anais da pandemia

No consultório do doutor Google, um país sufocado pela Covid

Brasil é um dos cinco países do mundo que mais buscam por “falta de ar”; nunca os brasileiros pesquisaram tanto sobre ansiedade

Hellen Guimarães
11maio2021_10h00

O 6 de abril de 2021 ficou marcado como o dia em que um povo viu sua expectativa de um ano melhor cair por terra. Foi a primeira vez que o número de mortos pela Covid em 24 horas passou dos quatro mil, o que se repetiria dois dias depois. Em cada um deles, o vírus matou três brasileiros por minuto. E transformou o Google em divã, consultório e confessionário de tantas dores: o Brasil tornou-se o quarto país do mundo onde mais se pesquisou por “falta de ar”. Os dados são do Google Trends e consideram um período de um mês, de 3 de abril a 3 de maio.

As buscas dos brasileiros por “falta de ar” cresceram 30% no bimestre março-abril em comparação aos dois meses anteriores. Outros sintomas que despertaram variação expressiva de interesse foram febre (+ 20%), dor no peito, dor de cabeça e tosse, que aumentaram 10% cada. No mesmo período, o Brasil foi o segundo país do mundo que mais procurou por saturação de oxigênio, ansiedade e dor de cabeça; o terceiro que mais buscou por oxigênio, dor nas costas e dores em geral; o quarto mais interessado em dor de garganta e o sexto mais preocupado com a febre. Dez por cento de todo o interesse mundial por “tratamento” e “covid” veio daqui, o quarto maior do ranking, em empate com a Índia, e superado por Romênia (19%), Venezuela (16%) e Peru (13%). De 15 de fevereiro a 15 de abril, fomos os campeões em buscas por “sintoma” e “covid”, respondendo por 16% das pesquisas globais.

O colapso na saúde dos brasileiros também incluiu a mente. Nunca o termo “ansiedade” foi tão pesquisado por aqui quanto em março, quando começou o pior momento da pandemia no país. Outros temas direta e indiretamente relacionados à Covid também atingiram, em 2021, o pico de interesse no Brasil desde que a série histórica começou, há dezessete anos. São eles: saturação de oxigênio; oxigênio; dores em geral; ataque de pânico; enxaqueca; rosário (cunho religioso, incluindo também buscas por “terço”); jejum; exame de sangue; unidade de terapia intensiva; vacina; ganhar dinheiro; lockdown; máscara PFF2 e Central Única das Favelas (Cufa). O termo “tratamento” atingiu o ponto mais alto de interesse da década.

Isso atesta que a população levou para a plataforma de buscas o ônus psicológico da pandemia. Das dez pesquisas mais comuns sobre ansiedade desde meados de fevereiro, duas pretendiam descobrir o que é a síndrome e o que é a crise; quatro procuravam uma maneira de amenizar uma crise; uma investigava as causas da ansiedade, enquanto outra se preocupava com suas consequências. Em outras duas, os usuários indagavam quais os sintomas da ansiedade e se a falta de ar é um deles, possivelmente tentando descobrir se estavam sofrendo por causa do transtorno ou do coronavírus.

Entre as buscas que incluíam os termos “como” e “covid”, a principal era “como saber se estou com covid”, seguida por “como fazer teste de covid”. A terceira pesquisa mais frequente dá a dimensão do estrago que a desinformação pode causar em um país, já que pretendia descobrir como tomar a ivermectina, um vermífugo, para combater o coronavírus — a OMS já se manifestou contrária ao uso do medicamento para tratar a doença. A quarta, depois de um ano de pandemia, ainda manifestava dúvidas sobre “como se pega Covid”, e a décima, correlata, questionava como a doença é transmitida.

Os brasileiros também quiseram mais detalhes sobre como são a dor de cabeça, a falta de ar e a dor de garganta da Covid, além de como diferenciar a doença da gripe, provavelmente preocupados se estavam infectados. Completam a lista, nesta ordem, o interesse em saber a situação da pandemia no mundo, como tratar a Covid em casa, como descobrir se já teve a doença e como o ator Paulo Gustavo, morto aos 42 anos na última semana após dois meses de batalha contra a Covid, se infectou.

Em relação aos sintomas, as dúvidas mais frequentes foram quais são eles, em quantos dias aparecem, quais se manifestam primeiro, quanto tempo levam para aparecer e sumir e o que fazer quando se apresentam. Nas pesquisas mais comuns com os termos “covid” e “o que fazer”, os brasileiros quiseram orientação sobre como proceder quando se está com a doença, quando se recebe o diagnóstico, quando se está com falta de ar em decorrência da Covid, quando se tem suspeita, quando já se curou da doença, quando se sente sintomas leves ou em geral e, finalmente, quando se teve contato com alguém cujo teste deu resultado positivo.

Se a vacinação caminha a passos lentos no Brasil por escassez de doses, a expectativa do povo para receber a imunização é alta. Somos o nono país do mundo que mais pesquisa por “vacina”. Nos últimos sete dias, a busca relacionada que mais cresceu foi “o que é comorbidade” e, quanto à ordem de imunização, a pergunta mais procurada foi “quando serão vacinados os professores”. Em abril, de longe, o que os brasileiros mais pesquisaram em relação ao tema foi “quem pode tomar a vacina”. O termo atingiu os 100 pontos, patamar mais alto da escala de interesse formulada pelo Google.

Em seguida, com 30 pontos, a pergunta mais buscada foi “o que é vacinação”, e a terceira, com 20, foi “pode beber depois da vacina?”. Na sequência, vêm as buscas “o que são vacinas” (17 pontos) e “quantas pessoas foram vacinadas no Brasil” (16 pontos). Dúvidas sobre a ordem prioritária também surgiram, como “o que é comorbidade” (14 pontos) e “imunossuprimidos o que é” (11 pontos). “Para que serve a vacina” (13 pontos) foi o sétimo termo mais procurado.

Na sequência, as buscas mais comuns foram “quem teve covid pode tomar vacina” (10 pontos), “o que são anticorpos”, “qual a importância da vacina” e “o que foi a revolta da vacina”, com 9 pontos cada, e “quando vou me vacinar” (8 pontos). Outras duas perguntas sobre a Revolta da Vacina entraram na lista das buscas mais comuns: onde e quando ocorreu o movimento, com 1 ponto cada. “O que é puérpera”, “o que é mialgia” e “o que é CNS” registraram 6 pontos cada. Com 5 pontos, vêm na sequência as perguntas “qual a melhor vacina coronavac ou astrazeneca” e “como fazer o cadastro da vacina” (4 pontos).

Com 2 pontos, estão os termos “o que é pessoa institucionalizada”, “o que é vacina influenza”, “qual o nome da vacina da fiocruz”, “porque a vacina astrazeneca demora a segunda dose”, “o que é vacina coronavírus”, “qual é a melhor vacina para covid” e “o que é drive thru”. Completam a lista as buscas “o que levar para tomar vacina”, “como são produzidas as vacinas”, “de onde vem a vacina astrazeneca”, “qual a diferença entre soro e vacina”, “como funciona a vacina astrazeneca”, “quanto custa a vacina covid”, “quem foi Oswaldo Cruz” e “como são feitas as vacinas”. Muitas incertezas e pouca perspectiva de quando o Brasil vai respirar sem esse peso no peito.

Hellen Guimarães (siga @HellenGuimaraes no Twitter)

Repórter da piauí. Trabalhou em O Globo, Extra, Época e Agência Lupa

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