questões epidemiológicas

Mortos que o vírus não explica

Belém tem quase 700 mortes a mais do que o esperado apenas em abril; oficialmente, Covid-19 só matou 117

Camille Lichotti
22maio2020_13h22
Cemitério em Belém – Foto: Tarso Sarraf/Folhapress
Cemitério em Belém – Foto: Tarso Sarraf/Folhapress

Desde o início da epidemia de Covid-19, o professor universitário aposentado Raimundo Gondim e a mulher decidiram trocar Belém por um sítio a 80 km da capital. Ambos com 70 anos, sabiam que eram pacientes de risco. Uma irmã de Gondim morreu com a doença no fim de abril. Mas recentemente Gondim havia voltado para a capital com o objetivo de realizar uma avaliação cardiológica, marcada para segunda-feira, dia 18. No domingo, dia 17, acordou por volta das sete da manhã e foi direto ao banheiro. Do quarto, o enteado de Gondim, o motorista de aplicativo Bruno Toscano, acordou com um barulho de queda no banheiro e com os gritos da mãe pedindo ajuda. Quando chegou lá, encontrou o padrasto, que ele chama de pai, desacordado. Toscano ligou para pedir ajuda a seus irmãos enquanto a mãe ligava para o SAMU. Segundo Toscano, o serviço de emergência informou que só poderiam enviar uma ambulância se houvesse algum leito disponível para internação – e não havia. Gondim chegou a ser reanimado pela família, mas tinha a pressão muito baixa e precisava urgentemente de oxigênio. Toscano ligou para a emergência mais duas vezes. “Eu cheguei a implorar por uma ambulância, eu só queria oxigênio para o meu pai”, lembra. Mais uma vez, o serviço foi recusado. Gondim morreu às 8h50 e seu corpo só foi retirado de casa às 17 horas. Sua história é o retrato de um serviço de saúde em colapso. 

A rede pública de saúde em Belém está atualmente com 95% dos leitos de UTI ocupados. No fim do mês passado, a taxa de ocupação chegou a 100%, e algumas unidades de saúde fecharam as portas. Consequentemente, a mortalidade geral explodiu na capital paraense e ficou 79% acima do esperado em abril. A média histórica para esse período – levando em conta os dados dos últimos cinco anos –  é de 849 mortes. De acordo com a prefeitura, em abril deste ano morreram 1.525 pessoas – 676 a mais. Durante esse período, 117 óbitos por Covid-19 foram registrados pela prefeitura até agora. A capital tinha, até ontem, 7.675 casos confirmados e 820 mortes. O excedente inexplicável de mortes na cidade em abril também pode indicar um sério problema de subnotificação da doença. 

Mas o custo humano da pandemia de coronavírus não se limita ao número oficial de mortes pela doença, incapaz de dimensionar a crise sanitária que capitais como Belém enfrentam. Por trás dos números da Covid-19 surge outro problema. Enquanto o sistema de saúde está lotado tentando atender os pacientes com coronavírus, pessoas com outras doenças ou vítimas de acidentes acabam morrendo sem atendimento médico – como foi o caso de Raimundo Gondim. 

Essa escalada de mortes acima da média é maior em lugares onde o sistema de saúde colapsou devido à pandemia. Na cidade de Nova York, um dos epicentros da Covid-19 nos Estados Unidos, o sistema de saúde ficou totalmente sobrecarregado no mês passado. A mortalidade geral na cidade teve um aumento de 388% em relação à média dos últimos três anos para o mês de abril. Onde o sistema de saúde conseguiu responder à crise, o cenário foi bem diferente. Do dia 16 de março até 19 de abril, as semanas mais tensas da Covid-19 na Alemanha, a mortalidade geral na região da Baviera aumentou 17% em relação à média histórica – essa foi a região mais afetada de toda a Alemanha pela crise do coronavírus. Em todo o país, a mortalidade geral cresceu 6,2%. A Alemanha foi um dos países que mais testaram para o Sars-Cov-2. Em março, no começo da pandemia, o país já tinha capacidade para realizar 160 mil testes por semana, e chegou a testar 38 mil pessoas por milhão de habitantes até o dia 10 de maio.



O Brasil é um dos países que menos testam – realizou cerca de 602 testes por milhão de habitantes até o dia 20 de abril. Essa é a última atualização do Ministério da Saúde para esse dado. De acordo com a secretaria de saúde de Belém, até hoje foram realizados cerca de 3 mil testes laboratoriais, cerca de 2,2 mil testes por milhão de habitantes. Considerando também o número de testes rápidos realizados em Belém, a taxa de testagem sobe para 5,3 mil por milhão de habitantes – um número maior que a média brasileira, mas ainda assim baixo. 

Ana Prado, professora da Universidade Federal do Pará, conta que, mesmo tendo plano de saúde, só conseguiu ser atendida na terceira tentativa num hospital particular. Ainda assim, não conseguiu realizar o teste para coronavírus. Prado foi diagnosticada com Covid-19 depois de um exame clínico e uma tomografia, que mostrou uma lesão no pulmão. “Agora eu preciso fazer esse teste nem que eu pague por fora”, conta. 

Sua irmã, Lena Prado, não tem plano de saúde e quando sentiu os primeiros sintomas relacionados à Covid-19 precisou buscar ajuda no Hospital Abelardo Santos – referência para esse tratamento em Belém. No dia 6 de maio, Lena não conseguiu realizar o teste, mas o médico que a atendeu receitou hidroxicloroquina e azitromicina – antes do novo protocolo apresentado pelo Ministério da Saúde que autoriza esse procedimento. Ela foi orientada a voltar para casa. Três dias depois, teve muita dificuldade para respirar e precisou voltar ao hospital, que estava lotado. Lena não conseguiu atendimento e foi mandada de volta para casa. “Não tinha muito o que fazer”, desabafa Ana. Com a ajuda da irmã, Lena conseguiu se consultar via internet com uma médica da família e por enquanto está se recuperando. 

Mas nada indica que as coisas estejam melhorando em Belém. “Eu moro perto do hospital de campanha aqui no centro e só ouço barulho de ambulância o tempo todo”, conta Ana. O ritmo das mortes por Covid-19 está acelerando. Do dia 1 a 19 de abril, a prefeitura de Belém registrou 94 óbitos pela doença. No mesmo período deste mês, foram 266. Questionada sobre a falta de ambulância para socorrer o professor Raimundo Gondim, a prefeitura não respondeu. A morte dele, sem socorro e sem atendimento no momento em que o sistema de saúde vive o colapso motivado pela epidemia, fez o enteado Bruno Toscano começar a contar quantos amigos, conhecidos e parentes já perdeu para a Covid-19. “No fim do mês passado eu recebia duas, três ligações por dia avisando do falecimento de alguém”, desabafa. Sua conta é macabra: “Conheço umas cinquenta pessoas que morreram com essa doença. É desesperador.”

Camille Lichotti (siga @camillelichotti no Twitter)

Estagiária de jornalismo na piauí

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