questões do consumo

Meu tênis, minha vida

Mil candidatos fazem fila para disputar direito de comprar tênis de R$ 550

Fabio Victor
28fev2020_16h18
Ilustração de Carvall

Desmoralizando o verão, os termômetros marcavam 17° C no começo da noite da última quinta-feira (27/2), e a garoa cortante jogava para baixo a sensação térmica na Rua Augusta,  limite entre os bairros de Cerqueira César e Jardins, em São Paulo. Centenas de pessoas se amontoavam numa fila para se inscrever em um sorteio cujos vencedores teriam como prêmio o direito a comprar um par de tênis. A serpente humana virava a Alameda Tietê, 100 metros adiante. Mais cedo, ocupara um quarteirão inteiro desta rua e se estendia pela Padre João Manuel, espalhando-se por três vias diferentes. Quem suportou o clima e a espera sonhava com o modelo Nike SB Dunk Low, apadrinhado pelo rapper americano Travis Scott. Especializada em streetwear,  roupas e calçados para skate, a loja Maze cadastraria os interessados para o sorteio no sábado (29/2). Os ganhadores, em número não revelado, pagarão R$ 549,90 pelo calçado, e alguns o revenderão com facilidade logo em seguida por até dez vezes esse valor. 

O frisson saiu de controle. Às sete da noite, horário marcado para o fechamento da loja, dezenas de pessoas ainda não tinham conseguido entrar para se inscrever. As portas cerraram mesmo assim, e os descontentes chiaram. A Polícia Militar foi acionada, e às sete e meia os soldados tentavam contornar a situação – três carros e duas motos estacionaram no local. Um dos mais exaltados, um sujeito careca no centro da algazarra, berrava: “Vocês não conseguiram visualizar o tamanho da coisa. Isso é importante pra caralho, é um boot que estamos esperando há tempo. É Travis Scott!” Funcionários da loja, ladeados por um segurança, retrucavam que a regra havia sido explicada na convocação e que infelizmente não fora possível atender a todos. A gerente Vitória Agostini comentou: “Sabe por que ele está gritando assim? Porque foram mais de mil inscrições e ele não conseguiu. Isso não é só aqui, isso é mundial. Chega a dar morte.” Ela conta que quando a loja foi aberta, às 10h, a fila já virava a rua. “Isso se chama hype. Pode colocar aí que a gerente falou, agá, ípsilon, pê, e.” E o hype aumenta quanto mais exclusivos forem os lançamentos. Tiragens limitadas e associadas a astros da música e do esporte são o fermento do negócio – Agostini não quis revelar quantos modelos sua loja recebeu. 

Fila se estende diante da loja – Foto: Ilan Kow

 

Para a maioria dos mortais, tudo pode soar lunático. No universo sneaker, é demasiado humano. O termo em inglês para esse calçado esportivo batiza a cultura que reúne colecionadores fanáticos mundo afora, os sneakerheads. Há até uma espécie de bolsa de valores informal para negociar modelos de tênis, por meio do site StockX. A febre pode ser vista, por exemplo, no documentário Sneakerheadz, exibido na Netflix, como recomendou o treinador em desenvolvimento humano Clóvis Ferretti, de 46 anos, que resolveu acompanhar o filho adolescente à aventura daquela tarde/noite. Não conseguiram se inscrever.

Um dos sortudos foi Lucas Fico, 24 anos, que vive de vender tênis pela internet. Ainda assim, disse que, se fosse sorteado, ficaria com aquele para ele, já que é também colecionador.



No numeroso grupo dos descontentes estavam também três sneakerheads que saíram do bairro da Penha, na zona leste, uma hora de metrô até ali, e esperaram mais de cinco horas na fila: o entregador Márcio Paloni, o auxiliar administrativo Gabriel Henrique e o atendente de lanchonete Miguel Fred, todos de 18 anos. Jovens de classe média baixa, como a maior parte dos presentes.

Vindos da cidade de Itapevi (na Grande São Paulo, a 40 km da capital), os amigos Valdo Bernardo e Ricardo Gonçalves, ambos com 20 anos, gastaram uma hora e meia de trem e metrô até ali em vão. Chegaram às 16h15 e contaram que, além de tristes, estavam com raiva, pela perda de tempo e com o que chamam de resellers, os revendedores, que têm mais dinheiro e subcontratam gente para ficar na fila e fazer inscrições em massa, aumentando as chances de conseguir comprar. “Os resellers passaram de carro tirando onda de quem estava na fila. Sabemos porque já os conhecemos”, disse Gonçalves. Assim como o amigo, ele é gráfico, mas, diferentemente dele, está desempregado. Bernardo trazia nos pés um exemplo da sua devoção à causa, um par do modelo Kanye West 500, que comprou na internet por 1 mil reais em 2018. Foi mais da metade do seu salário numa gráfica, que varia entre 1,5 mil e 1,7 mil reais.

Qual o sentido de gastar tanto da sua renda em um par de tênis? Bernardo não hesita: “Para mim, vale muito a pena, é uma questão de sentimento. Quando eu não trabalhava, minha mãe não podia comprar um tênis desses para mim, eu botei na cabeça que quando pudesse, eu compraria. Então não é comprar por comprar, é um sentimento de orgulho.” 

Quem esperava na fila mostrava indiferença às notícias daquele dia: a repercussão do gesto do presidente Jair Bolsonaro de compartilhar por celular uma convocação para manifestações contra o Congresso e o Supremo, o avanço do coronavírus assombrando o Brasil e o mundo e o valor nominal do dólar batendo o recorde desde a criação do Plano Real. Nas rodinhas de conversa na fila, nenhum dos rapazes demonstrou interesse por política. “Isso que aconteceu aqui é reflexo do país, os mais privilegiados e mais espertos se dão bem, e a maioria se ferra”, afirmou um deles, apoiado pelos demais. Gonçalves disse que nem foi votar na última eleição, acabou pagando multa. Bernardo contou que votou em Ciro Gomes no primeiro turno e anulou o voto no segundo. Todos no grupo expressaram desalento com o país (“está uma bosta”) e com o governo (“faz muita cagada”). E por fim, instado a avaliar o presidente Jair Bolsonaro, um deles ralhou: “Queria que ele estivesse aqui agora para a gente ter em quem descontar a raiva que a gente passou hoje.”

Fabio Victor (siga @fabiopvictor no Twitter)

Foi repórter da piauí. Na Folha de S.Paulo, onde trabalhou por vinte anos, foi repórter especial e correspondente em Londres

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