figuras da política

O carteiro de Lula

Desconhecido até prisão de ex-presidente, auxiliar assume tarefa de entregar quase tudo que petista vê e lê

Felippe Aníbal e Thais Bilenky
10jul2019_21h44
ILUSTRAÇÃO DE PAULA CARDOSO

Como em todo feriado, o ex-presidente Lula ficaria isolado ao longo dos quatro dias de Corpus Christi, no final de junho. Nem as visitas de quinta-feira a que, em geral, tem direito, nem as reuniões com seus advogados ocorreriam. Na véspera do recesso, o pendrive com filmes, séries e podcasts que o entretêm na cadeia foi gravado. Seu auxiliar Marco Aurélio Santana Ribeiro é o responsável pela tarefa – Lula e seu entorno o chamam de Marcola. Na quarta-feira, 19 de junho, Marcola incluiu no pendrive o documentário Democracia em Vertigem, que estreara naquele dia na Netflix. Sozinho em sua cela em Curitiba, Lula reviu cenas como aquela em que arruma a mala que levaria consigo para a Superintendência da Polícia Federal, 438 dias antes. Na semana seguinte, o ex-presidente voltou a ter contato externo. Fez chegar a Marcola uma carta dirigida a Petra Costa, a diretora do filme. Uma página inteira, de próprio punho. “Lula gostou, gostou muito. Achou que ela foi muito honesta com a história”, resumiu um de seus advogados, Luiz Carlos da Rocha.

Marcola despacharia ainda as demais correspondências escritas por Lula na temporada de isolamento, entregaria a ele recados de fora, apresentaria o apanhado de notícias que seleciona diariamente para o ex-presidente. Desde a prisão, Marcola é a interface do petista com o mundo. Comunicam-se quantas vezes forem necessárias no dia, sempre por escrito. É o carteiro, o despachante, o braço direito, o secretário, o intermediário, o agente, o guardião do acervo – ninguém sabe ao certo definir a sua função. Até o ano passado, Marcola era uma figura desconhecida mesmo entre a burocracia petista. Subordinado a Clara Ant, aliada histórica de Lula e responsável pela agenda do ex-presidente, Marcola ocupou o seu cargo no Instituto Lula quando ela se afastou do dia a dia da instituição. Assim que o petista teve a prisão decretada, em abril de 2018, o assessor se antecipou a deliberações internas e se mudou para Curitiba por iniciativa própria. Agora quem chega a Lula passa, necessariamente, por Marcola.

Naquela semana depois do Corpus Christi, o petista esteve perto de deixar a cadeia. Um julgamento da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal rejeitou uma proposta para liberá-lo provisoriamente. No dia seguinte, de manhã, garoava em Curitiba. Marcola andava de um lado para o outro no estacionamento da Polícia Federal. Sem sair do telefone, gesticulava com expressão séria. Quando os advogados Rocha e Manoel Caetano deixaram o prédio, o auxiliar se juntou a eles. No Empório Zambrano, um café que funciona em um contêiner, na esquina da PF, o trio faria uma breve reunião. Nova remessa de cartas e bilhetes de Lula foi entregue a Marcola para que fizesse chegar aos devidos destinatários. Um dia que poderia ter mudado a história acabou na rotina de sempre.

“Marcola fica muito indignado”, disse a presidente do PT, deputada Gleisi Hoffmann. Com tanta proximidade, o assessor se sensibiliza com a situação de Lula, continuou Gleisi – a relação entre os dois se tornou afetiva. “Ele é um mediador para carinhos do Lula”, notou a petista. Para a presidente da CUT no Paraná, Regina Cruz, Marcola é “o número um do instituto”. Para Dr. Rosinha, um dos fundadores do PT, ele é “o homem de confiança do Lula”.

O protagonismo gera ruídos na equipe do ex-presidente. Em São Paulo, funcionários do instituto lamentam até agora não terem tido contato direto com o chefe, embora estejam na fila desde a prisão. A agenda de visitas é, em última instância, definida por Lula, mas a burocracia que o cerca tem influência. Nem sua secretária pessoal, Cláudia Troiano, pôde visitá-lo na cela. O “pessoal de São Paulo” se ressente, reservadamente, da “panelinha de Curitiba” que se formou entre as figuras mais próximas ao dia a dia de Lula e não se esforça, segundo os colegas, para incluí-los. Marcola, o fotógrafo Ricardo Stuckert e a ativista Neudicléia de Oliveira, do Movimento dos Atingidos por Barragens, uma das coordenadoras da vigília montada em frente à PF, já estiveram pessoalmente com o petista.

Sorrindo com timidez, vestindo uma camisa azul-clara com as mangas dobradas e um bloco de anotações na mão, Marcola deixou a PF no dia 20 de dezembro passado e foi direto à vigília. Lá deixou-se filmar por alguns minutos para uma transmissão ao vivo na página oficial do ex-presidente em rede social.Vocês são a energia dele. Ele pediu para, nesse período natalino, vocês se reenergizarem, porque o ano que vem vai ser um período de muita luta e ele vai precisar muito de vocês, tá?”, comunicou Marcola, girando o tronco da direita para a esquerda para incluir todos os militantes em seu campo de visão. “Ele pediu para dizer que quer, no início do ano, receber representantes da vigília. Foi por isso que eu fui chamado, para a gente trabalhar uma agenda dele no ano que vem”, justificou e emendou com uma mensagem de ânimo. “Ele disse que, se tem uma pessoa que está disposta a fazer oposição neste país, essa pessoa é o Lula”, finalizou, engrossando os aplausos dos militantes.

Marcola se filiou ao Partido dos Trabalhadores em junho de 2009, aos 23 anos, quando ainda morava em Caraguatatuba (SP), sua cidade natal. Mesmo antes de ingressar nas fileiras petistas, já era um entusiasta do ex-presidente. Estudante secundarista, acompanhava Lula à distância em eventos partidários. No mestrado, em ciências sociais, uniu a militância aos estudos. Na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), defendeu uma dissertação sobre a história e a construção do PT. 

Nesse tempo em São Carlos, viajava muito a congressos e a eventos do partido – principalmente a Santo André, onde morava sua então namorada, uma dirigente petista. Entusiasmou-se com uma palestra, em 2012, do marqueteiro João Santana, responsável pelas campanhas de Lula e Dilma Rousseff, que foi preso na Lava Jato. Publicou no Facebook uma foto em que aparece ao lado do palestrante, com a legenda: “Ah, se conhecimento viesse por osmose, eu estava bem!” Em outra manifestação na rede social, com foto, Marcola se lembrou de uma visita que fez a José Genoino, ex-presidente do PT condenado no mensalão acometido por problemas cardíacos. Nas redes, Marcola fazia um diário de sua militância com passagens às vezes descontraídas. Em 2012, registrou o desfile da Gaviões da Fiel, do qual participou – naquele ano, a escola de samba homenageou Lula.

Foi há cinco anos, quando passou a dar expediente no Instituto Lula, que Marcola se aproximou pessoalmente do ex-presidente. Participou de caravanas com o líder petista e incursões a acampamentos e assentamentos. O auxiliar guarda em suas redes sociais diversas fotos em que aparece com o chefe. “O Lula e eu temos uma longa história. É uma longa história… mas sobre isso eu não falo”, disse Marcola à piauí, em pé do lado de fora da PF. Era a segunda vez que conversava com a reportagem.

Marco Aurélio Santana Ribeiro é um homem de 33 anos, atarracado, de barba e cabelos levemente ondulados castanho-claro e os olhos verdes. Veste-se com discrição. Em geral, usa camisas claras (quase sempre azuis ou brancas), paletós ou casacos sóbrios (azul-marinho ou cinza), calça jeans e sapatênis. Tem modos cordiais e discretos. No primeiro contato com a reportagem da piauí, por telefone, mostrou-se arredio.

“Você me ligou de um telefone fixo que eu não conhecia. [Você] disse que era jornalista da piauí, mas não tinha como eu saber. E se fosse alguém de O Antagonista ou da Veja se passando por alguém da piauí?! Não tinha como eu saber”, justificou, quando encontrou o repórter pessoalmente dias depois. Conversou por cerca de dez minutos, falou sobre a dinâmica das cartas que chegam ao ex-presidente e sobre Curitiba, mas se esquivou de perguntas sobre sua vida. “Eu não dou entrevista. Mesmo! Eu não falo com jornalista. Eu estou abrindo uma exceção”, recusou-se.

Marcola é quem faz a engrenagem das cartas girar. Cerca de 90% delas são remetidas à sede da PF em Curitiba. Outras tantas chegam ao Instituto Lula, à sede do  PT, a órgãos como a CUT e à própria vigília. Cabe ao faz-tudo levá-las semanalmente a São Paulo,quase sempre de carro. “São pelo menos duas sacolas por vez”, ele observou. 

É no Instituto Lula que as cartas são abertas, lidas, triadas, respondidas e reencaminhadas ao destinatário original. “Lula lê a grande maioria, mas seria humanamente impossível dar conta de todas”, contou a secretária do ex-presidente, Cláudia Troiano. Posteriormente, elas são digitalizadas e catalogadas –13 mil já passaram pelo processo, segundo a instituição. Hoje uma sala inteira do instituto está dedicada ao trato e acervo do material. “Os cuidados [de quem escreve] são muitos: o senhor está se alimentando bem? Beba água, faça exercícios (ele recebeu um programa de exercícios completo), leia bastante, conseguiu ver o Corinthians? Orações e preces de todas as religiões. As pessoas mandam inclusive coisas que acreditam trazer boa sorte (uma senhora anexou um dente de alho na carta pra espantar mau olhado)”, afirmou Troiano.

Não há critérios estabelecidos para a seleção das cartas que efetivamente chegarão a Lula. “Durante a leitura, separamos aquelas que mais nos tocam e que acreditamos que também vão tocá-lo, alegrá-lo, trazer conforto. O critério é pessoal e emotivo. Sabemos, por exemplo, que ele fica muito feliz com cartas que contam histórias de inclusão, especialmente pela educação. Essas sempre encaminhamos”, disse a secretária. A cada viagem de volta a Curitiba, Marcola pega um lote e entrega ao ex-presidente por meio dos advogados. Depois que o petista as lê, as correspondências voltam ao instituto para armazenamento. 

Marcola não demonstra apetite eleitoral. Ao contrário, cultua a discrição. O convívio com Lula, porém, o insere no universo político – senão por osmose, pela troca com o ex-presidente e seus interlocutores. Em um dos bilhetes de Lula dirigido ao auxiliar, datado de outubro de 2018, dias antes do segundo turno das eleições, o petista puxou a sua orelha. “Quando você fala que não tinha assunto para me escrever, o sintoma é de desânimo”, diagnosticou Lula. “Levanta a cabeça. Se tiver que perder, ponha dignidade na derrota. Marcola, aprenda uma lição. A gente só perde uma luta se não participa”, ensinou.

Felippe Aníbal (siga @felippeanibal no Twitter)

Repórter freelancer e cronista do Portal Plural

Thais Bilenky (siga @thais_bilenky no Twitter)

Repórter na piauí. Na Folha de S.Paulo, foi correspondente em Nova York e repórter de política em São Paulo e Brasília

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