esquina

Villasanti mãos de tesoura

O universo canino já tem o seu Jean Louis David

Rodrigo Levino
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2009

Em uma hora, vinte minutos e cerca de 15 mil tesouradas, Sergio Villasanti torna apto a concursos de estética qualquer bichon frisé. É a sua raça de cão preferida para a tosa.

Aos 45 anos, Villasanti é dono da República dos Cães, escola e pet-shop que fundou há quinze anos em Campinas, onde, segundo seus cálculos, já formou mais de 4 mil tosadores, incluindo pupilos ingleses e australianos. Este ano, ele viajou para os Estados Unidos, Colômbia e Peru, convidado para ser palestrante ou jurado em concursos de beleza canina. As hospedagens, “em hotéis caríssimos, com jantares tão finos que dão saudade do meu arroz com feijão, em casa”, contrastam com a penúria do início da carreira, em 1979.

Villasanti tinha 14 anos e um emprego de auxiliar no pet-shop Cão Amigo quando foi apresentado ao universo da tosa canina. A iniciativa partira de uma cliente holandesa, que exigia ver seus poodles tosados no mesmo molde que se costumava usar nas ruas de Amsterdã. “Um trauma, um trauma”, Villasanti lembra, fechando os olhos e meneando a cabeça, como se quisesse tirar da mente a imagem dos cãezinhos quase escalpelados, tamanha a virulência com que a holandesa os tratava. Embora ainda tivesse pouco conhecimento do ofício, decidiu, ali, que primaria por cortes mais artísticos – o universo canino precisava de seu próprio Jean Louis David.

A iluminação veio aos 17 anos, quando, ao passar por um sebo, Villasanti comprou o livro Poodle Clipping and Grooming (algo como Tosando e Embelezando Poodles), publicação considerada a bíblia do ramo. A maior dificuldade foi traduzir o texto usando um dicionário escolar. Como não falasse outra língua que não o português, Villasanti se viu obrigado a observar cada fotografia com olhar cirúrgico. Memorizou as imagens de poodles com pompons no rabo, nas orelhas, nas patas, na franja e, com uma tesoura em mãos, passou a repeti-las nos cães da vizinhança (que, muito provavelmente, passaram a ser ridicularizados pela máfia de vira-latas, dobermanns e buldogues de pelo curto).

“Nessa época, era um horror”, lembra o tosador, explicando os motivos: “Tesoura, máquina, secador, pente, xampu – só tinha de uso humano. Um atraso, como quase tudo nesse país.” A situação começou a mudar nos anos 90, com a abertura implementada pelo governo Collor ao mercado de produtos importados. Foi o momento que Villasanti escolheu para abrir seu primeiro pet-shop. Chamava-se República dos Cães, como o atual.

A empreitada durou pouco. Em 1992, Villasanti foi estudar na Kitty Saloon, respeitada escola de tosa da Bélgica. Acabou contratado e, na condição de instrutor, amealhou o primeiro lugar no Best in Show Junior, concurso para tosadores profissionais que acontece todos os anos na Bélgica. Venceu 15 mil cães com o bichon frisé de uma vizinha, num ginásio apinhado de gente. “Foi lindo”, diz, com os olhos marejados. “Mas um dia a gente cansa da Europa, né?” Cansou, voltou e reabriu a República dos Cães.

 

Do primeiro concurso até hoje já são mais de 100 participações em competições. Os doze prêmios que acumulou nesse período renderam a Villasanti um convite do Ministério do Trabalho, em 2002, junto com seis outros colegas, para definir a profissão de “tosador de animais domésticos” na Classificação Brasileira de Ocupações. A redação diz: “Tosam, banham e enfeitam animais. Limpam ouvidos, dentes e olhos de animais.”

“Cada um de vocês, quando for comprar uma tevê nas Casas Bahia e preencher o crediário, pode dizer com orgulho, graças também a mim, que a profissão é tosador“, diz Villasanti aos alunos, durante uma aula de banho e tosa em seu pet-shop. O curso dura de dez a quinze dias e custa 800 reais, com carga horária de sete horas por dia. Para as demonstrações práticas, Villasanti usa sempre um poodle rosa (espécie de ovo rosa de botequim do universo canino). Já os alunos são obrigados a levar apenas lápis e papel. Tesoura, máquina e cães são cedidos pelo curso, que os arrebanha em canis da cidade. “Ele é muito famoso lá fora. Acho que vai valer à pena”, justifica o carioca Raimundo Souza, enquanto segura um cocker spaniel. Os alunos sonham dominar a técnica de Villasanti, que além de oitenta raças de cães, aprendeu a tosar gatos, ovelhas e cavalos.

Em abril de 2010, Villasanti poderá ver o conjunto de sua obra galardoado no The Red Carpet Show, o maior encontro internacional de tosadores, nos Estados Unidos. Ele concorre na categoria “Melhor Tosador Profissional Estrangeiro”. Diz-se merecedor do prêmio. “É natural que anos de esforço e dedicação findem em reconhecimento, embora isso eu já desfrute mundo afora. Seria, no caso, uma ratificação”, diz impudico. Se trouxer a comenda para casa, promete fazer uma tosa especial em seus vinte cachorros, “pois eu sou o que sou graças a cada um deles, né?”

Rodrigo Levino

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