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    CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2023

esquina

A volta da continuísta

No terceiro governo Lula, Clara Ant segue no cangote do presidente

Luigi Mazza | Edição 203, Agosto 2023

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No intervalo entre uma e outra reunião do Foro de São Paulo, o lobby do hotel San Marco, em Brasília, enchia de gente. Camaradas de toda a América Latina tomavam café em copos de plástico e papeavam pelos corredores. Uma banquinha exibia jornais e revistas do PCO, o Partido da Causa Operária. Um mexicano vendia, por 5 reais, bonecos de plástico do presidente Andrés Manuel López Obrador. Sentada num estande discreto, Clara Ant observava a muvuca. Estava ali para uma sessão de autógrafos de seu livro de memórias, Quatro Décadas com Lula, publicado no ano passado pela editora Autêntica.

Markus Sokol, da velha guarda do PT de São Paulo, se aproximou. Puxando conversa, confessou que não teria memória para escrever um livro parecido. Costuma esquecer até o que almoçou. Ant explicou, generosamente, que o problema não é só dele. Disse que, segundo o neurocientista Eric Kandel, o cérebro mistura e às vezes inventa lembranças. “Não dá pra confiar em nada que escrevi aqui”, ela disse, rindo.

O trabalho de Ant passa, em grande medida, pela memória. Entre 2003 e 2010, sua função era servir como uma espécie de HD externo de Lula. Ou, na analogia que prefere usar, era uma continuísta, como os do cinema, que trabalham para garantir a coerência visual da trama – se um ator aparece de chapéu vermelho num take, por exemplo, ele deve aparecer de chapéu vermelho no take seguinte. Carregando um palmtop – computador, digamos, da era soviética que cabia no bolso e cumpria funções hoje suplantadas pelo celular –, Ant participava de quase todas as reuniões no Palácio do Planalto, exceto as de cunho estritamente político. Quando não podia, mandava um subordinado. Ela e sua equipe tomavam notas pormenorizadas das decisões de Lula e acompanhavam os pedidos do chefe até que fossem cumpridos pelo ministro ou secretário responsável. Tudo era planilhado e monitorado por meio de um soft­ware, o Sigov. Dessa forma, as ordens de Lula não corriam risco de ficar sem dono e acabar desaparecendo na burocracia.

Com o tempo, Ant se habituou a anotar não só os pedidos de Lula, mas todo o teor das reuniões. Assim, se o mandatário quisesse, poderia consultar, tempos depois, o que tinha sido falado numa conversa longínqua. Ela e sua equipe também preparavam “subsídios” – isto é, estatísticas e informações, organizadas em tópicos curtos, que ajudavam o presidente na agenda do dia. Eventualmente, “enfiava o bedelho” – palavras suas – nos discursos que Luiz Dulci, então secretário-geral da Presidência, escrevia para Lula.

Hoje, Ant está novamente batendo ponto no terceiro andar do palácio. Retomou a função de continuísta, cargo que, no papel, tem um nome mais comprido: assessora-chefe da Assessoria Especial de Apoio ao Processo Decisório do gabinete pessoal de Lula. Quando recebeu o convite do presidente eleito, no final do ano passado, hesitou. Não lhe agradava a ideia de retornar a Brasília, cidade que deixara para trás em 2011. “Queria viver minha transição para a velhice em São Paulo”, ela explica, hoje com 75 anos. Mas acabou se dobrando à ideia.

 

No Palácio do Planalto, o gabinete do presidente fica na ponta de um corredor. A repartição onde Clara Ant trabalha está no lado oposto. É uma sala estreita, com alguns computadores e um triturador de papéis. Ali, Ant comanda uma equipe de seis pessoas, a maioria das quais já trabalhou com ela em sua primeira passagem pelo governo. Ricardo Arreguy Maia, um de seus comandados, diz que trabalhar com Ant “é uma escola”.

Hoje, a assessora não enfrenta a mesma carga de trabalho do primeiro governo Lula, quando tinha 55 anos, vinte anos mais jovem. “Agora tem uma moça dessa idade na minha equipe fazendo todo o trabalho, exceto a parte de continuísta, que eu coordeno”, diz. Ant aposentou o palmtop e assumiu funções gerenciais. Ela também não fornece mais subsídios a Lula, tarefa que foi repassada a outra equipe do palácio.

A assessora zela pela discrição do cargo. Questionada sobre como tem sido trabalhar com Lula novamente em Brasília, responde: “O Lula vai bem, né?” E dá uma risada impaciente.

Ela e o presidente se conheceram nos anos 1970, quando ambos eram sindicalistas. Vinham de universos muito diferentes – ele, um torneiro mecânico; ela, uma trotskista de classe média forjada no movimento universitário –, mas se encontraram no PT e viraram amigos. Quando Lula passou a faixa para Dilma, em 2011, Ant retornou com ele a São Paulo e ajudou na criação do Instituto Lula. Acompanhou a debacle do PT nos anos da Operação Lava Jato e, no auge das investigações, teve seu apartamento revirado pela Polícia Federal. Com a crise, passou a nutrir a ideia de escrever um livro.

No início, Ant não sabia que forma dar ao texto, então saiu à procura de inspirações. Revisitou a trilogia que Isaac Deutscher escreveu sobre Leon Trótski. “Na abertura, o Isaac diz que se baseou nos escritos do Trótski para fazer o livro. São muitos, uma tonelada. Fiquei pensando: ‘Pô, e agora? O meu personagem não escreveu nada…’”

A solução encontrada foi um híbrido. A primeira parte do livro é autobiográfica: Ant relembra a infância em La Paz, na Bolívia, cidade onde seus pais, judeus poloneses, se refugiaram do nazismo. A primeira vez que o Brasil entrou no cotidiano da jovem boliviana foi aos 8 anos de idade, em 1956, quando seu pai viajou para São Paulo e trouxe de presente para a mulher um liquidificador – uma novidade, na época. “Dali em diante”, escreveu Ant, “a imagem do Brasil para mim era a de um liquidificador.” A família se mudou para São Paulo no ano seguinte. Ant aprendeu português e não guardou nenhum sotaque do castelhano da infância. Formou-se arquiteta pela USP, participou da fundação do PT e, em 1986, se elegeu deputada estadual.

No restante do livro, o tom é mais impessoal, embora aqui e ali pipoquem anedotas. Descobre-se que Lula é fã de filmes de bangue-bangue, “como os de Charles Bronson”; que o general Gonçalves Dias – recentemente afastado do Planalto em razão do vandalismo de bolsonaristas em 8 de janeiro – era tão obcecado em proteger o presidente quando foi seu chefe de segurança, que seu apelido no Planalto era “G. Grades”; e que, se hoje nas cédulas de real está escrito “República Federativa do Brasil”, isso se deve a Ant, que certo dia, ao pagar um almoço no Planalto, se deu conta da falta de patriotismo do dinheiro brasileiro.

 

Sokol se despediu e Clara Ant tomou pé da notícia do dia: fazia poucos minutos, Jair Bolsonaro havia sido condenado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). “Ele está inelegível até 2030, né?”, perguntou em voz alta. “Bom, não vou estar viva até lá, então vou morrer feliz.”

Para divulgar o livro, Ant levou para o Foro de São Paulo um pôster com uma foto em que aparece abraçada a Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai. Na imagem, ele segura um exemplar da obra. Os dois se encontraram em outubro do ano passado, em São Paulo. Mujica agradeceu o presente e levou para o quarto onde estava hospedado. “No dia seguinte, ele chegou no hotel falando assim: Muy bien, naciste en Bolivia, tu papá y tu mamá son de Polonia etc. Ou seja, já tinha lido”, diz Ant. “Ele é um fofo.”

E Lula, leu o livro? Gostou? “Pergunta pra ele. Eu não perguntei.” A piauí repassou a questão a José Chrispiniano, assessor de imprensa do presidente. Dias depois, Lula respondeu que ainda não teve tempo de ler o livro de Clara Ant, mas pretende fazê-lo. A continuísta está de olho.