anais da saúde pública

Médicos de menos, as doenças de sempre

A história de quatro pacientes crônicos do sertão do Ceará que estão há um mês sem os tratamentos que precisam, após a saída dos profissionais cubanos do país

Henrique Araújo
14dez2018_13h29
A agricultora aposentada Maria Pereira Mota, que é diabética, e ficou sem atendimento em Tamboril, no Ceará
A agricultora aposentada Maria Pereira Mota, que é diabética, e ficou sem atendimento em Tamboril, no Ceará /INTERVENÇÃO DE PAULA CARDOSO EM FOTO DE HENRIQUE ARAÚJO

No quarto mês de uma gestação de alto risco, Dayana Oliveira Silva do Nascimento, de 24 anos, vive um dilema: não sabe se vende a única cabeça de gado que a família ainda mantém para pagar exames numa clínica privada, ou se aguarda um substituto para a médica cubana que atendia o distrito de Oliveiras, a 30 quilômetros da sede do município de Tamboril, no sertão do Ceará. Até o início de novembro, a dona de casa era paciente da “quase xará” cubana Dayanis Serrano Gutierrez, que fizera todo o seu pré-natal. Com histórico de convulsões, Dayana tivera um aborto espontâneo cinco anos atrás e, desde então, não engravidara novamente. Ela fora diagnosticada com síndrome de Hellp (hipertensão anormal que pode causar a morte da mãe e do bebê) e, portanto, as visitas à médica eram semanais. Agora, contudo, ela teria de enfrentar sozinha os últimos meses da gravidez.

Até o mês passado, Tamboril, no semiárido cearense, tinha doze médicos, nove cubanos e três brasileiros. O distrito de Oliveiras, com duas mil pessoas, contava com um. Em 19 de novembro, porém, poucos dias depois de o governo da ilha caribenha romper a parceria com o programa Mais Médicos, os cubanos deixaram a cidade – foram-se todos juntos, uma parte para Fortaleza e outra para Salvador, de onde esperaram um voo para o seu país. Uma delas era a médica que trabalhava em Oliveiras desde 2016 e que acompanhava a gravidez de risco da dona de casa. Os três brasileiros que ficaram também pediram transferência, o que criou um apagão no serviço de saúde da cidade – durante quase um mês, havia apenas um médico de atenção básica para todo o município, que tem 25 mil habitantes e está a 286 quilômetros de Fortaleza. Outros três chegaram, mas, como agora há na cidade apenas um terço dos profissionais que havia antes, Dayana Silva ainda não conseguiu atendimento.

Com a venda do garrote, a dona de casa estima que ganharia 450 reais, suficientes para pagar quatro consultas na rede privada, na própria sede do município. “Umas semanas atrás, depois que a médica foi embora, tive um princípio de aborto e precisei fazer duas consultas particulares. Se fosse esperar pelo hospital da sede, não sairia nunca. A fila era de quatro a cinco meses, já que não tinha mais ninguém pra atender em Oliveiras”, contou. “Paguei 220 reais, mesmo sem poder. Aqui a gente é pobre. Mas eu não podia esperar. Já perdi um filho, não quero perder outro.”

Há cinco anos, na primeira vez em que engravidou, Silva perdeu a filha – seria Dafiny o nome dela – após sofrer uma hemorragia no parto e ser levada às pressas para o hospital de Sobral, a 152 quilômetros de Tamboril. Segundo Noélia Aparecida, enfermeira de Oliveiras que vem fazendo as vezes de médica desde a saída da colega cubana, o quadro de Silva é grave. “Pela hipertensão e as convulsões frequentes, ela precisa de acompanhamento rigoroso. É realmente muito delicado”, disse à piauí. “A Dayana foi diagnosticada com síndrome de Hellp, que se desenvolveu na primeira gravidez, depois que ela teve eclampsia. Ainda por cima, toma medicação controlada para epilepsia”, explicou Aparecida. De acordo com a enfermeira, a situação da paciente pode se agravar sem o acompanhamento. Ela ainda apresenta sequelas do parto anterior – como fortes dores de cabeça, por reação alérgica à anestesia. “Eu disse pra Dayana que, só eu, como enfermeira, não poderia me responsabilizar. Tem que ter um médico, um obstetra, alguém que lhe dê um aparato maior. E ainda tem a dificuldade por morar num lugar distante.”

 

A dona de casa Dayana Silva, que vive uma gravidez de alto risco, e o marido, Antônio José, do distrito de Oliveiras



O acesso a Oliveiras é feito apenas por estrada de terra, por onde circula todos os dias uma van. Chamada de “carro de horário”, ela sai às 5h30 da manhã, leva os moradores à zona urbana e retorna ao meio-dia. Há também o transporte escolar da rede municipal, que conduz estudantes. São as duas únicas formas de transporte oficial na região, que não dispõe mais de ambulância há quase quatro meses – o veículo foi deslocado do distrito para o hospital municipal, que atende a maior parte da população da cidade, e fica à espera dos casos de urgência.

Casada há cinco anos, Dayana Silva mora com o marido, o agricultor Antônio José, de 34 anos, no assentamento de Jiboia (a sete quilômetros de Oliveiras), que ela chama de “interior do interior”. Desempregado, José trabalhava como motorista de transporte escolar até o mês passado, quando foi demitido. “Parece que tudo aconteceu de uma vez”, disse a dona de casa, referindo-se à falta de médicos na área e à má sorte do marido. Mesmo assim, ela não arreda pé de seus planos. Caçula de três irmãos – um rapaz de 26 e uma moça de 25 –, sonha com uma escadinha de filhos: três, com idades muito próximas, “que é pra gente parecer irmãos quando eles crescerem”. A mãe, Maria Edileusa, de 47 anos, vive com o irmão mais novo de Dayana numa casa de três cômodos, ao lado da igreja de Oliveiras. A única renda da família vem do Bolsa Família, 135 reais mensais.

Na semana passada, depois de uma espera angustiada, a jovem soube o sexo do bebê: é menino. “Chorei muito porque sonhava com uma menina, já tinha começado a decorar o quarto de rosa. Mas agora que descobri que é menino, só penso nele”, disse. E já tem nome: Antony Daniel. “Escolhido por mim, claro. O pai só tem direito de pagar as contas”, fez graça. Na última consulta, ao se despedir da médica que não teria mais, Silva ouviu da estrangeira que, se um dia voltasse, a visitaria em Tamboril. “Ela disse que queria ver meu bebê bem. E vai ver, em nome de Jesus. Ela vai ver meu bebê no meu colo”, disse, apertando as mãos do marido, sentado a seu lado no sofá. Nos braços, a jovem carrega tatuados os nomes dos dois filhos, a que se foi e o que está por vir.


Desde a saída dos cubanos, Tamboril tenta lidar com o vácuo no atendimento de saúde. Dos nove médicos aguardados para ocupar as vagas dos caribenhos, apenas quatro se apresentaram nos dias que se seguiram – um desistiu depois de tentar negociar uma “flexibilização” na carga horária, que é de 40 horas semanais (32 horas de atendimento clínico e oito dedicadas a estudos de especialização, segundo prevê o edital do programa). De acordo com o secretário da Saúde de Tamboril, Rainey Martins, outros quatro candidatos propuseram abrandar esse regime de trabalho. “Além de perder os cubanos, perdi três brasileiros. Dos nove candidatos às vagas dos estrangeiros, quatro me ligaram para negociar a carga horária. A intenção era flexibilizar o regime, ou seja, trabalhar menos”, disse. A prefeitura não aceitou. É importante que o Programa Saúde da Família – o PSF, que faz o atendimento primário e no qual atuam os profissionais do Mais Médicos –, funcione todo dia, disse o secretário. “Estamos dependendo dos enfermeiros, pra evitar o fluxo no hospital. Mas a demanda já está bem além do normal, com muitos pacientes crônicos, como diabéticos e hipertensos, que deveriam estar sendo atendidos nos postos”, afirmou Martins. É o caso da agricultora Maria Pereira Mota, de 76 anos.

Às 6h30 da manhã da sexta-feira, 30 de novembro, a agricultora enfiou-se no mato com um machado a tiracolo. Ao lado do filho adotivo Pedro Henrique, de 18 anos, Mota foi cortando galhos para acender o fogareiro e preparar café. “Eu tava lascando a lenha com o machado e ele ajuntando. Aí o menino perguntou o que eu tinha. Me senti mal. Me deu aquele suorzão e uma tontura, sabe?”, relembrou. “Eu disse: ‘Meu filho, me acuda, não aguento me levantar.’”

O jovem deitou a mãe no chão. Em seguida, encontrou por ali um pé de mofumbo (planta medicinal comum na caatinga usada como analgésico), arrancou um punhado de folhas, mastigou-as e colocou na boca de Mota. O rapaz sentou-a na garupa da moto, que deixara a alguns metros da mata, numa estradinha que dá acesso ao distrito de Oliveiras, onde a família também vive. “Ele me pegou no braço, me amontou em riba dessa moto e foi me segurando por trás até em casa pra eu não cair. Se não fosse ele, eu tinha morrido lá mesmo, no meio do mato.”

Maria Mota é aposentada, e mora numa casa pequena com dois dos sete filhos – de Pedro Henrique ela passou a cuidar quando ainda era um bebê prematuro, rejeitado pela mãe biológica, segundo ela. Os demais vivem na vizinhança, todos próximos. É ao “Neném”, como o chama, que a idosa recorre quando passa por dificuldades. “A sorte era que ele estava comigo dessa vez. Quando cheguei, já fui caindo no chão. A pressão baixou, não sentia nem braços, nem pernas”, disse.

Diabética e com quadro de hipertensão, Mota foi levada ao hospital de Tamboril num carro fretado pela filha Vanusa, porque a unidade que atende o distrito, já sem médico, estava fechada. O custo da viagem: 80 reais, abatidos da única renda fixa de que a família dispõe, a aposentadoria da agricultora. Na sede, ela foi medicada. “Era a diabetes alta demais”, disse a técnica em enfermagem Cidalva Rodrigues, que integra a equipe do PSF de Oliveiras. “O médico disse que eu não morri porque a pressão fez foi abaixar. Eu pensava que ia, e não voltava”, acrescentou a agricultora, sobre o receio de não resistir. “O que eu tinha de dizer, encomendei logo: disse que amava meu filho.”

Paciente crônica com histórico familiar delicado (ela perdeu duas irmãs vítimas de complicações do diabetes, uma das quais chegara a ficar cega), Mota precisa de acompanhamento sistemático de um médico, disse a enfermeira. “O caso dela, mesmo grave, pode ser controlado por medicação”, afirmou. A aposentada toma três comprimidos por dia, para diabetes e hipertensão, nem sempre disponíveis no posto. “Se a pressão dela tivesse subido, ela poderia não ter resistido. Aqui tem muitos casos assim, que exigem o cuidado que uma enfermeira, sozinha, não pode prestar”, explicou a técnica em enfermagem.

Dois meses antes de passar mal cortando lenha, Maria Mota havia levado outro susto. Estava em casa quando foi ferroada por uma abelha. A pressão sanguínea disparou. “A gente foi bater no posto de Oliveiras”, relatou a filha Vanusa. Na unidade, foi atendida pela médica cubana, que estabilizou a paciente. Mota voltou para casa uma hora depois, se sentindo melhor e com uma caixa de Captopril (para hipertensão) e outra de Cloridrato de Metformina (para diabetes). “Quando os remédios acabarem, vai ser sempre uma dificuldade. Ela tem que tomar todo dia, e, pra renovar as receitas, vamos ter que ir na sede, porque eles não aceitam só a enfermeira”, relatou a filha.

Na sede de Tamboril, o quadro também é delicado. De acordo com o secretário da Saúde, a média ambulatorial do hospital da cidade, que era de trinta a 35 pacientes por dia, passou para setenta. “O hospital não é de atenção primária, mas, com essa loucura, as pessoas estão indo pro hospital porque não estão sendo atendidas no PSF”, disse o secretário Martins. Segundo ele, a prefeitura precisou contratar emergencialmente dois médicos em regime de plantão, um para a área ambulatorial e outro para urgência e emergência. E, ainda assim, as filas continuam. “O diarista não consegue dar conta da demanda. Semana passada a população estava revoltada.”

Em todo o país, houve desistência de cerca de 200 médicos até a semana passada – procurado, o Ministério da Saúde informou que divulgaria novo balanço de desistentes no dia 17. No Ceará, nesse mesmo período, só 11% dos médicos brasileiros substitutos tinham de fato começado a trabalhar, em vinte municípios dos 118 atendidos pelo Mais Médicos no estado. Desses 118, pelo menos oito dependiam principalmente da mão de obra de fora, e dois deles só tinham médicos cubanos. Dos 8 411 médicos selecionados em todo o país, 2 969 haviam se apresentado em 1 248 cidades para substituir os estrangeiros (e outros 1 539 médicos entregaram os documentos, mas não tinham ainda sido validados pela pasta), segundo balanço do Ministério da Saúde divulgado na segunda-feira, dia 10. Ainda há 106 vagas para as quais ninguém se apresentou, em 29 municípios de Amazonas, Pará, Piauí e Roraima. O prazo para apresentação nos municípios terminaria nesta sexta-feira, mas foi prorrogado até terça, 18 de dezembro. A demora na chegada dos profissionais tem comprometido tratamentos e agravado a saúde de pacientes.


A sessenta quilômetros de Oliveiras, no distrito de Sucesso, ainda em Tamboril, o agricultor Cícero Alves de Holanda, de 50 anos, também vive uma agonia. Com suspeita de câncer de pulmão, ele espera um médico que possa encaminhá-lo para fazer exames conclusivos no hospital da cidade ou em Fortaleza.

Em setembro, Holanda, que trabalha recolhendo estrume em um caminhão para adubar plantações de hortaliças durante o verão, enchia uma bacia com rodo quando sentiu a garganta apertar, e o peito estremecer. “Cuspi no chão, e aí veio essa golfada de sangue. Depois de umas horas, comecei a colocar sangue pelo nariz. Aí parou e continuei enchendo os carros. Quando fui juntar estrume num pé de cerca, o sangue acompanhou. Os meninos se aperrearam”, contou. Estava na zona rural do município de Tauá, a 210 quilômetros de Tamboril. Os colegas de lida, que já tinham se empoleirado no caminhão que levaria o estrume para Guaraciaba do Norte, município cearense, se preocuparam. “Queriam me levar logo pro hospital, mas eu tomei um comprimido que uso para dores nas costas [o anti-inflamatório diclofenaco] e passou.”

Dali a algumas semanas, porém, Cícero Holanda teve novo acesso de tosse, agora em casa, e, com ele, mais sangue. Foi quando o agricultor resolveu procurar o posto de saúde de Sucesso, onde uma médica cubana atendia, até meados de novembro. Foi ela que fez os primeiros atendimentos ao agricultor, e pediu uma tomografia. Com o exame em mãos – feito no Hospital Regional de Crateús, a 64 quilômetros dali, naquele mesmo mês –, a médica reavaliou o paciente: tinha manchas nos pulmões. Diagnosticou bronquiectasia, doença que afeta o órgão e provoca tosse crônica com muco e sangue. Por causa da poeira da estrada, proibiu-o de trabalhar no caminhão. E levantou a suspeita do câncer, ainda a ser confirmado ou descartado por um especialista, mas que já tira o sono do agricultor.

“Eu não esperava isso. Achei que era algo mais simples, estou sem acreditar”, admitiu Holanda. Na sala de casa, numa ruazinha de residências de muro baixo no distrito de 1,5 mil habitantes na periferia de Tamboril, ele fala do drama de viver sem médico por perto. “Não sei se tenho câncer porque ninguém olhou ainda. Estou pensando em levar isso logo pro médico particular me encaminhar, nem que seja pra uma clínica em Sobral. Estou com medo.” Somados, os exames na clínica privada custariam cerca de 200 reais, quantia com a qual a família do trabalhador, formada por quatro filhos cuja renda não chega a 300 reais, não pode arcar.

Cícero Holanda e a mulher, Marcelina, em frente à casa onde moram, no distrito de Sucesso, em Tamboril

 

Incerta sobre o futuro do marido, a dona de casa Marcelina Alves, de 53 anos, espera que a nova médica de Sucesso, recém-chegada ao posto de saúde para substituir a profissional estrangeira que retornou a seu país, envie uma outra guia para a Secretaria da Saúde de Tamboril pedindo a transferência imediata de Holanda para Fortaleza.

Assinada pela cubana, a primeira guia foi extraviada, não se sabe como, se no posto de saúde ou na sede da secretaria, relatou Marcelina Alves. “A médica até chegou a procurar a guia no dia em que foi embora, mas não achou. Antes de ir, ela disse que o melhor pra ele é ir logo pra Fortaleza.” A expectativa da família era que Holanda fosse tratado na capital do estado, com um médico no Instituto do Câncer do Ceará, onde seria atendido pelo Sistema Único de Saúde e não pagaria nada. “Mas não deu certo. Não apareceu a guia. Estamos pensando em fazer logo num médico particular. A gente não pode esperar.” Debilitado, Holanda lamenta não poder mais fazer caminhadas por Sucesso. “Eu gostava de andar todo fim de tarde, ir até os vizinhos pra conversar. Acho que, por causa da doença, as pernas estão fracas.”

Dos oito distritos de Tamboril que ficam na zona rural, apenas três contam com médicos hoje. Uma semana após a visita da piauí ao município, os três únicos profissionais que se apresentaram na cidade como substitutos dos cubanos foram alocados em distritos percorridos pela reportagem (Sucesso e Oliveiras), ambos na zona rural, e na sede, que concentra três equipes do PSF. Apenas na última segunda-feira, quando cidade já não dispunha de médico algum, os brasileiros começaram efetivamente a trabalhar. Além da sede, que concentra mais habitantes, outros cinco distritos seguem desassistidos quase um mês depois do rompimento do contrato do Mais Médicos com Cuba. Mesmo com a contratação de reforço para o hospital municipal, o cenário é de carência até para os pacientes que vivem a poucos quarteirões dos postos de atendimento.


A saída dos médicos cubanos de Tamboril causou sobressalto à cuidadora de idosos Antônia de Maria Chaves Pereira, de 46 anos. Diagnosticada com hanseníase há quatro meses, começou o tratamento ainda em agosto com uma médica estrangeira num dos três postos de saúde da sede do município. Moradora da rua 15, ao lado da praça central da cidade, que fica a poucas quadras de uma das unidades, Pereira foi ao PSF na sexta-feira, dia 23 de novembro, quatro dias depois que os caribenhos haviam deixado Tamboril.

Sem saber de nada, procurou a cubana que a tratava, Josefina Barbara Baez Paumier, mas foi informada no local de que a médica já havia ido embora. “Tomei um susto grande. Primeiro, porque era ela que estava cuidando de mim já tinha quatro meses, e cuidando bem. Segundo, porque minha filha estava doente, com uma crise de estômago, e precisava de atendimento urgente”, contou Antonia Pereira.

A filha se chama Francisca Evanir Pereira Calassa, de 21 anos. A jovem divide com a mãe uma casa de quatro cômodos na sede de Tamboril, para onde se mudaram três anos atrás vindas do distrito de Nova Holanda, na zona rural. Até então, só viam médico de vez em quando. Naquela sexta, Evanir, que tem intolerância à lactose, apresentava um quadro com diarreia, ânsia de vômito e dores musculares fortes. No posto, mãe e filha foram aconselhadas por uma enfermeira a procurar o hospital, que recebe um excesso de pacientes desde a saída dos cubanos – “em torno de 50% a mais”, estimou o secretário Martins.

Uma das pessoas que se encaminharam para lá porque não tinham outra opção foi Antônia Pereira. “Queria pedir ao médico [o único que havia sobrado na cidade àquela altura] pra que fizesse logo uma endoscopia na minha filha, mas ele disse que a gente esperasse até a semana seguinte, quando chegariam os novos médicos brasileiros”, contou. “Depois disse assim: ‘A partir de segunda vai chegar médico aí, um que você vai entender o que fala.’ Querendo dizer que os cubanos não sabiam falar.”

Antônia Pereira não esperou. Dois dias depois, gastou 500 reais para que Evanir se submetesse ao exame numa clínica particular na vizinha Crateús. Apenas a consulta e a endoscopia consumiram dois terços desse valor, quase metade do que a família ganha por mês. As passagens de ida e volta dela e da filha, mais 48 reais. O restante foi gasto com alimentação. “A gente só faz isso mesmo quando precisa. Não temos condições. Não podemos ir pra policlínica [de Crateús] com o encaminhamento [a guia médica assinada pela Secretaria da Saúde, necessária para agendar consultas] porque demora e ninguém sabe se sai”, criticou. “E se chegar sem encaminhamento, não tem atendimento. Se quiser consulta, tem que pagar.”

A cuidadora de idosos Antônia Pereira, diagnosticada com hanseníase e agora sem médico, e a filha, Evanir

 

Não era a primeira vez que Antônia Pereira pagava do próprio bolso por um exame porque não queria esperar pela guia. Meses atrás, pouco depois de descobrir a mancha no braço casualmente e a confundir com um “pano branco” (infecção na pele causada por fungo), a cuidadora aproveitou uma consulta da mãe, que tem câncer de pele, e mostrou-a ao dermatologista. Desconfiado, ele solicitou uma biópsia. “Fiz num laboratório particular em Tamboril. Paguei 100 reais. Fiquei com medo e fiz logo. Foi um sacrifício, mas eu não sabia se era câncer, que é o grande temor de todo mundo.”

Descoberta no estágio inicial, a hanseníase de Pereira não era contagiosa. Tratada com medicação receitada pela médica cubana, a enfermidade cedeu, e a mancha, antes muito branca e dormente, começou a desaparecer. Aos poucos, a pele da paciente foi recobrando sensibilidade. Todos os meses, Antônia Pereira passava no posto e apanhava uma caixa do remédio prescrito pela médica Paumier na farmácia do município. Agora que está com a penúltima caixa antes do fim do tratamento (cada pacote do remédio dá para um mês), ela ainda não sabe o que fazer. “Ainda não falei com ninguém. Eu tenho que cuidar cedo. Não sei se vou pro hospital. Alguma pessoa vai ter que assinar a receita porque eu não posso parar o tratamento agora no final, quando estou quase boa”, disse.

Independentemente do risco de suspensão no tratamento (o posto no qual ela vinha sendo atendida ainda está sem médico), Pereira diz que vai sentir falta dos cubanos. “Vi uma cena na internet e achei linda, você viu?” Era a despedida para o médico Ramon Reyes organizada por moradores de Batinga, na Bahia, em 2 de dezembro. Ele foi homenageado com uma carreata, antes de viajar de volta a Cuba. Um vídeo mostra o médico vestindo uma camisa do Brasil, na carroceria do caminhão, acompanhado por moradores a pé pelas ruas. “Infelizmente aqui em Tamboril eles não quiseram despedida”, lamentou Antônia Pereira.

Enfermeira desde o início do programa Mais Médicos, em 2013, Noélia Aparecida, que está no oitavo mês de gestação e deve se afastar em breve do trabalho no distrito de Oliveiras, teme que as vagas abertas em Tamboril não sejam preenchidas. “Os médicos brasileiros podem até se apresentar aqui, mas, quando descobrirem que o acesso é difícil, que a gente não tem carro bom pra ir, as condições são péssimas, não tem ar-condicionado e de vez em quando o carro quebra na estrada… Quando virem como é, não sei, não.”

Henrique Araújo

Henrique Araújo é jornalista em Fortaleza e mestrando em Literatura pela Universidade Federal do Ceará

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