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    CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2023

esquina

Virtuose do biquinho

Uberlândia faz seu segundo campeonato de assobio

Nuno Manna | Edição 204, Setembro 2023

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Uma melodia delicada cortava o silêncio da noite de Uberlândia, Minas Gerais. Da janela do seu apartamento, Vinícius Pena fazia reverberar seu último ensaio para a apresentação do dia seguinte, 29 de julho. O repertório fora estudado, treinado e apresentado a outros amigos músicos, e deveria confirmar seu talento para a plateia e um júri de artistas da cidade.

Com 33 anos, Pena ganha a vida como professor de geografia do ensino fundamental. Mas, quando o mestre de cerimônias anunciasse seu nome, ele invocaria os anos da adolescência que dedicou à formação musical e ao violino no conservatório local. Na disputa, sua grande inspiração seria Niccolò Paganini, violinista italiano do século XVIII.

Quando Pena subiu ao palco, a plateia fez silêncio. O número colado com fita adesiva na altura do seu peito indicava que ele era o quinto candidato a se apresentar. O boné da marca Invictus casualmente lhe conferia imponência. Mas não havia com Pena nenhum violino. Ele apenas ergueu a mão direita para marcar o compasso, projetou um biquinho e iniciou o assovio de uma variação de O Carnaval de Veneza, de Paganini. A apresentação lhe valeu, pela segunda vez, o troféu maior do 2º Campeonato de Assobio de Uberlândia.

 

Para estar naquela competição, que teve lugar no pátio de uma cervejaria, cada concorrente precisou enviar um vídeo de 30 segundos demonstrando suas habilidades assobiadorísticas ao interpretar uma peça. A regra excluía a possibilidade de se utilizar instrumentos ou qualquer outro objeto durante a execução da música (levar dedos à boca para auxiliar o assovio estava liberado).

Ao longo da tarde de 29 de julho, Pena e outros doze selecionados apresentaram uma sequência musical que demonstrava a versatilidade da arte do assovio – de música erudita a hino de time de futebol, de Luiz Gonzaga a Adele, de Edith Piaf a Raça Negra, da trilha sonora do filme Kill Bill à do seriado Chaves.

Acompanhando tudo atentamente estavam os seis membros do júri. A cada apresentação, eles registravam suas notas seguindo os critérios de avaliação estabelecidos: performance/interpretação, timbre e técnica. Um dos jurados, com uma caneta em uma das mãos e um cigarro em outra, estava especialmente entusiasmado. O ecletismo do repertório caía bem no gosto de Marcelo “Chelo” Lion – que trajava camiseta de uma banda sul-coreana de hardcore e tinha estampada no braço direito uma tatuagem do ídolo caipira José Rico.

Figura conhecida do meio musical de Uberlândia, Chelo é baixista da banda Porcas Borboletas e baterista da Light Strucks. Sob a persona Chelo Lion and his Yellow Fingers, canta e toca vários instrumentos como one-man band. Além de jurado, ele é um dos promotores do concurso de assovio, concebido em parceria com o empresário Luiz Casado em 2019.

Os criadores da competição buscavam o espírito modesto e despojado que se espera de uma disputa entre assobiadores. Ao mesmo tempo, sabiam que a ideia só vingaria se fosse levada suficientemente a sério, com a devida estrutura e divulgação. “É uma produção meio punk rock, feita por doidão, só que massa”, explica Chelo.

Para conferir credibilidade ao concurso, foi selecionado um corpo de jurados formado por músicos profissionais. Logo de cara, a proposta circulou pela cidade e atraiu gente que não estava (apenas) para brincadeira. “Uma candidata chegou no dia da competição perguntando onde era o espaço para aquecimento”, lembra Chelo. Como o evento não contava com camarim, não era raro que um espectador aguardasse as apresentações ao lado de uma ou outra criatura assoviante.

Apesar do sucesso da primeira edição, a pandemia de Covid impossibilitou que o campeonato acontecesse nos anos seguintes. O estímulo à propulsão livre de perdigotos fazia do assovio um problema de saúde pública. Na medida em que a emergência sanitária era controlada, o retorno do evento começou a ser organizado. Os cartazes do 2º Campeonato de Assobio de Uberlândia traziam a ilustração de uma andorinha furando, com seu bico aberto, uma máscara cirúrgica. “É a música irrompendo”, Chelo esclarece. “Não é uma mensagem antimáscara, tipo Eduardo Pazuello.”

 

Com uma interpretação da Marselhesa, Pena marcou sua vitória em 2019. Curtiu os louros e o destaque na mídia local, mas a demora para uma nova edição do concurso fez arrefecer sua prática artística. Quando o segundo evento foi finalmente anunciado, ele tratou de retomar os ensaios. Sua inscrição foi divulgada como um desafio aos competidores. Ele era o campeão a ser batido.

No dia da apresentação, Pena tentava não se afetar pelas expectativas. Apesar de estar em uma cervejaria, preferiu levar uma garrafa de vinho para desarmar o nervosismo. Optou por um Cabernet Sauvignon chileno que, segundo ele, é um vinho mais frutado e descontraído.

Na medida em que as apresentações aconteciam, a superioridade de Pena parecia incontestável. Só uma desafiante chegou a ameaçá-lo. Nancy Botrel, professora universitária de artes plásticas aposentada, executou Tristeza do Jeca com uma técnica que ela chamou de “assovio ventríloquo”. Ela projetava duas melodias independentes, formando sozinha uma espécie de dupla sertaneja na modalidade assoviada.

Pena, por sua vez, investiu na técnica tradicional, com a afinação, a potência e o vibrato que lhe são distintivos. Ele introduziu as notas de Paganini com delicadeza, para então disparar um fraseio acelerado e com agudos acentuados que fez estremecer as pessoas no recinto. Do meio da plateia, alguém não conseguiu segurar um estupefato “Afe Maria!”.

Depois de assobiar a última nota, Pena foi ovacionado. Quando as avaliações foram finalmente reveladas, confirmou-se seu bicampeonato. Botrel conquistou a segunda colocação. O dono do bar, que subiu ao palco para entregar o troféu a Pena, deu-lhe a alcunha de “O Homem Assovio”. Outra pessoa da plateia pensou alto: “Mas é assovio ou assobio?” A essa altura do campeonato, tanto faz.