Curupira faz sucesso entre os participantes da COP30, em Belém Foto: Mauro Pimentel/AFP
O delegado Curupira pede passagem
Como o mascote se tornou o Zé Gotinha da COP30
Não foi fácil conseguir uma entrevista com o Curupira durante a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP30, que termina nesta sexta-feira (21), em Belém. Foi necessário acionar quatro assessores de imprensa dedicados ao evento e três assessores pessoais para viabilizar a conversa com o mascote oficial. Ministros como Marina Silva (Meio Ambiente e Mudança do Clima), Sonia Guajajara (Povos Indígenas), Celso Sabino (Turismo) ou Anielle Franco (Igualdade Racial) estão mais acessíveis aos jornalistas.
O “delegado Curupira”, como consta em sua credencial, caminha com passos de estrela internacional pelos corredores do centro de convenções onde ocorre a conferência, no Parque da Cidade. A cada aparição, é cercado por dez, vinte pessoas que se juntam para abraçá-lo, ganhar beijinhos ou pedir selfies. Sua agenda em Belém incluiu receber chefes de Estado, participar de recepções e coletivas de imprensa, além de acompanhar o presidente Lula na Cúpula dos Líderes.
Nas redes sociais, houve críticas pontuais, de quem considerou sua escolha temerária. O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) ironizou: “Excelente escolha pra representar o Brasil e nossas florestas: anda para trás e pega fogo.” Foi rebatido pelo governador do Pará, Helder Barbalho (MDB), sem citar o congressista nominalmente. “Enquanto uns mostram que andam pra trás ao não reconhecer a cultura e o folclore do nosso País, a gente avança fazendo o mundo inteiro voltar os olhos ao Brasil e ao Pará como grandes protagonistas das discussões e iniciativas em prol da preservação do meio ambiente e dos povos da floresta”, escreveu Barbalho.
A secretaria responsável pela definição do mascote lembrou que o cabelo de fogo é um elemento clássico do Curupira. “O personagem foi escolhido pelo significado que carrega: a preservação das florestas, a vigilância sobre a natureza e o enfrentamento a quem causa destruição ambiental.”
No início do mês, uma deferência conferida a personagens clássicos como Fofão, Chiquinha, Patatá e Homem Aranha: o Curupira ganhou um clone na Carreta Amazon, uma versão não autorizada da Carreta Furacão, o caminhão luminoso que circula por cidades brasileiras ao som de hits do funk, do axé e da dance music.
Não é comum que as conferências do clima tenham mascotes. Na COP26, em Glasgow, a foca Bonnie, que já tinha sido mascote de uma competição esportiva realizada em 2018 na cidade escocesa, foi reciclada para o evento da ONU. O Curupira foi designado para o posto graças ao impressionante currículo como protetor das matas brasileiras, cuja história é ensinada em escolas de Norte a Sul do país. Figura tradicional do folclore amazônico, o personagem tem a fama de confundir caçadores e punir quem maltrata a floresta e as criaturas que nela habitam.
A ideia de criar um mascote para a COP30 partiu da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, chefiada por Sidônio Palmeira. A ideia era tornar o Curupira um equivalente ambiental do Zé Gotinha, personagem criado para promover as campanhas de vacinação do Ministério da Saúde (Zé Gotinha também está em Belém e fez aparições públicas ao lado da mascote da COP30).
As fotos com o mascote fizeram sucesso nas redes sociais e foram postadas até pela diretora-executiva do evento, Ana Toni. Objetos inspirados no personagem são onipresentes nas lojas de artesanato em Belém, e os broches com a sua figura distribuídos aos participantes credenciados na conferência se tornaram objeto de desejo. “Tive que dar o meu pin do Curupira porque um segurança da ONU me pediu”, disse o ambientalista Claudio Angelo, coordenador de política internacional do Observatório do Clima. “É muito fofo.”
A possível origem mais conhecida para o nome do personagem é a derivação de dois termos do tupi-guarani: curumim, que significa “menino”, e pira, que quer dizer “corpo”. Ele é citado na Carta de São Vicente, escrita em 1560 pelo padre José de Anchieta. “É cousa sabida e pela bôca de todos corre que há certos demónios, a que os Brasis chamam corupira, que acometem aos Índios muitas vezes no mato, dão-lhes de açoites, machucam-nos e matam-nos”, escreveu o jesuíta.
O Curupira da carta de Anchieta era uma criatura diabólica, a quem os indígenas davam oferendas com o intuito de apaziguar sua raiva. O personagem que conhecemos hoje é resultado de um rebranding operado no século XIX, quando o “espírito demoníaco” foi promovido a “cuidador das matas”. O Curupira contemporâneo espelha a criatura descrita no livro O Selvagem, um tratado etnográfico sobre os indígenas brasileiros lançado em 1876 por José Vieira Couto de Magalhães. Ali ele ganhou os traços com que é reconhecido hoje, como a cabeleira de fogo e os pés voltados para trás para confundir as pessoas que querem fazer mal às matas. Ele enganava suas vítimas, simulando vozes e assobios para atraí-las e deixá-las perdidas na floresta, conforme a descrição de Magalhães. (Em certas localidades da Amazônia, o personagem assume uma figura feminina e vira a Curupira.)
Em 1560, quando Anchieta escreveu sobre o Curupira, a concentração de gás carbônico na atmosfera girava em torno 280 partes por milhão (ppm), segundo estudo de 1996; atualmente, depois de quase dois séculos de emissão de gases do efeito estufa após a Revolução Industrial, esse número está beirando 425 ppm. A última vez que havia tanto CO2 na atmosfera foi há 14 milhões de anos, de acordo com um estudo de 2023.
O Curupira estilizado que se vê circulando pelos corredores da COP30 e que está retratado nos brindes oficiais da conferência foi confeccionado pelo artista brasiliense Manú Santoro. Ele é dono da Posers Art, produtora contratada pela presidência da COP30 para elaborar o boneco. “Um mascote precisa ser confortável para o ator usar”, disse Santoro. “Ele tem que ser durável e ficar com uma cara em padrão Disney.”
O processo de feitura levou, entre idas e vindas, pouco mais de dois meses. “A parte mais desafiadora foi o pé, sem sombra de dúvida”, disse Santoro. “O pezinho do Curupira é para trás, mas o do ator é para frente.” Como estava fora de cogitação mexer nesse traço definidor do personagem, a solução foi construir um boneco parrudo, com as pernas mais grossas, de forma a acomodar os pés do ator que incorpora o personagem folclórico.
A fantasia pesa em torno de 20 kg e é feita de espuma, tecido e ABS (polímero usado como insumo em impressoras 3D). Ela requer cuidados especiais para manutenção e armazenamento, que estão sob responsabilidade de outra empresa, a Bambinos Produções. É limpa com sprays higienizantes a cada uso e, quando não está sendo usada, fica armazenada num ambiente climatizado, com temperatura em torno de 20ºC, conforme explicou à piauí Luan Rodrigues, proprietário da Bambinos.
Das condições no interior da fantasia não se pode dizer o mesmo. Era importante manter uma temperatura que não fosse insalubre para o ator que fosse incorporar o Curupira no calor de Belém. Para resfriar a cabeça de Douglas Tavares, que encarna o Curupira, existe um pequeno ventilador de cerca de 20 cm movido a bateria, posicionado sob a cabeleira de fogo do Curupira. “Como a fantasia é muito quente, a maior preocupação é alimentação leve e hidratação”, disse o ator.
Por conta do barulho do ventilador e das camadas de espuma da fantasia, só é possível se comunicar com Tavares quando se está de frente para ele. Antes de entrar no personagem, ele faz exercícios de mobilidade e veste uma roupa térmica, como as usadas em competições de triatlo. “No começo eu machucava um pouco o ombro, por isso é essencial aquecer o corpo e alongar”, explicou o ator. Entrar na fantasia pode levar mais de três minutos, mas ele tem conseguido diminuir o tempo com a prática.
No primeiro dia da conferência, o ministro do Turismo, Celso Sabino, quis andar de ônibus com o Curupira. No entanto, a fantasia não passou pela porta e Tavares teve de se despir dentro de um carro. “A ética não me permite tirar a máscara para revelar minha identidade. Por isso tive que ficar escondido durante todo o percurso para ninguém saber quem é que estava lá dentro.”
Natural de Belém, Tavares também é bailarino de toada, dança típica da região Norte com raízes indígena e africana que usa movimentos corporais para expressar as emoções presentes nas letras de suas músicas, que abordam temas do cotidiano, da natureza, e das culturas indígenas e caboclas da Amazônia. Com um sorriso largo, ele diz que tem curtido o sucesso do personagem. “O Curupira é o Mickey Mouse da COP.”
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