questões cinematográficas

O Muro – sinal de alerta, ouvidos moucos

Documentário de 2017 discute premonitoriamente a polarização de posições políticas

Eduardo Escorel
14nov2018_08h00

Em meio à profusão de filmes exibidos na 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2017, ao menos um, mesmo imperfeito, não obteve o reconhecimento merecido – O Muro, de Lula Buarque de Hollanda. Entre outras virtudes, ao ser exibido no âmbito restrito do Festival, o documentário evitou ser incluído no grupo de retardatários – O Processo, Já Vimos Esse Filme e Excelentíssimos –, lançados somente este ano.

O Muro continuou incógnito após sua estreia comercial em junho deste ano, no Rio de Janeiro e São Paulo, em um único cinema nas duas cidades. Exibido oito vezes, entre junho e agosto, no canal Curta!, permaneceu despercebido. Certamente não contribuiu em nada – para que viesse a se tornar conhecido – ter sido recebido pelo bonequinho dormindo no suplemento Rio Show do jornal O Globo.

Eu mesmo só assisti a O Muro há onze dias, quando voltou a ser exibido no Curta! em 2 de novembro. Chamou minha atenção primeiro, de modo especial, Buarque de Hollanda ter evitado a armadilha de pretender acompanhar o impeachment da então presidente Dilma Rousseff em si, apesar de o filme ser concebido a partir do mesmo impulso dos demais documentários recentes sobre o processo, comentados aqui em posts anteriores (O Processo se concentra no impeachment; assim como Excelentíssimos, embora este em grau menor).

O ritual político, transmitido ao vivo pela tevê e coberto à exaustão pela mídia, afinal, é bem conhecido de quem se interessa pelo assunto. O desfecho, por sua vez, mesmo na época, tornou-se previsível a partir do momento em que o presidente da Câmara dos Deputados acolheu o pedido de impeachment, em 2 de dezembro de 2015. As minúcias do ritual que se seguiu e levou nove meses, apesar de causarem indignação e terem momentos burlescos, resultam entediantes. Esse erro Buarque de Hollanda não cometeu – ele mantém sua câmera fora dos prédios da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, vistos apenas da Esplanada dos Ministérios.

“Imagem-limite de nossa impossibilidade de conversar”, na definição de Buarque de Hollanda, o chamado “muro do impeachment” é a síntese visual do seu filme. Na verdade, trata-se de uma divisória, feita com cerca de 500 painéis metálicos, montada em abril de 2016 no Centro da Esplanada dos Ministérios, para manter separados manifestantes pró e contra a destituição de Dilma Rousseff da Presidência da República.

Presidiários do regime semiaberto da penitenciária da Papuda, a serviço de uma empresa especializada em fornecer infraestrutura para festas e eventos, instalaram o que também foi chamado de “muro da vergonha”, usado antes pelo Ministério da Defesa na comemoração de 7 de setembro de 2015, para conter protestos contra a presidente Dilma.

Ensaios de Amos Oz, reunidos em Como Curar um Fanático (2004), serviram, conforme Buarque de Hollanda declarou, de inspiração e referência para realizar O Muro. “Nossos interesses são compartilhados, somos todos humanos. Não deveríamos classificar uns aos outros como caras bons ou maus”, diz Oz, citado pelo jornalista Thomas Lunderquist – noção que parece ter servido de norte para a realização de O Muro, documentário que não pretende persuadir e, procura, ao invés, compreender o que está ocorrendo.

O primeiro plano de O Muro é inequívoco. A cena de abertura é gravada de um drone. No início do dia, a luz do sol ilumina uma face dos painéis metálicos e a lateral dos ministérios, enquanto a câmera percorre toda a extensão de um quilômetro da divisória, com a Câmara e o Senado Federal ao fundo. Essa primeira imagem vem em seguida a duas legendas sobre fundo preto que indicam a divisão do mundo “entre ideologias extremas” e que o “processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff” inflamou o Brasil.

Desse modo sumário é indicado com precisão o tema de O Muro – a polarização extremada de posições políticas –, cuja abrangência é enfatizada por meio dos planos seguintes – muros de cimento, metal ou high-tech, alguns eletrificados, em locais do mundo não identificados, justamente, creio, para sugerir o alcance global desse “marco absoluto da inviabilidade do diálogo”, nas palavras de Buarque de Hollanda, referindo-se ao muro que separa Jerusalém da Cisjordânia.

“Um levantamento de 2015 aponta a existência de barreiras e muros em 65 países”, escreve Giselle Beiguelman, na mesma matéria que traz as declarações de Buarque de Hollanda. Citando estudo dos professores Elisabeth Vallet e Charles-Philippe David, publicado no Journal of Borderlands Studies, em 2012, Beiguelman afirma que “os muros de hoje […] têm como foco duas ameaças: migrantes e terroristas (os dois muitas vezes se superpõem, ou são combinados, no discurso pró-muro)”.

Depois de 11 de setembro de 2001, a construção de muros tornou-se, ainda segundo Beiguelman, “uma realização de governos democráticos, como as cercas colocadas pela Espanha em Ceuta e Melilla, o muro da Cisjordânia, construído pelo governo israelense (hoje com 800 quilômetros) e extensão de 930 quilômetros da barreira entre os Estados Unidos e o México”, esse último “um dos destaques da campanha de Donald Trump”.

Ao se esmerar em não dar informações como essas ao espectador, Buarque de Hollanda recusa o viés que poderia aproximar O Muro do jornalismo. Rigor louvável, em princípio, mas pelo qual há um preço a pagar, pois dificulta o propósito de situar o “muro do impeachment” no contexto do extremismo internacional.

Rejeitadas também são entrevistas em voz on, cujo uso desmedido tanto prejudica Já Vimos Esse Filme. Além de múltiplos depoimentos de manifestantes anônimos, são incluídos em O Muro cerca de quinze entrevistas, a maioria de intelectuais célebres, mas todos misturados e entrecortados em off, sem identificação de quem está falando. Procedimento que alivia, sem dúvida, a provável sobrecarga de informação, além de descasar imagem e áudio, criando duas narrativas, uma visual, outra sonora, que se desenvolvem em paralelo. Há, porém, o inconveniente desse uso persistente de voz em off prejudicar a compreensão de certos trechos, dificultando a justa valorização da substância do que é dito.

Uma visão/audição mais detida de uma cópia gravada permite captar depoimentos valiosos. Um exemplo é o de uma voz feminina: “Não temos como sair dessa armadilha sem reformar o sistema político. Fica um negócio… vai criando um buraco cada vez maior e a gente [?] e pode vir uma coisa pior no lugar, até que surge alguém que convence as pessoas que: ‘Olha! Tá vendo! O sistema não funciona, então vamos eleger um Bolsonaro, ou fazer uma ditadura militar. Qualquer coisa passa a ser vendido como a grande panaceia por que, no fundo, você está vendo que o sistema é disfuncional.” Palavras que, ditas em 2016, foram premonitórias.

Os manifestantes, apresentados em poses diante da câmera, estáticos e mudos, formam um painel humano amplo e diversificado de cerca de 260 retratos, no qual é possível identificar, pela cor das camisetas, quem está contra e quem está a favor do impeachment.

Finalmente, cabe destacar em O Muro o propósito de ter estilo visual próprio, característico também de O Processo, embora com viés diverso. Delineado previamente à gravação e seguido em todas as circunstâncias, esse objetivo permite, quando alcançado, definir a identidade do documentário e o distingue da reportagem jornalística. Buarque de Hollanda propõe “outro tempo de contemplação, para um tema tão complexo, com a faca nos dentes e o sangue à flor da pele”.

Ainda em 2017, durante a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Buarque de Hollanda também se manifestou em termos premonitórios: “Eu acho que o filme procura dizer: olha, o diálogo é fundamental. Sem diálogo não existe política. Sem diálogo não existe convivência. O Facebook ajudou muito a reforçar esse ódio, a agrupar muito as pessoas e o que a gente vê é que as pessoas que eram de centro, digamos assim, foram empurradas pros extremos, tanto para a extrema esquerda, quanto para a extrema direita e acabou sem o centro regulador ali onde a conversa pode se dar. E o meu medo hoje é o avanço da extrema direita. Eu acho que a extrema direita, ela tá se organizando, ela tem um projeto de poder e acho que as forças liberais têm que organizar pra a gente evitar que isso aconteça.”

O Muro deu sinais de alerta, mas foi pouco ouvido.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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