questões de mídia e política

Nas redes, deu Boulos; nas urnas, Covas

Candidato do Psol foi maior surpresa das mídias sociais na eleição este ano 

Pedro Bruzzi
29nov2020_20h27
Intervenção de Lianne Ceará sobre fotos de reprodução/Facebook

O debate em torno da influência das redes sociais na política dá sinais de não ter mudado. Se em 2018 a rede social foi a panaceia para alguns, com a eleição do até então deputado do baixo clero Jair Bolsonaro, em 2020  avaliações apressadas tentaram subestimar o poder do mundo online. Nem uma coisa nem outra. As redes sociais online funcionam como recurso eleitoral dos candidatos, assim como dinheiro de campanha, tempo de TV, coligações partidárias, dentre outros. É tão simples quanto isso.

Nos pleitos municipais pelo país houve diversos exemplos de que temos que tratar as redes como um atributo importante na hora de garimpar votos. Outros fenômenos parecidos com “Bolsonaro” foram eleitos. Candidatos com pouca tradição e estrutura, pouco tempo de TV, sem apoio partidário e sem dinheiro, mas com muitas interações nas redes. São algumas das celebridades do mundo digital, que de certa forma substituem as celebridades da TV, que se aventuravam no passado.

Um bom exemplo é o ex-policial militar Gabriel Monteiro (PSD). Eleito para a Câmara Municipal do Rio de Janeiro com 60 mil votos – terceiro mais votado da cidade, com cerca de 10 mil votos a menos que o todo poderoso Carlos Bolsonaro (Republicanos). Nada mal para quem declarou ter gasto pouco mais de R$ 41,9 mil. E ainda publicou um vídeo afirmando que abriu mão de recursos públicos em sua campanha.

Com 1,48 milhão de curtidas no Facebook, fez fama afrontando alguns coronéis do comando da PM, inclusive com uso de informações falsas, num objetivo claro de “lacrar” nas redes. Chegou até a ser expulso da força em 4 de agosto de 2020, por deserção, e foi reintegrado logo após.



Apesar de brigar com a polícia, a principal atração de Monteiro é mesmo falar mal de “esquerdistas”. Com uma pauta muito alinhada à de Jair Bolsonaro – defende com unhas e dentes o presidente -, o YouTuber (2,6 milhões de inscritos em seu canal) execra “comunistas” e se diverte menosprezando estudantes das universidades federais “alinhados ao marxismo”.

Na semana do 1º turno das eleições, obteve 1,3 milhão de interações no Facebook em sua página. E depois de ser eleito aumentou ainda mais, para 1,79 milhão de interações na semana seguinte. Só sua postagem de agradecimento por ter sido eleito obteve 392 mil interações.

Mas a maior surpresa das redes nas eleições de 2020 é Guilherme Boulos, mesmo antes do anúncio oficial da vitória de seu adversário, o tucano Bruno Covas. O candidato do Psol aproveitou uma campanha rápida, com pouca rua e se utilizou do recall de sua candidatura à Presidência em 2018 para atropelar outros candidatos pela esquerda e chegar ao segundo turno em São Paulo. A missão fica mais impressionante se considerar que ele contou com apenas 17 segundos de propaganda eleitoral no primeiro turno. Ainda, recebeu pouco mais de R$ 6,3 milhões para investir em sua campanha.

Chama atenção que tenha sido um dos únicos a ultrapassar os seis dígitos de arrecadação via financiamento coletivo (o chamado “crowdfunding”, liberado pelo TSE em 2018), conseguindo R$ 1,96 milhão. Para efeito de comparação, Bruno Covas recebeu parcos R$ 36,6 mil reais nessa modalidade. Márcio França arrecadou via crowdfunding R$ 3,8 mil. Jilmar Tatto, do PT, não declarou ter recebido recursos nessa modalidade, assim como Celso Russomano.

O altíssimo – para padrões brasileiros – financiamento coletivo obtido por Guilherme Boulos sugere o que ele tem de mais forte dentre seus “recursos eleitorais”: a rede. Em número de interações no Facebook e Instagram nenhum candidato conseguiu chegar perto de Boulos em São Paulo. 

O psolista soma desde a semana de 11 de outubro (1 mês antes do primeiro turno) mais de 1 milhão de interações semanais em seu perfil no Facebook, que tem mais de 913 mil curtidas. Na sua conta de Instagram (1,5 milhão de seguidores), viu suas interações subirem de 1,8 milhão na média das semanas antes da eleição para 2,47 milhões na semana do primeiro turno, saltando para 4,8 milhões de interações na semana de 15 a 21 de novembro e 4,6 milhões na semana de 22 a 28 de novembro. Outro destaque é o fato de Boulos ter disputado – e conquistado – terreno no YouTube, rede que, na política, tem sido mais usada por nomes ligados à direita. 

Enquanto isso, seu principal adversário, Bruno Covas, contou com um latifúndio de tempo de TV, dinheiro de sobra para sua campanha e controle da máquina, ainda numa eleição onde os incumbentes foram nitidamente preferidos pela população. Mesmo assim, seu caminho não foi nada fácil. Seu tempo de tevê no primeiro turno (3 minutos e 29 segundos), trazido pela grande coligação composta por 11 partidos (além do PSDB, DEM, Podemos, MDB, PSC, Progressistas, PL, PROS, Cidadania, PTC, PV), surtiu efeito no eleitorado. Mas o que impressionou mesmo foi o candidato ter recebido R$ 19,2 milhões de reais para investir em sua campanha, três vezes o disponível a seu adversário do segundo turno. Custou caro enfrentar a “rede” de Boulos.

No Facebook, o desempenho de Covas foi pífio se comparado ao de Boulos. Na última semana, quase que “dobrou” o número de interações. Mesmo desembolsando R$ 145 mil em impulsionamento na plataforma no período, seu melhor desempenho está sendo esta semana, com pouco mais de 95 mil interações (Boulos tem 50 vezes mais). Cabe ressaltar que o incumbente passou meses sem postar nada em sua conta, só voltando a ter publicações quando iniciou o período de campanha. 

Interações nos perfis do Facebook de Guilherme Boulos e Bruno Covas ao longo da campanha

O atual prefeito, no entanto, manteve-se ativo no Instagram durante seu período de silêncio nas outras redes. Em sua conta, publicou fotos de toda sorte, inclusive da cama que colocou em seu gabinete, onde “morou” durante os meses iniciais da Covid-19. Ainda assim, seu desempenho foi igualmente fraco na comparação com Boulos, que teve um salto impressionante no mês de novembro.

Interações nos perfis do Instagram de Guilherme Boulos e Bruno Covas ao longo da campanha:

 

Mas se o agrupamento de esquerda se manteve coeso e apoiou Boulos maciçamente em São Paulo, principalmente no 2º turno, o mesmo não pode ser dito dos bolsonaristas, igualmente gigantes e muito coordenados nas redes sociais online, decisivos em 2018. Já contamos aqui que os apoiadores do presidente mantiveram-se distantes da eleição do primeiro turno. Preferiram outras pautas como a eleição americana ou a briga contra a vacina “chinesa” de João Dória. 

No fim, há de se admitir: as redes são um importante recurso eleitoral, ainda que não sejam os únicos. Não deveriam ser negligenciadas, tampouco supervalorizadas, mas compreendidas e trabalhadas. Não são apenas números, posts, likes e compartilhamentos. É preciso entender que tudo faz parte de um planejamento, assim como coligações, alianças, bandeiras e todo o resto. É política. Um ponto digno de nota: se em 2018 a campanha foi dominada pela desinformação e pelas fake news, este ano se viu uma incipiente reação. Os candidatos aprenderam a reagir nas próprias redes, a população está mais preocupada em checar e as próprias redes, como WhatsApp e Twitter, apresentaram algumas iniciativas para conter os boatos. Já é um começo.

Pedro Bruzzi

Sócio da Arquimedes, consultoria de análise de mídias sociais. É mestre e graduado em administração pela Fundação Getulio Vargas.

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