questões cinematográficas

O lugar do silêncio

Diretora de Vazante comenta os ataques feitos ao filme

Eduardo Escorel
04out2017_16h48
“Estou aberta ao diálogo, até mesmo ao confronto de ideias, mas certamente não à censura e ao linchamento, armas que desprezo desde que abri meus olhos”, escreve Daniela Thomas
“Estou aberta ao diálogo, até mesmo ao confronto de ideias, mas certamente não à censura e ao linchamento, armas que desprezo desde que abri meus olhos”, escreve Daniela Thomas FOTO: RICARDO TELLES

Meu filme Vazante teve uma linda estreia na abertura da mostra Panorama na Berlinale desse ano, no gigante Zoo Palast, cinema histórico da cidade, que tantas vezes sediou a abertura da mostra, antes de ela ser transferida para a triste praça pós-moderna. Nas cinco vezes em que passou no festival, tivemos debates maravilhosos com o público que ficou em peso na sala depois dos créditos de quase oito minutos do filme.

A estreia no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro também teve uma linda acolhida. Aplausos, gritos de Bravo!, novos aplausos para a lista do elenco, e mais aplausos ao final dos longos créditos. Nada me preparou para o que ia acontecer no dia seguinte à sessão no também clássico e lindo Cine Brasília, que teve a sala cheia, madrugada a dentro, por conta do atraso de quase duas horas do início da sessão.

Na manhã seguinte, ao entrar no elevador do hotel para descer ao lobby, acompanhada da atriz Jai Baptista, que faz a personagem Feliciana no filme, ouvi a frase que outra atriz disse, a centímetros do meu rosto, apontando o dedo para o rosto de Jai, e em tom de ameaça: “Prepare-se, esse debate não vai ser nada fácil para vocês.”

No tal debate, depois de quase duas horas de violentos ataques por parte de algumas poucas pessoas que se impuseram com ameaças ou gritos pela posse do microfone, e que, quando não de posse dele, sinalizavam um absoluto horror às minhas palavras, com gestos grandiloquentes, socos na cadeira, interjeições de nojo, gargalhadas irônicas e outros assombros, sendo que a mediadora, também acuada, não fazia qualquer movimento para acalmar os ânimos ou retomar a lista de debatedores que havia pacientemente escrito em seu caderno, eu finalmente capitulei.

Louca para estar fora daquele lugar e com o pouco espírito que me restava, falei enfim o que queriam ouvir (com um fiapo de ironia): eu não teria feito Vazante se soubesse o que eles agora me ensinavam. Falei também que o filme era – obviamente – anacrônico.

Eles se acalmaram. O crítico Juliano Gomes, um dos mais vocais, achando que a minha capitulação não fora suficiente, sugeriu que eu então guardasse Vazante, que não lançasse o filme. Olhei nos seus olhos, pasma. O crítico da Cinética havia feito essa sugestão. Nossa, pensei, eu sou realmente de outro tempo, falando em anacronismo.

Quando viro o rosto para os meus companheiros de filme, vejo Sara Silveira, uma das produtoras, com olhos agônicos, úmidos. Sara, como eu, é do tempo em que não se capitulava, mesmo sob a pior das torturas. Para ela, eu escapara da morte, mas tinha entregado os meus companheiros. A menina Luana também chorava, Jai Baptista e Maria Ionesco estavam lívidas, Vinícius sofrera um ataque de pânico e Fabrício Boliveira estava esgotado. Beto, meu querido parceiro Beto Amaral, que havia tentado inutilmente defender a relevância de Vazante, abaixara a cabeça, vencido.

Foi tudo muito violento. Nós com certeza não estávamos preparados para tanto ódio. Mas o que mais me derrubou nos dias que se seguiram – além de ler nos jornais sobre o meu “linchamento”, palavra dura demais – foi, na frente dos meus parceiros de cinema, ter negado minhas convicções sobre essa obra que reflete absolutamente tudo o que acredito e sei sobre cinema e sobre o passado terrível desse país ainda terrível.

Escrevo esse texto como um mea-culpa por ter cometido perjúrio na frente dos que tanto admiro. Me desculpem, meus companheiros de debate, me desculpem todas aquelas figuras extraordinárias que tive a honra e o privilégio de encontrar e de aprender com elas, na longa viagem para realizar Vazante. Eu amo nosso filme. Juro. Eu o faria novamente.

Vazante me representa, é a minha visão do mundo de horror que nos fez, brasileiros de todos os tons, e que ainda causa dor, como se pode ver tão explicitamente.

Eu não o fiz pautada nas reivindicações atuais dos movimentos – que muito admiro – que lutam pelo reconhecimento das identidades sistematicamente apagadas na sociedade brasileira. Eu não fiz Vazante num espírito de militância, nem com o intuito de empoderar esse ou aquele personagem, ou com o objetivo de produzir avanços na questão da representação dos afro-brasileiros no cinema brasileiro.

Eu realmente não fiz o filme que seria um retrato do que o movimento negro quer ver representado na grande tela, hoje. Diz o mesmo Juliano, que me crucificou no debate, que “não há possibilidade de desresponsabilização” no meu caso. Ouso discordar. Todo o cinema é político, mas os filmes não têm de ser máquinas de transformação do presente para terem o direito de existir e de ser desfrutados.

Eu filmei a história que queria contar, que me surgiu a partir das histórias que ouvi sobre meus antepassados, e que acredito ter o poder de transformar-se numa reflexão sobre a questão da miscigenação espúria e violenta que formou a nossa sociedade, uma violência que se perpetua. Fiz Vazante porque sentia imensa carência de ver o Brasil histórico retratado de forma verossímil e pungente nas nossas telas e porque acredito que o cinema tem o poder de inaugurar olhares. Fiz Vazante projetando-me ora em um ora em outro dos muitos personagens, tentando experimentar e imaginar a dureza da vida naquele lugar longínquo, ao ritmo da impiedosa economia extrativista e da violência insidiosa das relações escravocratas e patriarcalistas. Fiz Vazante porque sou aquela criança no colo de outra criança, fruto da miscigenação degradante para as mulheres negras, e que é central na nossa história.

Espero que o filme sobreviva às violentas exigências da prática política com resultados imediatos e possa ser desfrutado pelo que é: cinema brasileiro feito com uma imersão profunda na nossa história, com artistas excepcionais dando o absoluto melhor de si nas suas áreas e numa integração visceral, incorporando os saberes dos descendentes dos que viveram naqueles lugares, agregando africanos, portugueses, nativos, forasteiros, recuperando conhecimentos abandonados.

Uma coisa me acalma: não me lembro de jamais pensar na recepção local de um filme que amo como elemento crítico definidor da minha apreciação dele. Filmes são árvores, não flores, que murcham ao cabo de uma semana. Filmes nos sobrevivem.

E, por último: eu, que sou cineasta, apaixonada pelo cinema e sua independência atávica, estou aberta ao diálogo, até mesmo ao confronto de ideias, mas certamente não à censura e ao linchamento, armas que desprezo desde que abri meus olhos.

*

Duas semanas após a publicação deste texto, o crítico Juliano Gomes escreveu uma resposta às considerações de Daniela Thomas.



Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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