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X-tudo faz passar no vestibular

Não é assim um ProUni, mas manda bem

Nuno Manna

Na carteira de identidade o nome é Adriano Alves de Souza, mas pouca gente sabe. Todo mundo o conhece por X-Tudo, apelido que, segundo ele, levanta uma história longa e desnecessária. Mais fácil, então, deixar que o associem com suas formas rechonchudas. “Sou X-Tudo GG: gordo e gostoso”, diz. O uberlandense de 39 anos, professor de inglês desde 1991, fala macio. É um homem aplicado e querido pelos alunos. Do ponto de vista pedagógico, porém, o que realmente o distingue é o fato de ter parado de praticar a hipnose em sala de aula.

X-Tudo conseguiu o registro de terapeuta holístico depois de vencer as 700 horas de um curso em Belo Horizonte, no Instituto Milton H. Erickson, cuja matriz, no Texas, está para os adeptos da hipnose assim como o Vaticano para os católicos. A fim de aprimorar seus conhecimentos, X-Tudo participou de seminários com hipnólogos ilustres, como Jeffrey Zeig, diretor mundial do Milton Erickson, e Fabio Puentes, cuja lista de hipnotizados inclui vultos imorredouros como a ex-BBB Naiá.

Ele torce um pouco o nariz para os mestres mais midiáticos – não aprova o que chama de “hipnose de palco” -, mas é incisivo na defesa da prática para fins educacionais. E justamente por isso induzia seus alunos de inglês a experimentar estados alterados de consciência. Segundo X-Tudo, quando hipnotizado, até o mais parvo dos alunos passa a falar como um Lord Byron mesmerizado pelas belezas de Sintra. O relaxamento induzido aumenta a concentração e, portanto, melhora o desempenho nas provas. “Você pode perder de 20 a 30% do raciocínio por causa da ansiedade”, afirma X-Tudo.

Tendo chegado ao transe leve, o aluno ouve palavras que lhe inculcam tranquilidade, confiança e lucidez, além de, a título de bônus, ativarem o “gatilho pós-hipnótico”, uma espécie de resíduo subliminar do transe. Ao abrir a prova e topar com a Segunda Lei da Termodinâmica, seu gatilho será disparado e reativará as sensações experimentadas durante o transe – e o tesouro de conhecimentos aprendidos dias antes ou anos atrás aflorará à consciência. Da conjugação do verbo to be à intensidade-do-campo-elétrico-que-é-igual-à-constante-elétrica-no-vácuo-vezes-a-carga-geradora-do-campo-dividida-pela-distância-entre-as-cargas-ao-quadrado, tudo estará ao alcance do vestibulando.

X-Tudo garante a validade do gatilho por até cinco dias. Em época de vestibular, com o desespero instalado entre as hostes que só começam a estudar na véspera, ele chegou a engatilhar turmas de até 300 alunos. Infelizmente, contudo, como hipnose não é possessão, quem não sabia continuava a não saber.

Ademais, nem todos são dotados da capacidade de entrar em transe facilmente. Os mais propensos, como Flaviana de Almeida, de 25 anos, podem ser identificados pelo teste da mãozinha: a pessoa une as mãos e não consegue desgrudar. Pelo teste da mãozinha Flaviana passou com louvor, tanto que hoje cursa veterinária na Universidade Federal de Uberlândia, a UFU. Hipnotizada, só um maçarico poderia separar suas mãos. “Eu tenho um não-sei-o-quê aberto”, explica. “Chacra aberto” é a expressão técnica correta, e o dela aparentemente é escancarado, graças a Deus. É com gratidão que Flaviana lembra como foi ajudada pelo seu antigo professor de inglês. Durante quatro anos e meio ela havia tentado o vestibular, mas a ansiedade nunca a largava. Com insucessos empilhados, decidiu se entregar às artes de X-Tudo. “Aí entrei supertranquila na prova. Química, biologia e física eu fechei, ia vindo tudo na cabeça. Matemática era o meu terror. Tirei meio ponto” – hipnose tem limite –, “mas passei.”

Para convencer os mais céticos, X-Tudo até admitia exibir alguns malabarismos hipnóticos. Como exemplo, fazia uns poucos alunos em transe levantarem seu corpanzil de 107 quilos só com a força do dedo indicador, convencia outros de que giz era chocolate branco e, argumento definitivo, fazia vascaíno fanático declarar amor pelo Flamengo.

 

Nem todos compreendem a hipnose. A cisma é antiga. No Brasil já dura no mínimo meio século, desde 1961, quando mais um decreto do momentoso Jânio Quadros proibiu a prática em todo o território nacional – salvo para uso médico. A coisa afrouxou um pouco em 1964, quando psicólogos ganharam permissão para hipnotizar, e mais um pouquinho em 66, quando algum general com cáries e pânico mórbido daquelas broquinhas concedeu salvo-conduto a dentistas.

No caso concreto de X-Tudo, o fato é que os pais começaram a reclamar das práticas pouco ortodoxas a que seus filhos estavam expostos. “Mesmo que eu trabalhasse dentro da lei, o pai do aluno tinha o direito de achar que eu tenho parte com o capeta”, diz. Em 2004, para desalento de vestibulandos angustiados, a pressão sutil da escola, aliada a uma doença que lhe tirou as forças de concentração necessárias à hipnose, o fez desistir da prática em sala de aula. Dali em diante, para provas, só Lexotan.

Para não romper inteiramente com o passado, X-Tudo começou a ministrar cursos de auto-hipnose. Ele sorri: “Minhas aulas são as únicas em que é permitido dormir!” (Não as de inglês, bem entendido.) Na manhã do dia 10 de janeiro, algumas horas antes da última prova de seleção da UFU, ele estava na porta da escola onde leciona. O senso do dever ainda o leva a ficar de plantão, para o caso de alguma alma intranquila vir em busca de um relaxante. Ao seu lado, compondo uma espécie de brigada alternativa de atendimento in extremis, estava um professor de geografia acupunturista. Ninguém apareceu, felizmente. Noves fora o ansiolítico velho de guerra e as ritalinas da moda, a calma talvez indique que o tradicional método de grudar a cara no livro também surte algum efeito.

Nuno Manna

Nuno Manna é jornalista em Belo Horizonte.

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