questões cinematográficas

O movimento branco

Juliano Gomes responde ao texto da diretora de Vazante, Daniela Thomas

Eduardo Escorel
19out2017_12h07
FOTO: CHICHICO_ALKMIN/ACERVO_IMS

Fui citado duas vezes aqui neste espaço, no texto “O lugar do silêncio”, de Daniela Thomas.

No primeiro trecho em que fui citado, a minha fala que ela descreve foi dita ironicamente, diante de uma cineasta que resolvia se abster, numa ocasião de troca de ideias, de conversar sobre que tipo de decisões foram tomadas por quem é responsável por um filme de 6 milhões de reais. Minha fala está gravada em vídeo no site do festival – assim como o resto do debate. Daniela Thomas “capitulou”, mas seu suposto algoz não entendeu o gesto. Resumindo: Daniela tirou o corpo fora, eu reagi, ela diz que errou por ter tirado o corpo fora, mas desaprova a minha reação. No segundo trecho em que apareço, talvez esteja o ponto onde vejo maior possibilidade de desdobramento, sobre a ideia de “desresponsabilização”.

Para buscar descrever as estratégias retóricas do posicionamento da artista no debate e nesse texto, recorro a um artigo que li recentemente da pesquisadora americana Robin DiAngelo, chamado “White fragility”.

O argumento dela é que o isolamento dos brancos em relação ao debate racial, uma circulação por ambientes majoritariamente habitados por brancos, e uma ilusão de si mesmos como modelos de uma certa universalidade, produzem uma enorme inabilidade para lidar com as mínimas situações de estresse nas quais o tema racial venha à tona.

O discurso da diretora de Vazante é frágil, produzindo a si como vítima e desenhando um cenário dantesco que os vídeos podem desmentir: “crucificada”, “censurada”, “tudo muito violento”, “tanto ódio”, “censura”, “linchamento”, e por aí vai. Essa postura defensiva, que recusa o debate com um microfone na mão, produz uma distância moral entre ela e seus interlocutores, invisibiliza as forças históricas que situam aquele acontecimento, confunde desconforto com desrespeito – comportamento típico de quem ocupa posições de poder e privilégio. Além disso, essa estratégia discursiva produz a tal “desresponsabilização” a que me referi. Uma vítima não pode ser cobrada por responsabilidades; ao se eleger vítima, ela se exime do problema. A manobra também permite que alguém que tem junto a si todo um aparato midiático (um exemplo basta: o filme é coproduzido pela Globo Filmes, o que garante visibilidade em todas as janelas dos maiores grupos de comunicação que sempre dominaram o Brasil) acuse ameaça de “silenciamento”.

DiAngelo escreve que:

A linguagem da violência que muitos brancos usam pra descrever intervenções antirracistas é algo muito significativo, porque se trata de mais um exemplo de como a fragilidade branca perverte e distorce a realidade. Empregando termos que sugerem ameaça física, ela evoca discursos históricos que descrevem negros como perigosos e violentos.

Nesta armadilha discursiva que aqui descrevo, os genocídios históricos, as desigualdades   perpetradas pelas elites, obviamente brancas, são magicamente apagados, e a realizadora com maior poder político presente no festival (ela dirigiu a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Nuzman, por exemplo) se torna alguém que precisamos acudir diante da presença desses seres selvagens. Essa negação é o motor principal da desinformação histórica do povo brasileiro em relação ao que realmente o formou, e obviamente isso se atualiza na historiografia do cinema.

Esse comportamento é tipicamente branco, de privilegiados. O racismo é um problema dos brancos, como diz Grada Kilomba. Talvez cause espanto: branco é uma cor. É preciso visibilizar essa e outras posições. A meritocracia ou universalidade é uma episteme que só serve a quem tem superávit de oportunidade.

Daniela Thomas usou seu espaço, tempo e visibilidade para dizer o que não acredita, justificada por essa narrativa de que corria riscos. Só pode desperdiçar quem tem o que descartar. Perdemos todos uma bela oportunidade.

A fragilidade branca não age sempre de maneira aberta; silêncio e ocultamento são funções da fragilidade. Quem fala, quem não fala, quando, por quanto tempo, com que validade emocional são ideias-chave para entender os padrões que mantêm as opressões em ação.” afirma Robin DiAngelo.

Essa alienação deliberada está relacionada ao autoritarismo velado de quem diz que “espera que o filme possa ser desfrutado pelo que é”. Daniela Thomas, no festival e no texto posterior, desmonta as bases possíveis para o debate franco. Não por acaso, meu texto publicado na Cinética – todo ele uma análise de procedimentos e significados do filme – não é citado. A estratégia de manutenção de quem tem poder é invisibilizar suas posições, para que não possamos compará-las, analisá-las, desdobrá-las.

A branquitude faz confundir conforto com segurança. A hipertrofia na narrativa do desconforto e o início do texto com a suposta aclamação na Europa colonial sugere o lugar cativo que aguarda estes seres predestinados ao aplauso permanente, que parecem ter conhecido só isso na vida. O problema não é nunca ter pensado sobre isso antes, mas sim reagir com negação e querer controlar o modo de expressão de quem teve muito menos oportunidade de ser ouvido. Pessoas brancas não são “só pessoas”. Negras pensam e repensam o tempo todo “como” devem falar para serem ouvidos, para não serem vistas como selvagens, especialmente em ocasiões como o tal auditório.

Quem tem poder, privilégio, grana, dita a forma discursiva dos espaços, o tempo, em todos os lugares. No mínimo abalo disso, parece que tocam as sinetas do apocalipse. A comparação com a tortura na ditadura brasileira é uma das coisas mais hediondas que leio em muito tempo. Apocalipse é todo dia para aquelas que dizem há quatrocentos anos “sim, sinhora” para sobreviver. Atualizemos as escalas.

Mas Daniela, não se preocupe. Em breve, virá uma horda de intelectuais e articulistas, poderosos e elegantes, nas mais ornadas janelas, em defesa de você e do teu filme – não faltará crédito, nem publicidade. Todo esse episódio tende a se apagar, como tem sido por todos estes séculos.

Entretanto, essa conversa é de todos. Tal experiência pode ser desdobrada em caminhos reais.

Passou da hora dos brancos se engajarem frontalmente nessa questão. Assumir claramente suas posições e cuidar de seus dejetos é o mínimo que se espera. Não há debate sem história. Não há arte sem embate. E o abate dos de sempre continua aqui fora.

***

Este artigo tem a mesma extensão do texto que foi escrito por Daniela Thomas neste espaço. Uma versão mais detalhada pode ser acessada aqui.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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