tempos da peste

Volta ao mundo

O efeito apocalíptico do vírus na Índia, na Nicarágua e no Equador

Arundhati Roy, Wilfredo Miranda Aburto e Arturo Torres
ILUSTRAÇÃO: CAIO BORGES

O novo coronavírus é igual em todo lugar do planeta: infecta e pode matar, seja onde for, nas praias de Aracaju, nos táxis de Adis Abeba, nos jardins de Amsterdã. Mas essa uniformidade é o seu melhor disfarce, pois os desdobramentos de sua ameaça têm sido diferentes em cada país – e, em alguns deles, produziu cenas apocalípticas. Na Índia, onde vive 1,3 bilhão de pessoas, aconteceu o maior e mais brutal confinamento do mundo, com trabalhadores perambulando entre uma cidade e outra, sendo agredidos na beira das estradas e levando até mangueirada de desinfetante. Na Nicarágua, instaurou-se uma realidade paralela, própria do mais delirante realismo mágico, com procissões religiosas conduzidas por um falso padre e marchas do governo promovidas em nome do “amor nos tempos da Covid-19”. No Equador, a tragédia alcançou uma escala aterradora, com cadáveres abandonados nas ruas por causa do colapso do serviço funerário. A seguir, três reportagens descrevem a situação nesses países.

 

A PANDEMIA É UM PORTAL
Como o coronavírus ameaça a Índia – e o que o país, e o mundo, deveriam fazer depois

ARUNDHATI ROY, de Nova Delhi

Quem consegue usar o verbo “viralizar”, hoje, sem um leve estremecimento? Quem ainda consegue olhar para alguma coisa – uma maçaneta, uma caixa de papelão, uma sacola com legumes – sem imaginar que ali fervilham aquelas borbulhas impossíveis de ver, não mortas, não vivas, cravejadas de espinhos, à espera do momento de grudar em nossos pulmões?



Quem concebe a possibilidade de beijar um desconhecido, de subir num ônibus ou de mandar o filho para a escola sem sentir um medo concreto? Quem concebe a possibilidade de um simples prazer sem antes avaliar o risco envolvido? Quem dentre nós não é epidemiologista, virologista, estatístico e profeta de araque? Que cientista ou médico não reza em segredo por um milagre? Que sacerdote não se deixa conduzir – secretamente, ao menos – pelo que diz a ciência?

E, ao mesmo tempo que o vírus prolifera, quem não fica maravilhado com o aumento dos cantos de passarinho nas cidades, com os pavões dançando nos cruzamentos e com o silêncio nos céus?

Nesta semana, o número de casos no mundo inteiro ultrapassou a casa do milhão. Mais de 50 mil pessoas já morreram.[1] Se as projeções estiverem certas, esse número ainda vai chegar a centenas de milhares, talvez mais. O vírus se movimentou livremente pelas rotas do comércio e do capital, e a terrível doença que trouxe em sua esteira trancou os humanos em seus países, em suas cidades e em seus lares.

Porém, à diferença do fluxo do capital, esse vírus busca a proliferação, não o lucro, e por essa razão, inadvertidamente inverteu até certo ponto, a direção do fluxo. Zombou dos controles de imigração, da biometria, da vigilância digital e de todos os outros tipos de análise de dados, e golpeou com mais dureza – até aqui – as nações mais ricas e poderosas do mundo, levando a máquina do capitalismo a dar uma parada brusca. Temporariamente, talvez, mas pelo menos por tempo suficiente para que possamos examinar suas peças, fazer uma avaliação e decidir se queremos ajudar a consertá-la ou se preferimos sair em busca de uma máquina melhor.

Os mandarins que administram a pandemia gostam de falar em guerra. Não chegam nem sequer a usar a guerra como metáfora: usam-na literalmente. Mas, caso de fato se tratasse de uma guerra, quem estaria mais preparado para enfrentá-la que os Estados Unidos? Se os soldados da frente de batalha não precisassem de máscaras e luvas, mas de armas, bombas inteligentes, bombas antibunker, bombas nucleares, submarinos e bombardeiros,  será que haveria escassez?

Noite após noite, em metade do planeta, alguns de nós assistem às coletivas de imprensa do governador de Nova York com um fascínio difícil de explicar. Acompanhamos as estatísticas e somos informados sobre os hospitais sobrecarregados em todo o território norte-americano, sobre o pessoal de enfermagem mal remunerado, exausto, forçado a confeccionar máscaras com sacos de lixo e velhas capas de chuva, correndo toda espécie de risco para socorrer os doentes. Somos informados sobre estados obrigados a disputar respiradores, sobre os dilemas dos médicos diante da necessidade de decidir qual paciente recebe um respirador e qual é abandonado à morte. E dizemos para nós mesmos: “Deus meu! Mas isso se passa nos Estados Unidos!”

 

A tragédia é imediata, real, épica, e se desdobra diante de nossos olhos. Mas não é nova. O que vemos são os destroços de um trem que há anos avança a toda velocidade, desgovernado. Quem não se lembra dos vídeos mostrando o “descarte de pacientes” – pessoas enfermas, ainda vestindo a roupa do hospital, de traseiro à mostra, sendo descartadas nas esquinas das cidades norte-americanas? Vezes sem conta as portas dos hospitais estiveram fechadas para os cidadãos menos afortunados dos Estados Unidos, sem que se levasse em conta sua saúde precária ou a intensidade de seu sofrimento.

Agora, não – pelo menos por enquanto. Porque agora, na era do vírus, a doença de uma pessoa pobre pode afetar a saúde de uma sociedade rica. E, no entanto, mesmo agora, Bernie Sanders, o senador que fez uma campanha incansável a favor da adoção de um sistema de saúde universal, tornou-se carta fora do baralho – inclusive para seu próprio partido – em sua tentativa de ser candidato à Presidência do país.[2]

E o que dizer do meu país, meu pobre-rico país, a Índia, que vive pendurado em algum ponto entre o feudalismo e o fundamentalismo religioso, entre o sistema de castas e o capitalismo, governado por nacionalistas hindus de extrema direita?

Em dezembro, enquanto a China lutava contra a eclosão do vírus em Wuhan, o governo da Índia lidava com uma revolta em massa protagonizada por centenas de milhares de cidadãos, que protestavam contra a lei de cidadania antimuçulmanos, escandalosamente discriminatória, que fora aprovada pouco antes pelo Parlamento.

O primeiro caso de Covid-19 na Índia foi registrado em 30 de janeiro, alguns dias depois que Jair Bolsonaro, o honorável convidado de honra de nosso desfile do Dia da República, o destruidor da Floresta Amazônica e negacionista da Covid-19, deixou Nova Delhi. Mas havia coisas demais a fazer em fevereiro, para que o vírus ganhasse espaço no cronograma do partido dirigente. Havia a visita oficial do presidente Donald Trump, programada para a última semana do mês. A isca fora a promessa da presença de um público de 1 milhão de pessoas num ginásio esportivo localizado no estado de Gujarat.[3] Coisas que exigiam dinheiro e uma quantidade enorme de tempo.

Depois, havia as eleições para a Assembleia de Delhi, que o Bharatiya Janata (Partido do Povo Indiano) estava fadado a perder caso não reforçasse seu jogo, o que fez, desencadeando uma campanha nacionalista hindu perversa, realizada na base do vale-tudo, recheada de ameaças de violência física e de fuzilamento dos “traidores”.

Mesmo assim, perdeu. Em seguida, porém, era preciso que os muçulmanos de Delhi, acusados como responsáveis por essa humilhação, fossem castigados. Grupos enormes de hindus armados, com apoio policial, investiram contra os muçulmanos nos bairros populares do nordeste de Nova Delhi. Casas, comércios, mesquitas e escolas foram queimados. Os muçulmanos, que esperavam o ataque, reagiram. Mais de cinquenta pessoas foram mortas, a maioria muçulmanos – e alguns hindus. Milhares foram para os campos de refugiados instalados em cemitérios locais. Corpos mutilados continuavam sendo retirados dos canais imundos, fétidos, que formavam a rede de drenagem, quando, finalmente, as autoridades do governo fizeram sua primeira reunião para tratar da Covid-19. Nesse momento, a maioria dos indianos ouviu pela primeira vez sobre a existência de uma coisa chamada higienizador de mãos.

Março também foi um mês agitado. As primeiras duas semanas foram dedicadas a tirar o Partido do Congresso do poder no estado de Madhya Pradesh, região central da Índia, e a instalar em seu lugar um governo do Bharatiya Janata. No dia 11 de março, a Organização Mundial da Saúde declarou a Covid-19 uma pandemia. Dois dias depois, em 13 de março, o ministro da Saúde declarou que o coronavírus “não é uma emergência sanitária”.

Enfim, no dia 19 de março, o primeiro-ministro Narendra Modi fez um pronunciamento à nação. Não havia feito direito o seu dever de casa. Guiou-se pelas cartilhas da França e da Itália. Falou-nos da necessidade de “distanciamento social” (coisa fácil de entender, para uma sociedade acostumada à prática do sistema de castas) e determinou que o dia 22 de março fosse a data do “toque de recolher público”. Nada disse sobre os planos de seu governo para enfrentar a crise, mas pediu às pessoas que aparecessem em suas sacadas, tocassem sinos e batessem panelas em homenagem aos trabalhadores da área da saúde.

Não mencionou que, até aquele exato momento, a Índia continuava exportando equipamentos de proteção e aparelhos respiratórios em vez de mantê-los no país para uso dos trabalhadores da área da saúde, dos hospitais.

Não há nada de surpreendente no fato de que o pedido do primeiro-ministro indiano tenha sido acolhido com grande entusiasmo. Houve passeatas com bateção de panelas, bailes e cortejos comunitários. Sem maiores distanciamentos sociais. Nos dias subsequentes, homens mergulharam em barris de esterco bovino sagrado e apoiadores do Bharatiya Janata promoveram festas para beber urina de vaca. Para não ficar para trás, muitas organizações muçulmanas declararam que o Todo-Poderoso era a solução para o vírus – e convocaram os fiéis a comparecer maciçamente às mesquitas.

 

No dia 24 de março, às oito horas da noite, Narendra Modi apareceu mais uma vez na televisão para anunciar que da meia-noite em diante a Índia inteira entraria em quarentena. Os mercados seriam fechados. Todos os meios de transporte, tanto públicos como privados, ficariam proibidos.

Disse que tomava essa decisão não apenas como primeiro-ministro, mas também na qualidade de membro mais velho da nossa família. Quem mais tem o poder de decidir – sem consultar os governos dos estados, que seriam obrigados a lidar com as consequências dessa ordem – que um país de 1,38 bilhão de pessoas deveria entrar em confinamento sem preparação alguma e num prazo de quatro horas? Seus métodos transmitem a impressão inequívoca de que o primeiro-ministro da Índia vê os cidadãos como uma força hostil que precisa ser emboscada e tomada de surpresa, mas que nunca merece confiança.

E a quarentena foi decretada. Muitos epidemiologistas e profissionais da saúde aplaudiram a iniciativa. Talvez estejam certos em teoria, mas certamente nenhum deles pode apoiar a calamitosa falta de planejamento e de preparativos que transformou o maior confinamento do mundo, o mais punitivo de todos, no exato oposto do que deveria ser.

O homem que adora espetáculos criou o maior de todos os espetáculos.

Diante dos olhos de um mundo consternado, a Índia se revelou em toda a sua vergonha – em sua brutal desigualdade estrutural, social e econômica, em sua cruel indiferença ao sofrimento.

O confinamento funcionou como uma experiência química que, de repente, ilumina coisas que estão escondidas. À medida que lojas, restaurantes, fábricas e a indústria da construção se imobilizavam, à medida que as classes abastada e média se enclausuravam em colônias protegidas por portões, nossas cidades e megalópoles começaram a expelir seus cidadãos da classe trabalhadora – os trabalhadores migrantes – como se fossem sobejos indesejados.

Enxotadas por seus empregadores e senhorios, milhões de pessoas pobres, famintas e sedentas, jovens e velhos, homens, mulheres, crianças, doentes, cegos, aleijados, sem ter para onde ir, sem transporte público disponível, começaram uma longa marcha de volta a suas casas nas aldeias natais. Andaram por dias a fio, para Badaun, Agra, Azamgarh, Aligarh, Lucknow, Gorakhpur – a centenas de quilômetros de distância. Alguns morreram no trajeto.

Sabiam que estavam voltando para casa porque assim retardariam a inanição. Talvez até soubessem que podiam estar levando o vírus consigo e que infectariam suas famílias, seus pais e avós que haviam ficado na aldeia, mas precisavam desesperadamente de um pingo de sentido de família, de abrigo e dignidade, tanto quanto de comida, senão de amor.

Enquanto andavam, alguns deles foram brutalmente espancados e humilhados pela polícia, encarregada de exigir obediência estrita ao toque de recolher. Rapazes foram forçados a se agachar e a sair pulando, feito sapos, estrada afora. Perto da cidade de Bareilly, um grupo foi obrigado a se aglomerar para, em seguida, ser alvo de mangueiradas de desinfetante.

Alguns dias depois, preocupado com a possibilidade de que a população em fuga espalhasse o vírus pelas aldeias, o governo fechou as divisas entre os estados, inclusive para pedestres. As pessoas que caminhavam havia dias foram então interceptadas e obrigadas a voltar para as cidades de onde haviam sido forçadas a sair, e a alojar-se em abrigos.

Os mais velhos relembraram o traslado de população realizado em 1947, quando a Índia foi dividida e nasceu o Paquistão. Com a diferença de que o êxodo desta vez era produto das divisões de classe, e não da religião. Além disso, os migrantes que estavam agora nas estradas não eram as pessoas mais pobres da Índia. Era gente que contava (pelo menos até então) com trabalho na cidade e lares para onde voltar. Os desempregados e os sem-teto ficaram onde estavam, nas cidades e no campo, onde uma situação de enorme carência vinha se aprofundando desde muito antes da ocorrência da tragédia de agora. Ao longo de todos aqueles dias terríveis, o ministro do Interior, Amit Shah, permaneceu ausente da cena pública.

Quando a marcha teve início, em Delhi, usei minha credencial de imprensa – de uma revista para a qual costumo escrever – para dirigir até Ghazipur, na divisa entre os estados de Delhi e Uttar Pradesh.

Era uma cena bíblica. Ou talvez não. A Bíblia não conheceu números tão exponenciais. O confinamento destinado a forçar o distanciamento físico tivera o resultado oposto – compressão física em escala inimaginável. Foi o que se observou nos vilarejos e cidades da Índia. As vias mais importantes podem estar vazias, mas os pobres estão apinhados em alojamentos, favelas, barracos.

Todos os andarilhos com quem falei estavam preocupados com o vírus. Contudo, o vírus era menos real, menos presente na vida deles que o espectro do desemprego, da inanição e da violência policial. De todas as pessoas com quem falei naquele dia, inclusive um grupo de costureiros muçulmanos que semanas antes havia sobrevivido aos ataques anti-islâmicos, um homem me disse as palavras que mais me perturbaram. Era um carpinteiro chamado Ramjeet, que pretendia andar até Gorakhpur, perto da fronteira com o Nepal.

“Vai ver que, quando Modiji[4] resolveu fazer isso, ninguém havia contado a ele sobre nós. Vai ver que ele não sabe de nós”, disse.

“Nós” significa aproximadamente 460 milhões de pessoas.

 

Os governos estaduais na Índia (assim como nos Estados Unidos) demonstraram mais compaixão e mais visão diante da crise. Sindicatos, cidadãos privados e outros coletivos distribuem alimentos e rações emergenciais. O governo central foi lento em sua reação aos apelos desesperados por recursos feitos por essas entidades. Agora se verifica que o Fundo de Ajuda Nacional não tem verbas disponíveis. Ao mesmo tempo, dinheiro vindo de beneméritos abastece com fartura o PM-Cares, um fundo novo e um tanto misterioso, criado para enfrentar a pandemia. Começaram a aparecer refeições acondicionadas em embalagens com a fisionomia de Modi estampada.

Para completar, o primeiro-ministro compartilhou seus vídeos de ioga nidra, nos quais aparece, em desenho computadorizado, com um corpo incrível, repaginado e lépido, demonstrando ássanas de ioga para ajudar as pessoas a lidar com o estresse do isolamento.

O narcisismo é uma coisa profundamente perturbadora. Quem sabe um dos ássanas pudesse ser um ássana-pedido por meio do qual Modi pede ao primeiro-ministro francês que nos autorize a voltar atrás no complicadíssimo negócio da compra dos aviões de caça Rafale? Assim, poderíamos usar aqueles 7,8 bilhões de euros para financiar medidas emergenciais de que necessitamos desesperadamente para sustentar alguns milhões de pessoas famintas. Sem dúvida, o francês entenderia.

Com o isolamento entrando na segunda semana, as redes de abastecimento quebraram e os medicamentos e produtos essenciais já começam a faltar. Milhares de motoristas de caminhão continuam abandonados nas estradas, quase sem comida e quase sem água. Culturas agrícolas no pé, prontas para serem colhidas, vão lentamente apodrecendo.

A crise econômica está aqui. A crise política está em andamento. A grande mídia incorporou em tempo integral o assunto da Covid-19 à sua campanha tóxica contra os muçulmanos. O movimento missionário islâmico Tablighi Jamaat, que promoveu um encontro em Delhi antes do anúncio da quarentena, está sendo acusado de ser um “superdisseminador” do vírus. A acusação é usada para estigmatizar e demonizar os muçulmanos. A tônica predominante sugere que os muçulmanos inventaram o vírus e o espalharam deliberadamente, como uma forma de jihad.

A crise da Covid-19 ainda está por vir. Ou não. Não sabemos. Se e quando ela vier, podemos ficar certos de que será enfrentada com todos os preconceitos atuais a respeito de religião, casta e classe.

No dia em que escrevo (2 de abril), há na Índia quase 2 mil casos confirmados e 58 mortes. São números pouco confiáveis – quanto a isso não há dúvida –, pois lamentavelmente eles se baseiam em pouquíssimos testes. A opinião dos especialistas apresenta variações enormes. Alguns antecipam milhões de casos. Outros acreditam que as perdas serão muito menos significativas. É possível que nunca venhamos a conhecer os verdadeiros contornos da crise, mesmo no momento em que formos atingidos. A única coisa que sabemos é que a corrida aos hospitais ainda não começou.

As clínicas e hospitais públicos da Índia – que não têm condições de atender a quase 1 milhão de crianças que morrem anualmente de diarreia, subnutrição e outros problemas de saúde, as centenas de milhares de pacientes de tuberculose (um quarto do total mundial), a vasta população anêmica, desnutrida e vulnerável a incontáveis doenças menores que se revelam fatais – não terão condições de fazer frente a uma crise nos moldes da que a Europa e os Estados Unidos enfrentam neste momento.

Todo o serviço de saúde está mais ou menos paralisado, já que os hospitais foram direcionados ao atendimento do vírus. O centro de trauma do lendário Instituto de Ciências Médicas de Toda a Índia, em Delhi, está fechado, e as centenas de pacientes de câncer conhecidos como “refugiados do câncer” – assim chamados porque vivem nas vias do entorno desse imenso hospital – foram enxotados dali como gado.

As pessoas vão adoecer e morrer em casa. Talvez nunca cheguemos a conhecer suas histórias. Talvez essas pessoas nem sequer entrem nas estatísticas. Só podemos esperar que os estudos que dizem que o vírus gosta de frio estejam certos (embora outros pesquisadores tenham manifestado dúvidas quanto a essa afirmação). Nunca um povo desejou tanto e tão irracionalmente um verão indiano escaldante, punitivo.

Que coisa é essa que aconteceu conosco? É um vírus, certo. Em si e por si, sem mensagem moral. Mas, sem dúvida, é mais que um vírus. Alguns acreditam que é a maneira que Deus encontrou para nos levar de volta ao bom senso. Outros, que é uma conspiração chinesa para dominar o mundo.

Seja o que for, o coronavírus pôs os poderosos de joelhos e fez o mundo parar como nada mais seria capaz de fazer. Nossas mentes continuam atarantadas, desejando uma volta à “normalidade”, tentando costurar nosso presente a nosso passado e recusando-se a reconhecer a ruptura. Mas a ruptura está aí. E, no meio desse terrível desespero, ela nos oferece a oportunidade de repensar a máquina do apocalipse que construímos para nós mesmos. Nada poderia ser pior que uma volta à normalidade.

Historicamente, as pandemias forçaram os humanos a romper com o passado e a imaginar seu mundo a partir do zero. Esta não é diferente. Ela é um portal, uma passagem entre um mundo e o próximo.

Podemos optar por transpor esse portal arrastando atrás de nós as carcaças de nossos ódios e preconceitos, de nossa avareza, de nossos bancos de dados e de nossas ideias mortas, nossos rios mortos, nossas cidades enfumaçadas. Ou podemos transpô-lo com leveza, com pouca bagagem, prontos para imaginar um outro mundo. E prontos para lutar por ele.

O PRESIDENTE SUMIU
Na Nicarágua, amor e fé são os remédios do governo contra a pandemia

WILFREDO MIRANDA, de Manágua

Em Corinto, cidade na Costa Oeste da Nicarágua, há um Carnaval fora de época para receber os turistas do cruzeiro Amadea. Sons de marimba animam o ambiente, enquanto jovens dançam músicas folclóricas. Crianças em trajes típicos, maravilhadas com o tamanho descomunal do transatlântico, aguardam os viajantes descerem a rampa para lhes entregar suvenires. Pouco a pouco, desembarcam os oitocentos turistas vindos de São Francisco, nos Estados Unidos, que não escondem seu espanto com a calorosa recepção.

O presidente do país, Daniel Ortega, 74 anos, e a vice-presidente e primeira-dama, Rosario Murillo, 68 anos, se empenharam em fazer uma grande festa para os visitantes naquele sábado, 14 de março. Poucas horas depois, Murillo também os saudou pela televisão, em rede nacional, e aproveitou para convocar os nicaraguenses: “Avante, nossa Nicarágua […] Vamos para a frente, sempre mais à frente, com nossa esperança sempre maior e com a certeza de que somos um povo capaz de se superar.”

A festa para o Amadea foi um dos primeiros sinais de como seria a política oficial do governo Ortega-Murillo para enfrentar a Covid-19: uma série de ações absurdas, na contracorrente das recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do que defendem os epidemiologistas. Àquela altura, vários países já tinham fechado suas fronteiras para conter a pandemia do novo coronavírus, que se espalhava pela América Latina, causando grande preocupação entre os nicaraguenses.

No auge da ansiedade, antes mesmo da chegada do Amadea, Murillo anunciou a primeira medida: uma marcha política. “Vamos caminhar em todo o país com a força da fé e da esperança, em oração permanente e solidariedade com todos os povos, famílias e irmãos afetados pelo coronavírus ao redor do mundo”, disse. “Porque é o mundo inteiro que está enfrentando a pandemia da Covid-19: será o amor em tempos da Covid-19, todos unidos em bairros, comarcas e comunidades para cuidarmos uns dos outros, juntos.”

De fato, Murillo batizou a marcha política de O Amor nos Tempos da Covid-19, plagiando o título de um romance de Gabriel García Márquez, O Amor nos Tempos do Cólera. Milhares de funcionários públicos e simpatizantes do governo percorreram a Avenida Bolívar, uma das principais da capital, com destaque para alguns médicos e enfermeiros da rede pública de saúde, que com jalecos brancos repetiam a palavra de ordem oficial: “Caminhamos com a força da fé e da esperança, com amor nos tempos da Covid-19.”

Os epidemiologistas e sanitaristas ficaram estarrecidos. “É uma atitude irresponsável convocar as pessoas a um ato como esse, que aumenta o risco de contágio”, disse o médico Milton Valdez, que foi vice-ministro da Saúde durante a Revolução Sandinista. Dora María Téllez, ex-ministra da Saúde – também no período revolucionário –, tachou aquilo de “irresponsabilidade criminosa”. A Revolução Sandinista foi iniciada em 1978 contra a ditadura de Anastasio Somoza, derrubada no ano seguinte. Em 1985, Ortega, um dos principais líderes do grupo de esquerda Frente Sandinista de Libertação Nacional, assumiu a Presidência do país. Governou até 1990 e voltou ao poder em 2007, onde está até hoje.

 

Desde que a pandemia se aproximou das Américas, as autoridades do governo nicaraguense iniciaram uma intensa campanha de comunicação para minimizar a letalidade da Covid-19. Chegaram a classificar a doença como “um simples resfriadinho”. Outros argumentaram que, “como o sistema de saúde da Nicarágua é público, e não privado, a doença não teria o mesmo impacto que estava tendo nos Estados Unidos e na Europa”. Talvez o raciocínio mais desatinado tenha sido o de um dos decanos da propaganda sandinista, William Grigsby, leal seguidor do casal presidencial. “A Covid-19 é o ebola dos ricos e dos brancos. Muitos ricos morreram, incluindo o ex-presidente do Real Madrid”, disse ele.

A propaganda se entrelaçou com as declarações diárias de Murillo, que em suas mensagens na televisão dizia que Deus havia feito dos nicaraguenses um povo eleito, não suscetível ao novo coronavírus. Pautados por essa premissa, o Ministério da Educação se negou a suspender as aulas presenciais na rede pública de ensino, e os campeonatos locais de futebol e beisebol mantiveram seu calendário.

Tais justificativas não evitaram que a Covid-19 contagiasse a Nicarágua. Coube à própria Murillo anunciar o primeiro caso, em 18 de março. Tratava-se de um homem de 40 anos, que chegara do Panamá havia três dias. Mesmo assim, as autoridades sanitárias decidiram manter as fronteiras abertas, mesmo para pessoas que viessem de países “com risco de transmissão”.

O governo sempre se mostrou contrário à quarentena. No dia 26 de março, quando se registrou a primeira vítima fatal de Covid-19 na Nicarágua, um funcionário do Ministério da Saúde disse que decretar quarentena seria uma medida “alarmante e extremista”. A maioria dos argumentos do governo se baseia na propalada “fortaleza” do sistema público de saúde, mas os funcionários apelam ainda a explicações de caráter econômico, insistindo que o isolamento social é uma medida “burguesa” que “destruiria a pequena e microempresa popular”. Num encontro com juízes e funcionários do Poder Judiciário, em meados de março, o assessor presidencial para assuntos econômicos, comandante Bayardo Arce, explicou que, caso ocorresse a quarentena, a Nicarágua viria “a pique”.

 

Enquanto a Covid-19 se aproximava e o país fazia festas e marchas, o presidente Ortega desapareceu. As especulações sobre seu paradeiro se multiplicaram: Estará com o vírus? Em quarentena? Sua última aparição pública fôra no dia 12 de março, quando participara de uma reunião virtual convocada pelo Sistema de Integração Centro-Americana (Sica), na qual os presidentes discutiram uma estratégia comum para conter a pandemia.

A fala de Ortega no encontro durou um minuto e treze segundos. Embora tenha admitido estar diante de uma “situação de emergência”, ele não disse uma palavra sobre os planos de sua administração. Nem sequer pronunciou os termos “coronavírus” e “Covid-19”.

“Ortega, o governante ausente.” É assim que a imprensa nicaraguense se refere ao mandatário, que costuma ficar longos períodos sem aparecer em público. Um destacado opositor do regime, Félix Maradiaga, acredita que se trata de uma estratégia de relações públicas, que visa fortalecer o culto à personalidade de Ortega, que depois reaparece como “salvador da pátria”. Fontes próximas ao governo afirmam que o mandatário está com a saúde abalada por causa de uma doença crônica, mas asseguram que não se trata da Covid-19, como se especula nas ruas.

Na ausência do presidente, a gestão da emergência sanitária foi assumida – como aliás quase tudo no governo, ao menos publicamente – por Murillo, que tem também evitado aparições públicas, limitando-se a fazer breves discursos em cadeia nacional, por telefone.

“Páscoa florida, como dizíamos no tempo da nossa infância e juventude”, afirmou a vice-presidente, em 13 de abril, num desses discursos. Depois de invocar sete vezes “o Senhor”, informou que, na Nicarágua, havia apenas três casos positivos de Covid-19. No mesmo dia, a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) disse que o país tinha nove casos positivos e uma morte. Ironicamente, a entidade baseia sua informação em dados fornecidos pelo próprio governo nicaraguense. Como é possível a diferença? A resposta é tão rocambolesca quanto as estatísticas das autoridades sandinistas.

O labirinto dos números funciona assim: o secretário-geral do Ministério da Saúde, Carlos Sáenz, lê todos os dias um relatório sobre a epidemia que é referendado por Murillo. Ou vice-versa. O que chama a atenção é que o número de infectados nunca aumenta. Ao contrário, diminui. Isso ocorre porque as autoridades têm excluído da lista de casos positivos os pacientes em recuperação e os que já se curaram. O que é um erro, segundo o epidemiologista mais consultado da Nicarágua, Leonel Argüello. “É como apagar a certidão de nascimento de um recém-nascido. Todos os doentes confirmados devem permanecer na contagem”, disse. A maior preocupação dos epidemiologistas é que a obscuridade dos dados oficiais não permita acompanhar o verdadeiro avanço do novo coronavírus na Nicarágua.

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) chamou  atenção para essa “falta de transparência e de informação confiável” e declarou que “a vida, a saúde e a integridade da população devem estar acima de qualquer consideração partidária ou política”.

O governo centraliza os testes da Covid-19, por meio do Ministério da Saúde. Nunca se sabe a quantidade que vem sendo aplicada entre a população de 6,5 milhões de pessoas. Fontes do sistema público de saúde afirmam que, no Centro Nacional de Diagnóstico e Referência (CNDR), em Manágua, estão sendo feitos apenas de cinco a dez testes por dia. Médicos relatam que o Ministério da Saúde só os aplica em pacientes com sintomas graves. O resultado dos testes não é informado oficialmente aos médicos, e o CNDR limita-se a notificá-lo verbalmente, sem nenhum registro escrito nos hospitais.

O presidente do Parlamento, Gustavo Porras, aliado do governo, revelou que 16 mil nicaraguenses chegaram de países onde há “transmissão ativa”, sem especificar quantos foram submetidos ao teste. No início de março, o CNDR testava viajantes procedentes de países com transmissão comunitária ativa, como Estados Unidos, Panamá e Colômbia, de onde provêm os nove casos positivos registrados pelo governo. Mas não testava as pessoas que vinham de países como Costa Rica, Honduras e El Salvador, nos quais ainda não se registrara o contágio.

Outro fato que vem despertando a preocupação dos especialistas é o surto de “pneumonia atípica” verificado nos hospitais. “Nas minhas consultas, tenho visto uma quantidade de casos de pneumonia atípica para esta época do ano, mas a nenhum é atribuída a suspeita de coronavírus”, contou o pneumologista Jorge Iván Miranda, que tratou num hospital particular de Manágua dois dos casos positivos informados oficialmente. Como o teste da Covid-19 não é aplicado nesses pacientes, pode estar havendo uma subnotificação que explica os baixos números oficiais na Nicarágua. Em 27 de abril, o governo informou que havia no país treze infectados e três mortos por causa do vírus.

 

A política do governo para enfrentar a pandemia também provocou pequenas rebeliões no funcionalismo público da área de saúde. Médicos e enfermeiros recusaram a “ordem superior” de não usar equipamento de proteção, como máscara e capote. Segundo o governo, os equipamentos estavam causando “pânico na população”. A determinação foi transmitida diretamente a hospitais como Manolo Morales e Alemán Nicaragüense, segundo funcionários que pediram para não ter seus nomes divulgados por temerem represálias. Dois especialistas do Alemán Nicaragüense pediram demissão por se recusarem a tratar de pacientes sem a devida proteção. O atrito entre trabalhadores da saúde e autoridades só tende a aumentar.

Em Manágua, o pessoal da saúde está aterrorizado com o futuro próximo. No começo da crise, o próprio Ministério da Saúde emitiu um documento que alertava a Presidência que, segundo estimativas iniciais, haveria 32,5 mil infectados e 800 mortos em seis meses. Para a Faculdade de Medicina do Imperial College London, a perspectiva é ainda mais funesta: aponta que, se não forem aplicadas medidas de contenção e distanciamento social, em um ano 91% da população da Nicarágua será infectada e 24 304 pessoas morrerão. O pessoal da saúde vem insistindo que “o vírus já passou ao estágio de transmissão comunitária”.

O parecer dos especialistas sobre a “cegueira epidemiológica” foi reforçado entre o final de março e início de abril, quando as autoridades sanitárias de Cuba – regime historicamente aliado ao governo nicaraguense – informou que cinco casos positivos de Covid-19 registrados na ilha eram de cubanos recém-chegados da Nicarágua. Os cubanos também questionaram a proclamada certeza de Murillo de que “o poder da oração no país” ajudaria a evitar a pandemia.

A situação ficou ainda mais confusa quando, em 1º de abril, em pleno desenrolar da epidemia, o governo demitiu a ministra da Saúde, Carolina Dávila. Para o cargo, nomeou outra médica, Martha Reyes Álvarez, até então diretora da Vigilância Sanitária. Ninguém do governo explicou o motivo da mudança.

 

No bairro Villa Miguel Gutiérrez, em Manágua, o religioso Osmán de Jesús Figueroa Castellón encabeça com entusiasmo a procissão da Sexta-Feira Santa. Não usa batina, mas uma estola alaranjada com detalhes dourados. Ele diz no microfone: “Por teus sangrentos passos, Senhor, quero seguir-te e, se contigo morrer, feliz morrerei.” A procissão avança com escolta policial, e os fiéis são na maioria militantes sandinistas.

Os cidadãos observam tudo com estranheza, já que a Conferência Episcopal da Nicarágua (cen) suspendera, em 23 de março, as missas e procissões da Semana Santa. Mas Figueroa Castellón não está desafiando a hierarquia eclesiástica, pois, simplesmente, não é padre. Apenas finge sê-lo. “Ele não foi aceito no seminário para se formar sacerdote, mas ficou obcecado pela ideia de ser padre”, contou Maykel Monterrey, pároco da Igreja Nossa Senhora da Candelária. “Quem o segue são os apoiadores do governo, empenhados em provar que aqui está tudo normal.”

O episódio do falso sacerdote é o mais grotesco do programa de eventos que o governo intitulou “Nicarágua toda doce, com amor para você”, com cerca de oitocentas atividades, incluindo “uma maratona do amor”, concertos gratuitos, quermesses e eventos religiosos, como missas e procissões – mas sem sacerdotes de verdade. O bispo da Diocese de Granada, monsenhor Jorge Solórzano, denunciou os eventos “pseudorreligiosos” e criticou a manipulação da fé por parte do governo e seus esforços para ignorar a gravidade da pandemia.

A maioria dos cidadãos, porém, não foi às igrejas na Semana Santa. Apenas as igrejas evangélicas, aliadas do governo, não suspenderam os cultos. Desde 18 de março, os nicaraguenses adotaram uma quarentena voluntária, ignorando a “normalidade” proclamada pela propaganda oficial. As escolas privadas suspenderam as aulas presenciais, os principais shopping centers fecharam, os mercados passaram a funcionar em horários reduzidos e os restaurantes só abrem para fazer serviços de entrega. Na contramão desse esforço, o setor público trabalha normalmente.

Alguns porta-vozes do Ministério da Saúde têm dito que o uso de máscaras e luvas não é necessário, mas muitos cidadãos saem às ruas com essa proteção, o que vem provocando a escassez de tais insumos médicos. A venda informal de máscaras, álcool em gel e luvas tornou-se um negócio lucrativo. Os dirigentes distritais aliados ao governo não apenas repreendem os cidadãos que usam máscaras, como, em alguns bairros, chegam a agredi-los fisicamente.

 

Em 15 de abril, 34º dia de seu sumiço, Daniel Ortega reapareceu. Fez um pronunciamento em cadeia nacional de televisão, rodeado por sua equipe de governo e ao lado da vice-presidente. Pela primeira vez, falou da Covid-19, mas minimizou o seu impacto na Nicarágua. Congratulou-se porque o país havia registrado até aquela data, segundo ele, uma única morte.

Ortega não explicou o porquê da sua ausência. Também não revelou qual é o plano de contingência do governo para enfrentar a pandemia. Além de se espraiar em sua habitual retórica anti-imperialista, aproveitou a reaparição para esclarecer que não decretará quarentena, porque isso faria “o país sumir”, no sentido econômico. Disse que tampouco acatará as medidas preventivas recomendadas pela OMS e que a Nicarágua enfrentará a Covid-19 “com seus recursos limitados e com paciência”.

“A melhor arma atômica que a humanidade pode ter é o sistema de saúde, com a medicina, os hospitais, a medicina preventiva e a medicina curativa”, afirmou Ortega. Entre as várias perguntas que pairam na Nicarágua, a principal é quando explodirá a bomba de propaganda e negligência armada pelo governo.

 

À PROCURA DOS MORTOS
Na segunda maior cidade do Equador, cadáveres nas ruas
e corpos desaparecidos

ARTURO TORRES, de Guayaquil

Era como um necrotério a céu aberto: corpos abandonados nas calçadas, embalados em plásticos ou, com sorte, deitados em caixões. Dezenas de mortos, que os familiares com medo do contágio decidiram tirar de dentro de suas casas depois que o serviço funerário entrou em colapso. A catástrofe em Guayaquil, no Equador, continuava nos hospitais públicos, onde os cadáveres eram cobertos por plásticos pretos e colocados dentro de contêineres. Pessoas sem notícias exatas sobre o corpo de seu parente remexiam nesses cadáveres amontoados, tentando encontrar o pai, a mãe, o tio, o irmão… “Com o novo coronavírus, é como se tivesse ocorrido um bombardeio na cidade”, disse Jorge Wated, coordenador da Força-Tarefa Conjunta, um grupo criado por militares e policiais para recolher os mortos e providenciar sepultamentos.

As imagens dos corpos deixados nas vias públicas de Guayaquil, entre o final de março e o início de abril, correram o mundo – são até agora a visão mais apocalíptica da devastação causada pela pandemia em metrópoles latino-americanas. Mas os cadáveres nas ruas foram apenas uma parte da tragédia equatoriana, a das famílias cujos parentes morreram em casa. Pessoas notificadas sobre o óbito de parentes hospitalizados nem sequer sabiam para onde tinham sido levados os corpos. E muitas ainda procuram o túmulo de seus mortos, enterrados às pressas, sabe-se lá onde.

Guayaquil é a capital econômica e a segunda cidade mais populosa do Equador (com 2,6 milhões de habitantes), uma metrópole com o porto mais movimentado do país e fortes contrastes sociais. A população pobre é numerosa, e grande parte dela vive na periferia. A cidade é também o epicentro nacional da pandemia, com pelo menos 7 400 casos positivos – quase 30% dos 24 258 diagnósticos em todo o país, até o dia 29 de abril. Das 871 vítimas fatais no Equador, 344 viviam em Guayaquil. Esses são os números oficiais, que os especialistas suspeitam não refletir a realidade, por causa da subnotificação. Uma reportagem do New York Times, publicada em 23 de abril, indicou que o número de mortos no Equador pode ser até quinze vezes maior. Ou seja, na pior das hipóteses, só em Guayaquil podem ter morrido quase 5 160 pessoas.

Tão logo foi divulgado o primeiro caso de contaminação na cidade (e também no país), em 29 de fevereiro, a ministra do Interior, María Paula Romo, anunciou a suspensão de eventos maciços em Guayaquil. A decisão surtiu pouco efeito: em 4 de março foi realizada ali, graças a uma autorização especial, uma partida de futebol que reuniu milhares de torcedores. Para piorar, eram férias escolares, e um bom número de famílias tinha viajado para os Estados Unidos e a Europa, em particular para a Espanha, um dos países mais atingidos pela pandemia. Quando as pessoas retornaram, nenhuma providência tinha sido tomada para saber se apresentavam sintomas da Covid-19, e nos aeroportos não havia mais que um posto de informações a respeito da doença.

O novo coronavírus se espalhou por Guayaquil e avançou sobre o restante do Equador. Em 15 de março, o presidente Lenín Moreno decretou estado de emergência no país, restringiu o comércio e a circulação nas ruas, suspendeu as aulas e proibiu os voos de passageiros. Decretou também um toque de recolher de quinze horas por dia em todo o território nacional. Mas as decisões chegaram tarde, e as autoridades viram-se impotentes para conter a disparada do contágio e das mortes em Guayaquil. A falta de coordenação entre o governo nacional e o municipal agravou a situação. Em 19 de março, a própria prefeita da cidade, Cynthia Viteri, que faz oposição ao presidente, anunciou estar com a Covid-19. Permaneceu isolada em sua casa por três semanas.

Os políticos, então, jogaram a responsabilidade pela disseminação do vírus nas costas dos cidadãos, que, segundo eles, não estavam respeitando a quarentena. O isolamento social, porém, é algo muito difícil de ser praticado em Guayaquil, onde há bairros pobres superpovoados, repletos de moradias precárias e sem infraestrutura básica, como água encanada. Milhares de pessoas que vivem nesses lugares são trabalhadores informais, que dependem de ir à rua para ganhar seu sustento. “É injusto atribuir a responsabilidade do alto nível de contágio ao comportamento das pessoas. A calamidade em Guayaquil é resultado da inépcia do governo nacional e municipal, do Comitê de Operações de Emergência e do sistema de saúde, tanto público como privado, na prevenção dos efeitos do contágio”, disse Billy Navarrete, secretário executivo do Comitê Permanente pela Defesa dos Direitos Humanos, uma ong com sede em Guayaquil.

 

A tragédia e o desespero se apossaram do cotidiano das famílias, sobretudo das menos favorecidas. A costureira Marjorie Raza, tentou durante horas uma vaga para o pai, José Gonzalo Raza, de 70 anos, no Hospital General Guasmo Sur, na periferia de Guayaquil. Quando insistia com os funcionários do hospital, eles respondiam: “Assim que alguém morrer, vai ter vaga para o seu pai.” Ele foi internado, mas não resistiu. “Perguntei onde tinham colocado o corpo, e me disseram que estava nos fundos do hospital.” Ela foi até o local. Havia três contêineres, dois fechados e um aberto, com vários mortos. A costureira começou a procurar por conta própria, “no meio dos cadáveres podres”, como descreveu. “Alguns ainda tinham os tubos usados no tratamento; outros estavam cheios de larvas. Era tanta podridão que saí chorando.” Ela não encontrou seu pai.

O caixão que tinha encomendado acabou sendo utilizado no sepultamento da tia, Rosa Elvira Raza, que morreu em 9 de abril, quinta-feira, uma semana depois de Gonzalo Raza e da mesma causa, a Covid-19. Quando ela começou a passar mal, a família optou por não levá-la para o hospital. “A pessoa entra lá com um sintoma qualquer, morre com o novo coronavírus e depois perdem o cadáver”, disse um de seus filhos, Eddy Desiderio Raza. Mas, rapidamente, o estado de saúde de Elvira Raza deteriorou-se, e não houve tempo para mais nada: ela morreu em casa.

No mesmo dia, Desiderio ligou para o 911, o número do serviço de emergência, para que recolhessem o corpo. Disseram a ele que seria preciso esperar até 48 horas. No sábado à tarde, trouxeram a declaração de óbito. E não voltaram mais. A família resolveu colocar o caixão na calçada em frente à casa. No domingo, três dias depois da morte, sepultaram Elvira Raza por conta própria. Como não era possível obter um jazigo em Guayaquil, levaram o corpo para um cemitério em Santa Lucía, cidade a cerca de 70 km de distância. “Não dava para esperar muito e, além disso, poderiam acabar levando o corpo sem informar para onde”, afirmou Desiderio. “Nós a enterramos no mesmo lugar onde ela passou a juventude, perto de onde meu pai está enterrado. Ela trabalhava como enfermeira auxiliar, cuidava de idosos. Não merecia esse fim.”

Harold Paredes, funcionário de uma farmácia, também perdeu o pai por causa da pandemia. Jacinto Eduardo Paredes tinha 76 anos e trabalhava como pintor. “Ele me dizia: ‘Eu sou filho de Deus, não vai acontecer nada comigo’”, contou. No hospital de Guasmo Sur, pediram que comprasse um “respirador” para entubar o pai. “Mas, antes que eu fosse comprar, o médico voltou e disse: ‘Não precisa mais, ele acaba de falecer.’” Em 5 de abril, o corpo de Paredes foi colocado num saco e estendido no chão do hospital. “Enquanto eu cuidava da papelada do óbito e comprava o caixão, sumiram com meu pai.” Em 18 de abril, o filho encontrou no registro digital criado pelo governo a informação de que Jacinto Eduardo Paredes repousa no Cemitério Campo Eterno, em Pascuales. Um código indica o túmulo.

O coordenador da Força-Tarefa Conjunta, Jorge Wated, reconheceu que, de início, as autoridades não souberam como manejar a crise, em particular nos necrotérios dos hospitais públicos, que só têm capacidade para doze corpos, em média. “Em cada necrotério chegaram a ser empilhados até oitenta cadáveres, por vários dias. Os corpos não eram bem identificados, por isso os familiares não conseguiam encontrá-los.” A prioridade nos hospitais era atender os doentes que chegavam às centenas e, quando os cadáveres eram retirados, muitas vezes deixava-se de avisar as famílias sobre a destinação.

José Zabala, de 70 anos, morreu em 29 de março no Hospital Geral do Norte iess Los Ceibos, o maior da cidade. Durante semanas, seus familiares pediram às autoridades que entregassem o corpo, para que pudessem enterrá-lo. Apenas em 20 de abril, quase um mês mais tarde, depois de apelos de uma organização de direitos humanos, os parentes souberam que o sepultamento já havia ocorrido.

Outras famílias enfrentaram situação ainda pior. Em 31 de março, Eva Quiroz, de 25 anos, foi ao hospital de Los Ceibos em busca de atendimento para seu tio Manuel Quiroz, que fazia vários dias sofria com uma insuportável tosse seca, febre e muita falta de ar. O tio morreu no hospital. “Minha irmã foi até lá para procurar o corpo, mas não encontrou”, disse ela. “Os corpos estavam em sacos pretos com os nomes em pequenas etiquetas na altura do peito. Pessoas que foram atrás dos parentes mortos, desesperadas para encontrá-los entre os cadáveres, rasgavam sem querer as identificações, ao abrir os sacos.” Sem as etiquetas, os mortos tornavam-se n. n. (sigla da expressão latina nomen nescio), ou seja, pessoas não identificadas. Até hoje, Eva Quiroz não achou o corpo do tio, mesmo tendo um documento de entrada no hospital e a declaração de óbito.

O comerciante Cristian Tomalá também realiza, desde 10 de abril, penosas peregrinações ao mesmo hospital. Naquele dia, sua irmã foi internada com problemas respiratórios e, em questão de horas, morreu. “Consegui a certidão de óbito, mas, ao voltar ao hospital para retirar o corpo, não encontrei. Eu procurei entre dezenas de cadáveres, amontoados uns sobre os outros, em vão. Os médicos disseram que ela talvez tenha sido levada para o cemitério de Pascuales, mas também não está lá. Agora espero um milagre”, disse Tomalá, que em seguida apontou para um cartaz na porta do hospital informando o prazo para entrega dos corpos: 24 horas. “É mentira, estou esperando há vários dias, e nada.”

“Os corpos lotavam os necrotérios, amontoados, sem nenhum protocolo”, descreveu Navarrete, do Comitê Permanente pela Defesa dos Direitos Humanos. “E não demorou muito até que entrassem em cena os ditos ‘gestores’: despachantes oportunistas que cobravam 100 dólares ou mais para identificar os familiares.”

A tristeza pela morte dos entes queridos se ampliou com a perda dos corpos e também com os furtos e extorsões sofridos nos centros hospitalares. O jornalista esportivo Augusto Utúrburu Carabajo, do El Telégrafo, procurou o hospital pela primeira vez em 17 de março, mas lhe disseram que não tinha nada grave e o mandaram de volta para casa. Seis dias depois, ele voltou, com mais complicações e foi internado. Morreu em 15 de abril, aos 40 anos, de pneumonia causada pela Covid-19. Quando os familiares foram ao hospital pegar os seus pertences (celular, relógio, anéis e carteira), um funcionário disse que tudo tinha sido incinerado. No dia seguinte, seu pai descobriu que haviam sido feitos saques de 600 dólares na conta de Carabajo depois que o filho morreu. O jornalista planejava se casar em junho.

 

“Foi um horror: um calvário de vários dias, com cadáveres em putrefação, fluidos contaminando casas e bairros inteiros”, contou o vereador Héctor Vanegas, que também é advogado. “Como autoridade, recebi mais de duzentas ligações de pessoas que estavam procurando corpos de familiares. Quando o governo declarou emergência sanitária, a Corte Constitucional ressaltou a necessidade de respeitar os direitos fundamentais. Precisamos saber por que não separaram e identificaram os cadáveres”, disse o vereador, que tem uma lista com 110 casos de famílias que perderam seus mortos.

Vanegas também criticou o desgoverno durante a pandemia. “Há omissão. Não foram tomadas as medidas necessárias. Existem médicos infectados por trabalhar sem proteção, faltam respiradores, os hospitais entraram em colapso.” O golpe foi particularmente duro para os mais pobres, que dependem dos serviços públicos.

Em 2017, o sistema de saúde do Equador recebeu 241 milhões de dólares. Em 2019, o valor baixou para 110 milhões. O corte foi parte da política de redução de gastos públicos, no contexto de uma grave crise fiscal e da queda nos preços do petróleo – que representa cerca de 40% das exportações do país. Um estudo do Instituto de Pesquisas Econômicas, da Universidade Central do Equador, revelou que, dos recursos destinados à saúde em 2019, a maior fatia, ou quase 40 milhões de dólares, correspondeu a gastos com dispensa de funcionários, entre eles profissionais da saúde. Cinco mil trabalhadores podem ter deixado a rede pública entre 2017 e 2018.

Um documento oficial obtido pela piauí dimensiona a carência orçamentária para enfrentar o novo coronavírus no Equador. Foram destinados ao combate da emergência sanitária cerca de 300 milhões de dólares – ou 0,3% do pib (100 bilhões de dólares). É uma soma muito inferior à aplicada por outros países da América do Sul.

No dia 24 de abril, o presidente Lenín Moreno anunciou que a partir de 4 de maio o país iniciaria uma transição da “fase de isolamento” para a “fase de distanciamento”. “A decisão se baseia em dados que mostram a desaceleração nas infecções, maior capacidade de fazer testes e uma queda significativa nos serviços de emergência e atendimentos hospitalares”, disse. A resolução desagradou muitas autoridades, entre elas, os prefeitos da capital Quito e de Cuenca, terceira cidade mais populosa do país. Eles insistem que o isolamento deve durar mais um mês, porque o país ainda não cumpriu nenhuma das  recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) para deixar o confinamento. Mas o presidente tem pressa de que as atividades produtivas voltem ao normal. No Equador – onde as crises se estendem por vários setores, da política à economia, da sociedade à saúde –, a recessão econômica é a outra catástrofe que se avizinha, depois de debelada a pandemia. 


[1] O texto foi escrito no dia 2 de abril. Até 29 de abril, havia 3 179 494 pessoas infectadas e 202 597 mortes em decorrência da Covid-19 no mundo, segundo dados da Universidade Johns Hopkins.

[2] No dia 8 de abril, o democrata Bernie Sanders desistiu de sua pré-candidatura presidencial e, cinco dias depois, anunciou apoio à candidatura do correligionário Joe Biden.

[3] A promessa de público estava, obviamente, inflacionada. O ginásio esportivo em Gujarat tem capacidade para 110 mil pessoas.

[4] Modiji é uma referência ao primeiro-ministro Narendra Modi. Na Índia, o sufixo “ji”, acrescentado ao nome, é uma forma respeitosa de tratamento, equivalente a “senhor”.

Arundhati Roy

Escritora indiana, é autora de O Deus das Pequenas Coisas, da Companhia das Letras

Wilfredo Miranda Aburto

Jornalista nicaraguense

Arturo Torres

Jornalista equatoriano, é editor do portal jornalístico Código Vidrio e autor de El Juego del Camaleón: Los Secretos de las Farc em Ecuador

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