Cena de Manas, um dos destaques do ano que termina Crédito: Divulgação
O cinema em 2025
Alguns motivos de preocupação, alguns filmes notáveis
O ano de 2025 começou bem, com a estreia, em 2 de janeiro, de Encontro com o ditador, dirigido pelo cambojano Rithy Panh, e vai chegando ao fim com uma expectativa crescente de mais prêmios para O Agente Secreto a serem atribuídos nos primeiros meses de 2026. O sucesso do filme de Kleber Mendonça Filho, que teve uma acolhida exitosa em festivais, uma recepção favorável de boa parte da crítica e foi visto, no Brasil, por mais de 1 milhão de espectadores, escapa por completo à minha compreensão, salvo no que se refere ao desempenho meritório de Wagner Moura.
À medida que se aproxima a temporada de premiações nos Estados Unidos, com o Globo de Ouro em janeiro e o Oscar em março, ficamos sabendo, para nosso espanto, que “todo mundo odeia a Netflix”, conforme escreveu Sharon Waxman em artigo publicado no New York Times, em 7 de dezembro, reproduzido há dias nos jornais Folha de S.Paulo e O Globo:
Produtores odeiam a Netflix porque não conseguem participação nos lucros. Atores de primeira linha e seus agentes odeiam o teto imposto a salários. Os estúdios odeiam a Netflix por ter atraído seus talentos e inflacionado salários de executivos. Os exibidores odeiam a Netflix porque o streaming enfraquece o cinema ao convencer o público de que é melhor ficar no sofá.
Tamanho ódio sugere a possibilidade de estarmos testemunhando o redesenho, em escala mundial, das relações de poder tradicionais entre os três setores básicos da atividade cinematográfica – produção, distribuição e exibição.
Enquanto isso, a crônica anunciada de um fracasso comercial se repete no mercado interno a cada novo lançamento de filme brasileiro no circuito de cinemas, e o projeto de regulamentação do streaming, aprovado na Câmara dos Deputados em novembro de 2025 e previsto para ser votado em breve no Senado, parece condenado a um desfecho frustrante. O valor do tributo que financia em parte a produção audiovisual, a ser definido pelo projeto, divide o setor. De um lado, grandes produtoras; do outro, pequenas e médias empresas, além de cerca de 2 mil profissionais da atividade. O senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), líder do governo no Congresso, veio a público numa tentativa de explicar a provável aprovação do projeto pelo Senado em termos notoriamente insatisfatórios:
Eu acho importante esclarecer à classe artística que, em 2022, nós ganhamos a eleição para o governo, para a Presidência da República e perdemos para o Congresso. Nós temos um Congresso desfavorável. Eu espero, imagino que as pessoas estejam assistindo à televisão, estejam vendo o que está acontecendo […] É esse Congresso que temos. É esse Congresso que vivemos. Vota Marco Temporal. Vota outras coisas aqui. Então, aqui a gente tenta minimizar danos […] Nós tentamos o melhor texto, mas não conseguimos. Tem lobby. Tem lobby de plataforma nesse Brasil e nesse mundo… desculpa a revolta, mas em que mundo a pessoa está? Tem lobbies aqui. A gente conseguiu, foi o melhor possível do texto. Não é, infelizmente, nem tudo é exatamente do jeito que a gente quer porque é esse Congresso que temos com enormes limitações […] A maior bancada aqui é do PL, do partido do Bolsonaro. Será que o pessoal não entende isso? […] Não é o que a gente quer. É o que a gente pode, é o que a gente tenta fazer.
A atividade do governo no Senado está reduzida a “minimizar danos”, admite Rodrigues – situação nada menos do que deplorável e alarmante.
Na coluna de 8 de janeiro deste ano, ao comentar Encontro com o ditador, ressaltei
um elo imprevisto do filme com o Brasil, guardadas as devidas diferenças e proporções – afinal, torturadores e assassinos a serviço da ditadura civil-militar de 1964 não permaneceram impunes? E quem arrisca prever o desfecho das investigações sobre a tentativa de golpe em dezembro de 2022 e janeiro de 2023, na qual estava previsto assassinar um ministro do Supremo Tribunal Federal, o vice-presidente e o presidente da República? Haverá um julgamento? Mesmo sem invocar o processo colonial feito às custas das nações indígenas e da mão de obra escrava, não nos faltam violências cometidas e encobertas no decorrer da história.
De lá para cá, por um lado, permaneceram impunes torturadores e assassinos a serviço da ditadura civil-militar de 1964, protegidos pela chamada Lei da Anistia de 1979. Mas, por outro lado, os responsáveis pela tentativa de golpe mais recente foram julgados, restando por definir, no entanto, qual será o resultado da manobra em curso, feita no Congresso, para anistiar ou atenuar as penas dos condenados – outra iniciativa por si só frustrante para o país.
Entre os principais destaques do ano, não há como deixar de enaltecer Manas, lançado no circuito de cinemas em 15 de maio. Premiado em festivais no Brasil e no exterior, o filme de Marianna Brennand, ao estrear na Giornate Degli Autori, mostra paralela do Festival de Veneza, teve reconhecida a excelência de sua “confecção magistral”, das “atuações brilhantes” e da abordagem do “tema extremamente sensível e complexo do abuso”. Mesmo assim, ou por isso mesmo, o mercado exibidor brasileiro foi incapaz de acolher e proporcionar oportunidade suficiente para que Manas fosse visto por um público expressivo. Na quarta semana em cartaz, havia sido visto por cerca de 14 mil espectadores, apenas. Outro sinal do impasse que tolhe a possibilidade da produção cinematográfica vir a se tornar menos dependente do Estado, sem o que se perpetuam, a cada nova providência legal ou administrativa, soluções meramente de compromisso.
Não farei aqui uma lista de melhores do ano. Faz sentido comparar filmes? De qualquer modo, caso fizesse uma relação incluiria, além de Manas, mais dois títulos: Iracema – Uma transa amazônica, de Jorge Bodanzky e Orlando Senna, e O último azul, de Gabriel Mascaro. Em versão restaurada, Iracema foi relançado no circuito de cinemas, em 24 de julho, pela primeira vez desde seu lançamento em 1981. O último azul, por sua vez, estreou em 28 de agosto, credenciado pelo troféu Urso de Prata recebido, em fevereiro, ao ganhar o Grande Prêmio do Júri no 75º Festival de Berlim.
Entre outros, mais quatro também foram dignos de nota: A garota da agulha, de Magnus von Horn, lançado no Mubi, em janeiro; Escrevendo Hawa, de Najiba e Rasul Noori, exibido em abril no 30º Festival É Tudo Verdade; Levado pelas marés, de Jia Zhang-Ke, lançado no circuito de cinemas em 19 de junho; e Uma bela vida, de Costa-Gavras, lançado em 17 de julho. Comentei os sete filmes citados aqui na coluna.
*
Após o recesso de fim de ano que, devido a compromisso profissional, se estenderá até o final de janeiro, a coluna voltará a ser publicada em 4 de fevereiro de 2026.
Leia Mais
Assine nossa newsletter
E-mail inválido!
Toda sexta-feira enviaremos uma seleção de conteúdos em destaque na piauí
