O amor e os desejos de Cristina Peri Rossi
Danilo Marques recomenda um dos destaques literários do ano

INDICAÇÃO DE DANILO MARQUES
Aliteratura tem ondas. Nos últimos anos, livrarias foram ocupadas por uma avalanche de autobiografias romanceadas (chamadas, convencionalmente, de autoficções). O problema do gênero foi bem captado pelo escritor José Falero, no ensaio Murro em ponta de faca, publicado na edição de novembro da piauí: todo ser humano, potencialmente, tem boas histórias para contar – não é por isso que todas essas histórias têm força literária.
A insubmissa, da poeta uruguaia Cristina Peri Rossi, é um caso notório em que a boa história autobiográfica se combina a uma extrema habilidade literária. O livro foi publicado em 2020 em espanhol, e agora chega ao Brasil traduzido por Anita Rivera Guerra, que publicou na piauí uma apresentação da autora aos leitores brasileiros – na ocasião da consagração do Prêmio Cervantes de 2021.
O primeiro capítulo foca numa questão que inquietava Peri Rossi quando ela era apenas uma criança. Ela queria se casar com a própria mãe, antes de saber que a lei proíbe o casamento entre pais e filhos e antes de entender o que era um casamento. Tratava-se de paixão e muito desejo – palavra que vai acompanhar não só a infância da autora, bem como toda a sua juventude. As questões políticas (sobretudo na questão de gênero) pipocam do início ao fim da autobiografia. A rebeldia é um sentimento elementar, desencadeada por uma feroz vontade de saber – daí o título do livro.
Mesmo crescendo, persiste em Peri Rossi um olhar inocente. Depois de se apaixonar pela melhor amiga Elsa, a escritora enviava a ela um sem-número de cartas. Desde muito pequena, ela tinha em mente que os únicos seres merecedores do amor são as mulheres. Na escola, uma colega – que também passava por uma turbulenta descoberta da sexualidade – disse a ela: “Quando um homossexual morre, ele vai para o inferno.” No que prontamente Cristina, afiadíssima, perguntou: “E se ele não soubesse que era homossexual?” Vai para o inferno do mesmo jeito, respondeu Alina, horrorizada com seu próprio destino. Daí vem uma das frases mais bonitas do livro, dita por Cristina: “Se deixar de ser anormal consistia em deixar de amar Elsa, eu não me sentia capaz de fazê-lo.”
Além das mulheres, a escrita é também um objeto do amor de Cristina. No capítulo de título A Remington (em referência à fabricante de máquinas de escrever), ela compara, primeiro, a devoção à escrita ao piano e aos concertos de Chopin – uma doce reflexão sobre ritmo. Mais tarde, descobriria que a atividade de teclar é muito similar à de tocar um corpo (“acariciando sua pele, seus tendões, percorrendo suas entradas e suas saídas, assombrada diante do prazer, extasiada de que existisse e estivesse entre minhas mãos”).
Os dezoito capítulos de A insubmissa são geralmente curtos. Nenhum deles se arrisca a conclusões. É um livro indiscutivelmente fluido, e a escrita de Peri Rossi é leve – uma característica intrigante, já que são as palavras de alguém que foi exilada e teve sua obra proibida durante a ditadura uruguaia, que durou de 1973 a 1985.
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