esquina

A vida é sonho

Na fila para ouvir Patti Smith

Carlos Adriano
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2018

O bate-papo com Patti Smith em São Paulo estava marcado para as duas da tarde da quinta-feira, 14 de novembro. A distribuição dos ingressos se daria uma hora antes. Como eu queria visitar a exposição de Cildo Meireles no mesmo local, cheguei às onze da manhã. Surpresa: no ginásio de esportes do Sesc Pompeia já havia uma fila com 309 pessoas aguardando para ouvir as palavras da escritora e compositora.

Ainda tonto com o cenário que se anunciava, fui perguntar ao funcionário se ele achava que àquela altura eu tinha alguma chance de conseguir um ingresso. Com uma fleuma gentil, ele disse que não dava para saber ainda, pois seria preciso antes acomodar “essas pessoas” – que tinham chegado antes de mim, algumas às seis da manhã – e, girando o rosto para um ponto vago, também “os convidados”.

O nome dessa casta privilegiada me atingiu como um raio. Imediatamente pensei nas conveniências do privilégio: eu deveria ter pedido ao editor da piauí que me credenciasse junto à assessoria de imprensa da Companhia das Letras, que lançava dois livros de Patti Smith no Brasil, Devoção (2017) e O Ano do Macaco (2019).

Conformado, ocupei meu lugar na fila, onde uma esmagadora maioria de jovens ofuscava alguns poucos velhos punks e roqueiros cinquentões. Uma engenhosa gambiarra fora desenvolvida para tentar prevenir o caos: um pincel atômico passava de mão em mão para que as pessoas marcassem no braço ou na mão o número que conotava sua posição na fila. Foi assim que eu soube que era o 310.

Em dado momento, o funcionário pediu, pelo microfone, que fosse respeitada a ordem de chegada e fez um anúncio esquisito: Patti Smith “não daria atendimentos individuais”. Eu não esperava que ela atendesse o espectador à maneira de Marina Abramović, postando-se na frente dele para uma performance. Mas imaginava, ao menos, que autografaria os livros à venda no local. Que nada; nem isso.

Começou a entrada. Exultei com o lugar que obtive: fileira L, assento 26, o segundo do centro para as pontas – na mesma fileira, do lado oposto, estava o ex-jogador Walter Casagrande.

 

Pouco depois das 14 horas, Patti Smith entrou em cena, dressed in black, com coturnos pretos e cabelos cor de prata. Moveu-se leve até a cadeira e acenou com um sorriso para a multidão. A delicadeza da cantora no debate faria contraponto a sua energética disposição nos dois emocionantes shows das noites seguintes. De dia, a jovem senhora discutia docemente literatura; à noite, a roqueira de 72 anos arrasava na guitarra.

Para o pesar dos que passaram por tanta espera no Sesc Pompeia, ela deixaria a ribalta cerca de uma hora depois sem responder a nenhuma pergunta da plateia, pois o formato do debate foi esse: ela leu trechos dos seus livros no começo e no fim, e no meio respondeu às perguntas da mediadora, Fernanda Diamant, editora e curadora da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty).

Patti Smith contou que sua mãe, garçonete guerreira, ensinou a ela “duas coisas vitais: ler e rezar”. Aos 2 anos, apaixonou-se por As Aventuras de Pinóquio, livro de Carlo Collodi que a mãe lia religiosamente para ela à noite e que a menina “deixava sob o travesseiro para ouvir” – durante o sono. Não foi a única vez que falou de sonhos.

Um pouco mais velha, percebeu que as aventuras da Alice de Lewis Carroll não tinham nada de absurdo: “Era como a minha realidade.” Ao ouvi-la dizer isso, com os olhos arregalados e gestos largos, a plateia não resistiu e disparou aplausos. Surpreendida pela recepção, a compositora animou-se e confidenciou: “As pessoas achavam e acham que sou louca.” Mais aplausos – com gargalhadas.

“Sou uma sonhadora”, ela definiu, “que acorda como se estivesse em um filme.” Classificou-se também como uma “irremediável otimista”, mas ressaltou que isso não implica em “alienar-se da realidade”. Para ela, entretanto, um pouco como para Calderón de la Barca, a vida é um compósito de realidades e sonhos, em medidas equiparáveis e intercambiáveis.

Entre uns e outros, circula a literatura e transitam os escritores estranhos, inclusive os que já deixaram este mundo, mas que ela gosta de visitar nos cemitérios, como narrou em seus livros e relembrou no Sesc Pompeia. É um hábito dela sentar à beira da lápide dos finados autores para travar alguns papos com eles.

Contou que no primeiro aniversário de seu casamento resolveu viajar até a extinta prisão de Saint-Laurent-du-Maroni, na Guiana Francesa, na qual o escritor e criminoso francês Jean Genet sonhava ser trancafiado – como um prêmio por sua carreira na contravenção –, o que nunca ocorreu. Para compensar, Patti Smith foi ao Marrocos em 1994 e cumpriu uma promessa: em vez de flores, depositou no túmulo de Genet na cidade de Larache três pedras da prisão.

 

Honrando as exceções de Herman Melville, Virginia Woolf, Allen Ginsberg e J. D. Salinger, ela declarou que seus autores preferidos não são os de língua inglesa, mas os lidos em tradução, como Albert Camus, Marcel Proust, Marguerite Duras e Roberto Bolaño. Foi então tomada de entusiasmo ao falar de Space Invaders, romance da chilena Nona Fernández sobre um grupo de crianças durante a ditadura militar no Chile, nos anos 1980 – livro que, segundo ela, prova que a imaginação nunca consegue ser sacrificada. Esse romance lançado em 2013 ainda não foi traduzido no Brasil.

O momento-sensação da conversa ocorreu quando Patti Smith falou do “namorado” que teve aos 16 anos: o garoto na capa do livro Iluminações, Arthur Rimbaud. A paixão pelo jovem poeta é uma energia que corre nela desde a adolescência, com citação explícita em Land: Horses/Land of a Thousand Dances/La Mer (De), faixa de seu primeiro disco, Horses, de 1975. Sem falar nos poemas que dedicou ao francês e na escolha, para seu livro, do título Devoção – esse é também o nome de um dos poemas em prosa de Iluminações.

Por causa desse amor tão duradouro, ela decidiu comprar em 2017 a casa onde Rimbaud escreveu Uma Temporada no Inferno, em Roche, na França. A restauração do local está quase pronta, e ela pretende transformá-lo em uma residência para artistas e escritores. “Não para eles fazerem festas, nem para transarem com seu amor”, ela avisou. “Mas para trancarem a porta e chorar para escrever.”

Carlos Adriano

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