vultos da República

Mourão, o avalista  

Atacado pelos radicais bolsonaristas, o vice-presidente se coloca como garantia contra solavancos do governo

Malu Gaspar
08abr2019_15h51
Reprodução/Brazil Conference
Reprodução/Brazil Conference

“OGeisel não foi eleito, eu fui.” Assim que o general Hamilton Mourão disse isso, cresceu na plateia uma ovação que terminou com dezenas de pessoas de pé no auditório B do Harvard Science Center, em Boston, em entusiasmada reverência ao vice-presidente da República. Era o último ato da Brazil Conference, reunião de acadêmicos, formadores de opinião, políticos e autoridades de variados calibres para discutir os problemas brasileiros. A reunião ocorre todo ano em solo americano, promovida pelos estudantes da Universidade de Harvard e do Massachussetts Institute of Technology. Mourão respondia a uma pergunta sobre a diferença entre os generais de Bolsonaro e os da ditadura – e os aplausos, aparentemente, deram-se pela compreensão geral de que a declaração denotava apreço pela democracia. Em quase uma hora de sessão, as palmas se repetiram sempre que Mourão dizia algo contrário ao que costumam pregar as alas mais xiitas do bolsonarismo – e, por vezes, o próprio presidente.

“Se não tivermos um trabalho consistente na área social, não vamos resolver nunca o problema da criminalidade.” Aplausos. “A punição [aos criminosos] só é válida quando ela educa.” Mais aplausos. “Não fossem as privatizações feitas por Fernando Henrique Cardoso, não estaríamos aqui hoje.” Novos e muitos aplausos, de uma plateia em que estavam, entre muitos, o próprio FHC, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, e o multibilionário Jorge Paulo Lemann, um dos patrocinadores do evento (com quem, aliás, Mourão teve um encontro privado). Algumas declarações já não caíram tão bem – como ter expressado dúvidas sobre o caráter permanente do aquecimento global. Ao final, porém, o vice de Bolsonaro conquistou a audiência. O que pode parecer inusitado, dado seu histórico de declarações polêmicas durante a campanha. Mas já não é mais surpreendente.

Quem assistiu à fala de Mourão na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, a Fiesp, dez dias antes, percebeu muito pouca diferença entre um discurso e outro. Várias frases foram simplesmente transpostas, e o sentido geral de ambos foi o mesmo – a defesa do governo Bolsonaro, com ênfase nas pautas liberais. Alguns trechos são adaptados para a audiência, como no repúdio ao ódio nas redes sociais, mas pouco além disso. Até a citação final ao presidente americano Franklin Roosevelt (do partido Democrata, oposição a Donald Trump), permaneceu: “Que vivamos sob a liberdade de expressão, a liberdade de religião, a liberdade de não sermos forçados a fazer aquilo que não queremos e principalmente a liberdade de não termos medo.” Em São Paulo, também, houve muitos aplausos e de pé. E se agradeceu ao general pela “disposição para o diálogo”.

A relação com a imprensa é um capítulo à parte. Mourão virou o “político-gente-fina”. Nas viagens ou em Brasília, dá tantas entrevistas coletivas que, por vezes, os jornalistas têm de recorrer à criatividade para não repetir as mesmas perguntas da vez anterior (o que nem sempre é possível). E é tão amável que já ganhou do reportariado o apelido de “Mozão”.

Com todos esses contrastes, não surpreende que as alas radicais do bolsonarismo digam que Mourão está conspirando contra o presidente. Na última sexta-feira, Carlos Bolsonaro postou no instagram de sua cachorra, @pitukabolsonaro, a seguinte declaração do marqueteiro americano Steve Bannon, publicada pela Folha de S.Paulo: “Mourão deveria renunciar e ir para a oposição.” Sobre a notícia, em letras estilizadas, o filho do presidente escreveu: “Acreditem! Dessa vez a Foice (como ele se refere à Folha) tem razão!”

Mourão diz que não é nada disso. Em Boston, assim como já tinha feito em São Paulo, ele defendeu Bolsonaro. Afirmou que o chefe é muito criticado e mal compreendido. E disse que, “de coração”, está totalmente alinhado com o presidente. O post já não está mais no ar.

Num contexto em que Bolsonaro dispensa a oposição para tumultuar, ele mesmo, o próprio governo, a questão que se coloca não é se Mourão é ou não um conspirador. Está mais para saber se, a esta altura, os radicais bolsonaristas podem hostilizar, isolar ou mesmo prescindir do vice-presidente. Com seus últimos movimentos, Mourão vem assumindo um papel de avalista. Assim como o mercado financeiro se agarra a Paulo Guedes para as questões macroeconômicas, cada vez mais será ao vice que o establishment recorrerá quando precisar de alguma garantia anti-solavancos. Num cenário de queda de popularidade, o vice, mais do que inevitável, pelo cargo que ocupa, vai se tornando necessário. Mesmo não gostando, os radicais pelo jeito não têm alternativa a não ser engolir Mourão.


A repórter Malu Gaspar viajou a convite da organização da Brazil Conference.

Malu Gaspar (siga @malugaspar no Twitter)

Repórter da piauí, é autora do livro Tudo ou Nada: Eike Batista e a Verdadeira História do Grupo X, da Editora Record

Leia também

Últimas Mais Lidas

Foro de Teresina #56: Moro na berlinda, Santos Cruz e Levy no olho da rua

Podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

Moro em baixa, Bolsonaro em alta

Monitoramento revela que, após demissões e vazamentos da Lava Jato, sentimento positivo do Twitter sobre o presidente atinge ponto mais alto desde a posse

Dor e Glória – lembranças luminosas de Almodóvar

Inteligência e sensibilidade marcam filme que traduz vulnerabilidade física do diretor e de Banderas

Na era da Lava Jato, Supremo nunca afastou juiz

Tribunal recebeu 190 pedidos de suspeição de magistrados desde 2014 e rejeitou todos

Um general da ativa no centro da articulação política

Novo ministro terá de deixar Alto Comando do Exército; divergências no uso da verba de comunicação e atritos com ala olavista, inclusive Carlos Bolsonaro, explicam demissão de Santos Cruz

RBG – Ruth Bader Ginsburg, a juíza da Suprema Corte que faz diferença

Mesmo aquém de seu personagem, documentário é chance de conhecer mulher singular

Moro contra a parede

Para especialistas, conversas entre ex-juiz e Dallagnol indicam parcialidade e, no limite, podem levar Supremo a anular julgamento de Lula

Mais textos
1

A redenção dos cinco

Um filme sobre os rapazes presos por um estupro que não cometeram

2

Democracia corrompida

Políticos, empresários e partidos em vertigem no documentário de Petra Costa

3

Na era da Lava Jato, Supremo nunca afastou juiz

Tribunal recebeu 190 pedidos de suspeição de magistrados desde 2014 e rejeitou todos

4

Moro em baixa, Bolsonaro em alta

Monitoramento revela que, após demissões e vazamentos da Lava Jato, sentimento positivo do Twitter sobre o presidente atinge ponto mais alto desde a posse

6

Foro de Teresina #56: Moro na berlinda, Santos Cruz e Levy no olho da rua

Podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

7

Desastres em cascata

O sistema climático sob o qual foi criada a civilização está morto

8

O radical

Como Roberto Alvim faz teatro