questões do patrimônio cultural

O exílio dos Orixás

Governo Bolsonaro retira tela de Djanira de exibição pública no Palácio do Planalto

Rubens Valente
21ago2020_09h02
Intervenção de Paula Cardoso sobre foto de Rubens Valente

O Salão Nobre, maior espaço do Palácio do Planalto, é destinado a eventos de grande porte, como posses de ministros e recepções a chefes de Estado. Nessas cerimônias especiais, as grandes portas de vidro são abertas para que o visitante, escoltado pelos Dragões da Independência, entre pela rampa do palácio que liga a calçada direto ao segundo andar. No interior do salão, desimpedido de móveis em quase toda a sua extensão, uma série de espelhos na parede reflete a Praça dos Três Poderes – diz a lenda em Brasília, repetida pelos guias de turismo, que o arquiteto Oscar Niemeyer (1907-2012) queria que os poderosos não esquecessem, durante os coquetéis e solenidades de gala, que o povo estava lá embaixo, observando. Por isso o recinto também é conhecido como Salão dos Espelhos.

No lugar nobre do prédio-símbolo da Presidência, durante anos uma pintura brilhou sozinha numa parede à direita de quem entra pela rampa: o óleo sobre tela Orixás, de Djanira da Motta e Silva (1914-79), com 3,61 metros de largura por 1,12 metro de altura, datado dos anos 1960. Ele era ponto de parada das excursões de turistas antes da subida para o terceiro andar, por outra rampa, onde fica o gabinete presidencial. O quadro retrata, em cores fortes, Iansã, vista como guerreira, associada aos relâmpagos e ventos, Oxum, deusa da fartura, da maternidade e da beleza, ligada às águas, e Nanã, orixá mais antiga, símbolo de sabedoria. Ao lado das divindades, duas filhas de santo que ajudam nas cerimônias. O único quadro no Salão Nobre representava, no local de trabalho do presidente da República e no coração do poder de um país majoritariamente cristão e católico, religiões minoritárias de raiz africana, como a umbanda e o candomblé – que, segundo o censo do IBGE de 2010, apenas 0,3% dos brasileiros disseram seguir, mas que está nas origens da formação do povo brasileiro desde a escravidão.

O destaque dado à tela agora é passado. Em algum momento entre junho de 2019 e junho de 2020, Orixás foi retirada do salão e hoje está na chamada “reserva técnica” do palácio; em outras palavras, no arquivo, fora de exposição e sem previsão de que um dia volte a ser exibida ao público. A reserva técnica ocupa duas salas da Presidência, mas os endereços exatos não são divulgados por motivo de segurança.

Segundo a Secretaria-Geral da Presidência afirmou à piauí, “a movimentação” do quadro ocorreu em “dezembro de 2019, em conjunto com outras obras do Palácio do Planalto”. Indagada, a secretaria não mencionou quais seriam essas outras obras.



Data de junho de 2019 o último registro audiovisual que pude encontrar na internet sobre a tela. Ela apareceu na mesma parede, no Salão Nobre, em uma reportagem da TV Record de Brasília sobre turismo no palácio. Quase um ano depois, em 5 de junho de 2020, o quadro já havia sumido do lugar. Naquele dia, um grupo de líderes evangélicos fez uma live num círculo ao redor de Bolsonaro no salão – ao fundo, é possível ver que Orixás não está mais lá. O pastor Silas Malafaia puxou uma “oração especial” por Bolsonaro, que cruzou os dedos das mãos e abaixou a cabeça, em sinal de contrição. “Vamos interceder pelo país, pelo presidente da República. […] O poder da intercessão é algo poderoso”, disse Mafalaia. O pastor R.R. Soares solicitou “um clamor pela nação brasileira”. Todos levantaram as mãos e rezaram, pedindo um “espírito de sabedoria, de inteligência, de conselho, de fortaleza, de conhecimento”. Em 5 de junho, o Brasil atingira 35.047 mortes e 646 mil casos do novo coronavírus. Até a primeira quinzena de agosto, mais 70 mil brasileiros morreriam de Covid-19.

Não foi a única manifestação evangélica no Salão Nobre durante o mandato de Bolsonaro. No final do ano passado, um “culto de ação de graças” organizado pela Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional reuniu mais de 800 convidados. Bolsonaro foi ovacionado quando disse ao microfone: “A todos vocês nesse momento, é motivo de honra, de orgulho e de satisfação vê-los, juntamente comigo, publicamente, aceitando Jesus nessa casa. Nessa casa que estava carente de sua palavra.”

O bispo Renato Cardoso representou Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus. “Quando nós colocamos de lado nossas opiniões e nos voltamos para a verdadeira verdade, aí sim há libertação, há sucesso”, discursou Cardoso. Dias depois, houve no salão “uma cantata” de Natal com a participação de uma banda de música gospel com guitarra, teclado e bateria. O mesmo grupo já havia se apresentado no Salão Nobre durante a Páscoa de 2019.

Entraram os evangélicos, saíram os orixás. No lugar da obra de Djanira foi colocado outro trabalho da artista, Pescadores, que antes estava no Gabinete Presidencial. A ficha ao lado da obra diz que se trata de uma réplica do quadro datado de 1958. No novo arranjo, Orixás e um tapete que ficava à sua frente foram as únicas peças retiradas do ambiente. Foram mantidos a escultura Evoluções, de Haroldo Barroso (1935-89), e um conjunto de mesa de centro, sofá e duas cadeiras, do designer Sérgio Rodrigues (1927-2014).

No Salão Nobre, a tela Pescadores, de Djanira, ficou o lugar de Orixás – Foto: Acervo pessoal/Rubens Valente

 

A Secretaria-Geral da Presidência argumentou, em nota, que a retirada do quadro é “procedimento usual que visa o descanso e o rodízio das peças de arte como medida de conservação preventiva, conforme as boas práticas da museologia”.

A piauí pediu, por meio da Lei de Acesso à Informação, cópia de eventual processo administrativo que tenha tratado da retirada da tela, mas a Presidência argumentou que isso inexiste, pois “a movimentação das obras de arte é realizada por meio de sistema específico de administração patrimonial”.

Em dezembro de 2018, os repórteres Mariana Carneiro e Gustavo Uribe, da Folha de S.Paulo, revelaram a intenção do então presidente eleito Bolsonaro e de sua mulher, Michelle, que frequenta a Igreja Batista Atitude, no Rio, de retirarem obras sacras do Palácio da Alvorada, residência oficial, e mencionaram que Orixás, no Planalto, também estava sob a mira.

Em um ritmo assustador, as notícias sobre intolerância contra religiões de matriz africana se multiplicam nos últimos anos em todo o país. Pastores fundamentalistas de algumas igrejas evangélicas condenam abertamente o candomblé e a umbanda e rechaçam imagens na representação de santos. Terreiros têm sido destruídos e incendiados. Em Brasília, algumas das dezesseis estátuas da Praça dos Orixás, na região conhecida como Prainha, ponto tradicional de celebração do Ano Novo, foram depredadas e vandalizadas nos últimos cinco anos. No final de 2015, a estátua de Oxalá teve o braço serrado por um grupo de três pessoas, segundo um morador de rua que testemunhou a cena.

Na época da reportagem da Folha sobre a retirada das obras do Alvorada, Bolsonaro negou duas vezes, em uma mensagem no Twitter e em uma live transmitida em 18 de dezembro de 2018, a intenção de retirar as obras sacras do Alvorada. Ele se disse católico e sua mulher, evangélica. Porém, sintomaticamente, nada falou sobre a tela de Djanira.

 

A ironia sobre a possibilidade de o quadro ter sido retirado por motivo religioso é que Djanira era profundamente cristã. “A religiosidade dela foi tanta que em 1973 ingressou na ordem das carmelitas, a Ordem Terceira do Carmo, no Rio de Janeiro. Ela foi uma carmelita descalça, recebeu um hábito e o nome religioso de Teresa do Amor Divino. Porque era devota de Teresa de Ávila [santa do século XVI]. Quando faleceu, foi sepultada vestindo esse hábito”, disse o escritor e jornalista de Avaré (SP) Gesiel Júnior, 56, que escreveu quatro livros sobre a conterrânea ilustre, incluindo a biografia História de Djanira, brasileira de Avaré (ed. Arcádia, 2000, 144 págs.). O enterro de Djanira com a roupa do convento é confirmado por reportagens da imprensa na época de sua morte, ocorrida a 31 de maio de 1979.

O primeiro quadro pintado por Djanira, por volta de 18 anos de idade, diz o seu biógrafo, foi um Cristo no Calvário. “O lado religioso vem desde criança, na família, era muito católica. Ela manteve isso a vida toda. Tanto que é considerada até uma artista sacra por alguns. Porque são muitos os trabalhos que retratam anjos, santos. Ela chegou a receber uma comenda do papa Paulo VI depois que doou uma obra sua para a Arquidiocese do Rio. Na época dom Eugênio Salles mandou a obra de presente para o Vaticano, em Roma”, contou Gesiel.

A artista retratou várias vezes a festa do Divino Espírito Santo, que ocorre até hoje em inúmeros municípios brasileiros, como uma das principais manifestações do catolicismo popular. Um desses quadros é hoje uma das principais obras do acervo do Palácio dos Bandeirantes, sede do governo de São Paulo. Nos anos 1960, a convite do então governador da Guanabara Carlos Lacerda (1914-1977), Djanira pintou Santa Bárbara em um painel no interior da capela construída em memória dos operários mortos durante a construção do túnel homônimo na Zona Sul do Rio.

Djanira era tão identificada com o cristianismo que chegou a ser entrevistada pelo jornal Correio da Manhã para uma reportagem que analisava uma encíclica papal junto com freis dominicanos, um rabino, um escritor, uma educadora e um militar. “O capitalismo desumano não conduz o homem a Deus. A luta contra a miséria, dever moral de todos os homens, liberta-nos das condições materiais e mais facilmente nos leva à Eternidade. As palavras do papa Paulo VI são palavras que devem ser seguidas por toda a Humanidade”, diz Djanira na edição do jornal de 1º de abril de 1967.

O escultor e ex-leiloeiro de arte Evandro Carneiro, 73, foi amigo da pintora nos anos 1970 e diz que ela era “muito religiosa, e essa religiosidade foi se acentuando à medida em que ela foi ficando mais doente”. Segundo Gesiel, Djanira enfrentou pelo menos dezoito cirurgias ao longo da vida para tratar problemas na coluna, no coração, quedas, além de ter sido contaminada pela tuberculose. Carneiro disse que com o tempo Djanira foi ficando “mais voltada para si mesma, para as questões da existência”. “Ela tinha em casa um recanto muito bonito, um oratório barroco, mineiro, belíssimo, com algumas imagens sacras muito bonitas, com peças de prata, lampadários, castiçais, todas de origem religiosa cristã. Aquilo, para quem chegava à casa dela, denunciava bem a sua religiosidade.”

Em 1970 a artista lançou um livro chamado exatamente Oratório de Djanira, formado por gravuras de santos como Santa Luzia e São José de Botas e acompanhado de textos do poeta Odylo Costa Filho (1914-1979): “Djanira apresenta seus santos,/Vestidos de ouro e luar sobre o traço aberto da madeira,/o mesmo lenho em que Nosso Senhor Jesus Cristo foi crucificado.” Coincidentemente, ambos nasceram e morreram nos mesmos anos de 1914 e 1979.

Abertura da exposição da pintora Djanira no Museu Nacional de Belas Artes, patrocinada pela Funarte. Data: 13/10/1976 – Foto: Acervo do Arquivo Nacional/Miranda/Agência Nacional

 

Mas então como explicar que a católica Djanira tenha se interessado pelas religiões de raiz africana? Há registros de várias obras da artista sobre os rituais de candomblé pintadas sobretudo nos anos 1950 e 1960. “A primeira coisa a dizer é que ela tinha fé em Cristo, praticava a religião, mas isso não significava que as outras religiões não tivessem o seu respeito, como merecem todas as pessoas. Cada um tem sua fé, e ela respeitava. Em segundo lugar, ela se encantou com o candomblé pela beleza dos rituais, pelas roupas, pelos tecidos brancos e coloridos. É um ritual de dança, é alegre”, disse Carneiro.

Professor de artes visuais da UnB (Universidade de Brasília), doutor em artes e membro do núcleo de estudos afro-brasileiros da universidade, Nelson Fernando Inocencio da Silva, 59, disse que é importante inserir a obra de Djanira no movimento modernista, que marcou a cultura brasileira na primeira metade do século passado.

“A produção de Djanira, como de outros artistas seus contemporâneos, estava focada na representação da cultura brasileira, que não era tão exaltada. A obra de Djanira estava conectada a isso. Tem outras pinturas dela destacando os orixás. Era uma busca, queria estabelecer um diálogo com a cultura afro-brasileira. Isso fazia sentido porque o movimento modernista brasileiro desde a Semana de 1922 queria romper com os padrões europeus. Era uma forma de exaltar as referências locais, não mais ficar numa postura subserviente do ponto de vista estético. Daí o modernismo vai exaltar figuras como o ‘mulato’ – colocando muitas aspas nesse termo -, o negro, o indígena.”

Mesmo com seus problemas de saúde, Djanira viajou muito pelo país, segundo Gesiel Júnior. Autodidata, que passara por grandes privações na infância em Avaré, trabalhadora desde muito jovem na roça, depois como costureira e por fim dona de uma pequena pensão, Djanira estava sempre atrás de personagens e temas para sua obra. Plantadores de bananas, pescadores, mineiros, indígenas, negros, operários, festas populares, tudo virou motivo de seus quadros. Muito provavelmente, segundo o professor Inocencio, ela conheceu aspectos das religiões de matriz africana a partir das viagens que fez à Bahia, onde era muito bem recebida por grandes amigos, como o escritor Jorge Amado (1912-2001).

Segundo Gesiel e Carneiro, foi numa viagem a Salvador que ela conheceu seu segundo marido, o historiador e escritor baiano José Motta e Silva, o Motinha, que acabaria se mudando para o Rio para viver com ela.

“A ida à Bahia foi fundamental, foi quando ela tomou contato com as religiões afro. Em Salvador ela ficou muito amiga do Jorge Amado e de Zélia [Gattai, mulher do escritor]. Ele já tinha escrito textos sobre Djanira. Teve uma exposição em Buenos Aires organizada pela Galeria Bonino, cujo texto era de Amado. O Carybé, o Mario Cravo, esses artistas baianos gostavam muito das atividades populares e religiosas e a Djanira entrou nesse círculo.” Segundo Carneiro, desde a primeira viagem Djanira “ficou encantada por Salvador, pintou as pessoas nas ruas, o Pelourinho, pintou tudo que via”.

Gesiel disse que Amado “adorava Djanira” e que costumava hospedar a pintora em sua casa, em Salvador. Ela chegou a pintar um mural na casa do escritor por volta de 1950, segundo o biógrafo. O tema foi justamente o candomblé. Para o catálogo de uma exposição de 1958, Amado escreveu: “Essa pintora, Djanira, sabe todos os mistérios do Brasil, todos os sonhos de seu povo. […] Sendo um dos grandes pintores de nossa terra, ela é mais que isso, é a própria terra, o chão onde crescem as plantações, o terreiro da macumba, as máquinas de fiação, o homem resistindo à miséria. Cada uma de suas telas é um pouco do Brasil. No dia que se escrever a história da arte brasileira, vai-se dizer de Djanira que sua pintura nasceu do povo, cresceu com ele, com ele se tornou poderosa e densa de drama e de pura alegria”.

 

As viagens e amizades com gente de esquerda como Amado – comunista de carteirinha desde a década de 1930, que em 1946 foi deputado federal constituinte pelo Partido Comunista Brasileiro – colocaram Djanira sob a mira da ditadura militar (1964-85). Em maio de 1964, pouco depois do golpe que depôs João Goulart (1919-76) em março daquele ano, Djanira foi parada numa barreira quando dirigia seu carro para um sítio que mantinha em Paraty, no Rio. Foi levada para uma delegacia de Niterói e submetida a um interrogatório “de mais de nove horas”. Djanira ouviu que a ordem de sua prisão veio “de cima, emanada de um general, informando que eu era capaz de tenebrosas atividades subversivas, carregando comigo livros suspeitos contra a ordem política vigente”, conforme a pintora contou depois numa carta publicada pelo Correio da Manhã.

A artista escreveu, ironizando os policiais, que eles encontraram no seu carro “livros dos agitadores Matisse, Picasso, Derain, Viconsti, Braque, Portinari, Goeldi, vários italianos da Renascença e mais outros perigosíssimos ao bem-estar da família e estabilidade do Ato Institucional”. A agenda de telefones da artista mereceu “atenções acuradas”. “Darcy Ribeiro, Jorge Amado, Iberê Camargo e outros ganharam menções, pois foram citados com grave interesse. O adido cultural de Cuba e o correspondente do ‘Pravda’, Vassili Borowisk, ganharam medalhas de interesse especial. A vida do meu marido, sua boa biblioteca, suas pesquisas de temas nacionais, estavam bem controladas, pois eles relataram vários passos de sua movimentação normal Rio-Paraty.”

Djanira disse ter contado aos policiais que pretendia ir a Cuba para um tratamento de saúde e que havia viajado para a União Soviética por conta própria, após “ter vendido uma casa”. “Quando perguntada qual a minha ideia política, respondia com convicção que era somente o meu trabalho de artista pintora. A produção de um trabalho, seja qual for, é uma ação política por si só. Política de engrandecimento pátrio.”

As acusações da repressão não impediram, em um episódio aparentemente contraditório, que o ditador general Castelo Branco (1897-67) escolhesse justamente um quadro de Djanira, intitulado Cena do Nordeste, para dar de presente ao “xá”, eufemismo para autocrata, do Irã Reza Pahlevi (1919-80), quando o iraniano esteve no Brasil em maio de 1965.

Meses depois, em fevereiro de 1966, um novo trauma para Djanira. Sua casa em Paraty foi cercada e “fuzilada” por policiais da cidade, disse o Correio, depois que o marido da artista se desentendeu com um guarda porque se recusara a vestir uma camisa ao andar na rua – a proibição dos torsos nus teria partido do delegado, em plena cidade turística à beira-mar. Na fuzilaria, um cachorro do casal, um galgo chamado Horácio, foi baleado, mas sobreviveu.

A prisão causou problemas de saúde e depressão na artista, conforme a imprensa registrou na época. Como sua carta deixa registrado, ela dizia não entender o motivo da prisão e da perseguição.

 

Há dúvidas sobre como o quadro Orixás foi incorporado ao patrimônio da Presidência. O registro oficial, obtido por meio da Lei de Acesso à Informação, diz que a obra, de número 058735-00, entrou no Palácio do Planalto em 29 de abril de 1999. A data, contudo, entra em contradição com uma informação prestada à Folha de S.Paulo em 2018 pelo ex-curador da Presidência Rogério Carvalho. Ele contou ter ouvido de funcionários mais antigos que o ex-ditador Ernesto Geisel (1907-1996), general que presidiu o país de 1974 a 1979, luterano, também teria pedido a retirada da pintura – o que a coloca no Planalto mais de vinte anos antes do registro oficial do patrimônio. A piauí não encontrou uma corroboração da história sobre Geisel.

Uma versão sobre a origem do quadro publicada pela revista eletrônica Brasília Encontro em 2013, a partir de uma entrevista com o então secretário executivo da Comissão de Curadoria dos Palácios do Planalto e da Alvorada, Claudio Soares Rocha, diz que os quadros de Djanira faziam parte da massa falida da empresa de navegação Lloyd Brasileiro. Segundo documento obtido pela piauí por meio da Lei de Acesso, são três as obras da pintora registradas no controle patrimonial que estão hoje no Planalto: Orixás, Praia do Nordeste, Colheitas das Bananas. A peça Pescadores, que ficou no Salão Nobre no lugar de Orixás e é identificada como réplica, não aparece com esse nome no documento.

Para Evandro Carneiro, as telas estão ali desde a década de 1960 e devem ter sido encomendadas diretamente à pintora. “São quadros do ápice da Djanira, o melhor momento dela, do final dos anos 1950 até o final dos 1960. Ali a Djanira é genial. Esses ‘Djaniras’ com certeza foram encomendados. Pelo tamanho das obras, pelos temas brasileiros. Nos anos 1960 o interior dos palácios em Brasília foi decorado de forma especial, Wladimir Murtinho [artista e diplomata] foi encarregado de tratar de vários desses palácios, eu o conheci e ele me contou que inúmeras obras foram solicitadas diretamente aos artistas, como Di Cavalcanti, Burle Marx. A Djanira era amiga de todas essas pessoas.”

No registro oficial do Planalto, o valor descrito para Orixás é irrisório, 960 reais, apenas para efeito contábil. A estimativa de Carneiro, que foi leiloeiro por 36 anos e teve uma galeria em Ipanema, no Rio, antes de se dedicar à carreira de escultor, é que Orixás deve valer de 1 milhão a 1,5 milhão de reais. O valor relativamente baixo da obra está relacionado a uma boa quantidade de obras falsificadas de Djanira, um ataque que a própria artista denunciou várias vezes em vida. O aumento do valor dos seus quadros nos próximos anos dependeria, segundo Carneiro, da catalogação meticulosa de sua obra, como foi feito pelo Projeto Portinari sobre o pintor de Brodowski (SP).

“A Djanira já foi muito valorizada. Portinari era o mais caro, depois Lasar Segall, Di Cavalcanti, Guignard. E a Djanira estava no meio deles, integrava esse grupo. Mas o valor foi caindo ao longo dos anos. Acho uma artista ainda barata em relação ao conjunto de sua obra. O que dá valor é o conjunto da obra do artista. É como se fosse a ação de uma empresa. Se a empresa é sólida, a ação vale mais. Agora, se ela é corroída por falsificações, fica mais difícil. É preciso que seja feito um grande projeto de catalogação de toda a obra de Djanira.”

O professor da UnB Nelson Inocencio disse que não crava uma estimativa de valor para Orixás, mas seria na “casa dos milhões”, pelo valor histórico que o quadro também carrega a partir da exposição no Planalto. O professor soube pela piauí que Orixás fora retirado do Salão Nobre e colocado na “reserva técnica” da Presidência.

“Essa notícia, para mim isso é muito óbvio, representa a intolerância e o abuso de poder. A ignorância do presidente da República, que não sabe o que é cultura, é tão assustadora, é tão terrível. Talvez eles [o presidente e a primeira-dama] nem saibam que isso é abuso de poder, não sabem a diferença entre público e privado. O Palácio do Planalto não é a casa dele, o domicílio. Ali é onde ele administra – falando de Bolsonaro é até difícil dizer que ele administra alguma coisa – mas é ali que ele atua. O espaço é público, não é privado. O Planalto tem um acervo que representa a sociedade brasileira. Você tirar uma obra daquela por não estar em conformidade com sua crença é violento, violento. Se a cultura é diversificada, o quadro está ali representando um pouco dessa diversidade. Tudo isso que a gente está falando tem a ver com o Brasil de verdade, não o Brasil que muitas pessoas imaginam. O que estamos vivendo em relação a todas as formas que visam aniquilar a presença negra no Brasil mostra o quanto a gente ainda tem que caminhar como sociedade. Historicamente, isso não é novidade nenhuma. A população negra sempre foi objeto de perseguição, mesmo depois da escravidão. Se a pessoa é perseguida, as religiões também serão perseguidas. E a perseguição tem a ver com o próprio racismo.”

Rubens Valente (siga @rubensvalente no Twitter)

Repórter desde 1989, colunista do portal Uol, autor de "Os fuzis e as flechas" e "Operação Banqueiro".

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