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O amor e os desejos de Cristina Peri Rossi

Danilo Marques recomenda um dos destaques literários do ano

| 07 jan 2026_17h18
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INDICAÇÃO DE DANILO MARQUES

 

Aliteratura tem ondas. Nos últimos anos, livrarias foram ocupadas por uma avalanche de autobiografias romanceadas (chamadas, convencionalmente, de autoficções). O problema do gênero foi bem captado pelo escritor José Falero, no ensaio Murro em ponta de faca, publicado na edição de novembro da piauí: todo ser humano, potencialmente, tem boas histórias para contar – não é por isso que todas essas histórias têm força literária.

A insubmissa, da poeta uruguaia Cristina Peri Rossi, é um caso notório em que a boa história autobiográfica se combina a uma extrema habilidade literária. O livro foi publicado em 2020 em espanhol, e agora chega ao Brasil traduzido por Anita Rivera Guerra, que publicou na piauí uma apresentação da autora aos leitores brasileiros – na ocasião da consagração do Prêmio Cervantes de 2021.

O primeiro capítulo foca numa questão que inquietava Peri Rossi quando ela era apenas uma criança. Ela queria se casar com a própria mãe, antes de saber que a lei proíbe o casamento entre pais e filhos e antes de entender o que era um casamento. Tratava-se de paixão e muito desejo – palavra que vai acompanhar não só a infância da autora, bem como toda a sua juventude.  As questões políticas (sobretudo na questão de gênero) pipocam do início ao fim da autobiografia. A rebeldia é um sentimento elementar, desencadeada por uma feroz vontade de saber – daí o título do livro.

Mesmo crescendo, persiste em Peri Rossi um olhar inocente. Depois de se apaixonar pela melhor amiga Elsa, a escritora enviava a ela um sem-número de cartas. Desde muito pequena, ela tinha em mente que os únicos seres merecedores do amor são as mulheres. Na escola, uma colega – que também passava por uma turbulenta descoberta da sexualidade – disse a ela: “Quando um homossexual morre, ele vai para o inferno.” No que prontamente Cristina, afiadíssima, perguntou: “E se ele não soubesse que era homossexual?” Vai para o inferno do mesmo jeito, respondeu Alina, horrorizada com seu próprio destino. Daí vem uma das frases mais bonitas do livro, dita por Cristina: “Se deixar de ser anormal consistia em deixar de amar Elsa, eu não me sentia capaz de fazê-lo.”

Além das mulheres, a escrita é também um objeto do amor de Cristina. No capítulo de título A Remington (em referência à fabricante de máquinas de escrever), ela compara, primeiro, a devoção à escrita ao piano e aos concertos de Chopin – uma doce reflexão sobre ritmo. Mais tarde, descobriria que a atividade de teclar é muito similar à de tocar um corpo (“acariciando sua pele, seus tendões, percorrendo suas entradas e suas saídas, assombrada diante do prazer, extasiada de que existisse e estivesse entre minhas mãos”).

Os dezoito capítulos de A insubmissa são geralmente curtos. Nenhum deles se arrisca a conclusões. É um livro indiscutivelmente fluido, e a escrita de Peri Rossi é leve – uma característica intrigante, já que são as palavras de alguém que foi exilada e teve sua obra proibida durante a ditadura uruguaia, que durou de 1973 a 1985.

Outros quatorze jornalistas da piauí indicam obras lançadas no ano que termina. Veja a lista completa aqui.

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