questões da política

Mitificação de Eduardo, demonização da esquerda

Em evento bolsonarista, filho do presidente e ministros apresentam rivais como mal radical, em sintoma da deterioração democrática no país

Rafael Cariello
13out2019_12h43
Eduardo Bolsonaro, chamado de “mitinho” em evento conservador –
Eduardo Bolsonaro, chamado de “mitinho” em evento conservador – Foto: Bruno Santos/Folhapress

Integrantes do governo de Jair Bolsonaro utilizaram um evento conservador realizado neste final de semana em São Paulo para deslegitimar as forças e partidos de oposição ao atual presidente, tratando a esquerda não como simples adversário político ou rival eleitoral, mas como um mal a ser combatido.  “Nós não vamos mais suportar essa nação ser governada por sanguinários e violadores de direitos, que é a esquerda, não é a direita”, disse no sábado a ministra Damares Alves, titular da pasta da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, a uma entusiasmada plateia de cerca de mil pessoas que participava da CPAC, sigla em inglês para Conferência da Ação Política Conservadora, pela primeira vez realizada no Brasil. O tradicional encontro da direita americana foi trazido ao país pela fundação Instituto de Inovação e Governança, vinculada ao PSL. A instituição, mantida com verbas públicas do Fundo Partidário, arcou com os custos do evento.

“Não podemos subestimar o cão, não podemos subestimar o mal”, alertou Damares. “Diferentemente de nós, eles jogam sujo, jogam pesado. Diferentemente de nós, que temos como motivação a fraternidade, a paz, a prosperidade, famílias seguras, eles têm outras motivações. E uma delas é encher o bolso de dinheiro.”

Mais tarde, também no sábado, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, comparou os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva à Aids e à tuberculose, respectivamente – além de associar o comportamento da filósofa Marilena Chauí ao de ideólogos nazistas. “Não começou com o PT, começou com o Fernando Henrique”, afirmou Weintraub. “Você não morre de Aids, você morre de tuberculose. Você tem a doença oportunista, e você tem a Aids. Ninguém começa no crack, você começa na maconha. Quem abriu a porta para o Lula entrar foi o Fernando Henrique.”

Weintraub ampliou o arco dos “inimigos” do bolsonarismo, contudo, ao incluir nessa categoria não apenas políticos, mas grupos sociais e econômicos. Após argumentar que a democracia tem como base social a classe média, perguntou: “Quem é o nosso inimigo? Hoje enfrentamos a aliança de famílias oligarcas com tiranos demagogos. Eles estão unidos. Poucas famílias que controlam segmentos inteiros da economia estão unidas umbilicalmente com movimentos totalitários de esquerda”.

O ministro da Educação tratou então de relacionar esses grupos econômicos e “movimentos totalitários” ao nazismo, mencionando a aliança entre conglomerados empresariais e o Terceiro Reich. Apresentou ao público, numa projeção de vídeo, o já famoso discurso da filósofa Marilena Chauí de ódio à classe média – em que a professora da USP afirma que esse grupo social é uma “abominação” ética, cognitiva e política –, pedindo que as pessoas prestassem atenção à gesticulação de Chauí. “Compara com o Terceiro Reich, com os nazistas, e troca a palavra ‘classe média’ por ‘judeu’.”

Mais cedo, ao abrir a sequência de conferências da CPAC no sábado, o chanceler Ernesto Araújo havia defendido que “todos os totalitarismos estão no outro lado, estão na esquerda”, e que a ideologia também é um fenômeno exclusivamente associado aos seus adversários políticos. “A ideologia significa arrogância diante da realidade”, declarou. “Ser conservador é ser contra a ideologia.” O tom dos ministros se aproxima do discurso de Bolsonaro em outubro passado, quando falou em “limpeza” e ameaçou banir do país seus adversários, que chamou de “marginais vermelhos”.

 

A intolerância com os adversários eleitorais, tratados como inimigos e como ameaça à nação, é, segundo cientistas políticos, um sintoma de problemas no sistema político de um país. No livro “Como as democracias morrem”, os cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt argumentam que uma das normas não escritas que garantem o bom funcionamento da democracia é a “tolerância mútua” entre os grupos que disputam o poder. Na boa síntese do sociólogo Celso Rocha de Barros, “a propaganda contra o adversário pode ser agressiva (e é), mas deve se abster de colocar em dúvida a legitimidade do oponente”. Ou, nas palavras dos próprios Levitsky e Ziblatt, “quando as normas de tolerância mútua são fracas, fica difícil sustentar a democracia”. “Se enxergamos os nossos rivais como uma ameaça perigosa, temos muito a temer caso eles se elejam. Podemos então decidir empregar quaisquer meios necessários para nos defender deles – e nisso repousam justificativas para medidas autoritárias.”

Nem de longe a intolerância política no Brasil foi inventada pelos bolsonaristas – como prova o vídeo de Chauí –, embora eles pareçam se esforçar para levá-la a um novo patamar – como prova o comentário de Weintraub sobre a filósofa da USP. Celso Rocha de Barros, no texto que escreveu para a piauí sobre a erosão democrática no país (piauí_139), citava como exemplo de desrespeito à norma de tolerância mútua a propaganda do PT contra Marina Silva na campanha presidencial de 2014, “retratando a proposta de autonomia do Banco Central como uma conspiração de banqueiros para roubar comida da mesa dos pobres”.

Ao abrir a CPAC, na noite de sexta-feira, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, do PSL, inaugurou a tônica do evento – de intolerância com os adversários – retratando os integrantes do seu campo político como vítimas da intolerância esquerdista. “Alguém aqui já sofreu alguma retaliação por ser Bolsonaro, por ser de centro-direita?”, perguntou à plateia. “Alguém aqui já foi bloqueado no Facebook? Alguém conhece alguém cuja conta foi derrubada?” A plateia, bastante diversa, formada por homens e mulheres, brancos e negros, e muita gente da periferia, se manifestava levantando os braços e gritando.

Depois o filho do presidente alimentou o sentimento de indignação do público projetando vídeos em que estudantes, simpatizantes de Bolsonaro, eram cercados ou agredidos por jovens de esquerda em universidades brasileiras. “Eles fazem isso, e nós é que temos o discurso de ódio”, comentou. “Quando você começa uma discussão com pessoas desse tipo, que não têm qualquer conexão com a realidade, você não pode fazer um debate sério, você não tem como contra-argumentar”, avaliou, para em seguida fazer a recomendação de que a melhor reação que os bolsonaristas podiam oferecer aos seus rivais políticos era o deboche.

O deputado também criticou a imprensa, citando alguns jornalistas nominalmente, que eram vaiados pela plateia. Mencionou a reportagem da revista Época em que um jornalista fez, sem se identificar, sessões de coaching com sua mulher. “Só para a gente ter consciência e deixar aqui registrado publicamente que [certas] pessoas não têm um mínimo de escrúpulo. Eu não generalizo para toda a imprensa. Mas a imprensa, uma boa parte dela, passa de qualquer limite, e além de quebrar a realidade, ainda tenta nos dar rasteira.”

Era grande a presença de jornalistas aliados ao governo no evento. Numa entrevista coletiva com Eduardo Bolsonaro, na sexta-feira, um repórter foi impedido, por apoiadores do presidente e pela assessora de imprensa que coordenava a sessão, de fazer uma pergunta ao deputado sobre as disputas políticas dentro de seu partido, o PSL – sob o argumento de que as questões deviam se restringir aos temas da conferência conservadora. Também se ouviram vaias e protestos esparsos quando jornalistas da GloboNews e da Folha de S.Paulo apresentaram questões ao deputado.

Eduardo comandou o evento, do início ao fim, assistindo às palestras, apresentando os oradores e fazendo comentários nos intervalos. Foi tratado pela multidão pelo apelido que costumam dedicar ao seu pai – que não compareceu –, aos gritos de “mito, mito”. Ao apresentar Weintraub, o deputado federal disse que o titular da pasta da Educação “fala o que todos nós gostaríamos de falar: que o Lula está ‘enjaulado’.” Recebeu em retribuição a declaração de que ele, Eduardo, “é o nome do futuro”. “Esse aqui é o cara do futuro, é o mitinho”, declarou o ministro.

 

O discurso de grave ameaça representada pela esquerda, e em particular pelo PT, parecia ser compartilhado por muitos dos que compareceram ao hotel onde se realizava a conferência, na Zona Sul da capital paulista. A participação no evento era gratuita, com vaga garantida por ordem de inscrição. O estudante Matheus Galdino, de 18 anos, que cursa o terceiro ano do ensino médio, disse acreditar que uma eventual volta dos petistas ao poder significaria uma “radicalização ideológica no país”. “O perigo de sermos presos seria enorme. O PT não entende eleição como nós entendemos.” De toda forma, o estudante acredita que o partido de esquerda “vai demorar para voltar” à Presidência.

Matheus Galdino, de 18 anos, no evento do CPAC – Foto: Rafael Cariello

 

Galdino é negro e mora em Heliópolis, uma das grandes favelas de São Paulo. Foi criado apenas pela mãe, que trabalha como promotora de produtos em supermercados. Disse que “não é raro ver conservadores na periferia”, onde proliferam igrejas evangélicas. Ele próprio é religioso, por influência materna. Sua conversão ao bolsonarismo foi pavimentada, contudo – como para quase toda a gente presente ao encontro do CPAC –, pelos vídeos do escritor Olavo de Carvalho. Galdino queria ser empreendedor e procurava informações sobre Eike Batista no YouTube, quando foi encaminhado pela plataforma para um dos inúmeros discursos de Carvalho. Gostou do fato de o ideólogo “falar a verdade nua e crua”.

O advogado Diego Pureza, de 28 anos, também se tornou conservador por causa de Olavo de Carvalho. Ele pesquisava no YouTube temas de seu interesse – como o debate sobre maioridade penal – e foi encaminhado para um dos vídeos do escritor. Hoje é sócio da Burke Editorial, especializada em livros conservadores, que montou uma banca na CPAC Brasil. Embora considere a esquerda desonesta, não parece acreditar em reações radicais ou crises mais profundas numa eventual volta do PT ao poder. “Se voltar, faremos oposição normal”, disse.

A mesma convicção democrática foi expressa pela estudante de direito Marília Feliciano de Souza, de 20 anos, coordenadora do movimento Direita Minas na cidade de Pouso Alegre. Seus pais são cristãos, ela disse, e por isso sempre se sentiu conservadora. Olavo de Carvalho também foi importante em sua formação. E disse ser grata a Jair e a Eduardo Bolsonaro “por terem dado esse espaço para a gente”.

A estudante afirmou que os vídeos mostrados por Eduardo de jovens agredindo simpatizantes bolsonaristas em universidades geravam raiva em relação à esquerda, “mas é uma raiva momentânea”. O que faria se a esquerda voltasse ao poder? “Nós seríamos a oposição mais atuante do Brasil”, ela disse. “Não de quebrar coisas, mas uma oposição dentro das regras, de trabalho intelectual e cultural”, garantiu.

Rafael Cariello (siga @cariello_rafael no Twitter)

Editor da piauí. Foi editorialista da Folha de S.Paulo e correspondente do jornal em Nova York

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