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Mortes visíveis – o reencontro de Sérgio Ricardo, Dib Lutfi e Glauber Rocha

Contaminados pelo novo coronavírus, milhares de mulheres e homens perderam a vida – morreram de Brasil

Eduardo Escorel
29jul2020_09h02

Pensei em escrever sobre gafanhotos e outras pragas. Falaria da invasão de rãs, piolhos, moscas e da chuva de granizo, sem esquecer do ciclone bomba que atingiu a região Sul do país e causou pelo menos catorze mortes. Lembraria que “pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil são”, conforme Macunaíma murmura ao deixar São Paulo, rumo à querência dele e de seus irmãos. Mas acabei deixando tudo isso de lado para evocar três mortes sentidas e visíveis. 

A música de Sérgio Ricardo, que na verdade se chamava João Lutfi, foi decisiva para motivar o estado de êxtase coletivo da plateia no final da sessão inaugural de Deus e o Diabo na Terra do Sol, na madrugada de 17 de março, em 1964. A euforia dos convidados que lotaram o cinema Ópera, na Praia de Botafogo, para assistir ao filme de Glauber Rocha, resultou em grande parte do impacto da trilha musical composta e cantada por Sérgio Ricardo, além, naturalmente, das Bachianas brasileiras, de Heitor Villa-Lobos.

Em abril deste ano, após ter se recuperado da Covid-19, Sérgio Ricardo continuou internado, mas morreu na quinta-feira passada (23/7), aos 88 anos, vítima de insuficiência cardíaca. Além de músico, também era cineasta, e o primeiro filme que fez – o curta-metragem O Menino da Calça Branca (1961) – com câmera e fotografia de Dib Lutfi, seu irmão mais moço, foi exibido no curso de cinema dado por Arne Sucksdorff, iniciado em novembro de 1962, do qual Dib foi aluno aplicado, apesar de já trabalhar como câmera na TV Rio, enquanto muitos de seus colegas, entre os quais eu, eram aprendizes sem qualquer experiência profissional anterior. Dib revelou talento excepcional para trabalhar com a câmera na mão em Esse Mundo É Meu (1963), primeiro longa-metragem dirigido por Sérgio Ricardo, e fez carreira como diretor de fotografia nas décadas seguintes, trabalhando com Eduardo Coutinho, Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e Domingos de Oliveira, entre outros. Morava no Retiro dos Artistas e estava com Alzheimer quando morreu, aos 80 anos, em 2016.

Sergio Ricardo – Foto: Divulgação/Ana Rezende/Pipoca Moderna

 

Sérgio Ricardo e Dib padeceram de doenças insidiosas. Ao morrer, receberam justas manifestações de louvor por suas respectivas contribuições à música brasileira e ao nosso cinema. Sinto, porém, que ambos mereciam ter tido uma velhice sem aflições. Este país costuma maltratar, em vida, seus artistas e técnicos. E, às vezes, homenageá-los post mortem. De qualquer forma, no caso de Sérgio Ricardo e de Dib, os dois tiveram ao menos mortes visíveis, sorte que não coube à imensa maioria das mais de 87 mil vítimas, por enquanto, da Covid-19, no Brasil, contingente invisível que se foi sem ser velado e sobre o qual pouco se sabe.  



Dib Lutfi – Foto: Reprodução

 

Em Terra em transe (1967), os irmãos Lutfi colaboraram com Glauber Rocha, embora a trilha musical tenha sido bastante alterada quando a mixagem foi refeita sem a participação de Sérgio Ricardo. Dib, porém, deu contribuição determinante ao filme, quase sempre com a câmera na mão, fazendo ele mesmo, além do mais, o foco. Depois desse encontro, os três não voltaram a se encontrar profissionalmente, e Glauber teve morte precoce, em 1981, aos 42 anos, causada por um choque bacteriano resultante de broncopneumonia. A um repórter que, na saída do cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro, teria perguntado a dona Lúcia, mãe de Glauber, do que ele tinha morrido, ela teria respondido: “Morreu de Brasil, meu filho.” Mesmo se não for verdadeira, é uma excelente resposta, conforme reza o conhecido provérbio italiano, que ajuda a compreender também a razão de milhares de mulheres e homens, contaminados pelo novo coronavírus, terem perdido a vida, muitos de forma prematura – morreram de Brasil.

Ao discursar diante da sepultura de Glauber, Darcy Ribeiro o chamou de “nosso herói” e disse que ele

 

é a voz furiosa, é a voz iracunda, é a voz indignada, mas é também a voz da ternura, da quente ternura africana, negra, que fala na cara dele, nos olhos dele. Glauber é todos nós, e nós vamos ser por muito tempo. Graças a esse milagre, esse milagre que é o cinema, que é a imagem. Por muito tempo, por muitos séculos, o Glauber vai estar falando, falando, falando para gerações e gerações. Falando como falou conosco. E gerações irão reconhecer que ele é nós, ele é nossa voz, ele é nossa imagem. Glauber é nossa caraFica de Glauber, para nós, a herança de sua indignação.

 

Darcy não poderia ter acertado com mais precisão. Houve um milagre e Glauber continuou falando, ora mais, ora menos. Agora, superados intervalos naturais de silêncio e incompreensão a seu respeito, ele volta a falar. Graças a outro milagre, ele se reúne de novo com Sérgio Ricardo e Dib, além de vários colaboradores e amigos, no inédito Antena da Raça, de Paloma Rocha e Luís Abramo, ela filha mais velha de Helena Ignez e Glauber. Selecionado para a mostra de documentários do Cannes Classics, o filme estreará na França, entre 10 e 18 de outubro, em Lyon, berço do cinema, e será exibido depois no Rencontres Cinématographiques de Cannes, entre 23 e 26 de novembro.

Glauber Rocha e Dib Lutfi – Foto: Reprodução

 

Glauberiano até a medula, Antena da Raça retoma os hoje famosos programas Abertura, exibidos na antiga TV Tupi de fevereiro de 1979 a julho de 1980, em plena ditadura militar, tendo início nos últimos dias da Presidência do general Ernesto Geisel e indo até o governo do general João Baptista Figueiredo, completar cerca de um ano e meio. Na virada de 39 para 40 anos Glauber estava, mais do que nunca, irrequieto, indignado e irreverente. Ele era o apresentador e conduzia as entrevistas do quadro que se tornou uma das principais, se não a principal, atração do Abertura, exibido domingo à noite. Falando diretamente para a câmera, atropelando com frequência seus entrevistados, alguns deles pessoas anônimas que transformou em personagens, Glauber extravasa a sua ira e parece expor livremente a visão abrangente e um tanto caótica que tinha do mundo.

Trechos editados do Abertura formam o eixo narrativo central de Antena da Raça, em torno do qual a talentosa edição de Alexandre Gwaz dispõe fragmentos variados de filmes de Glauber, entre os quais Deus e o Diabo na Terra do Sol e Terra em Transe, com os quais Sérgio Ricardo colaborou em ambos e Dib apenas no segundo, além de entrevistas originais feitas especialmente para o documentário, de José Celso Martinez Corrêa, Caetano Veloso e Luiz Carlos Barreto, entre outros, às quais são agregadas ainda manifestações de rua, indo de protestos contra o assassinato de Marielle Franco a passeatas a favor e contra o candidato número 17 da eleição presidencial de 2018.

Nessa espécie de cozido à portuguesa, feito com variedade sem fim de ingredientes combinados por livre associação, entram ainda depoimentos de duas mães cujos filhos foram assassinados em operações da polícia, no Rio de Janeiro, em junho de 2018. Isso sem esquecer a presença ocasional diante da câmera da própria Paloma, codiretora do filme, conduzindo um bode pela Esplanada dos Ministérios, em Brasília.  Em uma dessas aparições, Paloma rasga com fúria contida uma fotografia da Praça dos Três Poderes, revelando estar postada justamente diante dos prédios da Câmara dos Deputados e do Senado Federal.

De tudo isso, que pode dar a falsa impressão de ser mera contrafação nostálgica, emerge na verdade o criador vital que continua a ser desconcertante, qualidade essencial para a preservação da vida e que anda em falta no mercado.

Glauber revive, de repente, em Antena da Raça e nos faz bem. Quem sintetiza a forte impressão causada pelo documentário é Luiz Carlos Barreto, depois de assistir a uma das inúmeras intervenções de Glauber no programa Abertura: “Parece uma coisa feita agora, porque permanecem todos esses problemas aí… Que falta faz o Glauber!”

A coletânea de ensaios Glauber Rocha, publicada em 1977, ano em que Paulo Emílio Salles Gomes morreu, traz como prefácio a Nota Aguda que Paulo Emílio escreveu em dezembro de 1975. Nessa curtíssima abertura, ele afirma que “através de filme, escrita, fala e vida, Glauber tornou-se uma personagem mágica de quem não é fácil ser contemporâneo e conterrâneo. Ele é uma de nossas forças e nós, Brasil, a sua fragilidade.”

Posso dizer, por experiência própria, que Paulo Emílio estava certo. No meu caso pessoal, a dificuldade de conviver com Glauber, que senti a partir de 1974, depois de ter colaborado em quatro filmes dele, entre 1966 e 1970, foi falha minha, ao menos em parte. Em retrospecto, lamento não ter sido capaz de restabelecer a tempo nossa relação e que ele tenha morrido tão moço, quando poderia perfeitamente estar entre nós hoje, desarrumando o arrumado, aos 81 anos. Não era necessário que ele assumisse mais uma vez a liderança, partindo antes e ficando à espera dos que vieram depois – Leon Hirszman, Joaquim Pedro de Andrade, Gustavo Dahl, Sérgio Ricardo, Dib Lutfi e tantos outros colegas e amigos. Se há consolo possível para essas perdas, talvez seja que, exceto Sérgio Ricardo, todos se foram sem testemunhar a mortandade causada pela pandemia do novo coronavírus, devida em grande parte à inépcia e irresponsabilidade do atual morador provisório do Palácio da Alvorada. O capitão foi denunciado na noite de domingo (26/7) por crimes contra a humanidade ao Tribunal Penal Internacional, sediado em Haia. Denúncia apresentada por uma coalizão que representa mais de 1 milhão de trabalhadores da saúde no Brasil, e contando com o apoio de entidades internacionais. A iniciativa levará meses para ser apreciada, mas pesa desde já sobre o presidente como se fosse uma sentença condenatória do Tribunal.1

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A Trilogia do Futebol, de Lucho Pérez Fernández, que se apresenta como “assistente de mágico e fabulador de verdades inventadas”, estará disponível a partir de 31/7 em

https://www.facebook.com/100000582715964/posts/3732786093417444/?sfnsn=wiwspwa&extid=Y6YwQulC4LxJi3XM . A Copa dos Refugiados, Os Boias-Frias do Futebol e Boca de Fogo, três documentários de curta-metragem, estarão acessíveis em programa único de 37 min, e permanecerão online até 20/9. O diretor é ex-aluno do curso Cinema Documentário da Fundação Getulio Vargas.

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Na próxima terça-feira, 4/8, às 11 horas, João Moreira Salles conversa com Piero Sbragia, Juca Badaró e comigo sobre projetos de filmes inesperados, aqueles que nascem de um jeito e tomam caminho imprevisto ao longo do percurso. Acesso através do link https://youtu.be/G8gCtDR3fV8

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Três indicações da semana passada continuam disponíveis:

(1) Não Toque em Meu Companheiro (74’, 2020), de Maria Augusta Ramos, estreou há duas semanas (15/7) nas plataformas de streaming NetNow, Oi Play, Vivo Play, FilmeFilme e Looke. O documentário subverte a expectativa de quem admira Justiça (2004) e Juízo (2007), filmes hoje clássicos de Guta Ramos, como ela é conhecida. O procedimento narrativo da diretora se alterou ao longo dos últimos treze anos, período em que realizou cinco longas-metragens, passando a admitir imagens de arquivo, gravações estritamente documentais fora de seu controle, uma palestra de Marilena Chaui e até uma entrevista de Luiz Gonzaga Belluzzo. A partir da demissão de 110 funcionários da Caixa Econômica Federal, ocorrida em 1991, Não Toque em Meu Companheiro arma um painel crítico amplo e diversificado das políticas neoliberais do governo Collor e do atual, indicando conexões existentes entre ambos. Na conversa que Piero Sbragia, Juca Badaró e eu tivemos com Guta Ramos, ela discordou dos meus comentários sobre o filme. Vale a pena ouvi-la. A gravação está disponível em https://youtu.be/uChZz2n882M

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(2) Me Cuidem-se! parte VI, de Bebeto Abrantes e Cavi Borges, pode ser visto em https://vimeo.com/436993740. É a última parte, depois da qual será iniciada a montagem do longa-metragem a ser feito a partir do material das seis partes gravadas durante a pandemia.

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(3)  Permanecem disponíveis na plataforma de streaming gratuita da Cinemateca Francesa títulos raros, agrupados por realizador ou tema:: Jean Epstein; Otar Iosseliani; Raoul Ruiz; Brisseau, l’après-midi; Jacques Rozier; Jean-Claude Biette; Serial; Albatros; Vanguardas e incunábulos; Era uma vez o western; Engajamentos, combates, debates; Aurora negra; 1950; Le plein de super; Henri Langlois e Sessões especiais.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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