Igualdades

Na pandemia como na guerra

Camille Lichotti e Renata Buono
01jun2020_12h08

O risco que um paulistano enfrenta de morrer por Covid-19 é equivalente ao risco de ter passado um mês na Guerra do Afeganistão em 2010. Para os cariocas, o risco é o mesmo que pular de asa delta 58 vezes. Durante a epidemia, a rotina de quem vive em Belém ficou mais arriscada que pular de paraquedas três vezes por dia. O risco de morte não é um conceito fácil de entender por si só, mas algumas comparações ajudam a mensurá-lo. A unidade utilizada para medir esse risco é a micromorte, conceito criado em 1968 pelo professor de Stanford Ronald Howard. Uma micromorte significa uma chance em um milhão de morrer. Ou seja, a partir do número de óbitos associado a determinadas atividades, regiões ou hábitos, é possível calcular as chances de morte relacionadas a eles.  Graças a esse conceito, é possível também calcular o risco de morrer por Covid-19 em cada estado brasileiro. Ações diárias podem afetar as chances de morte individuais, mas em geral, as comparações ajudam a colocar os riscos em perspectiva. O =igualdades desta semana compara o risco da Covid-19 com outras atividades perigosas.

A epidemia de Covid-19 aumentou em 1,8 vezes o risco de morte em Belém por todas as causas. Em abril de 2020, um morador da cidade enfrentaria um risco de 34 micromortes por dia, 15 micromortes diárias a mais que a média histórica do mesmo período. O risco de morrer ao pular de paraquedas é de 10 micromortes por salto. Ou seja, viver em Belém no mês passado foi mais arriscado que pular de paraquedas 3 vezes por dia. 

A cidade de São Paulo, que apresenta a maior concentração de mortes por coronavírus do país, registrou 7.396 mortes, entre confirmadas e suspeitas, até 26/05 – 90 dias após a confirmação do primeiro caso. Isso equivale a 623 micromortes nesse período. Um soldado americano na guerra do Afeganistão em 2010 – o ano mais sangrento do confronto –, estava exposto a um risco de 22 micromortes por dia.  Ou seja, o risco de morrer por coronavírus na capital paulista é equivalente ao risco enfrentado por um soldado americano que ficou 28 dias na guerra. 

Os riscos são diferentes dependendo do distrito em que os paulistanos moram. A prefeitura de São Paulo registrou, até o dia 20 de maio – 84 dias após a confirmação do primeiro caso –, 23 mortes por Covid-19 no Morumbi e 90 em Artur Alvim. Nesse período, um morador do Morumbi, Zona Oeste da cidade, estaria exposto a um risco de 435 micromortes por Covid-19. Um morador de Artur Alvim, na Zona Leste, 896. Ou seja, o risco de morte por Covid-19 em Artur Alvim é duas vezes o risco no Morumbi. 

Para um morador de Pari, região central de São Paulo, o risco de morrer por Covid-19 foi de 996 micromortes até o dia 20 de maio – 84 dias após a confirmação do primeiro caso. Durante a 2ª Guerra Mundial, os pilotos da Força Aérea Real britânica em uma missão de bombardeio enfrentaram um risco de 1 micromorte por segundo. Em uma missão de 16 minutos, o risco teria sido de 960 micromortes, similar ao risco de morte por Covid-19 em Pari. 

Em Vila Nova Cachoeirinha, na Zona Norte de São Paulo, a prefeitura registrou até o dia 20 de maio – 84 dias após a confirmação do primeiro caso – 126 mortes por coronavírus. Isso equivale a  861 micromortes nesse período. O risco de morrer trabalhando em minas de carvão é de 430 micromortes por ano. Ou seja, o risco de morrer por Covid-19 em Cachoeirinha é equivalente a trabalhar dois anos na mineração de carvão. 

Até o dia 25 de maio – 71 dias depois da confirmação do primeiro caso – o governo do estado do Ceará confirmou 1.718 óbitos por Covid-19 em Fortaleza, cerca de 644 micromortes. Durante a guerra do Iraque, em 2007, um soldado americano enfrentou um risco de 17 micromortes por dia. Ou seja, o risco de morrer por Covid-19 em Fortaleza equivale a um risco enfrentado por um soldado americano durante 38 dias de guerra.

O governo do estado do Rio de Janeiro confirmou 3.135 óbitos por Covid-19 até o dia 27 de maio na capital – 81 dias após a primeira confirmação. Isso é o equivalente a 467 micromortes nesse período. O risco de pular de asa delta é de 8 micromortes por salto. Ou seja, o risco enfrentado pelos cariocas de morrer pela doença equivale a pular 58 vezes de asa delta. 

A prefeitura de Recife registrou, até o dia 26 de maio – 75 dias após a confirmação do primeiro caso –, 968 óbitos por Covid-19 na cidade. Isso equivale a 588 micromortes nesse período. O risco de morte de um mergulho autônomo no fundo do mar é de 5 micromortes. Ou seja, a chance de morrer por Covid-19 em Recife é igual à de 117 mergulhos autônomos.

 

Fontes: Livro “The Norm Chronicles: Stories and Numbers about Danger”, do professor do laboratório de estatística de Cambridge, David Spiegelhalter e do escritor Michael Blastland; IBGE; Prefeituras de Belém; Prefeitura de São Paulo; Governo do Estado do Ceará; Governo do Estado do Rio de Janeiro; Prefeitura de Recife; Prefeitura de Belém e DataSUS.

* Nota metodológica: Todos os valores de micromortes usados nas comparações são tirados do livro “The Norm Chronicles: Stories and Numbers about Danger”. Os cálculos utilizados no livro (saltos de paraquedas, mergulho, asa delta etc) são baseados em dados coletados no Reino Unido. Os valores de micromortes para as cidades brasileiras foram calculados pela piauí considerando o total de mortes por Covid-19 desde o primeiro caso confirmado da doença.

Camille Lichotti (siga @camillelichotti no Twitter)

Estagiária de jornalismo na piauí

Renata Buono (siga @revistapiaui no Twitter)

Renata Buono é designer e diretora do estúdio BuonoDisegno

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