolução pacífica aconteceu em 9 de outubro, dia de mais uma passeata que – de acordo com fortes boatos – o aparato de repressão pretendia aniquilar. Mas, tanto nessa quanto nas manifestações posteriores, bandeiras e cartazes improvisados clamavam por Gorbachev (“Gorbi, ajude a gente!”) e estampavam, ironicamente, a foice e o martelo, invocando os mais genuínos símbolos socialistas. A estratégia dos oposicionistas ao regime funcionou, pois, em vista dessa tática, como reprimir publicamente as manifestações?

Também fui ao protesto do dia 23 de outubro. A divisão de estrangeiros da Universidade Karl Marx (KMU; hoje novamente chamada de Universidade de Leipzig) havia advertido que todos deveriam ficar em casa. Minha mãe, que acompanhava a turbulência no Leste Europeu pela tevê, me pediu o mesmo, por telefone. Mas ninguém seria capaz de me convencer de não participar daquela manifestação – que seria crucial para a história alemã recente, embora, naturalmente, não pudéssemos adivinhar que repercussão teria.

Ignorando as ameaças (dizia-se que os hospitais já faziam estoque de sangue, prevendo o pior, por exemplo) e atendendo a um apelo que não podia ser alardeado, mas apenas rumorejado, as pessoas foram às ruas, em várias cidades da Alemanha Oriental. Em Leipzig, a concentração começou à tardinha, como de costume, mas o outono já espalhava a escuridão. Para os manifestantes, a penumbra era bem-vinda, pois, assim, os rostos transitavam com mais liberdade. O trajeto pelo anel viário que circunda o Centro da cidade era quase silencioso. De vez em quando, o coro pedia liberdade, democracia. A turba pacífica caminhava devagar, placidamente, até que a linha de frente encontrou os últimos manifestantes, fechando o anel da cidade. Cerca de 300 mil pessoas, muitas vindas de cidades próximas, estiveram na manifestação. Uma multidão impressionante, tanto mais que Leipzig tinha na época aproximadamente 500 mil habitantes.

Era difícil fotografar na escuridão. Eu não tinha medo de ser presa (pois então seriam milhares de pessoas atrás das grades), mas de que confiscassem minha Pentax Asahi, fiel companheira naquela jornada alemã-oriental. Por isso, fiz poucas fotos. Quando mandei revelá-las meses depois, já no Brasil, deparei com o esperado: eram tecnicamente ruins. Hoje, quando as revejo, chego a valorizar a precariedade delas, expressão daquele momento e, sobretudo, me emocionam aqueles rostos tensos, tristes, mais parecendo sombras.

No domingo seguinte, 29 de outubro, dezenas de pessoas se encontraram no saguão do prédio da Orquestra Gewandhaus de Leipzig, diante do regente Kurt Masur – não para vê-lo conduzir seus músicos, mas para ouvi-lo presidir o encontro em que pediu ponderação nos protestos, a fim de que as coisas pudessem seguir no rumo certo.

Não me lembro de como fiquei sabendo dessa reunião anunciada em surdina, mas, ao chegar, já não havia mais cadeiras vazias. Como a casa de concertos de Masur era reconhecida internacionalmente, não se esperava que pudesse ser invadida pelas forças de repressão – o que traria consequências ainda mais desastrosas para um governo com os dias contados.

Como já faltasse assento quando cheguei à Gewandhaus, tomei a iniciativa de me acomodar no chão, à frente da primeira fila de cadeiras. Minha atitude incentivou os alemães – com traquejo para as máximas transgressões, mas não para as mínimas – a também se instalarem nos espaços vazios, no chão e nas escadas. Masur foi ouvido com a maior atenção pelos presentes: era a voz do maestro, ou era o silêncio.

No dia seguinte, segunda-feira, deu tudo certo. Outra manifestação gigantesca e pacífica aconteceu sem atropelos, embora soubéssemos que boa parcela dos presentes era composta de agentes da Stasi (abreviatura de Staatssicherheit, segurança do Estado), a temida polícia secreta, que vivia seus momentos de agonia.

Depois da queda do Muro, esperava-se que Kurt Masur, por seu protagonismo nos protestos como pacificador, assumisse um cargo importante na Alemanha reunificada. Mas o maestro migrou para os Estados Unidos, onde foi diretor musical emérito da Orquestra Filarmônica de Nova York até sua morte, aos 88 anos. Masur – que também teve passagens pela Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), pela Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) e pelo Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão – permanece em minhas lembranças mais positivas de Leipzig, inclusive porque era uma felicidade vê-lo reger, nas raras vezes que a orquestra se apresentava na cidade. O dia que estive no prédio da Gewandhaus, mas não para um concerto de música, também foi perpetuado. Em 1990, meu amigo Detlef Schiwek me enviou um livro com fotos que registram aqueles momentos históricos em Leipzig. E lá estou eu numa das imagens, sentada no chão da Gewandhaus, sorrindo e atenta ao que o regente dizia.

 

Nos meses que antecederam a queda do Muro, em 9 de novembro de 1989, além de ir às manifestações das segundas-feiras, eu cuidava da minha mudança para o Brasil, prevista para 9 de dezembro. Meus estudos haviam sido concluídos em julho e eu tinha um ano para apresentar o trabalho final. Preferi, entretanto, antecipar a entrega para 18 de outubro. Nesse dia, ao sair da minha apresentação, fiquei sabendo da renúncia de Erich Honecker, que governava o país como secretário-geral do Partido Socialista Unificado da Alemanha, o SED, e presidente do Conselho de Estado.

Àquela altura, eu me via num turbilhão de sentimentos. Não bastasse a despedida de um país, que, bem ou mal, tinha sido o meu durante todo aquele tempo, eu vivia a tensa expectativa da volta ao Brasil. Isso significava também dizer adeus a amigos e rever outros. E foi de Dario Canale – o primeiro amigo que fiz na RDA e alguém que acompanhou minha trajetória com a atenção de um pai (mesmo que não tivesse idade para isso) – que primeiro me despedi, inesperadamente, ao receber em julho a notícia de seu suicídio.

Sem que eu pudesse perceber a razão, nos meses anteriores ele me enviara os mais diversos objetos, inclusive alguns livros de sua biblioteca. Ao longo daqueles anos, Dario também passou a expressar (pelo menos para mim) fortes reservas ao que se tornara o mundo socialista. Embora tenha programado a própria morte com antecedência, meu protetor na Alemanha, um “perigoso” radical de esquerda e última pessoa a ser anistiada no Brasil, não aguentou assistir às cenas do massacre na Praça da Paz Celestial, na China, e à escalada oposicionista na Europa do Leste, supondo que destino semelhante ao dos chineses pudesse estar reservado aos que se encontravam à frente das revoltas.

Mas eu precisava cuidar da minha mudança. Toda semana, arrastava até o correio uma caixa de livros, ajudada por um suporte metálico de rodinhas e alça, daqueles usados antigamente para puxar malas. Com alguma dificuldade, depositava a caixa pesada sobre o balcão de despacho, e a mesma funcionária, que sempre fingia não me reconhecer, perguntava: Per Schiff? “Sim, senhora, de navio”, eu respondia. Pelas minhas contas, comprei um livro por dia na Alemanha, em média. Como morei lá durante cinco anos e meio, precisei despachar para o Brasil cerca de 1,5 mil volumes, que atravessaram o Atlântico pouco a pouco.

Na noite de 9 de novembro, enquanto eu arrumava os pacotes da mudança, ouvia o noticiário na tevê sobre o assunto dominante nos últimos tempos: as revoltas populares contra o regime socialista. Numa era pré-internet, o papel da tevê da Alemanha Ocidental na Alemanha Oriental não foi desprezível. O sinal das principais emissoras da parte capitalista do país chegava aos lares socialistas sem grandes problemas e, embora fossem proibidos, os programas do “lado inimigo”, sobretudo os noticiários, eram assistidos por todos os alemães-orientais.

Os mais precavidos não exageravam no volume, para não serem denunciados ou sofrerem retaliações. Muitos ficavam aguardando o final da programação diária, lá pela noite, para ouvir as últimas notícias e em seguida o hino da República Federal da Alemanha (RFA). A letra de August Fallersleben, escrita em 1841 (que diz: União e justiça e liberdade/para a pátria alemã…) era praticamente um atentado aos ideais socialistas. Acontece que esse era o único meio de receber notícias frescas do mundo sem o filtro da repressão. O noticiário da RDA, ao contrário, se concentrava na transmissão das visitas de Honecker a fábricas com seus operários sorridentes, nas sempre boas notícias do mundo socialista e nas más dos países capitalistas. Depois dos últimos acontecimentos, porém, um tantinho de glasnost chegara aos dois canais da RDA.

Aquele dia fora especialmente conturbado. A impressão era de que o povo já não temia o regime e que o governo perdera o controle de tudo – o rígido sistema socialista da RDA se dissolvia minuto a minuto. Na tevê local, vi reunida uma parte da quadrilha do Comitê Central para uma coletiva internacional de imprensa, algo inimaginável meses antes, mas que havia se tornado frequente nos últimos dias, em razão da turbulência política.

Falava o porta-voz do governo da Alemanha Oriental, Günter Schabowski, que anunciou a decisão de flexibilizar o trânsito nas fronteiras do país, permitindo que os alemães-orientais visitassem os países ocidentais. Um jornalista, então, perguntou: “Quando essa medida começaria a ter efeito?” Não muito certo sobre o que deveria responder, Schabowski folheou os papéis um pouco a esmo e disse: “Pelo que estou informado, entra em efeito imediatamente, sem demora.” Ele não havia estado na reunião do Comitê Central, horas antes, que determinara a abertura da fronteira, de maneira controlada, para o dia seguinte. A data correta da mudança estava no verso de uma das folhas que o porta-voz recebera minutos antes do início da coletiva – e que ele não viu.

Outro jornalista quis saber: “O que vai acontecer com o Muro de Berlim agora?” Estampando um leve sorriso no rosto – misto de cinismo e alívio, a meu ver –, Schabowski respondeu que, uma vez que as viagens haviam sido autorizadas, seria preciso rever o sentido do Muro.[1]

Sem querer, o porta-voz desavisado adiantou a história, precipitando para aquela mesma noite a explosão de alegria nas duas cidades chamadas Berlim.

A essa altura, eu já havia esquecido minhas malas. A 1 metro da tevê de 14 polegadas, nem piscava enquanto assistia à coletiva, que mais parecia um delírio. Depois de acompanhar, agora pela tevê alemã-ocidental, as comemorações nas ruas, à medida que o povo chegava ao Muro de Berlim para atravessá-lo, e a repercussão de tudo aquilo pelo mundo, desliguei por fim a tevê, certa de que nos dias seguintes eu iria a Berlim assistir à festa de perto.

Quando o Muro foi erguido, em 1961, a justificativa mais citada era a de que ele protegia a população das ameaças imperialistas – embora os militares de plantão nas inúmeras guaritas voltassem suas armas para a própria população alemã-oriental. Vinte e oito anos depois, aquilo estava sendo derrubado pelo povo.

O inverno já se aproximava, mas não foi preciso dar uma carga maior de calefação manual naquela noite. Deitei-me e logo adormeci – como se saísse de um sonho.

 

No início da década de 1990, já no Brasil, soube que era possível ter acesso aos documentos que a espionagem da Alemanha comunista produzira sobre seus habitantes. A lei que permitia tal acesso foi promulgada depois de protestos e notícias de greve de fome dos que exigiam transparência sobre as ações da Stasi. Instada por alguns amigos, cogitei pedir os papéis que porventura existissem a meu respeito.

Tempos depois, em 1997, li The File: A Personal History, livro no qual o historiador britânico Timothy Garton Ash conta como tomou conhecimento de informações que a Stasi coletara sobre ele. Não apenas: de posse das informações, interpelou uma a uma as pessoas que o espionaram durante sua estada em Berlim Ocidental como estudante pesquisador, no final dos anos 1970.

Apesar do enorme interesse que me despertou o livro, continuei relutando em saber se, afinal, alguém vigiara os momentos públicos e talvez os mais íntimos de parte da minha juventude.

Além de ocidental e burguesa, eu tinha um namorado alemão, em cujo talento o Estado investia para que permanecesse onde estava, justamente como professor doutor de linguística da Universidade Karl Marx (cargo que ele e tantos outros só podiam almejar e mesmo exercer se pertencessem aos quadros do partido, é claro). Não bastasse isso, apesar de ser cuidadosa, eu expressava opiniões, sobretudo em sala de aula, onde, ironicamente, as ideias podiam ser ditas com certa liberdade. Ironicamente também, foi na RDA que aprendi a expor minha visão de mundo, exercício não praticado na ditadura brasileira.

Enquanto morei lá, conheci pessoas atingidas pelas duas maiores tragédias da história alemã no século XX. Penso também no doloroso caminho de Frau Castillo, minha professora de alemão na KMU, casada com um poeta e guerrilheiro guatemalteco exilado em Leipzig. Em determinado momento, Otto René Castillo resolveu voltar para a Guatemala e retomar a luta. Foi preso, torturado e queimado vivo, em 1967. Quase vinte anos depois, quando conheci a viúva, que ainda carregava o sobrenome do marido com orgulho, os dois filhos do casal estavam presos na RDA por discordarem do governo. Minha professora era uma mulher visivelmente atormentada, mas corajosa ao revelar a alguns poucos alunos sua história.

Diferentemente de Frau Castillo, eu sentia me faltar coragem para reviver a Guerra Fria na própria pele e descobrir que pessoas muito próximas possivelmente tivessem me espionado.

Eu tinha quase certeza da existência dos documentos, e por isso mesmo continuava hesitando em pedi-los, tanto mais que não dispunha da generosidade que Garton Ash demonstrara em face das revelações a seu respeito. No livro, o historiador conta como preferiu não perturbar uma velha senhora que o vigiara para que ela tivesse alguma paz no final da vida, uma vez que já enfrentara maus bocados nas mãos de nazistas e também de comunistas, que a obrigaram a fazer o trabalho sujo de espionagem.

Mas o tempo correu, inevitável. À medida que nos distanciamos dos fatos, fortalecemos amizades antigas e aprendemos, bem ou mal, a perdoar. Pouco a pouco, comecei a revisar minha decisão. Para isso, contribuiu em parte a avalanche de informações que apareceu nos últimos anos sobre aquela época singular da história recente, em livros, revistas, filmes e mesmo séries, como Deutschland 83 e 86, que retratam o período com impressionante fidelidade. Contribuíram ainda o distanciamento, as amizades duradouras, a intenção de perdoar e, mais ainda, o incentivo de um interlocutor muito especial – meu marido, com quem ponderei requerer os tais documentos que revelariam por que motivo, em que circunstâncias e por quais pessoas fui espionada.

Decidi, então, consultar a instituição alemã que hoje guarda possíveis documentos produzidos sobre mim pela Stasi, depositados na antiga sede da polícia secreta em Leipzig.

 

A serviço da Stasi, além dos colaboradores oficiais e não oficiais (conhecidos como im, inoffizielle Mitarbeiter), havia aqueles informantes denominados “boas pessoas” (GM, gute Menschen), que denunciavam a própria mãe, o amigo, o vizinho, o colega ou quem bem entendessem, pelo puro hábito da delação, uma vez que a maioria das denúncias, nesses casos, era feita anonimamente, com um simples telefonema. O que os movia, num Estado maniqueísta, era a doutrinação recebida desde a infância de que denúncias ajudavam a salvaguardar o regime, o bem maior de todos.

Estima-se que, na RDA, havia um espião para cada grupo de 6,5 pessoas, num país de 16,4 milhões de habitantes (no nazismo, havia 1 agente da Gestapo para cada grupo de 2 mil habitantes; na União Soviética, 1 da KGB para cada grupo de 5.830 pessoas).[2] Esse perverso esquema de vigilância ficou mundialmente conhecido graças ao sucesso de A Vida dos Outros, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2007 e cuja história se desenrola entre 1984 e 1989, o exato período de minha estada na RDA.

Ao menos uma pessoa que atua no filme foi afetada na vida real pela vigilância do Estado. Após consultar a documentação a seu respeito nos arquivos da polícia secreta, o ator Ulrich Mühe, que interpreta um informante da Stasi, deduziu que a própria mulher o teria espionado durante os seis anos de casamento. Ele acabou acusando-a na Justiça, mas, como não havia provas contundentes da delação, Mühe perdeu o processo.

Desde que, em 20 de dezembro de 1991, foi promulgada a Lei sobre os Documentos do Serviço de Segurança do Estado na Antiga República Democrática Alemã (StuG, na abreviatura original), mais de 3,2 milhões de pedidos de consulta chegaram aos arquivos. E o interesse das pessoas parece não cessar: em 2018, foram mais de 40 mil solicitações, segundo a revista Der Spiegel.[3]

Em número de páginas, os papéis ultrapassam toda a documentação acumulada sobre a história alemã desde a Idade Média: são cerca de 180 km de pastas distribuídas em várias filiais da Stasi no território da antiga Alemanha Oriental. A integração de todos esses arquivos locais deve ocorrer em 2021, conforme projeto lançado em março último.

Há ainda 15 mil sacos de documentos e fotos picotados pela própria Stasi, durante as revoltas ocorridas há trinta anos e logo depois delas, papéis que voluntários, conhecidos como montadores de quebra-cabeças de Nuremberg, tentam remendar desde 1995, juntando os pedacinhos em busca de justiça e reparação. Calcula-se que a restauração levará 375 anos.

Além disso, a autoridade responsável pelo espólio da Stasi requereu a guarda de documentos produzidos autonomamente por fábricas, bancos, hospitais, universidades e repartições em geral, locais classificados como POZW (“parceiros da cooperação político-operativa”, de acordo com a sopa de letrinhas alemã socialista). Os papéis podem conter delações de trabalhadores sobre seus colegas, superiores ou subordinados.

Os documentos da Stasi revelados expuseram informações que causaram danos irreparáveis a famílias inteiras. Mas a vida de milhões de pessoas já estava arruinada desde muito antes de elas terem acesso a esses papéis, por causa das perseguições políticas e denúncias injustas. A inédita lei desencadeou também questionamentos básicos na população: “Quem sou eu?” (Aquele que leva uma vida que todos conhecem ou o informante agora revelado?); “Quem é ele?” (O filho exemplar e estudioso ou o denunciador dos próprios colegas?) Uns se viram confrontados com a vida dupla de outros, pessoas com as quais conviveram durante anos, sem suspeitar da traição.

Com a liberação dos documentos, ficou clara a enorme capacidade do regime comunista de arregimentação de quadros. A polícia secreta recrutou informantes até mesmo em prisões (em troca de penas menores ou da liberdade) e em clínicas psiquiátricas, onde havia presas fáceis, porém vulneráveis. Essa rede de espionagem tão absurda e bem tecida explica, para alguns historiadores, a estabilidade da RDA, um Estado que durou quarenta anos, de 1949 a 1989. Explica também a preocupação dos informantes (chamados AKP, “pessoas informativas”) em contar à Stasi qualquer dado que lhes parecesse relevante sobre quem vigiavam. E explica, por fim, a autocensura que se impunham aqueles que não compactuavam com as práticas medonhas, nada democráticas e menos ainda solidárias. “Solidariedade”, aliás, é uma palavra obrigatória em qualquer glossário de termos socialistas – mais adequada aos livros de ficção.

 

Voltei várias vezes à Alemanha desde minha partida, em 1989 – o ano mais importante na história da Europa, segundo Garton Ash. Numa das viagens, eu havia acabado de ver A Vida dos Outros; toquei no assunto com Hans Schlag, meu amigo desde os tempos sombrios. No filme, o agente da Stasi interpretado por Ulrich Mühe recebe a incumbência de vigiar um dramaturgo e sua mulher, expoentes da vida cultural de Berlim Oriental. “Não sei como você pode ter gostado desse filme”, Hans resmungou, quase ofendido. “Você sabe que naquele tempo as coisas não eram do jeito como foram retratadas ali.”

Em seu mais recente livro, Gegenlauschangriff: Anekdoten aus dem letzten deutsch-deutschen Kriege (Contra-ataque espião: Histórias da última guerra teuto-alemã), o dramaturgo e escritor Christoph Hein comenta que, quatro anos antes do lançamento de A Vida dos Outros, o diretor Florian Henckel von Donnersmarck o procurou para saber como vivia um autor de teatro na antiga RDA. Hein respondeu que não havia um modelo, mas vidas diversas e autônomas. Eles, então, conversaram durante horas sobre a trajetória do próprio Hein.

Quando o filme estreou, em 2006, o dramaturgo se surpreendeu ao ver expostos na tela vários aspectos de sua biografia, ali reduzidos a clichês narrativos. Ficou irritado, e mais ainda ao deparar com seu nome nos créditos, com um agradecimento pela “colaboração”. Decidiu, então, contestar A Vida dos Outros. Em seu livro, escreveu, por exemplo, que nos anos diretamente anteriores à queda do Muro não era usual a instalação de escutas (embora ele mesmo tenha sido vítima de uma, só que décadas antes, por causa de uma panfletagem estudantil), até porque eram muitos os dissidentes – a Stasi dificilmente daria conta de vigiar todos eles.

No livro publicado este ano, Hein relembra a célebre frase de O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, de Marx, aqui citada literalmente: “Em algum lugar, Hegel notou que todos os grandes fatos e pessoas da história universal se repetem, por assim dizer. Esqueceu-se de acrescentar: uma vez como tragédia, a outra como farsa.”

A polêmica do dramaturgo com o diretor de A Vida dos Outros me deixou confusa: o filme peca por não retratar a realidade, atenuando-a, como achava Hans, ou exagerando nas tintas, de acordo com Hein? E, se o filme é uma farsa, as lembranças guardadas de minha própria vida também não seriam?

A história da Alemanha Oriental tem essa característica: em apenas quatro décadas, formou-se no país uma pletora de fatos e personagens com muitas camadas, nuances e mentiras. Há, contudo, uma verdade inarredável: o autoritarismo, que não dá margem para muita reinterpretação, tanto mais quando se pretende justificá-lo.

 

Não é difícil pedir de volta seu pedaço de vida roubado pela Stasi. Em 15 de março deste ano, finalmente, preenchi o requerimento solicitando uma pesquisa sobre se haveria ou não algo a respeito de minha vida em Leipzig nos arquivos da polícia secreta. Como prova de residência na cidade, juntei uma cópia autenticada do meu diploma de germanista, e enviei tudo pelo correio. A resposta não demorou a chegar.

Por e-mail, uma funcionária fez determinada pergunta que, segundo ela, facilitaria a pesquisa – mas talvez quisesse se certificar de minha identidade. Em seguida, disse que em dois meses eu seria informada se havia alguma ficha com meu nome na antiga sede da Stasi. Se fossem encontrados documentos, eu teria a opção de receber uma cópia deles pelo correio, gratuitamente (caso o material não ultrapasse oitenta páginas), ou de folheá-los in loco, em Leipzig – contanto que eu marcasse a visita com dois meses de antecedência.

Enquanto esperava pela resposta, fiquei imaginando os possíveis codinomes que a Stasi talvez tivesse atribuído a mim – uma vez que dar apelidos aos espionados era um hábito da polícia secreta. Garton Ash, por exemplo, foi chamado de Romeo, em referência não apenas à peça de Shakespeare, seu conterrâneo, mas também ao Alfa Romeo que o historiador dirigia em Berlim Ocidental. Nas fontes pesquisadas pela historiadora francesa Elise Catrain, há documentações relativas a pessoas apelidadas de Sportler (Atleta), Spezialist, Professor e até mesmo Sauerbier (cerveja azeda).[4] De minha parte, acharia graça se tivessem me apelidado de Isaura (da novela a que o mundo todo assistiu), Papagaio (de um brinco de penas que chamava atenção em Leipzig e, obviamente, remetia à minha origem) ou Urwald (floresta virgem, por causa da Amazônia). Mas estaria preparada para uma referência menos simpática à minha pessoa.

A resposta chegou dentro do prazo prometido, dois meses depois: “As pesquisas nas respectivas fichas, realizadas a partir dos dados fornecidos, estão concluídas. Essas pesquisas mostram que você está registrada nas fichas do Serviço de Segurança do Estado da antiga República Democrática Alemã. O registro sugere que pode haver documentos a seu respeito. […] Peço a compreensão para o fato de que, por causa do grande número de requerimentos em curso, infelizmente é preciso contar com um tempo de espera de até dois anos.”

O comunicado dizia ainda que eles entrariam em contato comigo no decorrer da coleta de documentos, se fosse necessário resolver alguma dúvida, mas que eu evitasse qualquer tentativa de acelerar o “tempo de espera”.

Eu, que passei trinta anos tentando ignorar a existência desses documentos, agora precisava aprender a lidar com a ansiedade de desejar lê-los imediatamente.

 

Sempre que me perguntam onde aprendi alemão ou em que universidade estudei, respondo: “Em Leipzig, na Universidade Karl Marx, antes da queda do Muro…” Meus interlocutores, invariavelmente de olhos arregalados, exclamam: “Uau, que experiência!”, “Deve ter sido incrível, não?” etc.

Lembro-me de que havia na KMU uma burocrata, Frau Darlatt, que costumava dizer que nós, estudantes, um dia nos lembraríamos daqueles anos como a época de ouro das nossas vidas. Eu não retrucava.

Frau Darlatt trabalhava numa salinha do departamento de germanística, no 11º andar do arranha-céu em forma de livro aberto onde ficava a administração da KMU – uma construção importante da arquitetura socialista, que hoje abriga variados empreendimentos. Penso nos estudantes, vindos de toda parte do mundo, cujos destinos podem ter sido decididos naquela sala, em conluio com a Stasi. Mas penso, ainda, que posso estar sendo injusta com Frau Darlatt. Que aquele seu jeito de figura remanescente da era nazista e, ao mesmo tempo, de fiel escudeira do socialismo pode, quem sabe, ter ocultado uma protetora dos alunos estrangeiros.

Posso estar sendo injusta ao imaginar que amigos até hoje próximos tenham feito o papel de espiões – mas já não me perturbo com isso, após chegar à conclusão de que, por continuarem meus amigos até hoje, nada do que porventura eu ler nos documentos da Stasi abalará nossos laços. E também posso estar sendo injusta com os interlocutores brasileiros, ao responder que “não, não era incrível morar na Alemanha Oriental”. Injusta porque, afinal, se sou hoje a soma dos anos que vivi, é inevitável incluir na conta os que passei em Leipzig.

Naquela época, eu tinha todo o tempo do mundo para estudar. Foi quando se entranharam em mim a língua e a cultura que tanto admiro; quando soube o que era amar; quando convivi com pessoas maravilhosas; quando aprendi a resistir. Portanto, para não ser tão injusta assim, de uns anos para cá passei a responder que não foi incrível viver aquela época naquele lugar, mas que é incrível rememorá-la hoje, a distância, como testemunha de um acontecimento histórico.

É sobre tudo isso que reflito enquanto aguardo os documentos, que demorarão a chegar, mas chegarão. Quantas páginas terão dedicado a mim: duas, vinte ou duzentas? Talvez constem ali não apenas descrições de encontros e situações, mas fotos e transcrições de áudios. É possível que eu não identifique meus espiões de estimação, ou sofra uma tremenda decepção. Caso os conheça, quem sabe me console com a ideia de que são hoje pessoas melhores que no passado, como o espião de A Vida dos Outros. Pode ser que eu morra de rir com determinadas situações. Ou que morra de raiva. E chore muito. Não sei o que vou ler nesses papéis, mas passei trinta anos me preparando para isso. Enquanto espero, escrevo.


[1] A coletiva de imprensa pode ser vista (em alemão) no YouTube: youtube.com/watch?v=kZiAxgYY75Y. Neste link há uma transcrição em inglês de parte da mesma coletiva: digitalarchive.wilsoncenter.org/document/113049.

[2] Números extraídos de Stasilândia: Como Funcionava a Polícia Secreta Alemã, da jornalista australiana Anna Funder, e de The File: A Personal History (de onde também extraí a epígrafe deste texto), de Timothy Garton Ash. Esses livros traçam um retrato estupendo dos anos imediatamente anteriores e posteriores à queda do Muro de Berlim e são minha fonte bibliográfica preferida.

[3] “Fast 43.000 Mal Einsicht in Stasi-Akten beantragt” (Quase 43 mil pedidos de acesso aos arquivos da Stasi), Spiegel Online, 23/12/2018.

[4] Hochschule im Überwachungsstaat. Struktur und Aktivitäten des Ministeriums für Staatssicherheit an der Karl-Marx-Universität Leipzig (1968/69-1981) (Universidade no Estado vigilante. Estrutura e atividades do Ministério de Segurança Nacional na Universidade Karl Marx em Leipzig, de 1968/69 a 1981).

 

Claudia Cavalcanti

Germanista, editora e tradutora. Traduziu e organizou, entre outros, De Profundis, de Georg Trakl, Cristal, de Paul Celan

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