questões de família

Mourão não deixou filho desistir de promoção

Vice-presidente insistiu para Antônio Rossell Mourão aceitar cargo no BB, mesmo após a repercussão negativa: "Isso lhe pertence"

Fabio Victor
09jan2019_23h50
/FOLHAPRESS

O vice-presidente da República, Hamilton Mourão, disse que seu filho, Antônio Hamilton Rossell Mourão, pensou em desistir da promoção para assessor da presidência do Banco do Brasil por causa da repercussão negativa da notícia, mas que ele o convenceu a aceitar o cargo. “Obviamente que ele não está acostumado com isso, ficou chateado, pensou em não aceitar, em renunciar, por causa da repercussão. Eu disse pra ele: ‘Não, meu filho, isso aí é mérito seu e acabou, pô’”, contou o vice-presidente à piauí. Questionado se a possibilidade de o filho renunciar ao cargo está descartada, o general respondeu: “Lógico que sim. Falei pra ele que não, negativo. ‘Isso é uma coisa que é sua, lhe pertence, e acabou.’ Não tem nada demais isso aí.”

Antônio Rossell Mourão é funcionário de carreira do Banco do Brasil (BB) há dezoito anos e atuava havia onze anos na Diretoria de Agronegócios da estatal, com salário de 12 mil reais. Ao tomar posse, na última segunda-feira, 7 de janeiro, o novo presidente do BB, Rubem Novaes, promoveu Mourão filho a assessor especial da presidência, com salário três vezes maior, de 36 mil reais. Mourão pai relata ter sabido da notícia pelo próprio filho e por Novaes. Para o general, é um equívoco tratar a ascensão do filho como promoção. “Isso não é promoção, né? Tá havendo uma interpretação errada nisso aí. Na realidade ele foi escolhido para ser assessor especial, nomeado pelo presidente. É cargo de livre provimento. É diferente de você sair para diretor, para vice-presidente, aí é uma ascensão.”

E o ditado da mulher de César – aquela que não basta ser honesta, precisa também parecer honesta –, não deveria ter sido aplicado neste caso? Mourão discorda. “Eu não tenho nada a ver com isso. Em primeiro lugar, o Banco do Brasil é uma sociedade anônima. Segundo lugar, não fui eu quem nomeei. Nepotismo seria se eu tivesse nomeado. Vamos olhar bem o que significa o termo nepotismo. Eu não tenho influência nisso aí, pô.” E se fosse um dirigente de um governo petista que tivesse um filho promovido, qual teria sido a reação do general? “Mas já houve ene casos, eu nunca me manifestei a esse respeito.”

Segundo o vice-presidente, a repercussão se deve ao “sindicalismo do Banco do Brasil, que fica criando caso à toa”. “Isso está sendo tratado de uma forma que não é pra ser tratada. Se ele tivesse sido nomeado ministro ou meu chefe de gabinete, aí poderia ter toda essa celeuma. O problema que está em evidência não é o cargo em si, é o salário.” Mourão relatou que no ano passado o filho era o primeiro da fila para uma promoção, mas não foi contemplado. “Então quando o vento era contra, o cara se lasca. Quando o vento é a favor, ele tem que se lascar também?”, indagou Mourão. O general chegou a dizer em uma entrevista que Antônio foi “duramente perseguido anteriormente” por ser seu filho. Reportagem da Gazeta do Povo, entretanto, mostra que Antônio teve oito promoções durante os governos petistas e que em seu atual cargo, de assessor empresarial, teria de galgar mais três postos antes de chegar a assessor da Presidência.

À piauí, o vice-presidente fez questão de detalhar o que viu como obstáculos na trajetória do filho no banco. “A carga horária de bancário é de seis horas, e no Banco do Brasil o pessoal trabalhava oito horas. Durante muitos anos o banco ficou fazendo uma provisão, para a hora que os sindicatos questionassem. Aí fizeram um acordo coletivo e, no caso específico do Toninho, disseram que se ele quisesse concorrer a promoções teria de sair de oito horas para seis horas. Ao sair de oito horas para seis, ele perdeu 25% do salário”, afirmou o general.

Mourão disse que não tocou no assunto com o presidente Jair Bolsonaro. “Nada, imagina, pelo amor de Deus, né?” Chamou de “intrigas palacianas” notícias de que teria sido repreendido pelo chefe.

Na rede interna de mensagens do BB, funcionários têm criticado a medida do presidente do banco. “Nepotismo com um dia de casa. Transformando o banco em piada e o país em circo”, escreveu um servidor. “O BB tem 200 anos de história, somos uma instituição séria e respeitada e viramos motivo de chacota até na CBN. Brasil acima de tudo e meu filho acima de todos? A gente não merecia essa vergonha”, queixou-se outra funcionária. “Começou muito mal. Desmotivação total com essa nova presidência. Lamentável”, reclamou um terceiro.

Houve também quem, na rede interna, defendesse a promoção. “Pela ‘lógica’ torta de muitos comentários, o colega deve permanecer eternamente em seu cargo e não pode ter aumento salarial, independente de sua competência, pois é filho de autoridade. E aos que dizem que a nomeação não é ‘moral’, releiam o significado de cargo de confiança”, escreveu um funcionário.

Em nota, o presidente do BB disse que o filho do vice-presidente da República tem “excelente formação e capacidade técnica”. “Antônio é de minha absoluta confiança e foi escolhido para minha assessoria, e nela continuará, em função de sua competência. O que é de se estranhar é que não tenha, no passado, alcançado postos mais destacados no Banco”, escreveu Rubem Novaes.

 

Ogeneral Mourão foi mais um dos integrantes do governo egressos do Exército a rejeitar a possibilidade de instalação de uma base militar dos Estados Unidos no Brasil, cogitada por Bolsonaro e pelo chanceler Ernesto Araújo, mas depois desmentida pelo presidente. “Isso está fora de questão. Acho que foi uma má-interpretação, não sei onde saiu essa publicação”, afirmou Mourão. Diante da explicação de que primeiro Bolsonaro mencionou a hipótese, numa entrevista ao SBT, e depois Araújo foi ainda mais assertivo, o vice respondeu, em referência ao chanceler: “O que é que acontece: os caras falam algumas coisas de rompante, sem consultar a quem de direito. Então primeiro tem que consultar. Conversa com o comandante da força, com o ministro da Defesa, vê qual é a opinião dominante sobre o assunto, para depois se manifestar. É aquela história, o cara quer falar alguma coisa e acaba falando o que não deve.”

Em relação a mais uma denúncia contra o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni – que usou a consultoria de um amigo para receber 317 mil reais em verbas de gabinete da Câmara dos Deputados –, Mourão disse que o colega se explicou e prometeu processar quem o está acusando. “Então vamos aguardar. O Onyx pegou uma função muito difícil, complicada, a Casa Civil não é fácil. Ele está tentando cumprir a tarefa da melhor forma possível, acho que ele está conseguindo. Agora, ele está debaixo de mau tempo, todo mundo dando tiro nele. E com certeza tem fogo amigo”, afirmou o vice.

Sobre as constantes idas e vindas de Bolsonaro e seus ministros nos primeiros dias de governo, o vice declarou: “Uma equipe vem com gente dos mais diferentes lugares, com diferentes ideias. Uma equipe não se ajusta da noite para o dia, vai se ajustando de acordo com a pressão que vai sofrendo. Não adianta o cara querer construir algo achando que porque nomeou A, B, C, D isso imediatamente vira uma equipe. Não é assim. A equipe vai se consolidar e se tornar mais forte à medida que for coesa para enfrentar as batalhas que tem pela frente.”

*A repórter Malu Gaspar colaborou para esta reportagem.

Fabio Victor (siga @fabiopvictor no Twitter)

Fabio Victor é repórter da piauí. Na Folha de S.Paulo, onde trabalhou por vinte anos, foi repórter especial e correspondente em Londres

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