tempos da peste

Volta, Carlinhos

Uma farsa em sete apelos

Martha Batalha
Na casa de dona Dalva: “Lambida não pode. Ela usa shortinho curto porque o Rio é quente, não é para te tentar”
Na casa de dona Dalva: “Lambida não pode. Ela usa shortinho curto porque o Rio é quente, não é para te tentar” ILUSTRAÇÃO: ROBERTO NEGREIROS_2020

Carlinhos, meu amor,
Dona Dalva disse que na igreja a gente pode conversar. Ela disse que quando eu quisesse falar com você só precisava entrar aqui, olhar para o altar e abrir meu coração. Você se lembra da dona Dalva, a médium que nós procuramos quando você foi demitido? Aquela que disse que o seu destino estava no mar, e a gente pensou que você conseguiria um emprego em Sepetiba? O emprego nunca aconteceu, mas ela acertou. Joguei suas cinzas em Maricá.

Agora não consigo pensar na casa de praia sem me acabar de chorar. São dolorosas e ternas as lembranças. As partidas de buraco com o Kleber e a Zilda, nossos filhos catando conchinha na praia, as bacalhoadas que eu fazia no Domingo de Páscoa. Muito difícil ver a rede vazia, onde você costumava fazer a sesta.

Já estou há nove meses sozinha e ainda não me conformo. Por que, Carlinhos, você foi sair para comprar pão? Mandou eu calar a boca, disse que se o seu presidente estava na padaria você também podia estar. Botou a camisa do Brasil e saiu pela porta, tirou selfie imitando um revólver com a mão e postou nas redes. Taí, deu no que deu. Você pegou essa porcaria de vírus, foi do hospital para a fornalha e da fornalha para Maricá, enquanto o homem continua fazendo lives no Planalto. Era só esperar mais algumas semanas, até a quarentena acabar. Tinha torrada em casa, Carlinhos. A gente podia viver sem pão francês.

O que me deixa tranquila é saber que fomos felizes e que vamos nos encontrar logo. A minha missão aqui na Terra está praticamente completa. Eduardo está encaminhado. Não me conta muito, mas parece que ganha bem no escritório de direito. Trocou o Palio por um Honda Civic, comprou os presentes de Natal em Orlando. Suzana casou com um economista, agora só falta engravidar. Passo meus dias falando com as amigas pelo WhatsApp, vendo Facebook e tevê, enquanto faço broches de tricô. Nem tenho mais para quem oferecer. O brechó do asilo e a lojinha do orfanato já não querem. Dei para todas as vizinhas, até a mulher do porteiro ganhou um de cada cor. Nunca vi a ingrata usando, e olha que eu fiz para ela o modelo com paetê. Não ligo. Sigo à espera do chamado de Deus para voltarmos a ficar juntos.



Enquanto não acontece, quero saber se você gostaria de se comunicar comigo. Dona Dalva recebe espíritos desencarnados todas as quintas depois da novela das sete. Ela me disse para eu te passar o endereço do canal mediúnico: Rua Maracanã, 685, apartamento 407. É um prédio de pastilhas, perto do Tijuca Off Shopping, em frente ao sinal com o vendedor de amendoim com a camisa do Flamengo. Pense com carinho, Carlinhos. Rua Maracanã, prédio de pastilhas, vendedor de amendoim. Todas as quintas depois da novela das sete. Uma única palavra sua trará conforto para minha solidão.

 

Carlinhos, meu amor,
Dona Dalva continua aguardando a sua chegada. Estive na casa dela na última quinta, mas o espírito que a visitou certamente não era o seu. No primeiro intervalo depois do fim da novela, dona Dalva começou a se sacudir, os olhos ficaram brancos, e vi o momento exato em que o corpo dessa senhora deu lugar ao desconhecido. O que aconteceu em seguida foi estranho. Ela perguntou com voz grossa onde estava o goró, notou o bar no canto da sala e preparou uma dose de uísque. Foi até a cozinha e fritou uns torresmos. Depois de se refastelar, o espírito beliscou a coxa da filha da dona Dalva, que estava na janela fazendo panelaço enquanto o presidente falava na tevê.

Não era o meu Carlinhos, foi o que eu disse quando a dona Dalva voltou a si. Expliquei que você não podia beber nem comer torresmo por causa da diabete e do colesterol alto. Vivia naquela dieta de arroz sem gordura com ensopadinho sem sal, só aos sábados é que eu te deixava comer um bombom Sonho de Valsa.

Sem falar que a volúpia nunca foi o seu fraco (ou o seu forte). Depois que a Suzana nasceu você também me chamava de Mamãezinha. Jamais atacaria as pernas de uma menina como a Nadine, que ainda por cima é de cor. Dona Dalva explicou que às vezes algum espírito brincalhão pode se passar pelo parente morto. Vamos tentar de novo semana que vem.

 

Carlinhos,
Agora que eu sei que é você o espírito que a dona Dalva recebe, a gente precisa se acertar. Achei melhor não discutir na frente dela porque eu não sei como funcionam esses meandros da macumba, vai que o espírito só toma um pedaço do corpo e que a dona Dalva escuta a nossa conversa com outro pedaço, e isso eu não quero. Por isso vim aqui na igreja te dizer umas coisas.

Primeiro, respeite as coxas da Nadine. Lambida não pode. Ela usa shortinho curto porque o Rio é uma cidade quente, não é para te tentar. A mocinha está distraída na sala vendo novela, a mãe chega perto, ela pensa que a mãe é a mãe, mas na verdade é você no corpo da mãe, e quando se dá conta tem uma língua subindo pelo joelho dela. Não sei quais são as regras nesse outro mundo, se há libertinagem e safadeza, se é um sórdido antro passível de saliências. Acho inclusive que tecnicamente não estamos mais casados, mas por favor se contenha.

Segundo, pare com essa mania de encarnar e ir direto para o bar no canto da sala. Nem sabia que você tomava Velho Barreiro.

Terceiro, pare de abrir a geladeira. Na quinta passada você descongelou o vatapá e comeu dois pratos fundos. Quando a dona Dalva voltou a si, quase chorou. Disse que não ia mais te receber porque estava fazendo regime e que, por sua culpa, dormia com azia e acordava com ressaca. Disse que se a coisa continuasse assim o médico iria reclamar do resultado do exame dos triglicerídeos.

E não venha me dizer que não foi você que ela recebeu. Era você, Carlos, porque logo depois que ela parou de se debater, depois que os olhos voltaram a ter pupilas e a voz da dona Dalva mudou, o espírito viu a tevê ligada e gritou Porra, Eliane, tu sumiu de novo com a porra do controle remoto. Igualzinho do jeito que você gritava comigo.

Para a sua informação, Carlos, a porra do controle remoto continua no nosso apartamento, dentro da caixinha de madrepérolas em cima do criado-mudo. Eu deixava ali para você ter que se levantar, doutor Plínio mandou você fazer exercício por causa do coração.

Eu espero que da próxima vez possamos ter uma conversa civilizada.

 

Carlos,
Tive que mudar de igreja, porque da última vez eu berrava tanto que o sacristão pediu para eu me retirar. Ainda bem que nesta aqui só tem um indigente no banco perto da porta, porque hoje eu vou berrar de novo, ah, vou.

Na última sessão você disse que sentia falta das nossas tardes de amor em Búzios. Que tinha dificuldade para se desprender da matéria porque mesmo desencarnado não parava de pensar no meu biquíni vermelho. Que a memória das nossas escapulidas na hora do almoço permanecerá com você por toda a eternidade.

Você nunca me levou para Búzios. Depois de duas cesárias, eu só podia usar maiô. Você nunca escapuliu comigo.

Quem era essa vadia seminua com quem você desfilava na Rua das Pedras e por quem você abandonava a repartição em longos almoços de amor?

Talvez nessa nova vida você tenha miopia, porque não era a sua amante que estava do outro lado da mesa na sala mediúnica da dona Dalva. Quem estava ali era a sua mulher, Eliane Pinheiro Gomide. Uma mulher estúpida, que sacrificou a juventude, abandonou o magistério e desperdiçou 35 anos de vida por você. Então quer dizer que a outra você levava para Búzios, enquanto eu nunca saí daquela praia encardida de Maricá? Com a outra você almoçava fora à vontade, enquanto comigo só ia em rodízio de massa no Dia das Mães?

Não vou mais te deixar em paz, Carlos. Não vou. Vou te atazanar todas as quintas-feiras da minha desiludida existência, até você me contar essa história direito. E também porque eu preciso saber a senha do cofre que descobri no fundo falso do armário do quarto de empregada.

Me aguarde, Carlos. Temos muito pra conversar.

 

Carlos,
Troquei de igreja de novo. O padre me viu berrando na frente do altar, achou que eu estava gritando com Cristo e sugeriu exorcismo. Respondi que estava exorcizando meu passado.

A coisa não está boa para o seu lado. Através da dona Dalva você insiste em se comunicar com o seu Amorzin. Eu digo que ali não tem Amorzin e você me quebra os copos da cristaleira. Quando dona Dalva voltou a si e viu os caquinhos no chão, disse que nunca mais ia te receber. Prometi pagar o triplo para a gente continuar conversando, ela negou. Ofereci quatro vezes mais, em vão. Ela disse que assim não podia viver, com a filha trancada no quarto, garrafas se esvaziando, um cadeado na geladeira e nenhum copo de cristal. Aqueles copos eram do enxoval da dona Dalva, ela não usava nem na ceia de Natal para não desfalcar o jogo de doze.

Falei para ela do cofre. Prometi dividir com ela o que encontrasse, se ela continuasse a te receber. Disse que só precisava saber a senha e que por isso as sessões eram imprescindíveis. Dona Dalva não pareceu feliz, mas concordou. Portanto, Carlos, ou você desembucha esses números na próxima quinta ou você vai saber o que é uma alma penada atormentando outra alma penada, porque um dia eu vou aparecer por aí, e se você pensa que as nossas brigas durante os engarrafamentos da ponte Rio-Niterói eram um vislumbre do inferno, não tem ideia do que te aguarda.

 

Carlos, seu filho da puta,
Eu espero que os canais de comunicação também sejam válidos nas igrejas evangélicas. Nessa aqui todo mundo berra e ninguém vai me expulsar. Você não quis me passar os números do cofre. Disse que os números morreram com você, que continuariam mortos com você, e que era melhor estar morto do que vivo comendo meu frango ensopado. Chamei um bombeiro, que abriu o cofre com um maçarico e queimou as ações do Banco do Brasil. Oitenta mil reais viraram carvão.

Quando eu disse para dona Dalva o que tinha acontecido ela partiu pra cima de mim sem nem mesmo estar possuída. Corri para trás da filha dela, pedindo pelo amor de Deus para se acalmar. Vou vender a casa de Maricá, dona Dalva. Dou para você metade do valor.

A verdade é que a casa está tão acabada que se eu vender não consigo comprar uma Kombi. As paredes estão com cupim, os banheiros têm vazamento, o jardim é um antro de cobras e ratazanas escondidas no mato alto. As grades foram comidas pela maresia, o tanque vazio que você chamava de piscina parece o caixão de um obeso. Do lado da nossa casa apareceu uma comunidade, que é como agora chamam aquele monte de pobre que invade o terreno dos outros, constrói casa de tijolo aparente e escuta funk no fim de semana.

Mas eu vou saber me virar, Carlos. Você vai ver.

 

Carlinhos,
Faz mais de ano que a gente não conversa. Foi inclusive por isso que eu vim aqui na igreja, achei que você ia gostar de saber de mim.

Depois de raspar a nossa conta bancária e de pagar o que devia para a dona Dalva, depois de abrir o pulso tricotando broches e não vender nenhum, eu me vi numa situação delicada. Foi quando Suzana sugeriu que eu alugasse para turistas os quartos do apartamento em Copacabana.

Você bem conhece o Rio. Ele renasce e resiste, permanece espetacular e sedutor apesar de tudo. Depois da pandemia os turistas voltaram. Querem fazer por uns dias o que eu fiz a vida inteira. Caminhar no calçadão, dar um mergulho no Posto 6.

Alguns chegavam, partiam, e eu só via a cama desfeita. Outros gostavam de conversar. Aprendi sobre muitos lugares, quis viajar. Usei o dinheiro do aluguel para visitar cada uma das cidades que você nunca me levou. Decidi que era eu quem me levaria.

Às vezes e no começo, andando por alguma praça, eu sentia uma tristeza antiga, enraizada. De tudo pelo que eu passei, sabe o que mais doía? Lembrar que eu colocava sabonete Phebo na gaveta, para as suas Zorbas ficarem cheirosinhas.

Com o tempo essa lembrança foi se tornando, assim, como um balão de gás que se desprende e vai ficando cada vez menor e distante no céu, até sumir.

Tirei as lagartas da samambaia do canto da sala. O xaxim está cheio de mudas, vai voltar a ficar bonito no verão. Passei para o nível difícil do Sudoku. Um casal de rolinhas fez ninho na soleira da janela do quarto, dá gosto ouvir os filhotes piarem. Aquele senhor argentino do 201 está me dando aulas de espanhol. Semana que vem vou com a Cleide para a Festa da Uva em Caxias do Sul. Combinamos de tirar uma foto com roupa antiga, de colonos. Eu sempre quis fazer isso. Vou colocar no porta-retratos de prata.

Martha Batalha

É escritora, editora e jornalista, autora dos romances A Vida Invisível de Eurídice Gusmão e Nunca Houve um Castelo

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