anais do desastre

O movimento da lama

Vídeos das câmeras de segurança e imagens inéditas de satélite revelam novas peças do quebra-cabeças de Brumadinho; especialistas analisam

Consuelo Dieguez
02fev2019_00h56
O antes e o depois da tragédia, nas imagens do satélite da SCCON/Planet, cedidos pelo projeto MapBiomas
O antes e o depois da tragédia, nas imagens do satélite da SCCON/Planet, cedidos pelo projeto MapBiomas

As imagens de satélite do desastre de Brumadinho, que ilustram este texto, são do MapBiomas, um projeto de monitoramento das mudanças no território brasileiro nos últimos trinta anos. O MapBiomas envolve universidades, startups de tecnologia e ONGs espalhadas pelo Brasil. Suas imagens, vindas dos satélites da SCCON/Planet, cobrem todo o território nacional. Os dados do MapBiomas podem ser acessados em mapbiomas.org.

As imagens do rompimento da barragem do Córrego do Feijão, pertencente à Vale, divulgadas nesta sexta-feira, 1º de fevereiro, deram maior clareza aos especialistas sobre o que pode ter levado a estrutura a se desmanchar daquela maneira. Embora não seja possível afirmar a causa exata do rompimento, pois há mais de uma possibilidade, os engenheiros ouvidos pela piauí dizem que há fortes indícios de negligência por parte da mineradora. “Uma barragem não rompe de uma hora para outra”, disse Sérgio Médici de Eston, engenheiro da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, especializado em engenharia de minas. “Ela dá sinais de que vai romper, permitindo que a companhia tenha tempo para sanar o problema e tomar alguns cuidados mínimos, entre eles, retirar o seu pessoal da área de risco.” Para Eston, a Vale parece não ter observado nenhuma dessas premissas.

A barragem 24 horas antes e quatro dias depois do rompimento


A forma como a barragem rompeu deixa claro, na visão dos especialistas, que ela tinha problemas graves que foram ignorados pela mineradora. Algumas das hipóteses, de acordo com Eston, são excesso de água ou deformação na estrutura. Esses problemas, segundo ele, seriam facilmente detectados pela mineradora, caso ela estivesse fazendo a manutenção corretamente. “Uma barragem é como um carro. Você tem que checar o óleo, a água, os pneus, o motor. Se você não tomar esses cuidados, é claro que o teu carro vai pifar. Por aquelas imagens, é fácil perceber que essa manutenção não estava sendo feita a contento. Caso contrário, não teria rompido.”

A área administrativa e o refeitório dos funcionários da Vale, que foram destruídos pela lama


O engenheiro Marcos Barreto, professor da Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro, segue na mesma linha. Segundo ele, existem equipamentos que medem a quantidade e a pressão da água na barragem, os piezômetros, e os inclinômetros, que registram qualquer alteração na estrutura. “A barragem dá sinais de que está se deformando, o que dá tempo de a empresa intervir”, explicou. Se estes instrumentos registram qualquer anormalidade, a empresa tem que tomar providências imediatas para evitar que o problema se agrave. As alternativas são muitas para evitar que o desastre aconteça. Uma delas é a colocação do que no jargão da mineração chama-se filtro invertido, um dreno para retirar a água em excesso na estrutura. Quando o risco de rompimento já se apresenta, é possível escorá-la com areia, para evitar o desmoronamento.

A torrente de lama passa por Brumadinho até o rio Paraopeba, afluente do São Francisco


Os sinais de problemas na barragem, segundo um engenheiro geotécnico que presta consultoria para a Vale e pediu para não ser identificado, podem, em algumas situações, ser percebidos até a olho nu. “Um vazamento no pé da barragem, trincas no talude ou mesmo uma área mais verde na manta de grama que é colocada sobre os degraus de alteamento onde são empilhados os rejeitos são suficientes para acender a luz vermelha”, disse o consultor. O engenheiro afirmou que, além das duas vistorias anuais que as mineradoras são obrigadas a fazer, contratando consultorias independentes, toda mineradora deveria, por precaução, fazer um acompanhamento semanal da estrutura. No caso da Vale a empresa contratada foi a alemã Tüv Süd, cujos engenheiros responsáveis foram presos esta semana. Segundo ele, a Vale costuma fazer esse acompanhamento em todas as suas barragens. Uma equipe técnica da empresa percorre toda a estrutura com uma planilha para checar todos os pontos. “Os técnicos fazem um checklist que avalia de trincas a vazamentos. Tudo isso tem que ser devidamente fotografado e colocado nos relatórios da empresa.”

A lama toma áreas agrícolas na zona rural de Brumadinho


Caso os equipamentos colocados na barragem para fazer essas medições de água, fissura ou deformação da estrutura não detectem os problemas, a empresa também não pode ser eximida de culpa, segundo os especialistas. “A companhia tem que zelar para que todos os equipamentos de monitoramento estejam funcionando perfeitamente”, disse Eston. “Se não tomar esses cuidados, é culpada por negligência.” No caso da barragem de Fundão, pertencente à Samarco, empresa controlada pela Vale e pela BHP Billiton, que rompeu em 2015 despejando 55 milhões de metros cúbicos de rejeito de minério, matando dezenove pessoas e destruindo o meio ambiente numa área de mais de 650 quilômetros, a maior parte dos piezômetros estava com defeito e fora de operação.

Procurada, a Vale não respondeu às perguntas da reportagem sobre as causas do rompimento da barragem em Brumadinho. A empresa emitiu nota informando que “todas as suas barragens possuem Plano de Ação de Emergência de Barragens de Mineração conforme estabelece a legislação brasileira”. Afirmou ainda que o plano é construído “com base em estudos técnicos e hipotéticos para o caso de um rompimento”. Assegura também que “a estrutura possuía toda as declarações de estabilidade aplicáveis e passava por constantes auditorias externas e independentes”, além de inspeções quinzenais. A estrutura, segundo a nota, passou por inspeções nos dias 8 e 22 de janeiro deste ano, com registro no sistema de monitoramento da Vale. Também de acordo com a empresa, foi realizado o simulado externo de emergência em 16 de junho do ano passado, sob coordenação da Defesa Civil, com apoio da companhia. Já o treinamento interno dos funcionários foi em 23 de outubro.

Marcos Barreto, da UFRJ, complementa que para que os órgãos fiscalizadores saibam se a Vale estava ou não cumprindo as exigências de monitoramento, basta acompanhar os relatórios semanais do comportamento da barragem. “Por ali é possível saber a quantidade de água e a possibilidade de deformação. Caso alguma anormalidade tivesse sido detectada, a empresa deveria ter feito uma intervenção na obra para evitar que o problema se agravasse e chegasse ao ponto do seu rompimento.”

O professor Eston é um crítico da Vale no que diz respeito à segurança. Ele é o responsável, no Brasil, pelo Global Minerals Industry Risk Management, um programa desenvolvido na Austrália, e seguido por vários países, para prevenir acidentes nas mineradoras. Segundo Eston, a Vale é uma das poucas mineradoras que não participam do programa. “Os gerentes da mineradora vêm aqui, pedem para assistir os nossos cursos de graça porque a companhia não quer ter gastos com o treinamento de seu pessoal”, afirmou. Sua percepção da empresa não é das melhores. Me disse que a Vale é vista pelo mercado como uma empresa muito mais preocupada com resultados financeiros, lucro e pagamento de bônus para os seus executivos do que com a segurança. Entre 2015 e 2017, a empresa informou que investiu 1,3 bilhão de reais na segurança de todas as suas barragens espalhadas pelo Brasil. O investimento representa um sexto do lucro da companhia apenas no terceiro trimestre do ano passado, de 7,1 bilhões de reais.

Satélite mostra a mina, a barragem, Brumadinho e o rio Paraobepa quatro dias depois do desastre


Como os outros especialistas ouvidos pela piauí, Eston se disse chocado com as imagens do rompimento da barragem do Córrego do Feijão. Para eles, ficou muito claro que a estrutura estava comprometida para romper daquela maneira.  Mas também chamou a sua atenção a forma como as pessoas se comportaram diante do rompimento. “Era óbvio que faltou treinamento e um plano de fuga”, afirmou. “Basta olhar como os motoristas saíam perdidos com os carros e caminhões sem saber para onde ir.” Observou ainda que muitos correram para o lado errado. “Eles não sabiam o que fazer. Um plano de fuga eficiente poderia ter ajudado a salvar vidas.” Ele também criticou o fato de as sirenes não terem tocado, para alertar sobre o rompimento da barragem. “As sirenes são justamente para avisar sobre uma movimentação anormal na barragem. Quando ela começa a desabar, já era possível ter sido dado o sinal de alerta.” Ele discorda da afirmação do presidente da Vale, Fabio Schvartsman, de que a sirene seria inútil naquela situação, dado a velocidade com que a lama de rejeito se espalhou. “É a mesma coisa que dizer que o sprinkler não funcionou porque a casa pegou fogo, ou que o freio não funcionou porque o carro estava em movimento.”

Narciso Ferreira Lopes, engenheiro geotécnico, vice-presidente da seção fluminense do Sindicato Nacional de Empresas de Engenharia Consultiva e Arquitetura, a Sinaenco, disse que, ao ver as imagens, não teve dúvida de o que se deu ali foi um fenômeno chamado “liquefação da lama” com a “formação de solo colapsável”. Ou seja, toda a estrutura de alteamento da barragem (os degraus onde se empilham os rejeitos), se desmanchou porque o solo entrou em colapso. Segundo ele, há várias razões para que isso aconteça, de um pequeno terremoto na área, o que já foi descartado pelos sistemas de medição sísmica, até, inclusive, falta de chuva. Isso porque, nesse caso, a parte de cima da barragem, segundo ele, fica mais pesada do que a de baixo, que está molhada. “Essa ideia de que a barragem está inativa é questionável. Ela está inativa porque não está recebendo mais minério. No entanto, ela continua suportando o peso de 12,7 milhões de metros cúbicos.”

Os dois engenheiros da Tüv Süd que atestaram a estabilidade da barragem em setembro, Makoto Namba e André Yum Yassuda, presos em Belo Horizonte por determinação da juíza Perla Saliba Brito, de Brumadinho, depuseram, nesta sexta-feira, durante nove horas, na delegacia da Polícia Federal da capital mineira. O advogado dos engenheiros, Augusto de Arruda Botelho, me disse que entraria com um habeas corpus neste sábado contra a decisão da juíza, que considerou arbitrária. “Ao pedir a prisão, o Ministério Público de Minas Gerais se baseou apenas em uma folha em que os engenheiros assinavam que tinham feito a vistoria”, disse ele. “Não viram, contudo, o laudo de mais de 70 páginas que eles produziram sobre a barragem com uma série de recomendação à empresa.”

Pelo trecho do laudo ao qual a piauí teve acesso, os engenheiros afirmavam que existia uma “probabilidade de ruptura associada” à barragem caso existisse algum efeito detonador, mas que os fatores de segurança obtidos eram considerados satisfatórios. “Quanto maior a variação dos parâmetros”, diz o laudo, “maior será a probabilidade de ruptura, mesmo que as análises com parâmetros médios indiquem fatores de segurança satisfatórios.”

Laudo da empresa Tüv Süd


O laudo alertava que, para aumentar a segurança da barragem em relação à possibilidade de liquefação, era necessário que a empresa adotasse algumas medidas que diminuíssem a possibilidade de “ocorrência de gatilhos”. Entre elas, os engenheiros recomendavam evitar “a indução de vibrações, proibir detonações próximas, evitar o tráfego de equipamentos pesados na barragem, impedir a elevação do nível de água no rejeito, não executar obras que retirem material dos pés dos taludes ou obras que causem sobrecarga no reservatório ou na barragem”. Além disso, recomendavam a instalação de registro sismológico no entorno da barragem.

Também sugeriam a instalação de novos piezômetros para confirmar a existência de lençóis de água no rejeito da barragem. Isto porque, os piezômetros estavam apresentando variações de níveis da ordem de um a dois metros, podendo alcançar, em alguns casos, variações de até seis metros.

Quanto à estabilidade, os engenheiros informam que tinham sido realizadas análises de estabilidade sobre as condições drenadas e não drenadas (liquefação de rejeitos) e que “a seção 4-4, de maior altura, é a mais crítica dentre as analisadas”. Afirmava ainda que um projeto para a barragem do Córrego do Feijão para os acertos necessários deveria ser elaborado até 16 de junho de 2019. O documento informava, contudo, que um radar terrestre fora instalado no início de maio de 2018 para obter informações sobre o deslocamento da superfície analisada de três em três minutos. “Desse modo se reduz riscos quando há controle de movimentação do maciço.” Informava ainda que a Vale optou por reminerar os rejeitos na barragem, para promover sua completa remoção – o que ainda não havia começado.

De acordo com informações de uma equipe da Vale, segundo o laudo, já estavam sendo adotadas medidas com objetivo de aumentar a segurança da barragem. A conclusão do laudo foi de que o desempenho da barragem era adequado e atendia às exigências das normas brasileiras sobre as condições mínimas de segurança de barragens de rejeito.

Consuelo Dieguez

Consuelo Dieguez, repórter da piauí desde 2007, é autora da coletânea de perfis Bilhões e Lágrimas, da Companhia das Letras

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